A robossexualidade a partir da ciência contemporânea

Em outro artigo com uma reflexão similar — A robossexualidade para ser pensada hoje — apresentei a possibilidade da relação afetiva entre ser humano e ser artificial e a necessidade de sua reflexão, a partir de uma perspectiva ética. Nesse texto, defendi que essa questão não é um problema do futuro, na medida em que em países como o Japão indivíduos já utilizam tecnologia para relacionar-se com seres artificiais, no caso de, por exemplo, os “girlfriend apps”.

Agora, de outro modo, farei uma reflexão sobre a mesma questão, porém a partir de perspectivas científicas. Será que há a possibilidade de o cérebro humano desenvolver um laço afetivo com seres artificiais? Em outros termos, podemos nos apaixonar, amar, ou até mesmo depender afetivamente de seres artificiais, de modo similar como naturalmente fazemos com outros seres humanos? E, talvez a questão científica mais decisiva, será que os seres artificiais, por sua vez, podem desenvolver — ou serem desenvolvidos de modo a possuir — inteligência emocional, a fim de sentirem compaixão e interagirem com o exterior de maneira humanizada? Isto é: será que os seres artificiais podem nos amar?Leia mais »

O uso de nootrópicos no mundo acadêmico e suas implicações éticas

Artigo desenvolvido para o curso “Bioética, Filosofía y Biotecnología: Las voces de la Naturaleza”, da Dirección de Postgrado do Centro de Biotecnología da Universidad de Concepción.

 

A relação do homem com a tecnologia é uma das questões mais fundamentais desse início de século. O recente avanço de áreas como a neurociência, a nanotecnologia, a ciência da computação, a biotecnologia e a robótica, retira do nosso horizonte qualquer possibilidade de encontrarmos um limite para o desenvolvimento de tecnologias. Promessas como as de aumento de longevidade, de melhora na qualidade de vida e de um futuro qualitativamente melhor, ingenuamente acompanham o seu desenvolvimento. Entretanto, essas promessas podem, pelo contrário, trazer problemas muito maiores do que os quais o avanço das tecnologias promete solucionar, na medida em que não temos pleno controle sobre os riscos que novas tecnologias podem trazer à vida humana.

Não foi somente em nosso século que grandes filósofos começaram a perceber os efeitos que novas tecnologias podem causar no âmbito social, biológico, moral, político e etc. Como nos alerta João de Fernandes Teixeira, “O triunfo da tecnologia nem sempre é o triunfo da ética e do bem-estar coletivo. Após duas bombas atômicas, no século XX, já deveríamos ter aprendido essa lição”. (TEIXEIRA, 2015, p. 151). Isto posto, neste início de século no qual estamos, a filosofia reaparece como um campo do saber relevante à vida prática, sobretudo no que diz respeito a reflexões cujas implicações são, com efeito, éticas. Portanto, levando em consideração a imprevisibilidade do avanço das tecnologias, seus efeitos e sua relação direta com a humanidade, assim como a rapidez com a qual elas são desenvolvidas, cabe à filosofia se adaptar às necessidades de nosso tempo e inverter o modo com o qual desenvolve suas reflexões: não podemos mais esperar novas tecnologias tornarem-se atuais e concretas no nosso cotidiano para refletirmos sobre suas implicações, seus efeitos, seus perigos e seus benefícios. Heidegger, no século passado, questionou o valor da tecnologia e defendeu que ela poderia levar à destruição da humanidade. De minha parte, não sou tão radical. De modo mais sutil e cauteloso, sem entrar nessa discussão de Heidegger e sem me posicionar precipitadamente contra as tecnologias em geral, defendo que devemos dar um passo à frente e refletir sobre que pode estar por vir, antes de novas tecnologias serem absorvidas em nossas vidas, para evitarmos consequências irreversíveis. “Hoje em dia”, nos alerta João Teixeira, “a aparição de novos produtos tecnológicos precede a nossa capacidade de poder pensar neles e refletir sobre suas consequências, o que leva a uma inversão histórica” (TEIXEIRA, 2015, p. 18): a de termos que refletir, na ética, sobre o que ainda não aconteceu, isto é, especulações sobre implicações decorrentes do que pode, ou não, acontecer.Leia mais »

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho e a filosofia

A dificuldade em explicar um conceito abstrato e estranho à linguagem comum está no fato de não ser fácil estabelecer uma ligação possível de traduzi-lo para uma linguagem conhecida e acessível que possa criar as relações necessárias para que o seu interlocutor entenda tal conceito. Muitas vezes por mais que a clareza nas palavras e a calma na explicação contribuam para a comunicação, os aspectos gerais e abstratos de conceitos filosóficos tornam sua explicação definitivamente um desafio.

Nesse momento, os exemplos e as representações aparecem como os maiores aliados da explicação. Na medida em que um bom exemplo consiga demonstrar um conceito por uma de suas múltiplas facetas particulares e, na medida do possível, concretas, tomando elementos do cotidiano do interlocutor como pano de fundo, a comunicação e a explicação dão um grande passo em direção ao seu entendimento.

Ao assistir ao filme Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, achei um exemplo particular, com um pano de fundo ideal, para explicar um conceito muito abstrato da filosofia da mente: os qualia. Ainda que esse seja um filme que possa nos proporcionar inúmeras situações férteis à reflexão filosófica, voltarei a minha análise para um ponto muito específico através do qual será possível apresentar e explicitar esse conceito filosófico. Para poder levar a efeito essa explicação, será preciso primeiramente apresentar, de modo geral, o enredo do filme.Leia mais »

A robossexualidade para ser pensada hoje

Temos que sempre ter em mente que a ética não é um código de conduta pronto e acabado, com o qual deparamos ao nascer, para seguirmos durante toda a vida. Esse campo da filosofia, apesar de trabalhar com questões com as quais o homem deparou desde o berço da nossa civilização ocidental no mundo grego antigo, precisa lidar com questões novas que surgem no dia-a-dia.

Se se tratasse de apenas um código de ética pronto e acabado, seria impossível lidarmos com novas questões e novos dilemas que surgem com as contradições entre o moralmente aceito pela sociedade e o novo: não poderíamos jamais aceitar o novo. Para podermos desenvolver-nos enquanto sociedade e lidar com novas perspectivas de enxergar o mundo que surgem com o próprio desenvolvimento da sociedade, necessitamos da ética para refletir e pensar em soluções para os conflitos morais decorrentes desse encontro de águas entre o moralmente bom e o moralmente novo.

Novas questões e novas contradições morais podem trazer à ética novos modelos e novas reflexões, a fim de adequar à sociedade e ao nosso modo de vida essas novas situações. Para ficar mais claro, pensemos na internet. A conduta nas redes sociais, a comunicação virtual e as relações interpessoais que decorrem dessa nova realidade apareceram como um novo modelo de relação interpessoal, cuja introdução no modelo moral vigente no final do século passado gerou — e ainda gera — grandes contradições. Precisamos refletir, então, por exemplo, sobre a maneira pela qual utilizamos esses novos modelos e como interagimos com ele a partir do nosso paradigma moral. Apesar disso, contradições são inevitáveis e com isso surgem choques éticos.

No século XIX o grande choque ético foi a adequação da população negra, após séculos de escravidão e subjugação, no mundo predominantemente branco ocidental. Em parte do século XX a questão da posição da mulher na sociedade tornou-se um dos maiores dilemas com os quais a ética se voltou para pensar em novas perspectivas e abordagens. Agora, na contemporaneidade, no nosso tempo mais presente, no final do século XX e começo do XXI, a homossexualidade parece ser o que está gerando as grandes contradições éticas com as quais devemos lidar nos dias de hoje, sobretudo após a controvérsia na qual estivemos inseridos nas últimas semanas, decorrente da aprovação do casamento gay pelo governo americano. A história, e do mesmo modo a filosofia e a ética, não são lineares e não são tão simplificadas como estou tentando fazê-las parecerem ser. Essas questões são inconstantes e correlacionadas, variando de acordo com o lugar e sendo retomadas com o tempo, na medida em que ainda não estão solucionadas. Essas contradições éticas devem ser pensadas e, na medida do possível, resolvidas, sem se perderem de vista umas às outras, uma vez que todas são importantíssimas para a nossa sociedade.

Para pensar no hoje e no amanhã, se a homossexualidade é talvez o grande tabu ético da contemporaneidade, em parte por conta de implicações sociais e sobretudo religiosas, que desembocam em homofobia, a robossexualidade, de modo similar, poderá ser o grande tabu ético de um futuro próximo — mais próximo do que se imagina.Leia mais »

Neuro-hedonismo: uma ética para o séc. XXI

A neurociência e a psicologia como fundamentação para o neuro-hedonismo como proposta ética: o prazer e os neurônios

 

Introdução

 

Em um de seus artigos mais famosos, a primeira coisa que Thomas Nagel afirma é que “a consciência é o que torna o problema mente-corpo realmente intratável”. Na medida em que meu objetivo é usar a relação cérebro-corpo-ambiente, para fundamentar uma proposta ética, parece que não precisarei mexer no nó da consciência. Ao invés de desatá-lo, cortarei ele da minha investigação antes de começá-la. Tratar da consciência posta-se como uma necessidade da filosofia da mente e da ciência em nosso tempo, de modo a esclarecer o funcionamento de nosso cérebro e sua relação com a subjetividade e a moral. Negar a importância desse problema é um contrassenso que atrapalha o desenvolvimento das investigações sobre o mental e o cerebral. Apesar disso, não faz parte da proposta do presente texto elucidar a relação entre corpo e mente através da explicitação da condição física ou metafísica da consciência, ou até mesmo de sua exclusão por completo. Construo meu texto ciente de possíveis acusações de uma visão reducionista e sei que o problema da consciência continua posto de qualquer forma.

O argumento central do presente texto gira em torno da ideia de que a autoconsciência da estrutura neuronal e relação eletroquímica do cérebro com ele mesmo, assim como da relação psicossocial com o ambiente, isto é, uma característica superorganismal possibilitada pelos neurônios espelho, pode fundamentar uma espécie de neo-hedonismo como proposta ética para vivermos melhor: o que chamo de neuro-hedonismo. Para estruturar essa argumentação, levando em consideração o caráter expresso desse artigo, faz-se necessário a apresentação pontual do hedonismo, da estrutura neuronal do cérebro e seu funcionamento, dos neurônios espelho e suas implicações, da relação psicossocial que decorre do funcionamento dessa estrutura neuroquímica, da minha proposta ética possibilitada pelo caráter superorganismal de nossa espécie — efeito dos neurônios espelho —, fundamentado na evolução de nossa própria espécie, da plasticidade neuronal e possíveis consequências positivas do neuro-hedonismo frente a condições psíquicas como a depressão e outros problemas psicossociais contemporâneos. Em suma, fundamento uma proposta ética na neurociência e na psicologia para possibilitar uma nova perspectiva de bem viver em nosso mundo contemporâneo.

A apresentação dessa fundamentação extrapola os limites da filosofia, ao visar uma interdisciplinaridade capaz de estabelecer um diálogo entre cérebro, corpo, interação social e moral. Como consequência dessa proposta, a apresentação da fundamentação parece fazer-se mais inteligível através de uma divisão clara entre esses diversos campos do saber. O desenvolvimento do texto será dividido em cinco partes explicativas, cada qual apresentando uma faceta dessa estrutura, e uma conclusão defendendo o neuro-hedonismo como proposta ética. O desenvolvimento das cinco partes explicativas divide-se da seguinte forma: 1) em um primeiro momento, serão apresentados o funcionamento cerebral no que diz respeito à estrutura eletroquímica neuronal, que proporciona um diálogo entre cérebro, corpo e ambiente e a neuroplasticidade; 2) após estruturar, de forma expressa, um esboço inicial sobre a relação neurológica do cérebro e suas consequências, será desenvolvida uma rápida apresentação dos neurônios espelho e a consequente ligação que eles proporcionam entre o cérebro e o ambiente; 3) a partir do funcionamento dos neurônios espelho e da estrutura psicossocial do cérebro, a validação social será apresentada como psíquico e quimicamente necessária para o nosso desenvolvimento; 4) nesta etapa, como conclusão das três etapas anteriores, a saber, estrutura eletroquímica cerebral, neurônios espelho, plasticidade neuronal, validação social e a relação neurológica e psicoquímica entre cérebro-corpo-ambiente, a ideia da autoconsciência dessas estruturas será apresentada como sendo grandemente enriquecedora para a nossa experiência de vida; 5) após a fundamentação neurocientífica e comportamental, será finalmente definido filosoficamente, de forma sucinta, o que é hedonismo, dialogando com releituras contemporâneas do hedonismo grego e apresentando sua ligação com Epicuro, John Stuart Mill e Michel Onfray. Por fim, após o desenvolvimento explicativo da fundamentação, no último momento do artigo será feita uma conclusão ao se estabelecer filosoficamente o neuro-hedonismo como proposta ética válida para os dias de hoje, fundamentada na autoconsciência do funcionamento neurológico do nosso cérebro e em sua relação psicossocial com o ambiente.

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