A arte como efetivação da liberdade

Texto publicado na edição Nº67, de outubro de 2015, Amor, Memória e Arte, da Revista Pandora Brasil, ISSN 2175-3318.

 

O mundo da arte é um vasto oceano da beleza. Nessas águas, encontram-se as mais profundas sensações e sentimentos. Não se trata, portanto, de uma beleza vazia e opaca: a arte não é enfeite, como diria o professor e filósofo Paulo Monteiro de Araújo. Pelo contrário, essa vastidão está repleta de cores, luzes e sombras; palavras, versos e notas; timbres e movimento; dramatização e pensar. Isto posto, a arte não se restringe a somente um tipo de linguagem, como a das cores e imagens, mas de uma multiplicidade e modos de ser de arte. Assim, não podemos pensá-la somente de modo imagético, dado que, se restringíssemos a arte a isso, onde estaria o espaço da poesia enquanto arte, sem poder encantar com cores, sem vida, sem flores, sem campos?

Hegel percebeu este pequeno detalhe, cujo resultado em seu pensamento não poderia ser tomado como insignificante. A arte não pode ser imitação da natureza, dado que a imitação da natureza parte do pressuposto que a arte deve ser fundamentalmente imagética, a fim de reproduzir a natureza. Pelo contrário, a arte pressupõe linguagem, portanto necessariamente pressupõe racionalidade. Seu desenvolvimento, portanto, está no âmbito racional. Não há uma dissociação entre razão e sensação, mas sim uma confluência que nos permite pensar para além de representações, entrar em seu movimento racional, para, através da imaginação, podermos experienciar as mais sublimes experiências estéticas. É isso o que possibilita despertar em nós o que temos de mais espiritual.

Não foi só Hegel, contudo, que refletiu sobre arte. Muitos outros filósofos nos deram a possibilidade de pensar sobre o alcance dessa atividade tão sublime do espírito. Platão nos apontou para um fato importante: a arte pode ter um papel fundamental na formação, para construir a nossa espiritualidade e o que temos de mais excelente: os nossos valores humanos. Aristóteles, por sua vez, demonstrou a importância de perceber que, mesmo que a arte estabeleça um discurso ficcional, usando atores ou representações que não dizem respeito à realidade, ela tem seu valor enquanto linguagem artística. Kant, não menos brilhante que esses dois, apontou para o fato de que a representação da beleza não pode ser constrangida a nós, isto é, ninguém pode impor a nós a experiência estética da beleza e dizer “isso é belo e ponto final”, mas, pelo contrário, nós temos a necessidade de submeter os objetos aos nossos próprios olhos, para, através da imaginação e da reflexão, entrarmos no movimento subjetivo da satisfação pela beleza. Essa satisfação é desinteressada, livre e sem finalidade. Hegel, seu sucessor nas reflexões sobre a arte, dividiu com Kant a importância de um ponto fundamental na experiência da beleza: a liberdade. A diferença em relação a Kant é que Hegel atribuiu essa plena liberdade tão somente à arte, ao artista que concretiza, através da criação das obras de arte, a plena liberdade de seu espírito.Leia mais »

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Hegel e o fundamento para a fotografia enquanto arte

Artigo publicado na edição Nº67, de outubro de 2015, Amor, Memória e Arte, da Revista Pandora Brasil, ISSN 2175-3318.

 

A estética hegeliana foi talvez o empreendimento mais sistemático, ousado e completo já feito sobre a filosofia da arte e história da arte. Hegel teve um conhecimento vastíssimo sobre cada arte em particular. Marc Jimenez alertou-nos de que “não é possível resumir mil e duzentas páginas de um curso de estética, reconstruído com bastante fidelidade a partir de notas de estudantes”[1]. Mas, para começar, por que filosofia da arte e não filosofia da sensibilidade em geral? Hegel enuncia logo na abertura de sua Estética que “a pior das ideias que perpasse pelo espírito de um homem é melhor e mais elevada do que uma grandiosa produção da natureza — justamente porque essa ideia participa do espírito, porque o espírito é superior ao natural[2]”. Diferente de Kant, Hegel eliminará qualquer possibilidade de experiência estética da beleza na natureza, restringindo-a à dimensão artística; além de considerar o Belo como objetivo e ideal, totalmente na contramão do pensamento de Kant. Para que tudo isso faça sentido, precisamos esclarecer alguns conceitos do pensamento sistemático hegeliano, visto que, assim como Platão, suas concepções sobre a arte e sobre a estética formam um elo necessário com o conjunto de sua filosofia.Leia mais »

Kant e o problema da “fotografia” na experiência estética

Artigo publicado na edição Nº67, de outubro de 2015, Amor, Memória e Arte, da Revista Pandora Brasil, ISSN 2175-3318.

 

A autonomia do juízo de gosto puro pelo belo, devido a sua total liberdade em relação tanto à dimensão do conhecimento quanto à dimensão da moral, permite-nos tratar sobre o problema da fotografia enquanto arte, sem termos que, como em Platão, levar em consideração a teoria do conhecimento kantiana, muito menos sua teoria moral. Estaremos, neste artigo, imersos nas águas da imaginação e da subjetividade: a dimensão estética.

Entretanto, devemos apontar para um conceito decisivo para a estética kantiana, ainda dependente de um pano de fundo desenvolvido em sua filosofia crítica como um todo: os a priori. Grosso modo, a filosofia crítica de Kant desenvolve-se em uma espécie de tripé: a dimensão do conhecimento, a dimensão do dever e a dimensão das sensações e juízos. A primeira é desenvolvida no que costumamos chamar de filosofia teórica; a segunda, por sua vez, na filosofia prática; a terceira — a que nos interessa — na teleologia. Na medida em que nessas investigações Kant busca demonstrar formalmente a possibilidade efetiva dessas três dimensões na racionalidade humana, parte-se do pressuposto que suas asserções sejam válidas para todos os indivíduos. Deste modo, suas formulações precisam fundamentar-se sobre princípios universais, os princípios a priori. Esses princípios são anteriores à dimensão da experiência, que se encontra submetida à causalidade da natureza.Leia mais »

Platão e a “fotografia” como produtora de simulacros

Artigo publicado na edição Nº67, de outubro de 2015, Amor, Memória e Arte, da Revista Pandora Brasil, ISSN 2175-3318.

 

Introdução

 

A fotografia, em nosso tempo — a “era da internet” —, é uma das dimensões mais fundamentais nas interações interpessoais, tendo um papel central, enquanto linguagem, na comunicação através da internet. Na medida em que as plataformas nas quais ocorrem as interações sociais através da internet limitam a efetividade da utilização da escrita, a fotografia parece reinar soberana no espaço virtual, cuja interação, ao fim e ao cabo, acaba tomando boa parte de nosso tempo. Como demonstrou recentemente a seção Graphic detail, dos infográficos da revista The Economist, este ano marcará a primeira vez que consumidores de mídias globalmente vão gastar mais tempo na internet do que assistindo televisão.

Talvez seja por isso que, dado à sua proximidade a nós em nosso dia-a-dia, perdemos a dimensão de que a fotografia não é exclusivamente um meio de comunicação. Ao voltarmo-nos à fotografia, afastando-nos suficientemente dela a fim de podermos atentar a aspectos com os quais não costumamos deparar diariamente, podemos perceber que a fotografia possui outras dimensões. Dentre elas, a fotografia possui uma dimensão artística. Será que a fotografia também pode ser considerada como arte? Para responder a essa pergunta, teremos que, de certo modo, estabelecer firmemente um caminho pelo qual será necessário percorrer para que possamos refletir rigorosamente sobre o que é arte em nosso tempo, para compreendermos se há espaço para a fotografia na arte contemporânea.

Quando pensamos no que é arte, temos que levar em consideração as reflexões desenvolvidas sobre o papel da arte e sua relação com as dimensões da sensibilidade, da imaginação e das sensações, ao longo do desenvolvimento da nossa cultura. Esta é fundamentalmente eurocêntrica, tendo suas origens remontando ao mundo grego antigo. Deste modo, faz-se necessário fazer um recorte central, apresentando as características da arte em seu desenvolvimento histórico e sua relação com a cultura, assim como voltar aos fundamentos do pensamento sobre a arte, que remete às raízes do nosso pensamento.

Através de três artigos, passaremos por três pensadores fundamentais na reflexão sobre a sensibilidade e suas relações com a arte e com a história, tal como sobre a relação entre o complexo de sensações e a razão: Platão, Kant e Hegel. Levaremos a efeito um exercício de interpretação que, através de uma espécie de experimento mental, possamos imaginar as considerações desses filósofos quanto à fotografia, partindo de dentro de seus sistemas, sobretudo de seus fundamentos filosóficos referentes à arte e à sensibilidade.

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Fotografia: diálogo entre o belo de Hegel e o sublime de Kant?

Não tenho o menor problema em confessar que, até ontem, não havia olhado para a fotografia enquanto uma possibilidade de manifestação artística e de experiência estética. Talvez pelo fato de estar inserido em um mundo no qual as fotografias, parte constitutiva do fazer humano contemporâneo, estão tão próximas de nós que não temos o distanciamento oportuno para o estranhamento necessário a qualquer reflexão filosófica.

Foi somente ontem, então, ao entrar em contato com o trabalho profissional de uma fotógrafa talentosíssima*, que tive o espanto e o maravilhamento frente às fotografias que desencadearam toda uma reflexão sobre o belo, sobre a possibilidade da fotografia enquanto manifestação artística e experiência estética, assim como sobre um possível diálogo, em dois pontos inconciliáveis, das estéticas de Kant e de Hegel.

Já aviso de antemão que apenas esbarrarei levemente em Kant e em Hegel, pelo bem da clareza e inteligibilidade dessa reflexão. Falar sobre os dois é uma atividade inesgotável; portanto para este artigo, cabe somente um ponto pequeno e específico da reflexão sobre o belo nesses dois filósofos. Vamos tentar entender em que ponto essas duas estéticas são inconciliáveis para podermos refletir sobre a fotografia enquanto possibilidade de, ao mesmo tempo, desvelar o belo e postar-nos frente ao sublime.Leia mais »

A Estética na contemporaneidade

Muitos pensam que pensar estética é simplesmente pensar no que é belo, arbitrariamente e de forma imediata, sem nenhuma reflexão. Apesar disso, pensar em estética, sobretudo nos dias de hoje, é pensar em imaginação, em sensibilidade, em sensações, e em sua ligação com a razão, com a moral, com a cultura, com a sociedade, e etc. Trata-se de uma dimensão da nossa existência, através da qual nos relacionamos com o mundo e com a vida.

Desse pensamento, contudo, surgem problemas, com os quais precisamos deparar. Problemas como “será que as pessoas são dotadas de uma espécie de senso comum estético, pelo qual podemos comunicar o gosto estético e torná-lo objetivo?”, “será que há autonomia para que tenhamos liberdade de julgar esteticamente uma coisa?”, ou ainda “podemos racionalmente julgar algo belo?”, e, provavelmente, as mais importantes na contemporaneidade, “o que é arte?” e “arte para quê?”. Para isso, precisamos da estética, como campo do conhecimento, para levar a efeito uma investigação que trabalhe essas questões, proporcionando-nos mais clareza e consciência de elementos constitutivos de nossa vida, como as obras de arte e manifestações culturais.

Kathrin Rosenfield, uma estudiosa com ênfase em Estética e Literatura, desenvolveu o livro Estética, da coleção Passo-a-Passo Filosofia, da editora Zahar, como uma apresentação sintética dos problemas contemporâneos da estética, com ênfase no pensamento de Kant e Hegel, os dois pilares da fundamentação filosófica da estética como campo do conhecimento. Neste pequeno livro, a autora faz uma breve passagem pelo desenvolvimento do pensamento sobre o belo na antiguidade até a fundamentação da estética autônoma com Kant e posteriormente da filosofia da arte com Hegel, finalizando-o com os desdobramentos desse pensamento sistemático até a contemporaneidade.Leia mais »

O engessamento do espírito e o Cristo gay

Parece que o homem finalmente chegou a um período em que a tecnologia está prestes a resolver todos os problemas do dia-a-dia. A instrumentalidade da razão permite à ciência adentrar campos previamente imaginados apenas na ficção científica. Não precisamos nos preocupar com pensar em resolver pequenos problemas com os quais deparamos em nossa rotina, dado que há centenas de ferramentas e tecnologias que os resolvem. Problema? Google: lá está a resposta, com dezenas de empresas especializadas para cada pequeno problema quotidiano.

Uma consequência aparentemente irreversível desse desenvolvimento desmedido da racionalidade técnica é a gradual supressão da necessidade de levar a efeito o exercício do espírito por excelência: a reflexão. Originalmente ela seria necessária para pensar em soluções para as contradições de nossas vidas, mesmo as mais banais. Não precisamos pensar em resolver os problemas, já que a seguradora, a administração do condomínio, o telejornal, o pastor, a autoajuda, e uma infinidade de tecnologias já têm esse papel.

Com efeito, a perda da sensibilidade e da capacidade reflexiva torna-nos cada vez mais robotizados e cada vez menos humanos. A imaginação, ferramenta importantíssima à razão, a qual, de certo modo, possibilitou avançarmos até onde chegamos, lentamente perde seu propósito. A arte, no andar dessa carruagem, por estarmos perdendo a capacidade de trabalhá-la com a razão e a sensibilidade, tende a tornar-se ferramenta de manipulação, uma vez que a arte ou se transforma em enfeite ou se transforma em produto.

Como sintoma desse cenário, a representação do indivíduo homossexual crucificado na última Parada Gay em São Paulo torna-se alvo de uma cruzada contra a racionalidade. Por que será que tal representação despertou tanta fúria e agressividade, em praticamente todos os setores da população? Para evitarmos a falha de lidar tão somente com a particularidade e concretude de uma representação, precisamos entender como lidar com todas as representações.Leia mais »