Amar infinitamente

Artigo publicado na edição Nº73, de abril de 2016, Infinito, da Revista Pandora Brasil, ISSN 2175-3318.

 

A nossa existência é contingente em si mesma. Se tomarmos como padrão de medida o desenvolvimento de nosso planeta, a existência humana seria como as últimas horas de um longo dia. Ainda assim, se tomarmos como padrão de medida o desenvolvimento de nossa galáxia, a existência humana seria como um breve instante. No caso de considerarmos o desenvolvimento do universo, finalmente, a existência humana seria inferior do que a menor unidade pensável. Sem ela, os planetas, as galáxias, o universo, todos eles estariam aí.

Isso significa que todo o planeta poderia prosseguir sua existência e seu desenvolvimento sem a existência humana, rodopiando aos risos, com os animais e os outros seres vivos convivendo harmoniosamente. Do mesmo modo, a galáxia continuaria o que é, com os planetas prosseguindo em seus movimentos elípticos em volta de si mesmos e em torno do Sol. Não poderia ser diferente no caso do universo, com todas as incontáveis galáxias, que, por sua vez, possuem suas estrelas, seus planetas, e assim por diante. Tudo isso continuaria aí, existindo independentemente da existência humana, que é contingente.

A existência humana acontece no mundo, aqui e agora. Isso significa que, quando falamos em existência humana, estamos falando de uma existência em um mundo objetivo e material. Estamos falando da existência que é evidente, que aparece para nós. Não nos interessa discutir uma existência para além da própria existência em questão. Assim, essa existência, que é contingente, que é evidente, acontece em um mundo que perdura após seu deixar-de-ser.

Por outro lado, há uma outra faceta dessa existência humana, que se opõe ao mundo objetivo. Essa outra faceta é tudo aquilo que diz respeito à existência humana nela mesma, em contraste ao mundo objetivo, seu Outro. Esse contrate com mundo objetivo é a dimensão subjetiva. Tão grande quanto a objetiva, essa é a dimensão capaz de conferir significado às coisas. Isso significa que, para a existência humana, para a dimensão subjetiva da existência humana, tanto ela quanto o resto, tanto ela quanto o mundo são passíveis de receber significado.

Tal quanto o universo é de modo objetivo, o amor é a experiência subjetiva cujo significado é suficientemente extenso para tornar uma existência necessária. Uma existência torna-se necessária quando ela é capaz de amar e de ser amada infinitamente. A loucura desse amor faz com que a ordem se torne caos e o caos torne-se ordem. Tudo vira cores, de infinitos tons, com um brilho peculiar. Todas as coisas nesse mundo tornam-se coloridas e brilhantes. Há movimento, devir, fluxo e energia infinitos. As asas da alma, que estavam escondidas por detrás da pele de nossas costas, rasgam sua saída, alargando-se em seu mais alto grau. Juntos, amante e amado podem voar alto em sua Existência. Lá de cima, eles veem toda a vida terrena, na qual estão os desafortunados que não são capazes de amar infinitamente. Amante e amado, por sua vez, voam juntos, na eternidade dos instantes em que estão amando, na incomensurabilidade do presente do amor, que é sempre presente. Quando bem dirigida, essa experiência mostra-se como a mais edificante experiência de uma existência. O amante quer melhorar seu amado: ele busca aprender o que for preciso para fazer com que o amado cresça, floresça e brilhe. Ele não descansa até ver seu amado imponente, em sua plenitude. Ambos amante e amado, que são ambos amado e amante, alegram-se em ver o esplendor de um e do outro.

Toda essa intensidade é característica do amar infinitamente. Qualquer outro amor contingente limita-se com o pouco, contenta-se com o quase nada. Trata-se do bêbado que não bebe de uma só vez até sua morte, não põe fim imediato à sua trágica existência, para retornar no dia seguinte e levar mais uma dose diária de seu envenenamento covardemente gradual, constante e doentio. É a mentira com cara de verdade, que zomba dos inocentes por estes últimos estarem supostamente distantes da realidade. É o medo travestido de maturidade, defendendo a forma mais abstrata e incompleta de amor, fechando-se aterrorizadamente em si mesmo. É o ignorar dos gritos de desespero do que existe de mais verdadeiro. É a falsa acusação de egoísmo, àquilo que busca somente somar, multiplicar e dividir, em vez de subtrair. É a falsa promessa de arte, que, na verdade, ocupa-se tão somente com a produção de simulacros. É o cavalo cansado que quer ir mais devagar, porque a velocidade causa o ardor nos cascos esfolados. É a pequenez da alma, com medo do rasgar-de-asas que revelaria toda a sua constituição caquética e diminuta. É a ilusão que encoraja o sofrimento alheio e alimenta-se da diminuição daquilo que lhe é naturalmente superior. É o real não-real que vocifera de modo vazio contra o idealismo não-idealizado. É a negação do viver genuinamente, para refugiar-se covardemente no picadeiro do sobreviver.

É na beleza que o amor infinito é gerado e multiplicado. Tanto na beleza dos corpos quanto na beleza das almas. Somos atraídos pela beleza, beleza das formas de um corpo, cujo ardor enlouquece o que há de mais apetitivo no corpo, movendo-o como as chamas de uma pira sempre viva; beleza da alma, que libera o que há de mais latente na alma, animando qualquer tipo de pensamento e de ação. Esse é o alimento do amor, multiplicado exponencialmente; a conservação daquilo que é belo, retroalimentado em sua própria beleza; a geração daquilo que encanta, dando brilho a todas as coisas refulgentes; a destruição de barreiras, o estreitamento de distâncias e o aniquilamento do tempo, capazes de igualar desiguais, aproximar os opostos e eternizar qualquer momento de vida.

Em contrapartida, uma existência humana pode deixar de ser com a mesma facilidade de qualquer existência. Para nosso planeta, seu deixar-de-ser não significa nada; para a galáxia, muito menos; para o universo, nadinha; entretanto, para seu amante, seu deixar-de-ser torna-se a mais insuportável experiência possível. Sua própria existência perde todo o sentido com o deixar-de-ser de seu amado. As asas caem e o que resta custa a crescer. Os voos altos tornam-se memória de um passado longínquo, distante, estrangeiro. Há esquecimento. Não há mais cores, não há mais brilho. Há imobilidade, inércia, estafo. Um quebra-cabeças de infinitas peças. A Existência volta a tornar-se existência.

Mas o sofrimento e a dor não conhecem a si mesmos. Eles não sabem que sua natureza é sedimentar o momento em que a beleza operará seu espetáculo novamente, causando aquilo que é capaz de fazer amar infinitamente. E, a recomeçar, esse ciclo do amor nunca tem fim: pois ele é — infinitamente!

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2 comentários sobre “Amar infinitamente

  1. Oi, achei seu blog pesquisando umas coisas de filosofia.
    E estou me interessante bastante.
    Gostaria de umas orientações.
    Tem alguma forma de nos comunicarmos?

    Curtir

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