Para uma tradução crítica da República de Platão à língua portuguesa

Toward a Critical Translation of Plato’s Republic into Portuguese

  

Resumo: Este texto busca estabelecer uma discussão que permita nortear a tradução crítica da República de Platão para a língua portuguesa por meio de critérios que, levando em consideração os problemas textuais decorrentes das incompatibilidades entre as diversas versões canônicas dos manuscritos, papiros e comentários acerca da República, fundem-se na prevalência da inteligibilidade da tradução e no sentido que esta dará à leitura do texto em língua portuguesa sobre qualquer outro critério; ademais, tal inteligibilidade e sentido possuiriam por padrão de medida antes o contexto filosófico e a escrita platônica do que uma cega aplicação das regras gramaticais do Grego Ático. Trata-se, portanto, de uma proposta metodológica de tradução crítica da República de Platão para a língua portuguesa pelo que chamo de “critério semântico”. Para justificar, por um lado, a necessidade de uma tradução crítica e, por outro, a razão de tal proposta, sumarizaremos a história do texto da República e a história de sua tradição textual, a fim de que possamos posteriormente demonstrar a necessidade de aplicação dessa metodologia por meio de dois problemas no Livro III, a fim de ser possível traduzi-lo criticamente. Terei por referência o trabalho de Gerard Boter (1989), Siem Slings (2005) e Rodolfo Lopes (2018). 

Palavras-chave: Platão; República; Tradução; Livro III.

Abstract: This text seeks to establish a discussion that may guide the critical translation of Plato’s Republic into Portuguese through criteria that, given the textual problems resulting from the incompatibilities among the multiple canonical versions of manuscripts, papyri and commentaries concerning the Republic, are based on the supremacy of the intelligibility of the translation and on the meaning that this translation may yield to the reading of the text in Portuguese above any other criteria; moreover, this intelligibility and meaning would have the philosophical context of the text and Plato’s writings as the main parameter, not a blind and hard adherence to the rules of Attic Greek. Therefore, it is a methodological proposal of the critical translation of Plato’s Republic into Portuguese through what I call “semantic criteria”. To justify the need of a critical translation, on one hand, and the reason for such proposal on the other, we will sum the history of the text of the Republic and the history of its textual tradition, so that we may demonstrate the need of the application of this methodology through two problems of Book III, in order to translate it critically. I’ll be following the works of Gerard Boter (1989), Siem Slings (2005), and Rodolfo Lopes (2018).

Keywords: Plato; Republic; Translation; Book III.

  

1 Introdução

 

Por meio da presente discussão visamos apresentar uma proposta metodológica para ser utilizada como ferramenta à tradução crítica da República de Platão pela primazia do “critério semântico”. Em primeiro lugar, precisamos ter em vista a configuração histórica da República, desde sua escrita possivelmente no começo do IV século a.C. até o tempo presente, de modo a trazer à luz as dificuldades imanentes tanto à edição, por um lado, quanto à tradução deste texto para a língua portuguesa, por outro, inseridas no leito de inúmeras versões reproduzidas e preservadas por incontáveis mãos ao longo de mais de 25 séculos, que desaguaram no toque cuidadoso de críticos textuais, munidos de ferramentas com as quais os antigos não puderam contar, hoje nossas maiores armas para realizar uma tradução crítica, desenvolvidas e levadas a efeito sobretudo nos últimos dois séculos. Em seguida, em estreita relação com essas questões, também se deve levar em consideração o fato de que, diferentemente de um trabalho que se reduz somente à edição crítica do texto da República — essencial a uma boa tradução —, cuja preocupação fundamentalmente está em tão somente fixar uma versão grega que mais se aproxime da possível configuração original do texto concebido por Platão, a tradução crítica desse texto tem por objetivo, por sua vez, além de sua fixação, sobretudo a construção coerente, coesa e rigorosa de um sentido inteligível de tal texto platônico em língua portuguesa. Isto posto, para realizar uma tradução que leve em consideração essas questões imprescindíveis a qualquer trabalho sério diante da obra platônica em questão, será preciso enfrentar os problemas textuais que surgem da divergência entre as diversas fontes que restaram acerca da maior expressão da escrita grega. Por isso, acreditamos que essa metodologia possa elucidar o trabalho de tradução crítica da República e, por isso, demonstraremos como podemos lidar com a existência desses problemas textuais ao longo de sua tradução, por meio de dois exemplos pontuais presentes no Livro III. Todo nosso percurso será à luz dos trabalhos de Gerard Boter, Siem Slings e Rodolfo Lopes.

  

2 De Atenas aos mosteiros medievais: a construção de uma República

 

Não há um consenso de exatamente quando e como a República foi escrita. Sabe-se, contudo, que foi em Atenas, pelo que podemos depreender do que os contemporâneos de Platão diziam dele, a saber, Platão como um membro da aristocracia ateniense, cuja vida teria sido vivida nesta cidade e cuja obra teria sido desenvolvida no contexto do que se denomina pensamento grego; e também sabemos que foi no século IV, na medida em igualmente nos chegou dessas fontes que foi este o período em que teria vivido Platão. Apesar disso, para efeito dos objetivos de nossa discussão, o trato minucioso de tais problemas, embora importantes à historiografia antiga, extrapolam nosso propósito. Assim, partindo do pressuposto que simplesmente foi concebida por Platão no século IV a.C., podemos afirmar que esse texto provavelmente foi lido na Atenas do Período Clássico pelos membros do universo espiritual helênico e, como podemos encontrar ao longo dos séculos nos trabalhos de filósofos a começar por Aristóteles, permaneceu no imaginário da reflexão filosófica ao longo da antiguidade. Entretanto, pelos comentários feitos à República ainda na antiguidade, pode-se supor que os leitores da antiguidade tardia tinham acesso somente a uma parte do atual texto completo da República. Deste modo, não se sabe exatamente onde estaria o manuscrito original, visto que o manuscrito mais atual da República é do século IX de nossa era, estando mais próximo de nós no tempo do que do próprio Platão.

Nas mãos dos cuidadosos monges copistas medievais, o texto da República, assim como quase tudo de que dispomos acerca da antiguidade, foi preservado ao longo de muitos séculos. Acontece que, obviamente, incontáveis cópias foram realizadas ao longo desse tempo para garanti-la, principalmente durante a Idade Média. Não seria surpreendente que, em meio a tantas cópias e reproduções, alterações surgissem nos textos, causando divergências entre os diferentes manuscritos arquetípicos tomados por base pelos monges copistas, em diferentes mosteiros ao longo dos muitos séculos de medievo. Em muitas ocasiões, os próprios monges buscaram sanar os pretensos erros com os quais deparavam, suscitando mais alterações, divergências e obscuridades nos próprios manuscritos, herdando a nós as famosas notas, comentários e sugestões feitas nas margens, entrelinhas e às vezes no próprio texto dos manuscritos. Até o Renascimento, a República repousou nas mãos divinas da Igreja.

Poderia parecer exagerado dizer que este texto passou por 1000 anos numa jornada em meio a batinas, crucifixos e preces de piedosos monges copistas, eventualmente carregando em suas páginas o cascalho que se soltava do fundo desses mosteiros durante esse percurso milenar. De modo algum exagerado, contudo, seria afirmar que hoje encontramo-nos num cenário desolador para todos aqueles que visam encontrar o “verdadeiro” texto da República. Afinal, há dezenas de manuscritos, papiros, comentários e referências a este texto; além de alterações, notas e mudanças feitas por monges em muitos deles.

Antes de buscar tal “verdadeiro” texto, para que possamos traduzir a República criticamente temos de nos contentar, por outro lado, com buscar estabelecer a versão mais razoável possível, de modo a enfrentar as dezenas de problemas textuais que existem nos pontos conflitantes entre esses documentos, dando prevalência àqueles manuscritos considerados os mais canônicos, de acordo com critérios de análise filológica das famílias de manuscritos existentes da República feitos pela crítica textual bem posterior ao período monástico.

  

3 Das edições renascentistas à crítica textual: a supremacia de A, D, F e M

  

Após o Renascimento, com as turbulências em Constantinopla devido às investidas otomanas, os primeiros intelectuais refugiados nas cidades italianas introduziram as obras platônicas na Europa pós-medieval. Eles passaram a ensinar grego e formar os intelectuais de Florência, Veneza e Milão. Com isso, após a invenção da imprensa móvel, surgiram as primeiras versões do texto da República traduzidas para o latim. Stephanus foi o primeiro a editar uma versão bilíngue, em grego e latim. De acordo com Rodolfo Lopes (2018, p. 3), essa versão, tradicionalmente a “vulgata de Platão”, era uma coleção de cotejos das edições impressas no período, totalmente fora do que hoje teríamos por padrão de uma edição crítica.

Boter (1989), em seu trabalho sobre a história da tradição textual da República, nos ajuda a reconstruir o caminho que este texto percorreu até as edições críticas do século XX e XXI. Schneider, no começo do século XIX, faz uma excelente edição crítica da República, com muitas referências a edições e editores consagrados, além de ter cuidado com questões filológicas fundamentais. Entretanto, ele é relutante em admitir conjecturas, a tal ponto que as possíveis correções, aceitas pela maioria, não são feitas, mas registadas em seu aparatus criticus; além de fornecer injustificadamente novas siglas para todos os manuscritos. A edição de Schneider não se torna uma referência justamente pelo fato de ele relutar em adotar leituras de manuscritos interpolados. Assim, pode-se dizer que suas leituras são somente conjecturas infundadas. Em sua versão, o manuscrito “A” tornou-se a principal e única autoridade nas referências ao texto grego de República. Foram utilizados manuscritos diferentes de “A” somente nos momentos de necessidade de emendar, por meio de conjecturas, os casos de erros incontestáveis do manuscrito “A”.

Com Jowett e Campbell, na virada do século XIX para o XX, há o início de um novo período de crítica textual da República, com o fato de ser aceita a autoridade de outros manuscritos, além do “A”, como também o “B”. Embora ambos tragam muitas contribuições para a prática da crítica textual, eles não aceitam as fontes indiretas como material fiel para sua crítica textual. Campbell é muito cético quanto a conjecturas e defende que jamais se deve tomar uma conjectura em preferência à tradição. Também na virada do século, Adam passa a aceitar a autoridade do manuscrito “D”, além de recorrer em alguns casos a apographa, quando na tradição direta todos os manuscritos estão errados, embora também seja cético quanto às conjecturas.

Burnet, responsável pela nossa versão paradigmática do corpus platonicum em geral e, com isso, também da República, reconhece os manuscritos “A”, “D” e “M” como as testemunhas principais do texto, além de adicionar “F”, importada da edição de Schneider. No entanto, a aceitação de “F” e sua relação com “D” tornou-se problemática e polêmica, levando a muita discussão entre os editores da República. No entanto, além da grande contribuição de considerar “F” como autoridade, sua maior inovação é fazer um grande uso da tradição indireta em seu aparatus criticus. Ele também é menos conservador do que seus predecessores quanto à conjectura na crítica textual.

Após Burnet os grandes trabalhos da crítica textual, sobretudo trabalhos que pudessem proporcionar mudanças de paradigma assim como o seu o fizera, foram muito mais modestos, apesar de que estudos sobre manuscritos foram desenvolvidos, em relação aos manuscritos “M”, “D” e “F”. Ainda de acordo com Boter, atualmente não há mais unanimidade do que na época de Campbell, Adam e Burnet, no que diz respeito ao valor dos manuscritos secundários (M, D e F). A opinião predominante, mesmo que ainda haja debate, é a de que a transmissão da República é boa em comparação com incontáveis fontes fragmentadas dos demais antigos.

Somente dois manuscritos são geralmente reconhecidos como testemunhas primárias (A e D), enquanto que para os outros dois não há unanimidade (F e M); alguns manuscritos são completamente desconhecidos, sem haver estudos sistemáticos do valor dos manuscritos secundários.

  

4 A aplicação da metodologia proposta no seio dessa configuração histórico-filológica

 

Com a configuração de “A”, “D”, “F” e “M” como possíveis candidatos a manuscritos primários, de acordo com Rodolfo Lopes (2018, p. 4), Boter demonstra que

“(1) M deriva de A, tendo em conta que M incorpora a quase totalidade das correções inseridas em A por copistas posteriores (BOTER, 1989, pp. 113-116); que ADF constituem famílias independentes (BOTER, 1989, pp. 65-80), sendo que (1) A segue linea recta até à Antiguidade (pela elevada percentagem de (1) concordâncias com a tradição indirecta e de (2) corrupções derivadas de erros na conversão das unciais antigas, característica própria dos arquétipos antigos), que (2) DF têm a mesma fonte, mas diferente da de A (pela elevada percentagem de erros em DF não presentes em A) e que (3) DF, apesar de terem a mesma fonte, constituem famílias diferentes (pelo facto de cada um deles demonstrar uma contaminação completamente independente do outro). Em suma, a conclusão principal da classificação dos manuscritos por Boter demonstra que ADF (1) são as fontes primárias (todos os outros manuscritos derivam de um destes); (2) podem ser reconduzidos ao mesmo arquétipo (bem posterior a Platão); (3) são, em todo o caso, independentes uns dos outros”.

Isso significa que parece bastante razoável levar em consideração os manuscritos “A”, “D” e “F” como os principais manuscritos primários do texto da República, como base para buscar solucionar os eventuais problemas textuais no processo de tradução desta obra. Estes problemas, no entanto, de acordo com nossa proposta de critério semântico, são considerados efetivamente problemas textuais somente quando e se interferirem na inteligibilidade e sentido do texto em sua tradução, dado que é a tradução crítica para a língua portuguesa que está em causa aqui, não a simples edição do texto grego.

Veremos agora como essa proposta metodológica serve de ferramenta para lidarmos com os problemas textuais na tradução crítica do texto da República.

 

401e4-5- Em meio à análise das artes das musas, no programa de estabelecimento dos estudos indispensáveis aos guardiões (e, ao mesmo tempo, dos que devem ser proibidos), Sócrates chega à conclusão de que a educação pelas artes das musas, na verdadeira atividade de ritmo e harmonia, quando feita do modo correto, é a melhor forma de nutrir a alma.

[Sócrates] [401δ] ἆρ᾽ οὖν, ἦν δ᾽ ἐγώ, ὦ Γλαύκων, τούτων ἕνεκα κυριωτάτη ἐν μουσικῇ τροφή, ὅτι μάλιστα καταδύεται εἰς τὸ ἐντὸς τῆς ψυχῆς ὅ τε ῥυθμὸς καὶ ἁρμονία, καὶ ἐρρωμενέστατα ἅπτεται αὐτῆς φέροντα τὴν εὐσχημοσύνην, καὶ ποιεῖ εὐσχήμονα, [401ε] ἐάν τις ὀρθῶς τραφῇ, εἰ δὲ μή, τοὐναντίον; καὶ ὅτι αὖ τῶν παραλειπομένων καὶ μὴ καλῶς δημιουργηθέντων ἢ μὴ καλῶς φύντων ὀξύτατ᾽ ἂν αἰσθάνοιτο ὁ ἐκεῖ τραφεὶς ὡς ἔδει, καὶ ὀρθῶς δὴ δυσχεραίνων τὰ μὲν καλὰ ἐπαινοῖ [καὶ χαίρων καὶ ADF] καταδεχόμενος εἰς τὴν ψυχὴν τρέφοιτ᾽ ἂν ἀπ᾽ αὐτῶν καὶ [402α] γίγνοιτο καλός τε κἀγαθός, τὰ δ᾽ αἰσχρὰ ψέγοι τ᾽ ἂν ὀρθῶς καὶ μισοῖ ἔτι νέος ὤν, πρὶν λόγον δυνατὸς εἶναι λαβεῖν, ἐλθόντος δὲ τοῦ λόγου ἀσπάζοιτ᾽ ἂν αὐτὸν γνωρίζων δι᾽ οἰκειότητα μάλιστα ὁ οὕτω τραφείς;

ADF: Então, Gláucon, disse eu, de acordo com isso, a nutrição pela educação nas artes das musas não é a melhor, sobretudo porque mergulha fundo na alma o ritmo e a harmonia, fixa nela a melhor saúde e deixa-a carregada de graça? Em outras palavras, caso um homem nutra a alma corretamente por meio dessa educação nas artes das musas, elas não fariam a alma tornar-se graciosa, ocorrendo o contrário se ele não o fizer corretamente? Além disso, se o homem fosse nutrido nessas artes, não teria percepção afiada da omissão e da falta de beleza no que é grosseiro e precário, suportando isso do modo mais correto e não elogiaria as coisas belas, também se alegrando com elas e recebendo-as na alma, tal que se nutriria delas e se tornaria belo e bom? Por outro lado, não condenaria o que é feio e também corretamente odiaria isso, mesmo ainda jovem antes de ser capaz de raciocinar? Mas quando da vinda da razão o homem nutrido nessas artes não a receberia de braços abertos, reconhecendo-a sobretudo por ela ser familiar?

  

Pelo fato da proposta metodológica para tradução crítica aqui apresentada fundar-se de modo último no critério semântico, a saber, na inteligibilidade e sentido da tradução para a língua portuguesa, de acordo antes com o contexto filosófico e a escrita platônica do que a um recurso cego à gramática grega, esse problema textual, acusado por Slings (2005, pp. 49, 50) em seu estudo crítica do texto da República como uma interpolação, para nós não se apresenta como um problema textual, haja vista que o texto tal como aparece em “ADF” permite que tenhamos uma tradução coerente, coesa e gramaticalmente rigorosa, atendendo ao sentido filosófico e à escrita platônica da passagem.

“καὶ χαίρων καὶ”, de acordo com Slings, não pode ser aceito nessa passagem, por ser “uma falta de stylistic feeling” numa discussão em que Sócrates debate questões de harmonia e ritmo por meio de “sentenças longas, bem equilibradas e notavelmente regulares” (2005, p. 49). Ele invoca o sentido filosófico do texto (2005, p. 50), ao dizer que os jovens, por não terem a razão bem desenvolvida (ἔτι νέος ὤν, πρὶν λόγον δυνατὸς εἶναι λαβεῖν), não podem serem cientes do alvo da educação correta em μουσική, que será posteriormente no texto i) ser responsável por não amolecer o θυμοειδές dos guerreiros e permitir que estes sejam corajosos e tenham bravura, além de fortalecer seu θυμοειδές contra as constantes investidas de seu ἐπιθυμητικόν. Acontece que parece que a tradução de Slings levou-o a uma interpretação diferente da nossa, resultante de nossa tradução para a língua portuguesa. Nossa tradução busca manter a inteligibilidade e sentido do texto, sem quebrar regras gramaticais gregas e, mais importante, sem extrapolar o sentido filosófico do texto. Voltemo-nos a ela e atentemos ao momento pontual em que aparece “καὶ χαίρων καὶ” no texto.

καὶ ὅτι αὖ τῶν παραλειπομένων καὶ μὴ καλῶς δημιουργηθέντων ἢ μὴ καλῶς φύντων ὀξύτατ᾽ ἂν αἰσθάνοιτο ὁ ἐκεῖ τραφεὶς ὡς ἔδει, καὶ ὀρθῶς δὴ δυσχεραίνων τὰ μὲν καλὰ ἐπαινοῖ καὶ χαίρων καὶ καταδεχόμενος εἰς τὴν ψυχὴν τρέφοιτ᾽ ἂν ἀπ᾽ αὐτῶν καὶ [402α] γίγνοιτο καλός τε κἀγαθός

Além disso, se o homem fosse nutrido nessas artes, não teria percepção afiada da omissão e da falta de beleza no que é grosseiro e precário, suportando isso do modo mais correto e não elogiaria as coisas belas, também se alegrando com elas e recebendo-as na alma, tal que se nutriria delas e se tornaria belo e bom?

Aqui as “τὰ καλὰ” são o objeto da ação do “ὁ ἐκεῖ τραφεὶς” que está logo acima, que é literalmente “o [homem] ali nutrido”, que decidimos traduzir por “o homem [fosse][1] nutrido [nessas artes][2]”. Deste modo, os particípios “χαίρων καὶ καταδεχόμενος” estão qualificando (na medida em que sintaticamente o particípio funciona como adjetivo) o substantivo “oculto” do artigo ὁ, que configura o sujeito “ὁ ἐκεῖ τραφεὶς” (portanto qualificam “homem”). Com efeito, o jovem invocado por Slings, que aqui seria o sujeito do artigo “ὁ”, no caso, está se “alegrando”[3] com o mesmo objeto de “derramando”[4]: as coisas belas[5]. Isso configura uma derivação possível para a língua portuguesa da construção sintática grega.

Também consideramos essa possibilidade como filosoficamente aceitável. Na mesma passagem, Platão utiliza “μὴ καλῶς δημιουργηθέντων ἢ μὴ καλῶς φύντων”[6]. Evidentemente, a tradução esconde o sentido filosófico dessa passagem, cujas construções “μὴ καλῶς δημιουργηθέντων”[7] e “μὴ καλῶς φύντων”[8] demonstram um contraste ontológico entre as “τὰ μὲν καλὰ” — que são as “misturas”, ou as “coisas sensíveis” que estão misturadas no Ser e no não-ser na dimensão da multiplicidade, e tornam-se belas justamente por participarem em maior grau com as Formas, sobretudo com a Forma do Belo, que confere medida e proporção às coisas — e as “τὰ δ᾽ αἰσχρὰ”[9], aparecendo logo em seguida, como eco de “μὴ καλῶς δημιουργηθέντων ἢ μὴ καλῶς φύντων”. A partir dessa leitura, não seria absurdo interpretar a passagem de modo a afirmar que o jovem pode alegrar-se com o que é belo mesmo sem ser capaz de raciocinar, dado que as coisas belas independentemente de sua posição ontológica e epistemológica também são aprazíveis nos Diálogos. Slings, assim, supôs que a razão desse “alegrar-se” era a atividade cognitiva (gnosiológica) em relação às coisas belas, em vez de, por outra interpretação possível, ser uma atividade sensitiva[10] (estética).

  

411a5-b2- Nesse momento, logo após o do problema passado, está em causa um uso incorreto da μουσική e as consequências de tal atividade para a formação dos guardiões: ela os tornaria covardes.

[Sócrates] [411α] οὐκοῦν ὅταν μέν τις μουσικῇ παρέχῃ [καταυλεῖν ADF || καταντλε ν Ph. Gu.] καὶ καταχεῖν τῆς ψυχῆς διὰ τῶν ὤτων ὥσπερ διὰ χώνης ἃς νυνδὴ ἡμεῖς ἐλέγομεν τὰς γλυκείας τε καὶ μαλακὰς καὶ θρηνώδεις ἁρμονίας, καὶ μινυρίζων τε καὶ γεγανωμένος ὑπὸ τῆς ᾠδῆς διατελῇ τὸν βίον ὅλον, οὗτος τὸ μὲν πρῶτον, εἴ τι θυμοειδὲς εἶχεν, ὥσπερ σίδηρον ἐμάλαξεν καὶ χρήσιμον [411β] ἐξ ἀχρήστου καὶ σκληροῦ ἐποίησεν: ὅταν δ᾽ [ἐπέχων ADF || ἐπιχέων C. Morgenstern] μὴ ἀνιῇ ἀλλὰ κηλῇ, τὸ δὴ μετὰ τοῦτο ἤδη τήκει καὶ λείβει, ἕως ἂν ἐκτήξῃ τὸν θυμὸν καὶ ἐκτέμῃ ὥσπερ νεῦρα ἐκ τῆς ψυχῆς καὶ ποιήσῃ ‘μαλθακὸν αἰχμητήν.’

ADF: Portanto, sempre que um homem às artes das musas permite encantá-lo com a flauta e derramar pelos ouvidos da alma como se derramasse por um funil aquela harmonia doce e macia como um canto fúnebre, como agora mesmo nós falávamos, e continuasse a vida toda sob o glamour das músicas[11] lamuriosas, em primeiro lugar, se tivesse algum ímpeto, amoleceria como se derrete ferro, de inútil e duro ele o torna proveitoso; então se realmente continuar sem remorso nesse encantamento, depois disso já terá derretido alma e a derramado, até derreter o espírito[12] como se arrancasse os tendões da alma, fazendo dele um “guerreiro amolecido”.

Morgenstern: Portanto, sempre que um homem às artes das musas permite encantá-lo com a flauta e derramar pelos ouvidos da alma como se derramasse por um funil aquela harmonia doce e macia como um canto fúnebre, como agora mesmo nós falávamos, e continuasse a vida toda sob o glamour das músicas lamuriosas, em primeiro lugar, se tivesse algum ímpeto, amoleceria como se derrete ferro, de inútil e duro ele o torna proveitoso; então se realmente [a atividade que não é correta/o mau uso da μουσική] salpicar sem remorso esse encantamento, depois disso já terá derretido alma e a derramado, até derreter o espírito como se arrancasse os tendões da alma, fazendo dele um “guerreiro amolecido”.

  

Novamente temos um caso em que não há problema textual no que diz respeito à inteligibilidade e sentido da tradução, de acordo tanto com o sentido filosófico do texto quanto às regras gramaticais. Aqui Slings (1989, pp. 51, 52) recorre à conjectura de um crítico contemporâneo, C. Morgenstern, contra os manuscritos A, D e F, pelo fato de estilisticamente os paralelos feitos entre as palavras usadas por Platão no parágrafo (como nos citados em nossas notas de rodapé) necessitariam uma palavra cujo final fosse –χεον, como se Platão fosse um poeta a la Homero e concebesse os Diálogos de modo a atender a regras métricas da poesia antiga. Nesse caso, não é preciso nem buscar construir uma refutação ao argumento de Slings, dado que ele parece ser completamente excludente às exigências de nossos critérios. Com efeito, na medida em que nosso critério último é semântico e, além disso, consideramos os manuscritos “ADF” como centrais, o sentido filosófico e os textos platônicos como importante e a gramática como indispensável, não podemos concordar com qualquer argumento que seja, por mais razoável que pareça, que defenda introduzir “salpicar”, ou “pour over” numa tradução no lugar de “continuar”[13].

  

5 Conclusão

 

Embora indispensável para que seja possível fazer uma tradução crítica da República, a edição crítica desvinculada de uma tradução crítica, cujos critérios seriam antes sintáticos e filológicos do que semânticos, não parece ser o caminho adequado para a reconstrução em língua portuguesa do sentido rico de uma das maiores obras do pensamento ocidental. Para vertê-la ao nosso idioma, de modo a manter o sentido filosófico do autor, o rigor na tradução e uma inteligibilidade expressa e explícita, parece ser mais razoável nos munirmos das armas metodológicas apresentadas aqui para enfrentarmos os desafios dos problemas textuais com os quais inevitavelmente teremos de lutar ao longo desse processo. A tradução é sempre um trabalho criativo: apesar de respeitar a sintaxe do texto original, muitas vezes será preciso buscar saídas engenhosas que também levem em consideração o sentido filosófico do texto e o autor em questão. Igualmente nos parece que uma tradução crítica requer, sobretudo, levar em consideração a autoridade dos manuscritos “ADF”, para ser possível encarar de frente os problemas textuais e buscar saídas razoáveis para solucioná-los. Essas saídas, tendo em vista que o trabalho de tradução nos remete à nossa língua, precisam, antes de mais nada, sem pôr em cheque a sintaxe grega e o sentido filosófico do texto, ter como fim sua compreensão: a inteligibilidade e sentido — nosso critério semântico.

  

6 Notas

  

[1] Esse “fosse” transmite a marca do subjuntivo em português, ecoando a sintaxe grega na qual a estrutura é regida pela partícula grega “ἄν” que modifica os verbos em optativo na passagem. Foi uma saída para encaixar o sujeito “ὁ ἐκεῖ τραφεὶς” com o verbo “αἰσθάνοιτο” e seus respectivos objetos, de modo a respeitar a sintaxe grega sem afetar a semântica em língua portuguesa.

[2] Novamente retomei o objeto da “nutrição” que está em causa na passagem, claramente “as artes das musas”, para proporcionar uma melhor inteligibilidade, numa passagem cuja construção sintática no grego antigo, estruturada numa sucessão de orações subordinadas sem ponto final que configuram uma longa e única questão de Sócrates aos presentes, dificultariam a compreensão do leitor contemporâneo.

[3]  χαίρων.

[4] καταδεχόμενος.

[5] τὰ μὲν καλὰ.

[6] Traduzido aqui como “da omissão e da falta de beleza no que é grosseiro e precário”.

[7] Literalmente, “μὴ καλῶς δημιουργηθέντων” como o resultado do trabalho de uma técnica feito sem beleza, portanto um artefato sem beleza, uma “cópia não em medida e proporção do real” (οἱ δημιουργοὶ νῦν οὐ τὰς οὔσας συμμετρίας ἀλλὰ τὰς δοξούσας εἶναι καλὰς τοῖς εἰδώλοις ἐναπεργάζονται, Sofista, 235 d 7-236 c 4).

[8] Também ao pé da letra, “μὴ καλῶς φύντων” como uma coisa gerada naturalmente sem beleza, ou seja, “que carece de medida e proporção, fadada a desfazer-se e destruir a si mesma, não sendo uma mistura, mas uma bagunça de coisas juntas”; afinal, “no devir medida e proporção estão em toda parte lado a lado com a beleza e a virtude” (ὅτι μέτρου καὶ τῆς συμμέτρου φύσεως μὴ τυχοῦσα ἡτισοῦν καὶ ὁπωσοῦν σύγκρασις πᾶσα ἐξ ἀνάγκης ἀπόλλυσι τά τε κεραννύμενα καὶ πρώτην αὑτήν || μετριότης γὰρ καὶ συμμετρία κάλλος δήπου καὶ ἀρετὴ πανταχοῦ συμβαίνει γίγνεσθαι, Filebo 64 d 8-10; 64 e 5-6).

[9] As coisas dignas de censura, que não são produzidas pelos δημιουργοί belamente de acordo com o modelo, a saber, com medida e proporção real, num reflexo do trabalho do Demiurgo do Timeu, mas sendo simulacros, metáfora para referir-se às produções dos poetas, que não são δημιουργοί, mas que também, de algum modo, são produtores que deveriam basear sua ποιήσις no modelo real, que ao não o fazerem contribuem para que os guerreiros tornem-se covardes.

[10] Talvez não tenha sido por acaso a escolha de Platão para o verbo que precede o “χαίρων” na passagem, em contraste com a relação do jovem com as “τὰ καλὰ”, que então havia feito a mesma relação com o que é “grosseiro” e “precário”: αἰσθάνοιτο.

[11] Um jogo de palavras entre as artes das musas (μουσική, mousiké, ou artes “musicais”) e metáforas sonoras (“derramar pelos ouvidos”, “canto fúnebre”, “músicas lamuriosas”). Parte desse jogo de palavras também inevitavelmente se perde com a tradução.

[12] “τὸν θυμὸν”, ou “a região do ímpeto”, mais para frente apresentada na divisão da alma no livro seguinte como o θυμοειδές. Platão faz esse jogo de palavras entre um vocabulário da arte do ferreiro, no sentido de amolecer o ferro e derretê-lo até derramá-lo, num eco do derramar pelos ouvidos o uso impróprio da arte musical. Amolecer “ímpeto/braveza” até derretê-los e derramá-los para fora da alma. Ou seja, perseverar nesse caráter impróprio dessa atividade remove da alma parte fundamental, responsável por garantir a supremacia do λογιστικόν ao επιθυμήτικον. Infelizmente a tradução também remove esse caráter filosófico de mais um jogo de palavras platônico na passagem.

[13] Em nossa tradução, optamos por usar a construção de modo a traduzir “ἐπέχων” (que tem sentido de parar, fechar, cessar), pelo oposto disso. Ou seja, “não parar de ser encantado” = “continuar no encantamento”.

  

7 Referências

 

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