A felicidade, desesperadamente

Felicidade! Talvez o maior ideal de nosso tempo, ela tornou-se uma espécie de meta irrevogável: ser feliz é obrigação. Na medida em que passamos boa parte do tempo nas redes sociais, parece haver uma espécie de culto à felicidade que decorre dela: não podemos retratar a nós mesmos de outro modo que não seja do modo feliz, caso contrário estaremos às margens do quotidiano desse novo modo de vida do século XXI.

Ainda assim, isso configura tão somente uma aparência de felicidade, haja vista que é somente necessário parecer feliz, em vez de, efetivamente, sê-lo. Tornamo-nos espectadores de nossas próprias vidas através do que retratamos pelas redes sociais e, com isso, frustramo-nos ao não sermos capazes de identificar, em nossas próprias vidas, essa tal felicidade retratada artificialmente, da qual supostamente gozávamos. Esperamos ser felizes quando, na verdade, somos infelizes na maioria das vezes ou não conseguimos ser felizes constantemente.

De fato, esse cenário dá à luz um problema psicossocial – e, de certo modo, filosófico –, já que essa configuração social tece uma linha muito tênue entre ser feliz e parecer feliz. Esperamos ser felizes constantemente enquanto, efetivamente, não o somos. Com efeito, precisamos definir com mais cuidado o que seria felicidade, uma vez que esse tipo específico sobre o qual estamos falando até então está mais próximo da ilusão do que da verdade: uma aparência de felicidade.

André Comte-Sponville, um filósofo contemporâneo, em seu livro A felicidade, desesperadamente, faz uma reflexão muito sólida sobre questões fundamentais à nossa compreensão desse problema, tais como o que é verdadeiramente ser feliz, o que é essa aparência de felicidade, quais são as razões de nossa infelicidade, assim como desenvolve uma solução para esse cenário, a “felicidade, desesperadamente”, a partir de uma crítica ao modo com o qual atualmente lidamos com a felicidade.

Em sua introdução, Sponville estabelece um pequeno esboço sobre essa aparência de felicidade. Ora, antes de mais nada, é evidente que há uma espécie de felicidade na ilusão, na aparência de felicidade. Não se pode negar que é possível ter instantes de euforia caso usemos drogas, caso estejamos imersos na mentira, no entretenimento, na pura diversão. Entretanto, a felicidade verdadeira, como o próprio termo indica, faz corpo com a verdade: trata-se de uma verdadeira felicidade ou uma felicidade verdadeira. Essa felicidade verdadeira é aquela que desde o mundo grego antigo era confundida com a sabedoria. É uma felicidade lúcida. Sponville invoca Agostinho para apresentá-la como “a alegria que nasce da verdade”, a beatitude, que é uma vida verdadeiramente feliz. Aquela vida que, apesar das instabilidades e contingências, apesar das dores e do sofrimento, proporciona a possibilidade de mantermos uma vida feliz, mesmo entre todas essas turbulências da vida. Essa felicidade contrasta com aquelas pequenas felicidades, que são sempre ilusórias e fugazes: os breves relâmpagos de felicidade.

É possível ser feliz fora da sabedoria? É evidente que sim. Contudo, seria uma felicidade acidental e aparente: ilusão e entretenimento, numa felicidade não-consciente. É a felicidade da qual não gozaríamos conscientemente. Essa felicidade não-consciente, fora da sabedoria, seria uma espécie de felicidade por acaso, cujas razões ignoramos. Caso venhamos a perdê-la, nem ao menos saberemos como recuperá-la, dado que essa não é uma felicidade na sabedoria, no conhecimento, no saber. Por que não seria possível recuperá-la? Porque precisamos necessariamente saber o que buscamos para alcançarmos tal: gosto de usar o exemplo dos legumes – se buscarmos legumes e não soubermos o que são legumes, de onde eles vêm, como são gerados, e etc., se ignorarmos o que eles são e suas causas, se não tivermos esse saber, em regra vamos acabar conseguindo qualquer outra coisa, como verduras, em vez de legumes. Seria um grande acaso do universo, uma grande coincidência e acidente, caso, nesse contexto, ainda assim e apesar da total ignorância, conseguíssemos adquirir legumes. Agora, saindo dos legumes e voltando para a felicidade, aconteceria o mesmo: se não for a felicidade no saber, a felicidade na verdade, essa que se confunde com a sabedoria, não saberemos o que estamos buscando e vamos acabar com outra coisa na mão, como com frustração, infelicidade, ou uma aparência de felicidade.

Por isso, a felicidade sobre a qual Sponville reflete em seu livro, a meta dessa proposta desenvolvida por ele, é uma felicidade na verdade. Essa felicidade é a meta da filosofia. Eis as razões para o filosofar: ser feliz, ou melhor, ser mais feliz. E ele deixa claro: a felicidade é a meta da filosofia, não a norma. O que isso quer dizer? Quer dizer que se a norma fosse a felicidade, poderíamos pensar qualquer ideia feliz que estaríamos filosofando. Ora, isso não é filosofia, mas uma autoajuda barata. A norma da filosofia precisa necessariamente ser a verdade: pensamos algo filosoficamente por ser verdadeiro, não por ser feliz. A consequência disso? “A alegria que nasce da verdade”, a meta do filosofar.

Com efeito, se o que importa mesmo é a felicidade, por que a sabedoria é necessária? Quem disse que precisamos de sabedoria? Segundo Sponville, a sabedoria é necessária porque somos infelizes quando tudo vai mais ou menos bem.

Em momentos de catástrofe, de doenças, de pobreza ou de situações nas quais precisamos lutar por sobrevivência, a sabedoria não tem a menor relevância: quando temos fome, quando temos aviões destruindo nossas casas, filosofar soa ridículo. Todas essas situações fogem de nosso controle: não podemos, por nossas próprias forças, parar uma guerra – pelo menos de modo não-metafórico seria impossível. Nesses casos, é muito mais fundamental sobreviver do que filosofar.

Por outro lado, há momentos em que tudo vai muito bem: temos um bom emprego, uma boa família, um bom marido ou esposa, bons filhos, um bom carro, amigos, estudamos em uma boa universidade, gozamos de boa saúde. Tudo é favorável para que sejamos extremamente felizes. Mas acontece que, na verdade, ainda assim somos frequentemente infelizes. O que falta nesses momentos? Evidentemente, falta felicidade. Mas, antes disso, falta um elemento fundamental para que seja possível ser verdadeiramente feliz: segundo Sponville, falta sabedoria. Enquanto os antigos estoicos e epicuristas defendiam que deveríamos ser felizes mesmo nos momentos de catástrofe – a ataraxia, a impertubabilidade da alma e a total indiferença para com os problemas do mundo –, Sponville propõe algo muito mais simples, uma espécie de felicidade do dia-a-dia: a felicidade quando tudo vai mais ou menos bem, a “sabedoria da vida cotidiana”.

A razão dessa infelicidade nos momentos em que tudo vai mais ou menos bem, segundo Sponville, é a existência de uma falsa forma de felicidade: o desejo de felicidade. Todo homem deseja ser feliz. Todavia, esse desejo é frustrado. Por que é frustrado? Segundo ele, o problema está na forma desse desejo: somos herdeiros do modelo platônico de desejo, aquele Platão do diálogo O Banquete, no qual o amor é “o desejo do que nos falta, do que não temos, do que não somos, do que está para além de nós, do que nos transcende, da perfeição ideal”. Se desejarmos o que nos falta, é impossível sermos felizes. Uma vez que o desejo é falta e a falta é sofrimento, se queremos o que não temos, vamos sofrer e vamos ser infelizes. Logo, não somos felizes porque desejamos o que não temos e não desejamos o que temos: esse desejo é falta e a felicidade é perdida.

A forma de desejarmos o que não temos pode ser explicada da seguinte maneira: se desejamos o que não temos, assim que o possuirmos não mais o desejaremos, visto que nosso desejo passará a outra falta. Nunca seremos felizes porque quando não temos, desejamos; quando temos, entediamo-nos. Esse estado faz a vida oscilar do sofrimento ao tédio: sofro por desejar o que não tenho e entedio-me por ter o que já não mais desejo. Isto é, “como seria feliz se…”: quando adquirimos aquilo almejado pelo desejo, não mais desejamos tal coisa. Trata-se da ausência da felicidade no momento em que ela era esperada. Há frustação ou decepção tanto quando o desejo não é satisfeito quanto quando ele o é.

De acordo com André Comte-Sponville, essas são as armadilhas da esperança. Ele demonstra que não é possível esperar o que temos. Podemos ter esperança de ter algo que nos falta, mas jamais podemos ter esperança de ter algo que já temos. O desejo pelo que falta é sinônimo de esperança. Deste modo, se esperarmos felicidade, a decepção será garantida.

Qual é a solução para esse ciclo da esperança, na qual vivemos ora no sofrimento e ora no tédio? Segundo Sponville, é a felicidade em ato: o prazer e a alegria de querer o que fazemos e fazer o que queremos. Para ele, entre, por um lado, a felicidade esperada (que é um fim) e, por outro, o sofrimento ou tédio há a alegria e o prazer (como meio). Há prazer e alegria quando fazemos o oposto da esperança. Há prazer, há alegria, quando desejamos o que temos, o que fazemos, o que podemos, o que sabemos, quando desejamos o que é: há prazer e alegria quando desejamos o que não falta!

Mas isso está muito confuso. Quando desejo uma coisa, espero tal coisa. O desejo, então, não seria a mesma coisa que esperança? Para Sponvile, não. Ele defende que o erro está em confundir desejo com esperança. Há uma confusão entre ambos. O desejo seria um gênero, enquanto a esperança seria uma espécie pertencente a esse gênero. Apesar de eles estarem ligados, desejo e esperança são, por conseguinte, duas coisas distintas. Além disso, embora a esperança seja uma forma de desejo, este último é comumente reduzido àquela primeira de forma equivocada.

Para evidenciar essa diferença entre esperança e desejo, Sponvile estabelece uma definição de esperança, a partir de algumas características fundamentais, de modo que seja levada a efeito uma demarcação clara e distinta entre os dois. Em primeiro lugar, ele demonstra que o desejo é a causa eficiente das ações, enquanto a esperança diz respeito tão somente à causa final. Em outras palavras, embora quem espere deseje somente o que diz respeito ao fim das coisas, por exemplo, o corredor a chegada, o soldado a vitória, eles precisam de uma causa eficiente, de algo que os ponha em movimento e os faça agir, nesse caso, de um impulso que os leve aos meios necessários para alcançar tanto a chegada quanto a vitória: o desejo pelo ato.

Em seguida, ele apresenta as características mais fundamentais da esperança. A primeira: esperar é desejar sem gozar. Essa primeira característica diz respeito à separação do desejo de seu objeto. Eu desejo muito possuir um celular novo. No entanto, quando eu efetivamente o obtenho, já não mais o desejo, dado que há um outro celular mais novo ainda, um novo laptop, um novo tablet, todos igualmente desejados por sua falta. A esperança é uma espécie de desejo cujo objeto está separado: o desejo a que falta seu objeto. Se não houver a falta, não há desejo: há tédio. Já me cansei do celular novo que desejava e agora possuo. Desejo uma coisa, mas essa coisa sempre será o que não tenho. Se adquirir, já não mais desejo.

A segunda: esperar é um desejo que ignora se foi ou se será satisfeito – desejar sem saber. Por um lado, quando sabemos perfeitamente que acontecerá, nenhuma esperança é possível. Por outro, quando não sabemos se algo ocorreu ou ocorrerá, há esperança. “Eu não faço a mínima ideia de como conseguirei passar de ano, e, mesmo assim, não estou estudando como deveria, mas espero passar!” Além disso, mesmo quando o objeto esperado está no passado, no caso de não sabermos se algo aconteceu de fato ou não – e esperarmos que ou tenha acontecido ou não –, a regra continua a mesma: se não soubermos se aconteceu ou não, esperaremos; se tivermos o conhecimento, a esperança cessa. “Será que meus filhos descobriram que eu esqueci de arrumar o quarto deles ontem? Espero que não!” Em outras palavras, enquanto, de um lado, o objeto do conhecimento é conhecido, o da esperança, de outro, sempre desconhecido.

No entanto, ao invés, quando desejamos algo no futuro que, embora desconhecido, esteja em nosso alcance realizar e dependa somente de nós para ser feito, esse desejo é objeto da vontade e não da esperança. Trata-se, consequentemente, daquilo que podemos fazer. “Desejo ser um bom profissional. Para tal, devo fazer X, Y, e Z. Portanto, farei”. Assim, fazemos. Em outros termos, a vontade é um desejo cuja satisfação depende somente de nós. Você quer ser uma boa pessoa? Então haja de modo a fazer o certo. Quando alcançar o objeto desejado está em nosso alcance, não precisamos jamais esperar: basta agir! A vontade diz respeito ao querer, não ao esperar. Quando espero, não ajo; quando quero, ajo. Não é possível desejar aquilo do qual sabemos sermos capazes de realizar. Essa distinção possibilita a definição de vontade como desejar aquilo cuja satisfação é possível de ser realizada por nós. Enquanto, por um lado, a realização do objeto da esperança nunca depende de nós, a realização da vontade, por sua vez, depende de nós. A esperança é para os impotentes: a vontade, para potência!

Isso permite Sponville apresentar a terceira característica da esperança: um desejo cuja satisfação não depende de nós. Sempre esperamos o que somos incapazes de fazer. Essa impotência e incapacidade leva a uma aposta pela realização do objeto da esperança, que, na maioria das vezes, é uma aposta frustrada. Deste modo, esperar é apostar no incerto, desejar sem poder, inação, estar impotente.

Dessas três características é possível definir a esperança como um desejo cujo objeto é o que não temos, cuja realização ignoramos se será satisfeita e cuja realização não depende de nós: a esperança é um desejo que se refere à falta, à ignorância e à impotência. De esperar decorre frustração, ignorância e inação. Assim, o prazer, o conhecimento e a ação não tem nada a ver com a esperança e são, inclusive, excludentes.

Segundo Sponvile, podemos fazer o contrário de desejar sem gozar. Em primeiro lugar, podemos desejar gozando, desejar aquilo que temos, sem precisar sempre buscar a falta. Muitas vezes somos ingratos com nossa boa saúde, com nosso bom cargo profissional, com nossa boa família… Podemos também fazer o contrário de desejar sem saber: podemos conhecer. Para aqueles que amam a verdade, como o sábio, desejar conhecer é um meio de evitar desejar o que não sabemos. Para que se contentar com a crença, quando podemos investigar o mundo e desvendar as causas, as razões e as finalidades das coisas?! Podemos, por fim, fazer o contrário de desejar sem poder: podemos fazer. Arregaçar as mangas e buscar aplicar toda nossa potência para realizar nossos sonhos. Precisamos desejar aquilo que podemos, aquilo que está em nosso alcance de realizar. Não é deixar de sonhar, mas é focar no que depende somente de nosso poder para ser realizado e, assim, caminhar degrau por degrau, ultrapassar uma ponte de cada vez, e, se for preciso, com as próprias forças construir novas pontes, que encurtem a distância entre nossos sonhos e nós. Isso significa que desejaremos aquilo que podemos fazer e, portanto, teremos a causa eficiente, a força motriz necessária, para agirmos de modo a realizarmos o que podemos. Na dimensão do desejo, poder é sinônimo de fazer: se eu posso, então eu faço!

Esse é o momento em que ele apresenta a sua tese do desespero: não esperar nada. Desespero é empregado com o sentido de não esperar, no sentido de viver sem esperança. Trata-se de um sentido literal, no sentido estrito do termo: sem esperar. Essa palavra exprime uma dureza, a da dificuldade de ser levada a efeito, a de ser um processo através do qual um indivíduo gradativamente perde a esperança e aprende a ser feliz desesperadamente. O sábio não espera absolutamente nada. Na medida em que o sábio é plenamente feliz, não lhe falta nada. Por conseguinte, ele não espera ter nada. É a isso que devemos tender: à desesperança.

É evidente que a sabedoria é um ideal e que não vamos virar sábios. A proposta não é transformar-se em Sócrates. Sócrates, inclusive, é um modelo de sábio. E, assim, jamais seremos sábios, jamais teremos sabedoria, jamais seremos Sócrates. Contudo, podemos tender à sabedoria. É a meta para a qual podemos caminhar, mas na qual jamais poderemos estar. Quanto mais sabedoria e mais desespero, mais constantemente seremos felizes.

Para buscar corrigir a definição de amor herdada do platonismo d’O Banquete, aquela de amar o que não se tem, o que não se sabe e não pode, o “desejo da falta”, Sponville desenvolve uma nova definição de amor: amor como potência – desejar e aproveitar o que se tem em potencial. Esse amor, já que não é falta, é o ato de alegrar-se com o que se tem em potência. Por um lado, esse amor é feliz porque ele goza de seu objeto, por isso é necessário amar aquilo que se tem. Por outro, a felicidade é amor quando ela se regozija. Esse é o amor verdadeiro, a beatitude.

Essa é a solução final para o fim do ciclo da esperança, o fim da vida infeliz que ora está no sofrimento, ora no tédio: a tese da felicidade, desesperadamente! Essa é a única felicidade que não nos escapa. Essa felicidade não nos escapa porque é o conhecimento do que é, a vontade do que podemos e o amor do que acontece. Ela depende somente de nós mesmos. Por isso, temos que viver de modo a conhecer, a querer e a amar. Temos que aprender a desejar o que depende de nós: amar, querer e agir. Assim não desejaremos a falta, não esperaremos o que não depende de nós e nem amaremos o que é ilusório.

Segundo Sponville, trata-se de aprender a pensar, a querer e a amar. Seria impossível que imediatamente se deixasse de esperar, dado que toda vez que houver desejo e ignorância, desejo e impotência e desejo e falta, haverá esperança. Não podemos da noite para o dia deixar de esperar completamente. Nem em dez dias, nem em dez anos, haja vista que não é possível remover a esperança, amputá-la da vida de uma vez ou por completa. Para deixar de esperar, é preciso aprender a pensar, a querer e a amar. Por isso é preciso desenvolver o conhecimento, a ação e o amor. Portanto: conhecer mais, agir mais e amar mais. Ele reforça: não se trata de impedir-se de esperar nem de esperar o desespero, visto que assim apenas trocaríamos o objeto da esperança: antes esperávamos a felicidade, agora a sabedoria ou o desespero. Pelo contrário, trata-se de crer menos e conhecer mais, esperar menos e agir mais, esperar menos e amar mais.

Depois de aventurarmo-nos através da obra de André Comte-Sponville, vemos que realmente somos infelizes: porque esperamos muito mais do que sabemos, esperamos muito mais do que agimos e esperamos muito mais do que amamos. Infelizmente se levarmos a efeito uma vida que gira em torno da realização de um culto à própria imagem, vamos acabar confundindo a vida com uma imagem de vida, o real com uma aparência de real. Assim, vamos somente desejar o ilusório, vamos desejar aquilo que não é real, vamos desejar o que não temos. E ficar no ciclo sem fim do pêndulo da vida infeliz: do sofrimento ao tédio, do tédio ao sofrimento! E, se tiver sorte, com lapsos acidentais de aparência de felicidade, breves instantes de euforia: possíveis no entretenimento e na ilusão.

Talvez da grande reflexão que fizemos não decorre que devemos deixar de utilizar redes sociais, não significa que devemos deixar de fotografar os grandes momentos da vida, ou negar uma das dimensões sociais mais fundamentais de nosso tempo. Mas, por sua vez, de aprender a viver mais esses momentos. Aprender a pensar melhor. Aprender a conhecer mais a vida, a nós mesmos, conhecer o mundo. A aparência de felicidade é daquele gênero acidental, por acaso. Podemos aqui e agora, no presente que temos, construir uma felicidade muito mais verdadeira: aquela que é desesperadamente! Aprender a identificar toda aparência de felicidade. E acima de tudo isso, aprender a amar aquilo de que gozamos, a querer aquilo que podemos e viver aquilo que é.

 

Indicações de leitura:

COMTE-SPONVILLE, A. A felicidade, desesperadamente. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

_____. Apresentação da Filosofia. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

_____. Tratado do desespero e da beatitude. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

SPINOZA, B de. Ética. Tradução de Grupo de Estudos Espinosanos; coordenação Marilena Chauí. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2015.

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