A robossexualidade a partir da ciência contemporânea

Em outro artigo com uma reflexão similar — A robossexualidade para ser pensada hoje — apresentei a possibilidade da relação afetiva entre ser humano e ser artificial e a necessidade de sua reflexão, a partir de uma perspectiva ética. Nesse texto, defendi que essa questão não é um problema do futuro, na medida em que em países como o Japão indivíduos já utilizam tecnologia para relacionar-se com seres artificiais, no caso de, por exemplo, os “girlfriend apps”.

Agora, de outro modo, farei uma reflexão sobre a mesma questão, porém a partir de perspectivas científicas. Será que há a possibilidade de o cérebro humano desenvolver um laço afetivo com seres artificiais? Em outros termos, podemos nos apaixonar, amar, ou até mesmo depender afetivamente de seres artificiais, de modo similar como naturalmente fazemos com outros seres humanos? E, talvez a questão científica mais decisiva, será que os seres artificiais, por sua vez, podem desenvolver — ou serem desenvolvidos de modo a possuir — inteligência emocional, a fim de sentirem compaixão e interagirem com o exterior de maneira humanizada? Isto é: será que os seres artificiais podem nos amar?

Diferente dos smartphones, dos drones, da nanotecnologia, e de toda tecnologia de ponta em geral do nosso tempo, os seres artificiais podem interagir com os humanos de uma maneira muito mais realista. Não podemos negar que, de certo modo, enxergamos a nós mesmos menos em um drone e mais em um ser artificial desenvolvido por computação gráfica, como, por exemplo, o personagem Dobby da série Harry Potter. Sentir compaixão por um elfo doméstico que entrega sua vida livremente pela de seu amigo é uma evidência dessa distinção entre ser artificial e tecnologia em geral. Quanto mais realistas e mais próximos da humanização, mais próximos dos seres humanos tornam-se os seres artificiais.

Tendo isso em mente, alguns seres artificiais humanoides estão sendo desenvolvidos para lidar com idosos e crianças, os chamados “robôs cuidadores” — como demonstrado no texto sobre a robossexualidade. Cientistas estão buscando desenvolver nesses seres artificiais a habilidade de interagir com seres humanos de modo mais realista, como o Kismet, desenvolvido pelo MIT, o qual utiliza expressões faciais durante a comunicação. No Japão, na Universidade de Osaka, o Laboratório Hiroshi Ishiguro desenvolveu o ser artificial chamado Geminoid F, de modo que ele pudesse agir como humano. Assim, este robô possui pele de borracha e uma face feminina, funcionando através de todo um complexo de expressões faciais e gestos humanizados.

A partir desse raciocínio, torna-se aceitável o argumento de que quanto mais os seres artificiais tornarem-se humanizados, pessoas poderão voltar-se para eles buscando relacionamentos amorosos. Ainda assim, esse argumento é fraco e, ainda diria, aceitável somente no campo da abstração lógica. Parece que falta uma fundamentação concreta em evidências científicas para podermos afirmar tal coisa, visto que há implicações neuropsicológicas em questão.

Dr. Kevin Curran, um dos líderes do Institute of Electronic and Electrical Engineers e cientista da computação da University of Ulster, defende que a computação em nuvem tem o potencial de transformar a inteligência artificial, para que robôs se tornem mais naturais. Isso significa que a inteligência artificial desses seres não seria estática e tão somente programada previamente para interagir através de modelos preestabelecidos, mas, pelo contrário, seria constantemente reprogramada a partir de um sistema remoto interligado a essa nuvem, operando através de tecnologias como o Wi-Fi ou roaming de dados. Caso esses sistemas passem a operar por nuvens, o processamento de informação pelo ser artificial seria levado a efeito a partir de dados atualizados por um sistema externo, interconectando todos os seres artificiais. Isso revolucionaria a interação entre ser artificial e ser humano, já que os dados coletados por esse ser artificial, decorrente da interação com seus “humanos mais próximos”, de seu aprendizado através da interação, seria dividido pela nuvem entre todos os seres artificiais similares, e vice-versa. Assim, ele acredita que humanos poderão, em breve, começar a relacionar-se afetivamente com seres artificiais. No horizonte, a inteligência artificial biológica e o deep learning permitem-lhe afirmar tal tese.

A inteligência artificial biológica é o ramo para o qual a neurociência e a robótica estão convergindo atualmente, como afirma João de Fernandes Teixeira. Ele afirma que em vez de buscar replicar o cérebro humano em seres artificiais, esse ramo de biotecnologia busca desenvolver seres artificiais associados a cérebros humanos. Apesar de ainda estar em desenvolvimento, essa nova guinada da inteligência artificial promete produzir seres artificiais conscientes. De modo igualmente otimista, o deep learning permite afirmarmos o mesmo. Essa estrutura profunda de aprendizagem é baseada em algoritmos que tentam modelar abstrações de alto nível de dados a partir de múltiplas fontes com estruturas complexas, como observação de imagens, formas, expressões faciais, som, substâncias químicas, e etc., que imitam os estímulos recebidos pelo sistema nervoso central humano. O avanço atual na neurociência permite o desenvolvimento de sistemas de algoritmos em seres artificiais imensamente superiores aos modelos binários antigos, proporcionando-lhes um modelo de sistema nervoso, baseado no código neural humano — que opera através da associação e do relacionamento entre as múltiplas respostas neuronais a partir desses estímulos (forma, imagem, cheiro, e etc.). Uma vez associado às nuvens, teríamos seres artificiais que aprenderiam com uma estrutura similar à humana, tornando-se fundamentalmente diferente do modelo programado preestabelecido, de acordo com as interações com as quais ele convivesse: um modelo tipicamente construtivista — o paradigma humano.

De volta ao Japão, agora em Kyoto, pesquisadores da Toyohashi University of Technology e a Kyoto University demonstravam evidências neuropsicológicas da habilidade humana em sentir empatia por seres artificiais. Nesse estudo, os pesquisadores mostraram que humanos têm o potencial de sentir empatia por seres artificiais, mesmo sabendo que esses seres não têm sentimentos. A descoberta foi feita depois que os pesquisadores pediram que indivíduos vissem imagens de mãos humanas e mãos humanoides robóticas em situações dolorosas, como sendo cortadas por facas. Após estudar os sinais elétricos cerebrais, eles descobriram que humanos responderam com níveis imediatos similares de empatia para ambos humanos e seres artificiais. Apesar disso, os níveis de empatia foram mais fracos para com os robôs. Esses resultados sugerem que sentimos empatia por seres artificiais humanoides de um modo similar ao qual sentimos com outros humanos.

Para o Dr. Kevin Curran, ter sucesso nesses pontos, a saber, no desenvolvimento de sistemas de deep learning e da inteligência artificial biológica, assim como de sua estruturação em nuvens, será fundamental para tornar os seres artificiais amplamente aceitos em nossas casas. Ainda assim, apesar dessas evidências científicas que agora fundamentam a possibilidade da robossexualidade, talvez o grande segredo para desenvolver emoções em seres artificiais esteja na compreensão plena dos princípios e do funcionamento dos neurônios espelho em seres humanos, para, então, buscar replicar algo similar em seres artificiais.

A existência de neurônios espelho foi primeiramente demonstrada por Giacomo Rizolatti, um neurocientista contemporâneo, em experimentos neurofisiológicos com primatas. Esses experimentos posteriormente foram confirmados em seres humanos: quando indivíduos observam uma ação feita por outro indivíduo, sua parte cerebral que diz respeito a movimentos torna-se ativa, mesmo quando ele não está exercendo nenhum movimento físico. Em outros termos, mesmo quando um indivíduo está totalmente imóvel, suas regiões cerebrais que deveriam ser ativadas em caso de movimento funcionavam quando ele observa outras pessoas praticando as ações correspondentes. A partir desse estudo, outras evidências surgiram, sugerindo que estamos constantemente “espelhando” pessoas ao nosso redor, inconscientemente procurando por ideias e sensações que reflitam o nosso próprio estado e personalidade, para estabelecer uma ressonância a fim de proteger o nosso equilíbrio emocional. É por isso que nosso humor é tão afetado pelas pessoas ao nosso redor. Portanto, os neurônios espelho parecem cumprir um papel fundamental na inteligência emocional e no desenvolvimento da compaixão. Segundo Ramachandran, outro neurocientista contemporâneo, o neurônio espelho não sabe a diferença entre ele e os outros. Esses neurônios não conseguem diferenciar muito claramente as nossas ações e emoções e as das outras pessoas. Essa é a razão pela qual somos tão dependentes da validação social e pela qual queremos nos sentir parte da sociedade.

Na medida em que seus princípios e seu funcionamento forem completamente mapeados e comprendidos, algo similar poderá ser replicado em seres artificiais. Por conseguinte, teríamos a possibilidade da interação social complexa entre seres humanos e seres artificiais, assim como de qualquer tipo de relação afetiva. A robossexualidade não depende necessariamente da possibilidade de seres artificiais apaixonarem-se por seres humanos per se, dado que bastaria um ser humano se apaixonar por um ser artificial para que, com seu “consenso”, uma relação amorosa pudesse ser estabelecida. Entretanto, para uma efetividade maior e para o estabelecimento da robossexualidade como um modelo socialmente aceito, necessitaríamos de algo similar a este modelo neuronal humano em seres artificiais.

Uma vez fundamentada em evidências científicas, a robossexualidade e o desenvolvimento de seres artificiais humanizados ainda tem implicações éticas e jurídicas. Ao passo que os seres artificiais se tornem lugar comum na sociedade, teremos mudanças sociais profundas. Será que as autoridades e a legislação acompanharão a integração dessa tecnologia na vida em sociedade? Aliás, nesse estágio de desenvolvimento, será que deveríamos chamá-los de tecnologia, ou de seres, ou de indivíduos? O que define humano? Será a racionalidade? Ou será que a sensibilidade? Se esses seres sentirem e pensarem, seriam eles, consequentemente, humanos?

Quando penso em relação amorosa, automaticamente questões como a infidelidade surgem em mente. Será que estaríamos preparados para seres artificiais buscarem seus direitos? Ou melhor, para que seres artificiais busquem seus direitos, necessariamente deve preceder a existência de direitos para seres artificiais. Será que estamos preparados para tal estrutura? No Japão, pela primeira vez na história algo similar está sendo desenvolvido, com o biodireito e a roboética trabalhando a seu favor.

Será que estamos preparados para viver em uma sociedade na qual os seres artificiais pareçam idênticos a humanos? Há um limite para a criação desses seres artificiais? Se levarmos em consideração que o fanatismo religioso atualmente busca impedir a homossexualidade, em nome da moral e dos bons costumes (da “família tradicional”), será que a robossexualidade não se tornaria um alvo?

Essas e outras questões podem e devem ser feitas, dado que essa reflexão permite que desenvolvamos uma clareza mental e um modelo interpretativo de mundo que tenha espaço para seres artificiais e novas tecnologias que repliquem ou se assemelhem à vida humana. Não se trata mais de ficção científica: há evidências científicas para a possibilidade próxima de seres artificiais conscientes. Cabe a filosofia refletir sobre o lugar desses seres na vida humana — ou melhor, do lugar do homem em um mundo no qual ele não tenha mais, depois de milênios, o monopólio da razão.

 

Indicações de leitura:

BEGLEY, Sharon. The Brain: How The Brain Rewires Itself. Time Magazine.

RAMACHANDRAN, V.S. The Evolutionary Biology of Self-Deception, Laughter, Dreaming and Depression: Some Clues from Anosognosia. Medical Hypotheses. University of Wisconsin-Stevens Point, 1996, pp. 347-362.

SINGER, Tania. et al. Empathic neural responses are modulated by the perceived fairness of others. Nature, International weekly jornal of science.

TEIXEIRA, João de Fernandes. O cérebro e o robô: inteligência artificial, biotecnologia e a nova ética. São Paulo: Paulus, 2015.

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