O erotismo como articulação entre Ser e Saber no platonismo clássico

Artigo apresentado no II Simpósio Internacional do grupo de pesquisa DELPHOS: “Filosofia e religião na Grécia Antiga”.

 

Na ontologia aprofundada de Sócrates em relação aos diálogos chamados “socráticos”, aquela desenvolvida nos diálogos Fedon, Fedro, República e Banquete, Platão apresenta-nos teses fundamentais para a compreensão das concepções de Ser e Saber em sua filosofia, como a Teoria das Formas, a Participação, a imortalidade da alma, a Reminiscência e a dialética. Embora sejam diálogos distintos, cujos temas são diferentes entre si, eles são conceitualmente possíveis de serem aproximados. Nessas teses cujo ponto central diz respeito tanto à realidade quanto ao conhecimento, Platão constrói um dos pilares de sua filosofia. Deste modo, faremos um breve percurso pelo esboço dessas teses, para que seja possível fazer uma leitura do erotismo como a articulação entre Ser e Saber na ontoepistemologia desses diálogos.Leia mais »

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Platão: o erotismo na filosofia como caminho para o divino

Artigo apresentado no I Congresso Internacional de Ciências da Religião – “Religião: Artes e Vozes”.

 

No Banquete, Platão apresenta o exercício erótico-filosófico como a via de acesso às Formas, no caso, à do Belo. Eros é o elemento metafísico que possibilita a articulação entre a multiplicidade acidental e aparente e a unidade necessária do Ser: intermediário entre o divino e o mortal. Nesse diálogo, há a apresentação mais explícita das Formas em todo o corpus platonicum, assim como uma explicação detalhada do movimento de subida do Múltiplo ao Uno.

As Formas são realidades superiores, que “são cada uma sempre as mesmas” (ἀεὶ αὐτῶν ἕκαστον ὃ ἔστι), “uniformes em si mesmas” (μονοειδὲς ὂν αὐτὸ καθ’ αὑτό) e “igualmente não tendo, de forma alguma, a menor alteração de nenhum modo possível” (ὡσαύτως κατὰ ταὐτὰ ἔχει καὶ οὐδέποτε οὐδαμῇ οὐδαμῶς ἀλλοίωσιν οὐδεμίαν ἐνδέχεται) (Fédon, 78d). Isso significa que elas são eternas, dado que, se não admitem mudança, não poderiam ter passado do estado de não-ser para o de ser; imutáveis, haja vista a impossibilidade de mudança; e, por fim, perfeitas, na medida em que possuem um modo pleno de ser. Isso configura o estatuto divino das Formas na filosofia de Platão, face à precariedade e efemeridade do material no qual toda a dimensão da sensibilidade e do vir-a-ser encontram-se mutualmente coexistentes.

Através da filosofia, nos Diálogos definida como a dialética, é possível a um indivíduo partir da multiplicidade dos fenômenos e atingir a unidade das Formas. Essa atividade, contudo, no Banquete é apresentada como correlata ao exercício erótico do qual ela não pode prescindir, para, através de Eros, o iniciado nesse exercício espiritual tornar-se filósofo por meio dessa atividade dialética mediatizada e, finalmente, religar-se, no final desse processo, ao divino por meio da reminiscência da Forma do Belo e, por extensão, da do Bem. Portanto, esse elemento metafísico de ligação do indivíduo às Formas é o objeto de desenvolvimento deste diálogo, cujo objeto, por sua vez, é o divino.

Por meio de uma análise filosófica tanto, por um lado, da estrutura dialética do Banquete, caracterizada pela progressão ascensional das falas dos convivas em direção da essência de Eros, quanto, por outro lado, da ascensão erótico-filosófica na fala de Sócrates-Diotima, é possível esclarecer a função do exercício erótico, em conjunto com o dialético, na ontoepistemologia platônica e sua consequente articulação do filósofo na dimensão divina.Leia mais »

Amor e Conhecimento

Um estudo sobre a função de Eros na ontoepistemologia platônica

 

Introdução

 

Neste artigo, far-se-á uma análise de Eros, circunscrito no âmbito da ontoepistemologia platônica[1], com enfoque na fala de Sócrates-Diotima no diálogo “O Banquete”. Este artigo visa desenvolver a seguinte questão: “haveria uma função ontoepistemológica fundamental para Eros na filosofia platônica?”. Devido ao recorte escolhido para levar a efeito essa análise, delimitado pelas dimensões deste pequeno artigo, não será possível fazer jus à complexidade inerente à narração do Banquete, escrito por Platão de modo a encadear, segundo uma estrutura e método dialéticos, intervenções e discursos que constroem sucessivamente o desenvolvimento de teses, nas quais se encontra inserida a teoria de Eros e somente através das quais é possível compreendê-la filosoficamente segundo a intenção de Platão. Tampouco será possível deter-se na análise dos elementos dramáticos do texto, uma vez que o enfoque será tão somente na análise das dimensões ontoepistemológicas de Eros. Apesar disso, ao respeitar às necessidades metodológicas e estruturais do autor, será possível esboçar uma problematização inicial a esta questão, ao dialogar com a teoria de Eros, de modo pontual, os principais pontos das concepções platônicas de Ser e Saber, presentes sobretudo nos diálogos Fedon, Banquete, República e Fedro.Leia mais »

A filosofia surge de um problema de linguagem

A filosofia surgiu no mundo grego antigo. Chamo de filosofia uma tradição ocidental — porque é a única que conheço, apesar de saber que existe uma produção espiritual muito rica no Oriente —, desenvolvida desde os gregos até o presente, cuja definição não deriva nem de um objeto nem de um método próprios. Defino-a como uma atividade do pensamento, uma atividade reflexivo-argumentativa, que se volta para tudo aquilo que os demais saberes tomam por pressupostos, cujos objetos são múltiplos, na medida em que abrangem tudo o que diz respeito ao homem no mundo, ou, antes, ao mundo, com o homem nele. Para ser mais coerente, como diria André Comte-Sponville, deveria dizer que há tantas definições de filosofia quanto filósofos — e o mesmo vale para os métodos. Contudo, todas essas definições e métodos possuem uma atividade em comum: uma atividade que, através de discursos e raciocínios, pensa rigorosa e sistematicamente sobre os fundamentos e os aspectos mais gerais do mundo e de tudo o que diz respeito ao homem.

Apesar de essa atividade ter surgido das investigações dos físicos jônicos, foi Platão o primeiro a construir filosoficamente uma resposta aos problemas desenvolvidos pelas reflexões que o precederam, a partir de um discurso que se fundamenta em categorias como universalidade, identidade, imutabilidade, unidade e inteligibilidade, através da escrita de textos com uma profundidade filosófica e uma riqueza dramática inigualáveis na história do pensamento; além de desenvolver o conjunto das disciplinas que constituem a tradição filosófica ocidental, assim como ter sido o primeiro a ser reconhecido em seu contexto como filósofo, por sua produção literária e desenvolvimento de um centro de estudos importantíssimo. Consequentemente, apesar de a reflexão filosófica ter surgido no século VI a.C., com as investigações dos físicos jônicos, Platão foi o primeiro filósofo do Ocidente, que criou a filosofia como uma linguagem rigorosa e iniciou a tradição literária na qual estamos inseridos até hoje.

No desenvolvimento espiritual do mundo grego antigo, o pensamento de Platão surge em um determinado contexto, inserido em uma tradição sistemática pela busca do saber, cujas características influenciaram e marcaram seu pensamento. Nesse caldeirão de influências e discussões com toda a tradição vigente, Platão desenvolveu sua filosofia como resposta a um problema de linguagem. Para compreender as implicações dessa tese, teremos que, primeiramente, percorrer, de maneira pontual, o caminho do contexto no qual o pensamento de Platão é desenvolvido, para, então, refletir sobre a possibilidade de a filosofia ter surgido de um problema da linguagem.Leia mais »

Introdução aos estudos platônicos

Platão é o filósofo mais fundamental para aqueles que estão iniciando os seus caminhos na filosofia. Foi com este filósofo que, pela primeira vez na história da filosofia, surgiu a estrutura e o enfoque de reflexão que a filosofia possui até os dias de hoje: a possibilidade de um conhecimento rigoroso sobre o mundo, a criação de conceitos, a busca por definições universais, a reflexão sobre o valor das ações e da vida, a reflexão sobre a constituição da vida em grupo, a reflexão sobre a relação entre sensações e pensamento, a reflexão sobre o papel da arte e da beleza no conhecimento, e etc., todos sob exigências como universalidade, identidade, imutabilidade, unidade. Tudo isso desenvolvido em diálogos entre Sócrates e interlocutores dos mais variados tipos: políticos, artesãos, sofistas, aprendizes; sempre grandes figuras do mundo helênico, como Protágoras, Parmênides, Zenão, Aristófanes, Górgias e muitos outros. Se esses diálogos são relatos históricos, é outra questão: certamente não são. Entretanto, isso não tira o brilhantismo de uma mente ilustre, cujos diálogos são tão verossímeis que não poderíamos suspeitar de que cada uma dessas personagens poderia ter dito o que está imortalizado nas páginas de mais de 25 diálogos originais e únicos na história do Ocidente.

Mas, então, por que ler Platão? O que esses diálogos têm de tão interessante? Bem, de interessante, talvez para leitores não habituados com o discurso filosófico, esses diálogos têm somente uma dramatização impecável, através da qual o cenário “fala”, com personagens surgindo em momentos precisos, momentos de tensão, de humor, de ironia, com interlocutores fazendo as vezes do próprio leitor, que muitas vezes se sente fazendo parte da conversa, na medida em que suas próprias questões são formuladas pelos interlocutores ‘não-filósofos’ de Sócrates. Com efeito, reduzir o brilhantismo de um dos maiores filósofos de todos os tempos a dramatizações da prosa grega seria um desserviço à filosofia. Por isso, talvez um dos grandes motivos para ler Platão, antes de qualquer elemento dramático no enredo de seus diálogos, seja a própria estrutura de seus textos.Leia mais »

Por que Platão não deixou a Academia para Aristóteles?

Platão e Aristóteles foram os dois maiores expoentes do universo espiritual antigo. O primeiro revolucionou a maneira pela qual se enxergava o mundo, fundando a nossa matriz de pensamento; o segundo, por sua vez, levou adiante a linguagem de seu mestre, de modo que, ao fim e ao cabo, essa linguagem pôde tornar-se a nossa linguagem. Dois gênios que, sozinhos, poderiam preencher boa parte das bases da história da filosofia. Costumam citar Whitehead dizendo que “a mais fiel caracterização da tradição filosófica europeia consiste em uma sucessão de notas de rodapé a Platão”[1]. Eu completaria: “e a Aristóteles”. O neoplatonismo e o aristotelismo marcaram o mundo e a ciência ocidentais. Até Kant — portanto por 20 séculos — essa matriz de pensamento foi a diretriz das reflexões sobre a realidade e sobretudo sobre o conhecimento.

Ambos dispensam apresentações, no que diz respeito às suas teorias. Platão, pela primeira vez, estruturou o que entendemos por filosofia: uma linguagem precisa e rigorosa, que investiga os fundamentos, a finalidade e as razões de todas as coisas, em um discurso que exige e fornece esclarecimento através de razões, tendo por princípio a verdade, além de assentada em princípios racionais como identidade, imutabilidade, necessidade e universalidade. Aristóteles, por sua vez, sistematicamente estruturou e organizou esse jogo de dar e pedir razões que seu mestre criou: desenvolveu uma ciência precisa sobre a dimensão formal do mundo, a Lógica, fundamental a todo pensamento racional ocidental; uma ciência sobre a dimensão material do mundo, a Física, necessária para qualquer descrição abrangente da realidade; uma outra ciência determinada pelas mesmas leis da finalidade da natureza, porém desta vez fundamentada na liberdade: a Ética; uma ciência cujo objeto são os princípios primeiros e o modo primeiro de ser, a Metafísica; e muitas outras ciências, dentre elas com destaque a Biologia.

Tudo isso foi fundamentado, de um modo ou de outro, na Academia. Muito diferente do que entendemos por instituição de ensino na contemporaneidade, a Academia não era um espaço público. Como espaço privado e afastado das luzes da Ágora, da Ekklesia e da Boulé, a Academia floresceu nos jardins de Hecademo, como um centro de estudos voltado para o alto nível de pesquisas matemáticas. ΑΓΕΩΜΕΤΡΗΤΟΣΜΗΔΕΙΣΕΙΣΙΤΩ, escrito na porta de entrada da Academia atestava seu caráter exclusivista: literalmente, “os não-geometrados não entrem aqui” (ἀγεωμέτρητος μηδεὶς εἰσίτω). Nesses estudos, evidentemente as investigações não se restringiam à matemática. Devemos ter em mente que a abstração matemática no mundo grego estava intrinsicamente ligada a ontologias e a doutrinas filosóficas. Portanto, a Academia era um espaço de reflexão filosófica, que nesse período não era dissociada das matemáticas.Leia mais »

Platão e a “fotografia” como produtora de simulacros

Artigo publicado na edição Nº67, de outubro de 2015, Amor, Memória e Arte, da Revista Pandora Brasil, ISSN 2175-3318.

 

Introdução

 

A fotografia, em nosso tempo — a “era da internet” —, é uma das dimensões mais fundamentais nas interações interpessoais, tendo um papel central, enquanto linguagem, na comunicação através da internet. Na medida em que as plataformas nas quais ocorrem as interações sociais através da internet limitam a efetividade da utilização da escrita, a fotografia parece reinar soberana no espaço virtual, cuja interação, ao fim e ao cabo, acaba tomando boa parte de nosso tempo. Como demonstrou recentemente a seção Graphic detail, dos infográficos da revista The Economist, este ano marcará a primeira vez que consumidores de mídias globalmente vão gastar mais tempo na internet do que assistindo televisão.

Talvez seja por isso que, dado à sua proximidade a nós em nosso dia-a-dia, perdemos a dimensão de que a fotografia não é exclusivamente um meio de comunicação. Ao voltarmo-nos à fotografia, afastando-nos suficientemente dela a fim de podermos atentar a aspectos com os quais não costumamos deparar diariamente, podemos perceber que a fotografia possui outras dimensões. Dentre elas, a fotografia possui uma dimensão artística. Será que a fotografia também pode ser considerada como arte? Para responder a essa pergunta, teremos que, de certo modo, estabelecer firmemente um caminho pelo qual será necessário percorrer para que possamos refletir rigorosamente sobre o que é arte em nosso tempo, para compreendermos se há espaço para a fotografia na arte contemporânea.

Quando pensamos no que é arte, temos que levar em consideração as reflexões desenvolvidas sobre o papel da arte e sua relação com as dimensões da sensibilidade, da imaginação e das sensações, ao longo do desenvolvimento da nossa cultura. Esta é fundamentalmente eurocêntrica, tendo suas origens remontando ao mundo grego antigo. Deste modo, faz-se necessário fazer um recorte central, apresentando as características da arte em seu desenvolvimento histórico e sua relação com a cultura, assim como voltar aos fundamentos do pensamento sobre a arte, que remete às raízes do nosso pensamento.

Através de três artigos, passaremos por três pensadores fundamentais na reflexão sobre a sensibilidade e suas relações com a arte e com a história, tal como sobre a relação entre o complexo de sensações e a razão: Platão, Kant e Hegel. Levaremos a efeito um exercício de interpretação que, através de uma espécie de experimento mental, possamos imaginar as considerações desses filósofos quanto à fotografia, partindo de dentro de seus sistemas, sobretudo de seus fundamentos filosóficos referentes à arte e à sensibilidade.

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