Para uma tradução crítica da República de Platão à língua portuguesa

Toward a Critical Translation of Plato’s Republic in Portuguese

  

Resumo: Este texto busca estabelecer uma discussão que permita nortear a tradução crítica da República de Platão para a língua portuguesa por meio de critérios que, levando em consideração os problemas textuais decorrentes das incompatibilidades entre as diversas versões canônicas dos manuscritos, papiros e comentários acerca da República, fundem-se na prevalência da inteligibilidade da tradução e no sentido que esta dará à leitura do texto em língua portuguesa sobre qualquer outro critério; ademais, tal inteligibilidade e sentido possuiriam por padrão de medida antes o contexto filosófico e a escrita platônica do que uma cega aplicação das regras gramaticais do Grego Ático. Trata-se, portanto, de uma proposta metodológica de tradução crítica da República de Platão para a língua portuguesa pelo que chamo de “critério semântico”. Para justificar, por um lado, a necessidade de uma tradução crítica e, por outro, a razão de tal proposta, sumarizaremos a história do texto da República e a história de sua tradição textual, a fim de que possamos posteriormente demonstrar necessidade de aplicação dessa metodologia por meio de dois problemas no Livro III, a fim de ser possível traduzi-lo criticamente. Terei por referência o trabalho de Gerard Boter (1989), Siem Slings (2005) e Rodolfo Lopes (2018). 

Palavras-chave: Platão; República; Tradução; Livro III.

Abstract: This text seeks to establish a discussion that may guide the critical translation of Plato’s Republic to Portuguese through criteria that, given the textual problems resulting from the incompatibilities among the multiple canonical versions of manuscripts, papyri and commentaries concerning the Republic, are based on the supremacy of the intelligibility of the translation and on the meaning that this translation may yield to the reading of the text in Portuguese above any other criteria; moreover, this intelligibility and meaning would have the philosophical context of the text and Plato’s writings as the main parameter, not a blind and hard adherence to the rules of Attic Greek. Therefore, it is a methodological proposal of the critical translation of Plato’s Republic to Portuguese through what I call “semantic criteria”. To justify the need of a critical translation, on one hand, and the reason for such proposal on the other, we will sum the history of the text of the Republic and the history of its textual tradition, so that we may demonstrate the need of the application of this methodology through two problems of Book III, in order to translate it critically. I’ll be following the works of Gerard Boter, Siem Slings, and Rodolfo Lopes.

Keywords: Plato; Republic; Translation; Book III.

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O lugar da Astronomia na filosofia de Platão n’A República

Originalmente As Formas e os Céus: o ὑπερουράνιον τόπον de Platão.

Artigo apresentado no congresso do III Simpósio Internacional do Grupo de Pesquisa DELPHOS: “Filosofia e religião na Grécia Antiga: Os Céus”

  

Entre os antigos os céus eram matéria de perplexidade, admiração e reverência. Talvez haja relação entre essa perplexidade e admiração e uma busca pelo estudo dos céus e dos fenômenos celestes, de modo a levar os antigos habitantes da Mesopotâmia a dedicarem-se à sua contemplação; ou, pelo contrário, uma necessidade prática fundada na álgebra, aritmética e geometria como instrumentos, para auxiliar na agricultura e navegação, pode tê-los levado a esses estudos. No entanto, é muito difícil defender qualquer uma dessas explicações, dado que são povos, sobretudo os Sumérios, demasiadamente distanciados de nós no tempo, cujas fontes esparsas não permitem tais asserções. Deste modo, independentemente das razões pelas quais tais estudos foram levados a efeito, é claro para nós, pelo que nos chegou através dos Babilônios, que esses antigos não tiveram uma relação somente de observação e conhecimento dos céus. Desde as primeiras civilizações da Mesopotâmia os céus também eram os reinos das divindades, motivo de reverência, morada de deuses e palco de conflitos que marcaram grande parte das primeiras cosmogonias de que temos relatos, permanecendo presentes na religiosidade antiga. Mais tarde entre os gregos, o panorama permaneceu o mesmo no que diz respeito à divinização das alturas: Urano, Hélios, Selene, Nix e muitas outras divindades personificavam os céus, os astros e os fenômenos celestes.

Assim como aqueles mais antigos, os gregos, além de divinizarem os céus, também desenvolveram estudos de astronomia, igualmente utilizando a geometria e aritmética para auxiliar nessas investigações. Esse panorama cultural de simultaneidade entre conhecimento e reverência, entre saber e divindade, passou a permear a reflexão filosófica grega. Num ponto alto de desenvolvimento dessa reflexão, também temos presente essa dimensão dos céus no pensamento de Platão. Nos Diálogos, poderíamos pensar que são os céus que determinam as investigações de Sócrates, caso aceitemos o cômico relato de seus estudos feito por Aristófanes[1], de um Sócrates suspenso num cesto, que “caminha no ar e especula sobre o Sol” e “descobre as coisas celestes por ter suspendido o intelecto e o pensamento” (v. 225). Teríamos, assim, um Sócrates naturalista, cujas investigações sobre os céus o aproximariam das περὶ φύσεως ἱστόριαι.Leia mais »

O erotismo como articulação entre Ser e Saber no platonismo clássico

Artigo apresentado no II Simpósio Internacional do grupo de pesquisa DELPHOS: “Filosofia e religião na Grécia Antiga”.

 

Na ontologia aprofundada de Sócrates em relação aos diálogos chamados “socráticos”, aquela desenvolvida nos diálogos Fedon, Fedro, República e Banquete, Platão apresenta-nos teses fundamentais para a compreensão das concepções de Ser e Saber em sua filosofia, como a Teoria das Formas, a Participação, a imortalidade da alma, a Reminiscência e a dialética. Embora sejam diálogos distintos, cujos temas são diferentes entre si, eles são conceitualmente possíveis de serem aproximados. Nessas teses cujo ponto central diz respeito tanto à realidade quanto ao conhecimento, Platão constrói um dos pilares de sua filosofia. Deste modo, faremos um breve percurso pelo esboço dessas teses, para que seja possível fazer uma leitura do erotismo como a articulação entre Ser e Saber na ontoepistemologia desses diálogos.Leia mais »

Platão: o erotismo na filosofia como caminho para o divino

Artigo apresentado no I Congresso Internacional de Ciências da Religião – “Religião: Artes e Vozes”.

 

No Banquete, Platão apresenta o exercício erótico-filosófico como a via de acesso às Formas, no caso, à do Belo. Eros é o elemento metafísico que possibilita a articulação entre a multiplicidade acidental e aparente e a unidade necessária do Ser: intermediário entre o divino e o mortal. Nesse diálogo, há a apresentação mais explícita das Formas em todo o corpus platonicum, assim como uma explicação detalhada do movimento de subida do Múltiplo ao Uno.

As Formas são realidades superiores, que “são cada uma sempre as mesmas” (ἀεὶ αὐτῶν ἕκαστον ὃ ἔστι), “uniformes em si mesmas” (μονοειδὲς ὂν αὐτὸ καθ’ αὑτό) e “igualmente não tendo, de forma alguma, a menor alteração de nenhum modo possível” (ὡσαύτως κατὰ ταὐτὰ ἔχει καὶ οὐδέποτε οὐδαμῇ οὐδαμῶς ἀλλοίωσιν οὐδεμίαν ἐνδέχεται) (Fédon, 78d). Isso significa que elas são eternas, dado que, se não admitem mudança, não poderiam ter passado do estado de não-ser para o de ser; imutáveis, haja vista a impossibilidade de mudança; e, por fim, perfeitas, na medida em que possuem um modo pleno de ser. Isso configura o estatuto divino das Formas na filosofia de Platão, face à precariedade e efemeridade do material no qual toda a dimensão da sensibilidade e do vir-a-ser encontram-se mutualmente coexistentes.

Através da filosofia, nos Diálogos definida como a dialética, é possível a um indivíduo partir da multiplicidade dos fenômenos e atingir a unidade das Formas. Essa atividade, contudo, no Banquete é apresentada como correlata ao exercício erótico do qual ela não pode prescindir, para, através de Eros, o iniciado nesse exercício espiritual tornar-se filósofo por meio dessa atividade dialética mediatizada e, finalmente, religar-se, no final desse processo, ao divino por meio da reminiscência da Forma do Belo e, por extensão, da do Bem. Portanto, esse elemento metafísico de ligação do indivíduo às Formas é o objeto de desenvolvimento deste diálogo, cujo objeto, por sua vez, é o divino.

Por meio de uma análise filosófica tanto, por um lado, da estrutura dialética do Banquete, caracterizada pela progressão ascensional das falas dos convivas em direção da essência de Eros, quanto, por outro lado, da ascensão erótico-filosófica na fala de Sócrates-Diotima, é possível esclarecer a função do exercício erótico, em conjunto com o dialético, na ontoepistemologia platônica e sua consequente articulação do filósofo na dimensão divina.Leia mais »

Amor e Conhecimento

Um estudo sobre a função de Eros na ontoepistemologia platônica

 

Introdução

 

Neste artigo, far-se-á uma análise de Eros, circunscrito no âmbito da ontoepistemologia platônica[1], com enfoque na fala de Sócrates-Diotima no diálogo “O Banquete”. Este artigo visa desenvolver a seguinte questão: “haveria uma função ontoepistemológica fundamental para Eros na filosofia platônica?”. Devido ao recorte escolhido para levar a efeito essa análise, delimitado pelas dimensões deste pequeno artigo, não será possível fazer jus à complexidade inerente à narração do Banquete, escrito por Platão de modo a encadear, segundo uma estrutura e método dialéticos, intervenções e discursos que constroem sucessivamente o desenvolvimento de teses, nas quais se encontra inserida a teoria de Eros e somente através das quais é possível compreendê-la filosoficamente segundo a intenção de Platão. Tampouco será possível deter-se na análise dos elementos dramáticos do texto, uma vez que o enfoque será tão somente na análise das dimensões ontoepistemológicas de Eros. Apesar disso, ao respeitar às necessidades metodológicas e estruturais do autor, será possível esboçar uma problematização inicial a esta questão, ao dialogar com a teoria de Eros, de modo pontual, os principais pontos das concepções platônicas de Ser e Saber, presentes sobretudo nos diálogos Fedon, Banquete, República e Fedro.Leia mais »

A filosofia surge de um problema de linguagem

A filosofia surgiu no mundo grego antigo. Chamo de filosofia uma tradição ocidental — porque é a única que conheço, apesar de saber que existe uma produção espiritual muito rica no Oriente —, desenvolvida desde os gregos até o presente, cuja definição não deriva nem de um objeto nem de um método próprios. Defino-a como uma atividade do pensamento, uma atividade reflexivo-argumentativa, que se volta para tudo aquilo que os demais saberes tomam por pressupostos, cujos objetos são múltiplos, na medida em que abrangem tudo o que diz respeito ao homem no mundo, ou, antes, ao mundo, com o homem nele. Para ser mais coerente, como diria André Comte-Sponville, deveria dizer que há tantas definições de filosofia quanto filósofos — e o mesmo vale para os métodos. Contudo, todas essas definições e métodos possuem uma atividade em comum: uma atividade que, através de discursos e raciocínios, pensa rigorosa e sistematicamente sobre os fundamentos e os aspectos mais gerais do mundo e de tudo o que diz respeito ao homem.

Apesar de essa atividade ter surgido das investigações dos físicos jônicos, foi Platão o primeiro a construir filosoficamente uma resposta aos problemas desenvolvidos pelas reflexões que o precederam, a partir de um discurso que se fundamenta em categorias como universalidade, identidade, imutabilidade, unidade e inteligibilidade, através da escrita de textos com uma profundidade filosófica e uma riqueza dramática inigualáveis na história do pensamento; além de desenvolver o conjunto das disciplinas que constituem a tradição filosófica ocidental, assim como ter sido o primeiro a ser reconhecido em seu contexto como filósofo, por sua produção literária e desenvolvimento de um centro de estudos importantíssimo. Consequentemente, apesar de a reflexão filosófica ter surgido no século VI a.C., com as investigações dos físicos jônicos, Platão foi o primeiro filósofo do Ocidente, que criou a filosofia como uma linguagem rigorosa e iniciou a tradição literária na qual estamos inseridos até hoje.

No desenvolvimento espiritual do mundo grego antigo, o pensamento de Platão surge em um determinado contexto, inserido em uma tradição sistemática pela busca do saber, cujas características influenciaram e marcaram seu pensamento. Nesse caldeirão de influências e discussões com toda a tradição vigente, Platão desenvolveu sua filosofia como resposta a um problema de linguagem. Para compreender as implicações dessa tese, teremos que, primeiramente, percorrer, de maneira pontual, o caminho do contexto no qual o pensamento de Platão é desenvolvido, para, então, refletir sobre a possibilidade de a filosofia ter surgido de um problema da linguagem.Leia mais »

Introdução aos estudos platônicos

Platão é o filósofo mais fundamental para aqueles que estão iniciando os seus caminhos na filosofia. Foi com este filósofo que, pela primeira vez na história da filosofia, surgiu a estrutura e o enfoque de reflexão que a filosofia possui até os dias de hoje: a possibilidade de um conhecimento rigoroso sobre o mundo, a criação de conceitos, a busca por definições universais, a reflexão sobre o valor das ações e da vida, a reflexão sobre a constituição da vida em grupo, a reflexão sobre a relação entre sensações e pensamento, a reflexão sobre o papel da arte e da beleza no conhecimento, e etc., todos sob exigências como universalidade, identidade, imutabilidade, unidade. Tudo isso desenvolvido em diálogos entre Sócrates e interlocutores dos mais variados tipos: políticos, artesãos, sofistas, aprendizes; sempre grandes figuras do mundo helênico, como Protágoras, Parmênides, Zenão, Aristófanes, Górgias e muitos outros. Se esses diálogos são relatos históricos, é outra questão: certamente não são. Entretanto, isso não tira o brilhantismo de uma mente ilustre, cujos diálogos são tão verossímeis que não poderíamos suspeitar de que cada uma dessas personagens poderia ter dito o que está imortalizado nas páginas de mais de 25 diálogos originais e únicos na história do Ocidente.

Mas, então, por que ler Platão? O que esses diálogos têm de tão interessante? Bem, de interessante, talvez para leitores não habituados com o discurso filosófico, esses diálogos têm somente uma dramatização impecável, através da qual o cenário “fala”, com personagens surgindo em momentos precisos, momentos de tensão, de humor, de ironia, com interlocutores fazendo as vezes do próprio leitor, que muitas vezes se sente fazendo parte da conversa, na medida em que suas próprias questões são formuladas pelos interlocutores ‘não-filósofos’ de Sócrates. Com efeito, reduzir o brilhantismo de um dos maiores filósofos de todos os tempos a dramatizações da prosa grega seria um desserviço à filosofia. Por isso, talvez um dos grandes motivos para ler Platão, antes de qualquer elemento dramático no enredo de seus diálogos, seja a própria estrutura de seus textos.Leia mais »