O que é Fantasia Fantástica?

Artigo publicado na edição Nº74, de setembro de 2016, Fantasia Fantástica e Filosofia, da Revista Pandora Brasil, ISSN 2175-3318.

 

Nas masmorras mais profundas dos desfiladeiros da perdição, nos bosques imortais protegidos pelas dríades filhas da natureza, nos campos de batalha onde legiões de centauros enfrentam-se destemidamente em busca de sangue e glória, nas terras sombrias dos mortos-vivos ou até mesmo no esconderijo dos lobisomens: por detrás de todos esses múltiplos lugares distintos subjaz um elemento comum que lhes confere sua unidade – a fantasia fantástica.

Nessas masmorras encontramos a sutileza de um medo suprimido de modo a possibilitar a vitória da coragem, assim como encontramos nos bosques imortais os desafios de seres que jamais precisaram preocupar-se com a morte – até o instante em que eles vêm a perder sua imortalidade. Nos campos de batalha os confrontos parecem não ter fim, imersos num rio de sangue derramado por lâminas sempre prontas para o combate, uma vez que a busca por supremacia de uma espécie apresenta-se como uma constante entre as mais distintas e únicas formas de vida mágicas. Na mais profunda escuridão, nos vales do limiar da vida, no momento de maior desespero, ainda há vontade de sobrevivência àqueles que amam verdadeiramente a vida.

No entanto, o que faz com que as histórias nas quais essas tramas são desenvolvidas sejam consideradas fantasia fantástica? Dito de outro modo, há uma infinidade de histórias com personagens mágicas, com encantamentos, com lobisomens, até mesmo com mortos-vivos, embora não sejam necessariamente fantasia fantástica. Por isso, precisamos formular uma pergunta fundamental: o que permite que afirmemos de uma narrativa pertencer a este gênero chamado fantasia fantástica? O que é, pois, fantasia fantástica? Em primeiro lugar, temos que esclarecer de modo expresso e explícito o que é tanto, por um lado, Fantasia quanto, por outro, Fantástico, para que possamos definir fantasia fantástica.

Phantasía (φαντασία), no grego antigo clássico, desenvolveu-se enquanto um conceito no seio da filosofia de Platão, no século IV a.C. Ao buscarmos o vocábulo na nona edição do paradigmático Liddell & Scott A Greek–English Lexicon de Oxford, talvez nos enganemos caso fiemo-nos de forma imediata às definições apresentadas: aparência, apresentação, percepção, impressão, imagem. Somente ao recorrermos à filosofia do mestre da Academia podemos compreender a origem do desenvolvimento desse conceito que, dezenas de séculos depois, utilizamos para classificar um gênero de narrativa.

Na língua grega clássica não são poucas as ocasiões nas quais conceitos filosóficos utilizam-se de termos comuns da língua corrente para fundar novos significados. Essa característica da filosofia grega foi legada à tradição filosófica ocidental. No caso de phantasía, o substantivo advém do verbo phantazō (φαντάζω) – “fazer visível” – que, por sua vez, é derivado do verbo phainō (φαίνω) – “brilhar” – que, por fim, surgiu do substantivo pháos (φάος) – luz (sobretudo luz do dia). Para entender essa sopa de letrinhas grega e compreender como Platão utilizou essa palavra, precisamos analisá-las à luz da filosofia de Platão, a fim de compreender seu desenvolvimento enquanto conceito.

Em uma simplificação grosseira da filosofia de Platão, podemos dizer que, para este filósofo, todas as coisas existentes na realidade com as quais temos contato direto através dos sentidos – tudo aquilo que podemos ver –, possuem causas. Isso significa que, para Platão, a existência das coisas que vemos ocorre porque há uma razão para tal: as coisas que vemos existem porque, de algum modo, surgiram de algo. Para este filósofo, elas surgem porque existe substancialmente uma realidade superior, acessível somente através do pensamento, imutável, eterna e necessária, imprescindível para a existência material do mundo. Com efeito, para que as coisas visíveis existam, para que as coisas materiais em geral existam, é necessária a preexistência dessa realidade superior. Dito de outro modo, para que todas as coisas no mundo existam, há necessidade da existência eterna de uma realidade superior, que é invisível. Essas realidades superiores, para Platão, são o que confere a existência, a verdade e a cognoscência (a capacidade de ser conhecido) ao mundo.

Disso decorre que, na medida em que a verdadeira natureza do mundo é invisível, eterna e imutável, acessível somente através do pensamento, para conhecer o mundo precisamos conhecer as causas da realidade, ou seja, precisamos conhecer essas realidades superiores. Deste modo, somente podemos ter acesso à verdade das coisas particulares através de um processo dialético cujo ápice mediatizado é o conhecimento dessas unidades invisíveis. Todo o resto – todas as coisas visíveis e materiais – não existe em sua verdade, mas apenas como aparência da verdade universal e absoluta. Para Platão e para os gregos em geral, somente é visível aquilo que possui luz, dado que mesmo que tenhamos visão e o objeto tenha cores e esteja na frente de nossos olhos, é possível vê-lo tão somente pelo fato de haver luz suficiente nesse instante (hoje facilmente explicaríamos esse fenômeno através da Ótica, explicitando a incidência de fótons em nossos olhos). Portanto, uma coisa torna-se visível (phantazō) tão somente porque há luz (pháos), ou seja, porque brilha (phainō). Essas coisas particulares que aparecem são, assim, aparência de verdade, ilusões comparadas com as realidades superiores invisíveis e universais, que são as únicas substâncias que são verdadeiramente: as coisas que aparecem são, por conseguinte, phantasía.

A tradição ocidental, que é platônica em seu modelo de pensamento, levou adiante este conceito com o sentido conferido por Platão: phantasía é tudo aquilo que não é verdadeiro. Portanto, defino fantasia como uma narrativa que versa sobre o que é verdade tão somente enquanto linguagem artística, em face às narrativas que apresentam a verdade das coisas no mundo natural em geral (i.e., narrativa histórica). Fantasia é, portanto, uma espécie de ficção cujo conteúdo é composto por “coisas que não existem verdadeiramente no mundo natural em geral” e cuja intencionalidade não é descrever fenômenos existentes de tal modo. Nesse conjunto de “coisas que não existem verdadeiramente”, podemos incluir qualquer ser imaginário em geral: animais falantes, extraterrestres, fadas, bruxos, e etc.

Fantástico, por sua vez, apresenta um pouco mais de dificuldade em sua definição, na medida em que, nesse contexto, depreende seu significado da síntese com Fantasia. Por isso, em vez de, agora, desenvolver o conceito de Fantástico e, então, estabelecer uma síntese entre os dois conceitos – a fim de definirmos Fantasia Fantástica –, tomaremos outro caminho possível em nossa estrada em direção à Fantasia Fantástica, de modo que tracemos um percurso pelo qual possamos identificar gêneros de fantasia que não são “Fantástica”. Em outras palavras, desenvolveremos a definição de Fantasia Fantástica através da demarcação deste gênero pela negação dos gêneros de narrativa de fantasia que não são tal gênero, de modo a construir uma definição menos abstrata, por meio de exemplos concretos menos universais.

No gênero de fantasia cujo conteúdo da narrativa apresenta elementos sobrenaturais[1] como resultado da ciência, da técnica e do desenvolvimento científico, chamado Ficção Científica, temos a possibilidade da existência de personagens que são tão phantasía quanto qualquer personagem existente na Fantasia Fantástica. Uma das histórias mais famosas desse gênero é Star Wars. Nessa história, galáxias são desbravadas por uma pletora de seres sobrenaturais, por meio de espaçonaves altamente tecnológicas. Apesar de aparentemente podermos classificar Star Wars como Fantasia Fantástica, não se pode considerar essa fantasia como “Fantástica” devido à razão dos elementos mágicos presentes nesse gênero de narrativa ser resultado do desenvolvimento científico. Disso decorre que não há um elemento mágico como causa última das manifestações sobrenaturais na realidade instaurada neste mundo, local ou espaço no qual se passa o enredo, mas, por sua vez, o desenvolvimento científico e tecnológico é a causa última da possibilidade de instauração de tais realidades.

Isto posto, nada impede que, caso nossa própria sociedade desenvolva os meios científicos e tecnológicos necessários para atingir qualitativamente o desenvolvimento científico presente em tais fantasias, possamos em nossa própria realidade atingir a realidade instaurada nesse tipo de narrativa. Por conseguinte, a Ficção Científica está mais próxima do limiar da Fantasia Realista do que da Fantasia Fantástica.

Há outro gênero cuja demarcação é mais volátil do que a Ficção Científica, haja vista que pode ou não ser classificado como Fantasia Fantástica: o terror. O gênero terror não é uma categoria exclusiva da fantasia, embora haja um gênero de fantasia que possa ser denominado “Terror”. Nesse último, temos o desenvolvimento de narrativas que, por um lado, podem ser consideradas Fantasia Fantástica, enquanto há narrativas que, por outro lado, não podem ser consideradas como tal. Essas narrativas que não são consideradas “Fantástica” são desenvolvidas a partir da possibilidade da existência de seres que, embora sejam fantásticos, têm causas possíveis de acontecer sem o uso de magia: aranhas que são geneticamente modificadas e tentam destruir o mundo; mortos-vivos que surgem através de um vírus qualquer, para agir como zumbis de modo a consumir a vida humana no planeta; espíritos e outros seres cujas causas estão na crença popular comum, e etc.

Novamente, incorremos no mesmo problema com o qual deparamos ao lidar com a Ficção Científica: a possibilidade de o enredo dessas narrativas acontecer efetivamente em nosso mundo natural. Suas causas não são extrínsecas ao nosso mundo natural, pertencentes a uma realidade fundamentalmente mágica e encantada, mas, ao invés, suas causas são intrínsecas ao nosso próprio mundo natural. Do mesmo modo, seu limiar está mais próximo da Fantasia Realista do que da Fantástica. Embora as fantasias de terror possuam muitas vezes os mesmos seres fantásticos existentes na Fantasia Fantástica, estes seres tornaram-se tal a partir de intervenções plausíveis de ocorrerem de fato conosco: nada impede, por exemplo, que o uso indevido de elementos radioativos modifique geneticamente aranhas ao ponto de torná-las monstruosas e predadoras da espécie humana.

As histórias de viajantes, por sua vez, também não podem ser classificadas como Fantasia Fantástica. Nessas histórias, apesar de possuírem uma série de elementos presentes na Fantasia Fantástica, como Reinos Encantados, locais sobrenaturais e completamente mágicos, o paradigma de cosmovisão é humano e toda e qualquer outra cultura com a qual as personagens centrais representantes desse paradigma deparam é representada como o outro-do-humano, causando perplexidade, maravilhamento e espanto às personagens humanas. Em outros termos, por meio das histórias de viajantes temos personagens principais que são seres humanos que, por alguma razão, adentraram os Reinos Encantados, de modo que, em vez de inserirem-se nesses mundos de modo a compartilhar da realidade instaurada em tais lugares, eles enxergam os diversos seres mágicos como o outro-do-mesmo deles próprios, a saber, como o não-humano. Assim, nessas histórias não há um desenvolvimento das relações de interação entre o humano e os diversos reinos mágicos, todos sob a égide da verdade da realidade fantástica instaurada, mas, pelo contrário, há somente o humano e o não-humano fantástico estranhado: para as personagens humanas nessas histórias, o Fantástico é phantasía.

Como consequência dessa característica das histórias de viajantes, temos uma estrutura abstratamente similar às histórias de desbravadores do continente americano, africano e etc., características do século XVIII e XIX, a partir de cosmovisões etnocêntricas, de modo a impedir que o elemento Fantástico seja representado nos enredos como verdadeiro. O Fantástico, nesse gênero de história, é apresentado como o exótico, o diferente-do-mesmo, o não-eu, de modo a impedir a efetivação de um dos princípios mais fundamentais da Fantasia Fantástica: o da verdade interna do Fantástico.

Outro gênero de fantasia que causa confusão ao ser considerado como Fantasia Fantástica é o de histórias que se passam em sonhos. Nessas histórias, temos toda uma estrutura milimetricamente idêntica às presentes na Fantasia Fantástica, com Reinos Encantados, com a magia como causa última instauradora da realidade, nos quais há a existência de diversos seres sobrenaturais e mágicos. Talvez a história desse gênero mais conhecida seja a de Alice de Lewis Carroll. Nessa história, há um elemento aparentemente de pequena importância que faz toda a diferença, demarcando essa narrativa para além dos limites da Fantasia Fantástica: histórias desse gênero ocorrem em um sonho.

Com efeito, um dos princípios mais fundamentais da Fantasia Fantástica, a saber, o de os elementos fantásticos instaurarem uma ontologia, não é efetivado nas histórias que se passam em sonhos. Isso significa que os elementos fantásticos são representados como irreais, como passíveis de ocorrerem tão somente nos sonhos de algum indivíduo, sendo, por extensão, passíveis de verdade ou não. Na Fantasia Fantástica, o elemento fantástico é instaurado ontologicamente, isto é, a magia e o sobrenatural presente nessas histórias são apresentados como verdadeiros para todas as personagens envolvidas na trama. Há uma estrutura ontológica operante através de um nexo causal muito clara e distinta na Fantasia Fantástica, construída de modo que o leitor possa conhecer efetivamente as realidades instauradas pelas diversas Fantasias Fantásticas. Em nenhum momento na Fantasia Fantástica o fantástico, o mágico, o sobrenatural pode ser passível da menor dúvida, na mesma medida em que na Fantasia Realista os princípios da Física, como por exemplo a gravidade, igualmente não podem ser passíveis de menor dúvida.

Talvez as histórias mais comumente confundidas com a Fantasia Fantástica sejam as fábulas de animais ou as fábulas francesas e alemãs de Perrault[2] e dos Irmãos Grimm[3], publicadas entre os séculos XVII e XIX. Essas fábulas derivadas dos contos populares medievais e modernos retratam tanto, de um lado, as fábulas animais, quanto, de outro, os contos de fada que apresentam uma moral. No primeiro caso temos enredos nos quais os animais falantes interagem de modo a formar o leitor de acordo com princípios éticos, sem a presença de seres humanos nos enredos. No segundo, apesar de haver seres humanos envolvidos nos enredos, eles são escritos de modo que as causas últimas dos fenômenos sobrenaturais sejam elementos pertencentes à cultura popular dos períodos nos quais foram desenvolvidos.

Disso decorrem dois problemas que impedem que classifiquemos essas histórias como Fantasia Fantástica. Em primeiro lugar, um dos princípios mais fundamentais da Fantasia Fantástica é o de, através do fantástico, satisfazer os desejos humanos primordiais: imortalidade, ressureição, chegar às profundezas do espaço, conhecer o divino, desvendar as causas e o surgimento do universo e da magia, entrar em comunhão com outros seres, adquirir poder ilimitado. No berço da nossa civilização, o desenvolvimento desse princípio era uma das características do discurso mítico. Herdado diretamente desse tipo de narrativa religiosa, a Fantasia Fantástica leva a efeito o desenvolvimento desses princípios através de uma linguagem artística. Nas realidades instauradas na Fantasia Fantástica, diferentemente da linguagem religiosa que falava do nosso mundo natural, esses desejos são satisfeitos através da possibilidade de serem efetivados com o uso do Fantástico, ou seja, com o uso da magia e de encantamentos, do sobrenatural, que são tão verdadeiros nessas realidades quanto a gravidade é no nosso.

Nas fábulas de animais, não há a tentativa de satisfazer esses desejos humanos primordiais, na medida em que, por um lado, não há humanos nessas histórias e, por outro, a intencionalidade das narrativas é possibilitar a apresentação de uma moral para o leitor, cuja característica formativa não tem em mente a efetivação desses princípios. Nessas histórias, o comportamento humano e os conflitos éticos da interação entre os sujeitos são representados de modo antropomorfizado: os animais presentes nessas narrativas, as personagens que constituem esse tipo de fábula, são, na verdade, seres humanos por detrás da máscara de animais falantes: é antes uma representação do paradigma humano através da fantasia do que a representação do Fantástico em uma realidade sobrenatural.

Em segundo lugar, a Fantasia Fantástica é caracterizada menos por falar sobre magia, sobre o sobrenatural e sobre o encantado. Como ponto central da estrutura da Fantasia Fantástica, a narrativa é caraterizada por falar sobre o reino, o mundo ou o local no qual existe magia, com o humano neles, permitindo haver uma aproximação entre o paradigma humano e outros paradigmas completamente díspares. Embora, efetivamente, esses últimos sejam inspirados em manifestações culturais humanas, eles não são considerados pelas personagens humanas como phantasía, mas são, pelo contrário, considerados tão reais e verdadeiros quanto finlandeses são considerados pelos italianos como uma sociedade verdadeira e real. Há uma inexorável obediência ao princípio de verdade interna, ao se instaurar uma realidade por meio da qual cada uma e todas as culturas existentes (inclusive a humana) sejam desenvolvidas em sua verdade. Deste modo, as causas para os fenômenos sobrenaturais nas realidades instauradas na Fantasia Fantástica são, com efeito, o Fantástico.

Nas histórias de fadas de Perrault e dos Grimm, por sua vez, as causas últimas para esses fenômenos são as crenças populares contemporâneas ao seu desenvolvimento: as bruxas inseridas no âmbito da Inquisição espanhola e da cultura setentrional, o problema do tempo e do desenvolvimento da lógica do trabalho e da produção, a segurança e proteção dos feudos e castelos face aos perigos e problemas das estradas e dos bosques, a peste e a fome, os príncipes e nobres e os camponeses nas relações feudo-vassálicas, e etc. Não há a instauração de uma realidade fantástica na qual as causas para os fenômenos sejam fundamentalmente fantásticas e verdadeiras, mas, pelo contrário, há um alerta para o perigo das estradas, há o desenvolvimento do imaginário feudal, da vida nas cidades e do trabalho do período industrial.

As histórias de super-heróis, por seu turno, distanciam-se igualmente da Fantasia Fantástica. Em vez de desenvolverem-se em narrativas que falam sobre o reino, o mundo ou o local no qual exista o Fantástico, de modo a instaurar uma realidade, essas narrativas apresentam o sobrenatural inserido em nosso mundo natural, cujas causas são múltiplas e distantes do Fantástico: aranhas radioativas que infectam um jovem estudante, experimentos em estações espaciais que transformam geneticamente todo um grupo de pesquisa, a manipulação em laboratório que igualmente transforma as estruturas genéticas de um indivíduo comum em superpoderosas, contato alienígena, herança divina e etc. Todas essas causas afastam o Fantástico desse gênero de narrativa.

Por fim, a mitologia em geral e a poesia antiga possuem intencionalidades completamente distintas da Fantasia Fantástica. Em vez de serem narrativas por meio de uma linguagem artística que falam sobre o reino, o mundo ou o local nos quais existe o Fantástico, a mitologia antiga e as poesias como as de Homero, Hesíodo e até mesmo as tragédias e comédias gregas clássicas apresentam o nosso próprio mundo natural, no qual habitam os deuses e os mortais. No mundo grego antigo, os deuses fazem parte da physis, assim como os mortais. Nas culturas setentrionais europeias, nos povos germânicos e etc., todas as narrativas e os contos sobre os deuses dizem respeito às causas do nosso próprio mundo natural, não remetendo ao Fantástico. A única diferença entre deuses e homens é a imortalidade. Portanto, essas narrativas falam daquilo que hoje entendemos por realidade, falam sobre o mundo natural no qual os autores estão inseridos, mesmo que seja de um mundo longínquo impossível de ser lembrado por qualquer mortal, cujos cantos são sempre inspirados pelas musas filhas de Minemosyne, da personificação divina da “memória” atemporal.

Agora somos capazes de facilmente definir o Fantástico como o reino, o mundo ou o local no qual existe o sobrenatural, construídos de modo a instaurar uma ontologia, cujos seres possuem estatuto de realidade – evidentemente de grau distinto do nosso estatuto ontológico enquanto seres humanos de carne e osso – que permitem que tanto as personagens humanas quanto os leitores os considerem como verdadeiros[4]. Isso significa que o Fantástico é a unidade entre os seres sobrenaturais, mágicos e em geral – que são particulares – e o ambiente sobrenatural e mágico – que é universal: tanto um quanto o outro dissociados entre si não configuram o Fantástico. Em outras palavras, Fantástico é a configuração espacial na qual existe a interação entre seres humanos e seres sobrenaturais, tal que o sobrenatural seja construído de modo a instaurar uma realidade e ser, por conseguinte, verdadeiro.

Essas realidades são instauradas de modo a proporcionar uma estrutura ontológica coerente e coesa, por meio da qual possam ser depreendidas regras persistentes similares às descritas pelas ciências naturais em nosso mundo natural. Com efeito, se de um lado nosso mundo natural é explicado por meio de um nexo causal, através da descrição matematizada das nossas ciências empíricas, as realidades fantásticas devem permitir uma explicação por meio de um nexo causal similar, de modo que, embora as causas últimas sejam mágicas e, em certo sentido, indescritíveis, elas possam permitir uma compreensão lógico-racional por meio dos leitores, de modo a atenderem aos princípios de verossimilhança e plausibilidade. Dito de outro modo, sua estrutura cosmológica, da origem do universo ao funcionamento da realidade enquanto tal, deve ser coerente e coesa de modo que os leitores possam conhecê-la e efetivamente acreditar em sua verdade.

Assim, da síntese entre phantasía e Fantástico podemos definir a Fantasia Fantástica como a narrativa sobre o que é verdade tão somente enquanto linguagem artística, por meio da qual conhecemos o Reino Encantado, o mundo mágico ou o lugar no qual existem seres sobrenaturais, todos sob a instauração de uma realidade cognoscível e verdadeira, cujas causas últimas sejam o Fantástico e na qual os seres sobrenaturais interagem entre si e/ou com os seres humanos. Nessas narrativas, há a possibilidade de satisfazer os desejos humanos primordiais, como a imortalidade, a ressureição e a comunhão com outros seres. Por meio delas, podemos dar vazão à imaginação de modo a, através da linguagem artística, expandirmos as possibilidades de realidade do nosso próprio mundo. Essas realidades devem ser necessária e simultaneamente verdadeiras e verossímeis, de modo que tanto as personagens reconheçam-na como tal quanto os leitores possam acreditar em sua plausibilidade.

Lancelot e seus companheiros, Merlin e os demais aliados, Aragorn, Gandalf e toda a sociedade do Anel, assim como orcs, trolls, ogres, feiticeiros e deuses: a fantasia fantástica é concretizada por meio da efetivação dessas personagens que estão em comunhão em um mundo persistente e verdadeiro, nos quais a imortalidade dos elfos não é um pretexto para sua inação, muito menos a superioridade dos dragões os faz deixarem-se de se importar com os assuntos das raças inferiores em momentos de perigo à ordem no mundo. Há a necessidade de um sentido filosófico e de regras de causalidade tal como ocorrem em nosso mundo.

Com efeito, essa demarcação permite que a Fantasia Fantástica seja desenvolvida de modo a proporcionar não somente o desenvolvimento de um gênero de literatura, mas, por seu turno, possibilitar o desenvolvimento de uma forma de linguagem artística autônoma e específica, por meio da qual a imaginação dê vida a realidades complexas. Apesar de aparentemente terem uma distância substancial com o nosso mundo natural, a coesão e coerência de sua ontologia aproximam-na de nossa realidade por meio de sua verdade. Trata-se da possibilidade de usar a imaginação para construir mundos não somente no campo da literatura, mas de todas as outras manifestações artísticas em geral. Podemos, portanto, considerar uma narrativa como fantasia fantástica quando ela atender a esta demarcação e possibilitar a efetivação dos princípios necessários a toda e qualquer narrativa fantástica.

 

Notas:

 

[1] Chamo de sobrenatural qualquer fenômeno natural – natural, neste caso, nas realidades instauradas nas fantasias – que não possa ser descrito por categorias de linguagem pertencentes às nossas ciências naturais. Isso significa que as causas para tais fenômenos são fundamentalmente mágicas.

[2] Les Contes de ma Mère l’Oye.

[3] Kinder- und Hausmärchen.

[4] Vale ressaltar a distinção fundamental entre a definição de verdade como, por um lado, veritas in re e, por outro, veritas in intellectus. No primeiro caso, temos a verdade instaurada como real e verdadeira tão somente inserida na estrutura da qual faz parte, como a verdade de uma pintura em tela, a verdade de uma peça teatral, e etc. No segundo, por sua vez, temos a verdade instaurada como real e verdadeira na realidade. Evidentemente, a verdade postulada pela Fantasia Fantástica é a resultado da definição de verdade como veritas in re.

 

Indicações de leitura:

TOLKIEN, J. R. R. Sobre histórias de fadas. São Paulo: Conrad Editora, 2006.

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