A filosofia surge de um problema de linguagem

A filosofia surgiu no mundo grego antigo. Chamo de filosofia uma tradição ocidental — porque é a única que conheço, apesar de saber que existe uma produção espiritual muito rica no Oriente —, desenvolvida desde os gregos até o presente, cuja definição não deriva nem de um objeto nem de um método próprios. Defino-a como uma atividade do pensamento, uma atividade reflexivo-argumentativa, que se volta para tudo aquilo que os demais saberes tomam por pressupostos, cujos objetos são múltiplos, na medida em que abrangem tudo o que diz respeito ao homem no mundo, ou, antes, ao mundo, com o homem nele. Para ser mais coerente, como diria André Comte-Sponville, deveria dizer que há tantas definições de filosofia quanto filósofos — e o mesmo vale para os métodos. Contudo, todas essas definições e métodos possuem uma atividade em comum: uma atividade que, através de discursos e raciocínios, pensa rigorosa e sistematicamente sobre os fundamentos e os aspectos mais gerais do mundo e de tudo o que diz respeito ao homem.

Apesar de essa atividade ter surgido das investigações dos físicos jônicos, foi Platão o primeiro a construir filosoficamente uma resposta aos problemas desenvolvidos pelas reflexões que o precederam, a partir de um discurso que se fundamenta em categorias como universalidade, identidade, imutabilidade, unidade e inteligibilidade, através da escrita de textos com uma profundidade filosófica e uma riqueza dramática inigualáveis na história do pensamento; além de desenvolver o conjunto das disciplinas que constituem a tradição filosófica ocidental, assim como ter sido o primeiro a ser reconhecido em seu contexto como filósofo, por sua produção literária e desenvolvimento de um centro de estudos importantíssimo. Consequentemente, apesar de a reflexão filosófica ter surgido no século VI a.C., com as investigações dos físicos jônicos, Platão foi o primeiro filósofo do Ocidente, que criou a filosofia como uma linguagem rigorosa e iniciou a tradição literária na qual estamos inseridos até hoje.

No desenvolvimento espiritual do mundo grego antigo, o pensamento de Platão surge em um determinado contexto, inserido em uma tradição sistemática pela busca do saber, cujas características influenciaram e marcaram seu pensamento. Nesse caldeirão de influências e discussões com toda a tradição vigente, Platão desenvolveu sua filosofia como resposta a um problema de linguagem. Para compreender as implicações dessa tese, teremos que, primeiramente, percorrer, de maneira pontual, o caminho do contexto no qual o pensamento de Platão é desenvolvido, para, então, refletir sobre a possibilidade de a filosofia ter surgido de um problema da linguagem.

No quinto século a.C., no mundo grego antigo, foram desenvolvidas algumas instituições que marcaram fundamentalmente a vida no Ocidente. Podemos resumir nosso percurso nesse período ao entender que este foi um momento de uma pluralidade de transformações, a partir das quais o homem grego passou a ter uma postura mais crítica em relação à tradição corrente. Tanto a Ilíada quanto a Odisseia, duas obras de riquíssimo alcance no desenvolvimento da cultura grega antiga, constituíram o cerne da formação do homem grego, marcada pela transmissão do conteúdo dessas obras por uma total oralidade. Apesar disso, a nova postura desenvolvida pelos gregos nesse quinto século, que se voltava mais para uma humanização do contexto na vida desse período, passou a afastá-los da concepção de mundo que colocava seu destino à mercê da vontade dos deuses.

Isso não significa que o homem grego deixou de ser religioso ou passou a não mais acreditar nos deuses. Todos os deuses ainda fazem parte da vida e do imaginário desse povo. Com efeito, a mudança de mentalidade deve-se sobretudo à assimilação de outras manifestações culturais — como, por exemplo, a criação do teatro e o ressurgimento da escrita — que, apesar de serem carregadas de representações divinas, agora tinham por ponto central o homem que passa a tomar decisões e construir o seu próprio destino. Assim, há o desenvolvimento de novas possibilidades de leitura de mundo. Esse mundo mais “humanizado” proporcionou o surgimento da reflexão sobre o homem e seu papel na vida em comunidade. Dessa primeira reflexão política, surgiu a democracia em Atenas.

A democracia ateniense, apesar de certas similaridades, foi fundamentalmente diferente da nossa democracia. Embora todos os cidadãos participassem ativamente desta democracia, eles conviviam diariamente com escravos, mulheres, crianças e estrangeiros (que não eram cidadãos), que, devido à grande atividade comercial característica da cidade, constituíam a grande maioria da população deste grande centro. Ainda assim, essa participação ativa dos cidadãos — enquanto minoria — na democracia ateniense causou grandes transformações na vida do período.

Na medida em que participavam ativamente da vida pública ateniense — que, excetuando o período em que os cidadãos estavam em suas casas, constituía toda a vida desses indivíduos —, os cidadãos precisavam defender suas ideias e dialogar com seus iguais, nas discussões políticas nas assembleias e nos tribunais. Assim, dado que ser um melhor cidadão implicava em participar mais efetivamente da vida pública, a efetivação do poder nesse período estava na capacidade de discursar bem publicamente e convencer seus pares. A persuasão através do discurso tornou-se o mecanismo mais fundamental e último da democracia ateniense. Dessa necessidade central, surgiu o ensino da retórica e da oratória, respectivamente as artes do bem persuadir e do bem falar.

Encarregados de ensinar cultura aos cidadãos, sobretudo por meio dessas duas novas artes, os sofistas (sofistai, σοφισταί), ou simplesmente “sábios”, apareceram como os propagadores da linguagem democrática da cidade. Os principais foram Protágoras, Górgias, Hípias, Pródico e Trasímaco. Eles eram professores de retórica e oratória, ensinando os cidadãos a desenvolver bons discursos e convencer seus iguais. Utilizando da nova linguagem a surgir na lógica desse povo, os sofistas tornaram-se mestres do domínio dos raciocínios. Voltaremos aos sofistas em breve.

Apesar de, como vimos acima, essas transformações pelas quais passou o mundo grego no século V a.C. serem positivas e enriquecedoras à cultura grega, os atenienses enfrentaram um evento que iniciou o declínio da democracia e de suas instituições: a Guerra do Peloponeso. Durante quase 30 anos, Atenas esteve em conflito com outra cidade muito poderosa. Esparta, sua inimiga nesse conflito, saiu vitoriosa desta guerra. Em 404 a.C., Atenas viu sua democracia ser revogada, em nome de uma tirania de 51 magistrados: 10 na região do Pireu, o porto da cidade e região mais importante para a economia; 11 na cidade de Atenas, o pináculo da democracia grega, e 30 para supervisionar toda essa nova estrutura governamental. Isso não durou mais do que quatro anos. Atenas passou por diversas revoluções e arbitrariedades decorrentes de uma guerra civil entre os democratas e os oligarcas. Tudo isso causando o declínio de todo o ápice econômico, político, cultural e espiritual do “século de ouro” de Atenas.

Nesse contexto, o individualismo surgiu como uma forte expressão do cidadão ateniense, decorrente tanto da própria estrutura do regime democrático quanto de seu declínio suscitado pela guerra. A restauração da democracia trouxe uma roupagem gasta e enfraquecida dessa forma de governo. A morte arbitrária e injusta de Sócrates, maior influência de Platão, foi o ponto decisivo para à conclusão platônica de que os problemas da democracia seriam insolucionáveis. Ela deveria ser eliminada. É nesse contexto que Platão desenvolve sua filosofia.

Para ele, a democracia era um mal às cidades e à vida em comunidade. Na medida em que a persuasão pela palavra e os discursos contrários passam a constituir o cenário da vida na cidade, os cidadãos passam efetivamente a desenvolver discursos para defender seus interesses. Isso, contudo, não significa que eles defendiam os interesses da cidade. Assim, os valores como justiça, bondade, piedade e etc., passam a constituir o conteúdo desses discursos. Ora, se cada indivíduo desenvolver discursos para defender seus interesses individuais, os valores serão expressos de maneiras diferentes e, até mesmo, conflitantes. Portanto, os valores mais fundamentais à vida, como a justiça, a bondade, a virtude e etc., passam a ser dissolvidos no relativismo e individualismo da linguagem democrática. Os sofistas, portanto, são responsáveis por proporcionar os mecanismos para a propagação e manutenção de uma linguagem danosa à vida na cidade.

Platão, em linhas gerais com influências ontoepistemológicas heraclitianas e eleatas, psicológicas pitagóricas, dialéticas e morais socráticas, desenvolve uma filosofia como a primeira resposta para um problema de linguagem, possivelmente o mais fundamental da tradição: as palavras que usamos para falar do mundo e das coisas dizem respeito às próprias coisas, isto é, à essência das coisas? É possível desenvolver um discurso que diga respeito à verdade? Em outras palavras, os diferentes discursos que produzimos são capazes de descrever a realidade, proporcionando-nos os meios necessários para que possamos conhecê-la e, assim, levar a efeito uma vida pautada na verdade? Isso pressupõe a formulação de duas perguntas e sua subsequente solução: que é realidade e podemos conhecê-la?

É na ontoepistemologia platônica, o corpo e alma de sua filosofia, que surge a filosofia como a conhecemos hoje: uma linguagem constituída por um discurso rigoroso, fundamentado em justificativas racionais que, pela primeira vez, de forma precisa e sistemática, atendem necessariamente a categorias epistemológicas como universalidade, identidade, imutabilidade, unidade e inteligibilidade, formulando problemas e desenvolvendo soluções sobre os aspectos mais gerais e fundamentais da realidade e do homem, com um vocabulário próprio, legando sua doutrina e método através de uma literatura filosófica. Tudo isso por meio de um jogo de dar e pedir razões, de esclarecer teses e de dialogá-las com seus antecessores: eis a tradição filosófica ocidental.

Apesar de refletirem filosoficamente, os chamados “filósofos pré-socráticos” e o próprio Sócrates não desenvolveram a filosofia enquanto uma linguagem que atendesse a esses pressupostos. Em sua grande maioria, ao longo de sua busca pelo saber, eles apresentaram reflexões fundamentais à própria filosofia de Platão, sem as quais não existiria a sua filosofia, como, por exemplo, o problema do movimento e da unidade por detrás da multiplicidade, da infalibilidade do conhecimento efetivo, da imortalidade da alma, dos valores: os princípios da filosofia. Platão os reformulou através de uma linguagem nova: a filosófica. Isso significa que Sócrates e os pré-socráticos não foram filósofos? Em um sentido, eles foram filósofos porque todos estavam inseridos em uma tradição pela busca do saber. Em outro sentido, não foram “filósofos” porque não utilizaram essa linguagem rigorosa, que, como vimos anteriormente, pressupõe categorias universais e necessárias, além de não legarem a nós uma literatura da qual poderíamos deduzir essa própria linguagem. Com efeito, disso decorre necessariamente, como vimos acima, que Platão foi o primeiro a praticar essa linguagem, em resposta à linguagem dos sofistas. Não apenas a dialogar com os físicos jônicos, mas com os Pitagóricos, com sua Teoria da Metempsicose, com Heráclito e Parmênides, com sua Teoria das Formas, com Anaxágoras, com sua Teoria da Participação, com Górgias, Pródico, Hípias, Trasímaco e Protágoras, com sua Teoria da Anamnese, até por fim se afastar do eleatismo, inaugurando sua concepção original de realidade e conhecimento, com a estruturação do conhecimento enquanto processo, à cognoscibilidade do não-ser e à formulação do ser como totalidade inclusiva de múltiplas unidades existentes em si.

Como defende Roberto Bolzani Filho, a filosofia de Platão, a partir desse problema de linguagem, pode ser definida como “um esforço de interpretação da realidade que permita restituir ao discurso político e ético uma fixidez que o filósofo vê ameaçada pela democracia, pelo individualismo e relativismo que a caracterizam”. Seus Diálogos, cuja escrita permite-nos deduzir essa linguagem genuinamente filosófica, que formula uma doutrina e um método, caracterizam o “fazer filosófico” do ocidente: a filosofia.

Com efeito, a filosofia surgiu no mundo grego antigo. Surgiu no mundo grego antigo porque, portanto, foi criada por Platão como uma linguagem que formula perguntas e apresenta soluções, por meio de razões que atendem a categorias universais e necessárias, através da estrutura e método de pensamento de seu autor, que pode ser apreendida por meio de uma literatura filosófica, para problemas gerais e fundamentais que dizem respeito à realidade, ao conhecimento, à vida dos indivíduos em comunidade, à educação, à cultura, aos valores, à relação entre as partes e o todo, à relação entre sensação e pensamento, à linguagem, e etc., mas sobretudo à verdade. Como defende José Trindade Santos,

“Nesse sentido, é possível defender a tese de que Platão foi o primeiro filósofo do Ocidente. Pode lhe ser conferido esse título pelo menos por três razões: 1) por ter sido aquele que em primeiro lugar trabalhou e resolveu os problemas que a tradição veio a considerar “filosóficos”; 2) por ter concorrido para o esboço do currículo das disciplinas que viriam a constituir a Filosofia (Lógica, Epistemologia, Ética, Estética, Política, Ontologia, Antropologia); 3) por ter obrigado a comunidade em que viveu a reconhecer a importância de sua atividade como pensador, no seio da Academia da qual foi fundador (387 a.C.).” (SANTOS, 2012, p. 9-10)

Assim, pela primeira vez, temos a formulação de uma linguagem cujo princípio último é a verdade. Esta, na visão platônica, deveria ser o princípio primeiro a partir do qual todos os discursos deveriam ser formulados, para o bem dos indivíduos em geral e da vida na cidade. Em resposta à linguagem dos sofistas, ele desenvolve a linguagem filosófica.

Esse problema de linguagem, portanto, deu início à filosofia. Isso os filósofos chamados “pré-socráticos” jamais poderiam ter realizado, na medida em que, por um lado, a criação desta linguagem dependeu necessariamente de suas reflexões filosóficas e, por outro, eles não estiveram inseridos no contexto em que Platão esteve, no coração deste problema de linguagem.

 

Indicações de leitura:

BOLZANI FILHO, R. Platão: verdade e justiça na cidade. In: Seis filósofos na sala de aula. São Paulo: Berlendis & Vertecchia Editores, 2006.

RAVEN, J. E. et al. Os filósofos pré-socráticos. 7. ed. Tradução de Carlos Alberto Louro Fonseca. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2010.

SANTOS, J. G. T. Platão: a construção do conhecimento. São Paulo: Paulus, 2012.

SCHOFIELD, M.; NUSSBAUM, M. C. Language and Logos: Studies in ancient Greek philosophy presented to G. E. L. Owen. Cambridge: Cambridge University Press, 1982.

SZLEZÁK, T. A. Platão e a escritura da filosofia. Tradução de Milton Camargo. São Paulo: Edições Loyola, 2009.

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