Por que Platão não deixou a Academia para Aristóteles?

Platão e Aristóteles foram os dois maiores expoentes do universo espiritual antigo. O primeiro revolucionou a maneira pela qual se enxergava o mundo, fundando a nossa matriz de pensamento; o segundo, por sua vez, levou adiante a linguagem de seu mestre, de modo que, ao fim e ao cabo, essa linguagem pôde tornar-se a nossa linguagem. Dois gênios que, sozinhos, poderiam preencher boa parte das bases da história da filosofia. Costumam citar Whitehead dizendo que “a mais fiel caracterização da tradição filosófica europeia consiste em uma sucessão de notas de rodapé a Platão”[1]. Eu completaria: “e a Aristóteles”. O neoplatonismo e o aristotelismo marcaram o mundo e a ciência ocidentais. Até Kant — portanto por 20 séculos — essa matriz de pensamento foi a diretriz das reflexões sobre a realidade e sobretudo sobre o conhecimento.

Ambos dispensam apresentações, no que diz respeito às suas teorias. Platão, pela primeira vez, estruturou o que entendemos por filosofia: uma linguagem precisa e rigorosa, que investiga os fundamentos, a finalidade e as razões de todas as coisas, em um discurso que exige e fornece esclarecimento através de razões, tendo por princípio a verdade, além de assentada em princípios racionais como identidade, imutabilidade, necessidade e universalidade. Aristóteles, por sua vez, sistematicamente estruturou e organizou esse jogo de dar e pedir razões que seu mestre criou: desenvolveu uma ciência precisa sobre a dimensão formal do mundo, a Lógica, fundamental a todo pensamento racional ocidental; uma ciência sobre a dimensão material do mundo, a Física, necessária para qualquer descrição abrangente da realidade; uma outra ciência determinada pelas mesmas leis da finalidade da natureza, porém desta vez fundamentada na liberdade: a Ética; uma ciência cujo objeto são os princípios primeiros e o modo primeiro de ser, a Metafísica; e muitas outras ciências, dentre elas com destaque a Biologia.

Tudo isso foi fundamentado, de um modo ou de outro, na Academia. Muito diferente do que entendemos por instituição de ensino na contemporaneidade, a Academia não era um espaço público. Como espaço privado e afastado das luzes da Ágora, da Ekklesia e da Boulé, a Academia floresceu nos jardins de Hecademo, como um centro de estudos voltado para o alto nível de pesquisas matemáticas. ΑΓΕΩΜΕΤΡΗΤΟΣΜΗΔΕΙΣΕΙΣΙΤΩ, escrito na porta de entrada da Academia atestava seu caráter exclusivista: literalmente, “os não-geometrados não entrem aqui” (ἀγεωμέτρητος μηδεὶς εἰσίτω). Nesses estudos, evidentemente as investigações não se restringiam à matemática. Devemos ter em mente que a abstração matemática no mundo grego estava intrinsicamente ligada a ontologias e a doutrinas filosóficas. Portanto, a Academia era um espaço de reflexão filosófica, que nesse período não era dissociada das matemáticas.Leia mais »

Virtude moral em Aristóteles: o segredo para a felicidade

No artigo sobre a eudaimonia, sobre a felicidade em Aristóteles, discutimos sobre como Aristóteles pôde defini-la e chegar a seu conceito de felicidade. Vimos que, diferentemente da cultura grega, carregada de religiosidade e simbolismo, Aristóteles não fundamentou sua concepção de felicidade na vontade divina ou em causas obscuras e sobre-humanas. Pelo contrário: para Aristóteles, a felicidade é única e exclusivamente possibilitada pela atividade racional, em consonância com a virtude. É a moral, portanto, que possibilita a felicidade, e o prudente é quem conscientemente leva a efeito ações morais.

Contudo, uma vez definido o que é felicidade, parece que se faz necessário apresentar como, para Aristóteles, podemos ser felizes. De que modo um indivíduo pode tornar-se feliz? Para recapitular em linhas gerais o que foi dito, Aristóteles iniciou uma investigação acerca das ações humanas. Para ele, as ações humanas têm uma razão, um propósito: uma finalidade última. Essa finalidade última das ações humanas é identificada com a felicidade. Isso significa que todas as ações humanas, por mais múltiplas e plurais que possam ser, têm em vista, ulteriormente, uma única coisa, a saber, a felicidade.

Ela foi definida, de modo geral, como a atividade da alma segundo a perfeita virtude, em uma vida completa. Para melhor esclarecer essa definição, Aristóteles explicou que o indivíduo virtuoso, de preferência a qualquer coisa, estará levando a efeito ações virtuosas durante toda a vida. Portanto, isso significa em uma vida completa, dado que a felicidade se dá, para o indivíduo virtuoso, durante toda a vida. Entretanto, para nós ainda não está muito claro como que um indivíduo pode tornar-se feliz. Ele pode ter esclarecido o que significa em uma vida completa, mas o resto ainda está muito confuso! Que atividade da alma é essa? O que é virtude, então?Leia mais »

Eudaimonia: a felicidade em Aristóteles

Ser feliz parece ser um estado buscado universalmente por todos os homens. Uns dirão que a glória traz felicidade; outros, talvez menos poéticos, dirão que é o dinheiro. Há quem diga que dinheiro não traz felicidade. Será que o dinheiro não pode comprar coisas que façam as pessoas felizes? Mas e no caso de pessoas que desejam algo que o dinheiro não pode comprar, como a presença de um ente querido que já morreu? Ou saúde, para uma enfermidade que a medicina não pode curar? Ou talvez no caso dos que desejam beleza, ou ainda talvez desejam alguma habilidade especial para a qual o treino não é suficiente? A lista é definitivamente enorme. Contudo, por detrás de toda essa gama de possibilidades, parece haver um conceito universal: a felicidade.

Os gregos, no mundo ocidental, foram os primeiros a refletir sobre a felicidade. Uma das palavras utilizadas por eles era eudaimonia (εὐδαιμονία). Como característica de uma sociedade profundamente religiosa, a felicidade, ou eudaimonia, originalmente se relacionava à vontade dos deuses. A palavra em questão é resultado de uma construção entre duas outras palavras: eu (εὖ) e daimon (δαίμων). A primeira é a mais simples: significa “bem”. A segunda, por sua vez, é um pouco mais complicada.Leia mais »

Ser e conhecer: do “ser é” ao ser enquanto ser

O mundo grego é o berço da metafísica: Platão é o pai amoroso, Aristóteles é o filho prodígio e Parmênides o avô tautológico. Todas as questões sobre o ser na história da filosofia, sobre a essência, sobre o Ser e sobre o conhecimento são herdeiras dessa família. Discutir os limites da realidade e os limites do nosso conhecimento está em pauta desde o Período Clássico.

Aristóteles diz que Platão é influenciado por Heráclito: não podemos conhecer a partir do que está em constante mudança. No final do diálogo Crátilo, Sócrates afirma que “não podemos conhecer o que amanhã deixará de ser o que é”. Na contramão de Heráclito, Parmênides fica preso a uma tautologia do “ser é”, apresentando a impossibilidade de movimento, uma vez que o que é não pode deixar de ser e o que não é nunca poderá ser, como primeiro esboço de um “esquematismo abstrato”. Dois filósofos gregos, um do fogo e o outro do gelo, dois mundos distintos: tudo muda e nada muda. Parece que Platão levou a sério essa figura de linguagem de “dois mundos distintos”. Não desqualificando totalmente o plano sensível, isto é, não caracterizando a multiplicidade e a mudança constante como meras ilusões — há realidade no plano sensível, mesmo que precária e não plena —, Platão defende que para conhecer precisamos predicar o ser, precisamos poder dizer algo sobre o ser; e precisamos encontrar algo de fixo para que possamos conhecer. Portanto, de um lado, ele vai além de Heráclito e Parmênides, e, de outro, além dos limites da linguagem daquele mundo.

Os pitagóricos, grande influência no pensamento platônico, sobretudo na formulação do que será a alma em Platão, como imortal e superior ao corpo, serão decisivos para as formulações platônicas sobre o ser e sobre o conhecer. Todavia, Sócrates será a maior influência de Platão. Ele será a figura questionadora e refutadora, base para a dialética e para a filosofia platônica. Ele influenciará Platão sobre a pergunta “tí estin;” e “tóde tí;”, “o que é?”, “o que é isso?”.

Aristóteles diz que podemos apenas conhecer algo a partir de universais. Algo que não é o particular, mas caracteriza vários particulares. Essa é uma característica inicial para gerarmos conhecimento. Partindo de uma multiplicidade de coisas conseguimos definir o particular. Apesar de anterior a Aristóteles, a solução de Platão é similar a dele e será de grande influência ao pensamento de seu discípulo e à racionalidade ocidental: partindo de uma multiplicidade de particulares atingiremos uma unidade fixa na qual podemos conhecer, uma mistura de todas essas influências.Leia mais »