O que é vocabulário filosófico?

Ler filosofia é uma aventura. Nos diferentes filósofos e períodos no desenvolvimento da história da filosofia, enfrentamos desafios e desbravamos o desconhecido. Quando iniciamos nosso percurso através da tradição, encontramos diversos filósofos cujas reflexões, na maioria das vezes, são fundamentalmente diferentes entre si. Embora seja possível classificá-los em “escolas filosóficas”, ao estabelecer uma aproximação entre seu conjunto central de teses, cada filósofo, por sua vez, terá a sua própria estrutura de pensamento.

Isso significa que ler cada filósofo é uma aventura única. Ao enfrentar um filósofo antigo e obter sucesso na compreensão de sua filosofia, não compreenderemos, necessária e automaticamente, o pensamento filosófico de um filósofo moderno. De fato, estaremos mais preparados no que diz respeito a saber como lidar com o estilo de escrita árido, característico da filosofia em geral, e a refazer o processo formal necessário para compreender-se um filósofo. Entretanto, teremos que novamente iniciar o mesmo trajeto, o mesmo movimento de desvendar os segredos por detrás do pensamento de um filósofo, a aventura da filosofia, exatamente como já fizemos uma vez e como inevitavelmente teremos que fazer ao ler cada novo filósofo.

A razão para tal é uma das características mais fundamentais da filosofia: o vocabulário filosófico. Segundo Deleuze, a função primordial da filosofia é a criação de conceitos. Ao longo da tradição, desde Platão, a escrita da filosofia é marcada pela criação de conceitos, cuja finalidade é tentar explicar, por meio de esquemas rigorosos e universais, a realidade em suas diferentes manifestações particulares. Assim, em cada sistema filosófico, embora estes muitas vezes utilizem os mesmos nomes para falar da realidade, cada nome poderá ter um significado diferente. Isso pode causar uma grande confusão, haja vista que quando Platão falar de “forma”, estará falando de algo completamente diferente de Aristóteles quando ele também estiver falando de “forma”. Descartes, quando falar de alma, estará falando de algo diferente do que Agostinh. E como desvendar o vocabulário filosófico de um filósofo? Para responder a essa pergunta, primeiramente temos que compreender melhor o que é vocabulário filosófico.Leia mais »

Anúncios

A filosofia surge de um problema de linguagem

A filosofia surgiu no mundo grego antigo. Chamo de filosofia uma tradição ocidental — porque é a única que conheço, apesar de saber que existe uma produção espiritual muito rica no Oriente —, desenvolvida desde os gregos até o presente, cuja definição não deriva nem de um objeto nem de um método próprios. Defino-a como uma atividade do pensamento, uma atividade reflexivo-argumentativa, que se volta para tudo aquilo que os demais saberes tomam por pressupostos, cujos objetos são múltiplos, na medida em que abrangem tudo o que diz respeito ao homem no mundo, ou, antes, ao mundo, com o homem nele. Para ser mais coerente, como diria André Comte-Sponville, deveria dizer que há tantas definições de filosofia quanto filósofos — e o mesmo vale para os métodos. Contudo, todas essas definições e métodos possuem uma atividade em comum: uma atividade que, através de discursos e raciocínios, pensa rigorosa e sistematicamente sobre os fundamentos e os aspectos mais gerais do mundo e de tudo o que diz respeito ao homem.

Apesar de essa atividade ter surgido das investigações dos físicos jônicos, foi Platão o primeiro a construir filosoficamente uma resposta aos problemas desenvolvidos pelas reflexões que o precederam, a partir de um discurso que se fundamenta em categorias como universalidade, identidade, imutabilidade, unidade e inteligibilidade, através da escrita de textos com uma profundidade filosófica e uma riqueza dramática inigualáveis na história do pensamento; além de desenvolver o conjunto das disciplinas que constituem a tradição filosófica ocidental, assim como ter sido o primeiro a ser reconhecido em seu contexto como filósofo, por sua produção literária e desenvolvimento de um centro de estudos importantíssimo. Consequentemente, apesar de a reflexão filosófica ter surgido no século VI a.C., com as investigações dos físicos jônicos, Platão foi o primeiro filósofo do Ocidente, que criou a filosofia como uma linguagem rigorosa e iniciou a tradição literária na qual estamos inseridos até hoje.

No desenvolvimento espiritual do mundo grego antigo, o pensamento de Platão surge em um determinado contexto, inserido em uma tradição sistemática pela busca do saber, cujas características influenciaram e marcaram seu pensamento. Nesse caldeirão de influências e discussões com toda a tradição vigente, Platão desenvolveu sua filosofia como resposta a um problema de linguagem. Para compreender as implicações dessa tese, teremos que, primeiramente, percorrer, de maneira pontual, o caminho do contexto no qual o pensamento de Platão é desenvolvido, para, então, refletir sobre a possibilidade de a filosofia ter surgido de um problema da linguagem.Leia mais »

Como ler um texto filosoficamente

Aviso de antemão, na primeira linha: esse artigo não apresentará um atalho, um desvio, um meio de fazer com que a leitura de um texto filosófico se torne mais fácil. Pelo contrário: trata-se de uma introdução, para servir como uma chave interpretativa, ao que ficou consagrado como o “método estrutural” de leitura de texto filosófico, um modo de ler textos filosóficos, cuja aplicação visa proporcionar à leitura filosófica um rigor metodológico científico — e consequentemente tornará a leitura mais densa, demorada e trabalhosa.

Com efeito, não há somente um modo de ler um texto filosófico. Há diferentes abordagens, diferentes perspectivas e meios possíveis de se lidar com um texto filosófico. Apresentarei um dos modos possíveis, que julgo o “modo primeiro”, ou aquele que deve preceder qualquer uma das outras abordagens — muito esclarecedoras e enriquecedoras — à leitura estrutural. Portanto, esse modo precisa ser considerado como um primeiro passo fundamental à leitura filosófica de um texto: a primeira abordagem para reconstituir o sentido e significado de um texto.

Ler um texto filosoficamente significa, após o autor, reaprender, conforme sua intenção, o discurso explicitado por meio de um movimento sucessivo de teses que são construídas uma após à outra numa ordem por razões: sua estrutura. Em outras palavras, significa lê-lo à luz de sua estrutura, da progressão desses movimentos sucessivos, isto é, de seu método em ato, através do qual — e tão somente por este — suas teses e dogmas são construídos. Discutiremos isso a seguir cuidadosamente, para esclarecer este método de leitura.Leia mais »

Introdução aos estudos platônicos

Platão é o filósofo mais fundamental para aqueles que estão iniciando os seus caminhos na filosofia. Foi com este filósofo que, pela primeira vez na história da filosofia, surgiu a estrutura e o enfoque de reflexão que a filosofia possui até os dias de hoje: a possibilidade de um conhecimento rigoroso sobre o mundo, a criação de conceitos, a busca por definições universais, a reflexão sobre o valor das ações e da vida, a reflexão sobre a constituição da vida em grupo, a reflexão sobre a relação entre sensações e pensamento, a reflexão sobre o papel da arte e da beleza no conhecimento, e etc., todos sob exigências como universalidade, identidade, imutabilidade, unidade. Tudo isso desenvolvido em diálogos entre Sócrates e interlocutores dos mais variados tipos: políticos, artesãos, sofistas, aprendizes; sempre grandes figuras do mundo helênico, como Protágoras, Parmênides, Zenão, Aristófanes, Górgias e muitos outros. Se esses diálogos são relatos históricos, é outra questão: certamente não são. Entretanto, isso não tira o brilhantismo de uma mente ilustre, cujos diálogos são tão verossímeis que não poderíamos suspeitar de que cada uma dessas personagens poderia ter dito o que está imortalizado nas páginas de mais de 25 diálogos originais e únicos na história do Ocidente.

Mas, então, por que ler Platão? O que esses diálogos têm de tão interessante? Bem, de interessante, talvez para leitores não habituados com o discurso filosófico, esses diálogos têm somente uma dramatização impecável, através da qual o cenário “fala”, com personagens surgindo em momentos precisos, momentos de tensão, de humor, de ironia, com interlocutores fazendo as vezes do próprio leitor, que muitas vezes se sente fazendo parte da conversa, na medida em que suas próprias questões são formuladas pelos interlocutores ‘não-filósofos’ de Sócrates. Com efeito, reduzir o brilhantismo de um dos maiores filósofos de todos os tempos a dramatizações da prosa grega seria um desserviço à filosofia. Por isso, talvez um dos grandes motivos para ler Platão, antes de qualquer elemento dramático no enredo de seus diálogos, seja a própria estrutura de seus textos.Leia mais »

Introdução à filosofia de Nietzsche

Nietzsche é um filósofo normalmente considerado mais difícil de se interpretar e compreender do que os demais, na medida em que suas concepções de filosofia, de vida, de verdade e de conhecimento, influenciam diretamente sua escrita. Isso significa que os textos de Nietzsche e seu pensamento são muito diferentes dos textos e do pensamento da esmagadora maioria dos filósofos, sobretudo dos filósofos anteriores a ele cronologicamente.

De fato, não há uma identidade entre os filósofos ou um modo padrão para se pensar e escrever filosofia presente em todos eles. Apesar de termos denominadores comuns entre os filósofos, cada um tem sua visão de mundo, seu vocabulário próprio e seus conceitos, cujo sentido, na maioria das vezes, pode ser compreendido somente à luz de suas próprias teses. Nietzsche não seria diferente. Todavia, há ainda um agravante: ele considera que a maneira de pensar que, apesar de todas as diferenças entre os sistemas, norteia e caracteriza a tradição anterior a ele, é fundamentalmente a mesma, possuindo uma origem e um início. Para que isso faça um pouco mais de sentido, faremos uma breve introdução ao pensamento de Nietzsche, estabelecendo um recorte metodológico na leitura de sua filosofia, para apresentar, em um primeiro momento, o ponto central de sua crítica à cultura ocidental e, em seguida, suas propostas para solucionarmos os problemas que ele encontra nessa cultura.Leia mais »

Como filosofar?

Platão talvez foi o nosso melhor professor de filosofia, na medida em que ele ensinou a filosofar da forma mais didática possível: na prática. Isso pode parecer contraditório, já que conhecemos Platão através de seus textos teóricos. No entanto, é no seio desses textos que esse filósofo genialmente demonstra “como filosofar”, uma vez que apresenta o filosofar em ação através da dramatização em seus diálogos.

Nesses textos, Platão desenvolve diálogos dramatizados, que parecem com contos, nos quais Sócrates, seu personagem principal, busca levar a efeito, através de conversas, o filosofar, a atividade de pensamento que estivemos discutindo nos últimos dois artigos. Até agora, discutimos o que é filosofar no primeiro artigo, assim como interrogamos por que filosofar no segundo, apresentando a finalidade dessa atividade do pensamento. Agora, nesse artigo, tentaremos entender “como filosofar”, terminando uma série de três artigos nos quais enunciamos as três perguntas filosóficas originais: tí estin; (tóde tí;) dià tí; e pōs; (τί ἐστιν; (τόδε τί;) διὰ τί; πῶς;): ‘o que é? (o que é isso?)’, ‘por quê?’ e ‘como?’; perguntas que buscam definir uma coisa a partir de sua identidade, universalidade, necessidade e finalidade.Leia mais »

Por que filosofar?

É muito provável que, em algum momento da sua vida, você já tenha feito essa pergunta. Ao fazer essa pergunta, estamos filosofando, na medida em que estamos interrogando sobre a finalidade, sobre a razão do filosofar. Lembram do artigo anterior? O que é filosofia? Nele pudemos entender um pouco sobre filosofar. Agora, contudo, busquemos entender a finalidade dessa atividade do pensamento.

No Protético, Aristóteles desenvolve o famoso argumento exaltando a filosofia, que se imortalizou ao longo dos séculos: “Se se deve filosofar, deve-se filosofar, e se não se deve filosofar, deve-se igualmente filosofar”. A princípio, ele parece intrigante! O que será que ele quer dizer? Ao analisarmos esse argumento com mais cuidado, parece que inevitavelmente teremos de concordar com Aristóteles. Por quê? Vamos analisá-lo primeiro.Leia mais »