Filosofar é aprender a morrer

Originalmente Uma concepção metafísica de morte ou uma morte da concepção metafísica? Montaigne em filosofar é aprender a morrer.

Artigo apresentado no congresso da XVIII Semana de Filosofia da Universidade Mackenzie: A Filosofia no Século XVI: Renascença, Reformas e Utopias

  

O leitor mais habituado a tratados filosóficos nos quais o texto é desenvolvido estruturalmente de modo a articular o fio condutor da argumentação por meio de uma cadeia de razões, nos moldes de uma Crítica da Razão Pura ou Meditações Metafísicas, poderá buscar nos Ensaios uma explicitação textual do que seria a doutrina e método de Montaigne. Tal busca, entretanto, não proporcionaria os mesmos frutos colhidos na leitura de Descartes ou Kant. Com efeito, Michel de Montaigne torna claro em seus Ensaios o caráter pretensioso daqueles que tomam as dogmata por verdade absoluta e universal. A forma de suas “opiniões”, de caráter ontoepistemológico muito mais modesto que às daqueles, possui uma peculiaridade que precisa ser levada em consideração na leitura de seus textos, para que seja possível compreender o sentido de muitas reflexões presentes nos Ensaios.

Montaigne faz constantes citações de filósofos antigos ao longo de suas reflexões. Dentre eles, os do período helenístico (Sêneca, Cícero, Plutarco, Horácio, Lucrécio e outros) são os mais recorrentes. Essas citações ecoam a aproximação de Montaigne (confessa em muitas passagens) do pensamento estoico, neoacadêmico, pirrônico e epicurista. Acontece que, como todo grande filósofo, Montaigne não simplesmente reproduz tais pensamentos, mas os desenvolve de modo a construir uma leitura filosófica própria, de modo a, por conseguinte, escrever suas reflexões por uma perspectiva fundamentalmente cética. Como nos lembra Frédéric Brahami,

“Embora Montaigne tenha conhecido no detalhe as exposições céticas de Diógenes Laércio e de Cícero, é manifesto para todo leitor da “Apologia de Raymond Sebond” que são sobretudo as Hipotiposes pirrônicas de Sexto que o atraíram. É, portanto, em face do ceticismo das Hipotiposes que é preciso ler o ceticismo dos Ensaios” (BRAHAMI, 2012, p. 66)

Não obstante, embora tais influências sejam fundamentais para suas reflexões éticas, políticas, e, no limite, para todas as outras, é a partir de formulações epistemológicas do pirronismo[1] que Montaigne desenvolve sua leitura das filosofias antigas. Nesse momento, importa a nós sua posição perante o saber.Leia mais »

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A felicidade, desesperadamente

Felicidade! Talvez o maior ideal de nosso tempo, ela tornou-se uma espécie de meta irrevogável: ser feliz é obrigação. Na medida em que passamos boa parte do tempo nas redes sociais, parece haver uma espécie de culto à felicidade que decorre dela: não podemos retratar a nós mesmos de outro modo que não seja do modo feliz, caso contrário estaremos às margens do quotidiano desse novo modo de vida do século XXI.

Ainda assim, isso configura tão somente uma aparência de felicidade, haja vista que é somente necessário parecer feliz, em vez de, efetivamente, sê-lo. Tornamo-nos espectadores de nossas próprias vidas através do que retratamos pelas redes sociais e, com isso, frustramo-nos ao não sermos capazes de identificar, em nossas próprias vidas, essa tal felicidade retratada artificialmente, da qual supostamente gozávamos. Esperamos ser felizes quando, na verdade, somos infelizes na maioria das vezes ou não conseguimos ser felizes constantemente.

De fato, esse cenário dá à luz um problema psicossocial – e, de certo modo, filosófico –, já que essa configuração social tece uma linha muito tênue entre ser feliz e parecer feliz. Esperamos ser felizes constantemente enquanto, efetivamente, não o somos. Com efeito, precisamos definir com mais cuidado o que seria felicidade, uma vez que esse tipo específico sobre o qual estamos falando até então está mais próximo da ilusão do que da verdade: uma aparência de felicidade.Leia mais »

O erotismo como articulação entre Ser e Saber no platonismo clássico

Artigo apresentado no II Simpósio Internacional do grupo de pesquisa DELPHOS: “Filosofia e religião na Grécia Antiga”.

 

Na ontologia aprofundada de Sócrates em relação aos diálogos chamados “socráticos”, aquela desenvolvida nos diálogos Fedon, Fedro, República e Banquete, Platão apresenta-nos teses fundamentais para a compreensão das concepções de Ser e Saber em sua filosofia, como a Teoria das Formas, a Participação, a imortalidade da alma, a Reminiscência e a dialética. Embora sejam diálogos distintos, cujos temas são diferentes entre si, eles são conceitualmente possíveis de serem aproximados. Nessas teses cujo ponto central diz respeito tanto à realidade quanto ao conhecimento, Platão constrói um dos pilares de sua filosofia. Deste modo, faremos um breve percurso pelo esboço dessas teses, para que seja possível fazer uma leitura do erotismo como a articulação entre Ser e Saber na ontoepistemologia desses diálogos.Leia mais »

Platão: o erotismo na filosofia como caminho para o divino

Artigo apresentado no I Congresso Internacional de Ciências da Religião – “Religião: Artes e Vozes”.

 

No Banquete, Platão apresenta o exercício erótico-filosófico como a via de acesso às Formas, no caso, à do Belo. Eros é o elemento metafísico que possibilita a articulação entre a multiplicidade acidental e aparente e a unidade necessária do Ser: intermediário entre o divino e o mortal. Nesse diálogo, há a apresentação mais explícita das Formas em todo o corpus platonicum, assim como uma explicação detalhada do movimento de subida do Múltiplo ao Uno.

As Formas são realidades superiores, que “são cada uma sempre as mesmas” (ἀεὶ αὐτῶν ἕκαστον ὃ ἔστι), “uniformes em si mesmas” (μονοειδὲς ὂν αὐτὸ καθ’ αὑτό) e “igualmente não tendo, de forma alguma, a menor alteração de nenhum modo possível” (ὡσαύτως κατὰ ταὐτὰ ἔχει καὶ οὐδέποτε οὐδαμῇ οὐδαμῶς ἀλλοίωσιν οὐδεμίαν ἐνδέχεται) (Fédon, 78d). Isso significa que elas são eternas, dado que, se não admitem mudança, não poderiam ter passado do estado de não-ser para o de ser; imutáveis, haja vista a impossibilidade de mudança; e, por fim, perfeitas, na medida em que possuem um modo pleno de ser. Isso configura o estatuto divino das Formas na filosofia de Platão, face à precariedade e efemeridade do material no qual toda a dimensão da sensibilidade e do vir-a-ser encontram-se mutualmente coexistentes.

Através da filosofia, nos Diálogos definida como a dialética, é possível a um indivíduo partir da multiplicidade dos fenômenos e atingir a unidade das Formas. Essa atividade, contudo, no Banquete é apresentada como correlata ao exercício erótico do qual ela não pode prescindir, para, através de Eros, o iniciado nesse exercício espiritual tornar-se filósofo por meio dessa atividade dialética mediatizada e, finalmente, religar-se, no final desse processo, ao divino por meio da reminiscência da Forma do Belo e, por extensão, da do Bem. Portanto, esse elemento metafísico de ligação do indivíduo às Formas é o objeto de desenvolvimento deste diálogo, cujo objeto, por sua vez, é o divino.

Por meio de uma análise filosófica tanto, por um lado, da estrutura dialética do Banquete, caracterizada pela progressão ascensional das falas dos convivas em direção da essência de Eros, quanto, por outro lado, da ascensão erótico-filosófica na fala de Sócrates-Diotima, é possível esclarecer a função do exercício erótico, em conjunto com o dialético, na ontoepistemologia platônica e sua consequente articulação do filósofo na dimensão divina.Leia mais »

Amor e Conhecimento

Um estudo sobre a função de Eros na ontoepistemologia platônica

 

Introdução

 

Neste artigo, far-se-á uma análise de Eros, circunscrito no âmbito da ontoepistemologia platônica[1], com enfoque na fala de Sócrates-Diotima no diálogo “O Banquete”. Este artigo visa desenvolver a seguinte questão: “haveria uma função ontoepistemológica fundamental para Eros na filosofia platônica?”. Devido ao recorte escolhido para levar a efeito essa análise, delimitado pelas dimensões deste pequeno artigo, não será possível fazer jus à complexidade inerente à narração do Banquete, escrito por Platão de modo a encadear, segundo uma estrutura e método dialéticos, intervenções e discursos que constroem sucessivamente o desenvolvimento de teses, nas quais se encontra inserida a teoria de Eros e somente através das quais é possível compreendê-la filosoficamente segundo a intenção de Platão. Tampouco será possível deter-se na análise dos elementos dramáticos do texto, uma vez que o enfoque será tão somente na análise das dimensões ontoepistemológicas de Eros. Apesar disso, ao respeitar às necessidades metodológicas e estruturais do autor, será possível esboçar uma problematização inicial a esta questão, ao dialogar com a teoria de Eros, de modo pontual, os principais pontos das concepções platônicas de Ser e Saber, presentes sobretudo nos diálogos Fedon, Banquete, República e Fedro.Leia mais »

A filosofia surge de um problema de linguagem

A filosofia surgiu no mundo grego antigo. Chamo de filosofia uma tradição ocidental — porque é a única que conheço, apesar de saber que existe uma produção espiritual muito rica no Oriente —, desenvolvida desde os gregos até o presente, cuja definição não deriva nem de um objeto nem de um método próprios. Defino-a como uma atividade do pensamento, uma atividade reflexivo-argumentativa, que se volta para tudo aquilo que os demais saberes tomam por pressupostos, cujos objetos são múltiplos, na medida em que abrangem tudo o que diz respeito ao homem no mundo, ou, antes, ao mundo, com o homem nele. Para ser mais coerente, como diria André Comte-Sponville, deveria dizer que há tantas definições de filosofia quanto filósofos — e o mesmo vale para os métodos. Contudo, todas essas definições e métodos possuem uma atividade em comum: uma atividade que, através de discursos e raciocínios, pensa rigorosa e sistematicamente sobre os fundamentos e os aspectos mais gerais do mundo e de tudo o que diz respeito ao homem.

Apesar de essa atividade ter surgido das investigações dos físicos jônicos, foi Platão o primeiro a construir filosoficamente uma resposta aos problemas desenvolvidos pelas reflexões que o precederam, a partir de um discurso que se fundamenta em categorias como universalidade, identidade, imutabilidade, unidade e inteligibilidade, através da escrita de textos com uma profundidade filosófica e uma riqueza dramática inigualáveis na história do pensamento; além de desenvolver o conjunto das disciplinas que constituem a tradição filosófica ocidental, assim como ter sido o primeiro a ser reconhecido em seu contexto como filósofo, por sua produção literária e desenvolvimento de um centro de estudos importantíssimo. Consequentemente, apesar de a reflexão filosófica ter surgido no século VI a.C., com as investigações dos físicos jônicos, Platão foi o primeiro filósofo do Ocidente, que criou a filosofia como uma linguagem rigorosa e iniciou a tradição literária na qual estamos inseridos até hoje.

No desenvolvimento espiritual do mundo grego antigo, o pensamento de Platão surge em um determinado contexto, inserido em uma tradição sistemática pela busca do saber, cujas características influenciaram e marcaram seu pensamento. Nesse caldeirão de influências e discussões com toda a tradição vigente, Platão desenvolveu sua filosofia como resposta a um problema de linguagem. Para compreender as implicações dessa tese, teremos que, primeiramente, percorrer, de maneira pontual, o caminho do contexto no qual o pensamento de Platão é desenvolvido, para, então, refletir sobre a possibilidade de a filosofia ter surgido de um problema da linguagem.Leia mais »

Amar infinitamente

Artigo publicado na edição Nº73, de abril de 2016, Infinito, da Revista Pandora Brasil, ISSN 2175-3318.

 

A nossa existência é contingente em si mesma. Se tomarmos como padrão de medida o desenvolvimento de nosso planeta, a existência humana seria como as últimas horas de um longo dia. Ainda assim, se tomarmos como padrão de medida o desenvolvimento de nossa galáxia, a existência humana seria como um breve instante. No caso de considerarmos o desenvolvimento do universo, finalmente, a existência humana seria inferior do que a menor unidade pensável. Sem ela, os planetas, as galáxias, o universo, todos eles estariam aí.

Isso significa que todo o planeta poderia prosseguir sua existência e seu desenvolvimento sem a existência humana, rodopiando aos risos, com os animais e os outros seres vivos convivendo harmoniosamente. Do mesmo modo, a galáxia continuaria o que é, com os planetas prosseguindo em seus movimentos elípticos em volta de si mesmos e em torno do Sol. Não poderia ser diferente no caso do universo, com todas as incontáveis galáxias, que, por sua vez, possuem suas estrelas, seus planetas, e assim por diante. Tudo isso continuaria aí, existindo independentemente da existência humana, que é contingente.Leia mais »