Todos podem falar de Ética e Política?

As contradições são parte constituinte da vida. Não poderíamos refletir sobre como viver bem, nem sobre como devemos agir ou não agir, nem sobre como nos organizar em sociedade, nem mesmo sobre o valor de tal e tal lei, se não houvesse contradições a partir das quais pudéssemos formular essas questões. Isso pode parecer demasiadamente evidente. Porém, caso tivéssemos nascido portando uma espécie de “régua da verdade”, a partir da qual pudéssemos aplicar o modelo a priori de “justo e correto”, não precisaríamos da Ética ou da Política.

E por que não há essa régua? Já que somos racionais, por que não poderíamos desenvolver uma lista contendo tudo o que concebemos como justo e correto, para, a partir dela, agirmos sempre bem nos âmbitos individual e coletivo? Ora, justamente pelo fato de que, primeiramente, concebemos o justo e o correto das formas mais plurais e diversas possíveis, mas, sobretudo, pelo fato de novas contradições surgirem diariamente, a partir do contato que temos com novas práticas sociais, da criação de novas tecnologias, ou até mesmo do surgimento de problemas com os quais precisamos conviver e repensar o modo como vivemos. Cada nova contradição exige a reflexão ética e política, a fim de formularmos perguntas e, na medida do possível, buscar respostas para elas.

Por exemplo: o arroz, assim como o trigo e o milho, é um dos alimentos mais consumidos no planeta. A engenharia genética hoje consegue desenvolver a alteração substancial do arroz, para que tenhamos um arroz mais saudável, forte, resistente e que alimente mais pessoas. Entretanto, a produção do arroz, como subsistência, sustenta milhões de famílias em todo o planeta, já que seu cultivo não exige um aparato tecnológico muito avançado para ser desenvolvido. Do surgimento desse arroz, caso ele passe a ser consumido mundialmente e substitua a arroz tradicional, assim como seja subsidiado pelos governos e estes criem imposições na produção que inviabilize o tradicional, se por um lado teremos a possibilidade de alimentar mais pessoas, por outro lado teremos milhões de outras pessoas perdendo seus empregos e, consequentemente, passando fome. Desse dilema, surge uma nova contradição que não existia há alguns anos atrás. Portanto, caso tivéssemos uma lista Ética e Política a partir da qual pudéssemos aplicar o que é “justo e correto”, ela estaria desatualizada com essa nova contradição — e vale notar que esse exemplo é tão somente um pequeno exemplo, em meio a infinitas contradições éticas e políticas que podem surgir diariamente, impossibilitando a existência de tais listas.

Com efeito, a Ética e a Política são necessárias, não somente em seu caráter teórico, mas antes disso por suas consequências práticas, para que possamos caminhar enquanto sociedade, em direção de um mundo mais justo e mais humano. Assim, não é de admirar que pessoas resolvam dizer o que devemos ou não devemos fazer, tanto no âmbito individual quanto na vida em sociedade. Jornalistas, pastores, comediantes e empresários: todos falam de Política (e, inevitavelmente, de Ética). As contradições com as quais deparamos diariamente são o combustível primeiro desses discursos: corrupção, catástrofes ambientais, genocídios, e etc.

Desse cenário, surge uma questão fundamental: na medida em que a reflexão ética e política é tão importante ao mundo contemporâneo, para que tenhamos um mundo mais justo e mais humano, será que qualquer um pode desenvolver essas reflexões e estabelecer modelos e paradigmas como solução para as contradições do mundo contemporâneo?

Há muito tempo atrás, em um local muito, muito distante, um filósofo grego deparou com essa mesma questão. Platão, por meio de Sócrates, refletia em seus diálogos sobre a necessidade de estabelecermos um meio de lidar com as contradições morais. Platão constatou que, na geometria e na aritmética, quando surgiam contradições no que diz respeito a figuras, números e operações, um geômetra era consultado para, então, refletir sobre a possibilidade de sanarmos essas contradições. No caso da construção de navios, certamente buscaríamos o construtor de navios ou um piloto, para que pudéssemos lidar com as contradições concernentes a navios. No caso de cavalos, a mesma coisa: buscaríamos um cuidador de cavalos. E, então, por que no caso da contradição no âmbito dos valores todos achavam-se igualmente dotados de conhecimento, para, por si mesmos, resolver as contradições?

Platão não aceitava essa quebra de raciocínio. As consequências desse cenário esboçado acima trazia à vida na cidade um relativismo que, em seus olhos, deveria ser superado para o bem de todos. Para ele, assim como a geometria resolveria as contradições no universo das figuras, a náutica no que diz respeito a navios e a “arte de cuidar de cavalos” — ou qualquer nome que isso tivesse no mundo grego antigo — para os assuntos do cuidado de cavalos, as contradições no universo dos valores, ou como contemporaneamente diríamos, na Ética e na Política, também deveriam ter um especialista e um campo correspondente, no qual, de forma precisa, as contradições fossem resolvidas.

E quem era esse especialista e qual era esse campo? Para Platão, a resposta era simples: o filósofo e a filosofia. Na medida em que o filósofo era o único capaz de ter acesso à Verdade, conhecendo o que é o justo, o belo e o bom, ele seria o único, por direito, capaz de refletir verdadeiramente sobre as contradições éticas e políticas e, por conseguinte, desenvolver uma solução. Para superar as contradições, este filósofo traçou uma linha divisória separando de um lado a transitoriedade e de outro a verdade imutável: não há mais contradições, dado que elas são efeito de aparências da verdade.

Mas essa solução não parece muito eficaz, dado que acima já refletimos sobre a constante necessidade de “reestabelecer” o critério de verdade para a reflexão moral, na medida em que ela é constantemente transformada a partir das mudanças no âmbito social e privado. Aristóteles, seu mais brilhante discípulo, também parece ter percebido isso: para ele, a Ética não poderia ter a mesma precisão da Geometria e da Náutica.

Aristóteles defendeu a ideia de que somos nós, os indivíduos que agem, ou em seu vocabulário “o sábio” (aquele que sabe agir bem), que devemos encontrar a saída para as contradições. Estaremos sempre em meio a momentos em que necessitaremos decidir, agir e ultrapassar as contradições. Será o nosso hábito de, a partir da prudência, decidir rapidamente, no calor do momento e no escuro, sobre o modo correto de agir, que nos tornará aptos a agir bem e, consequentemente, sermos felizes.

Mas, ainda assim, até mesmo Aristóteles percebeu que, apesar de todos agirem e, então, todos refletirem sobre como agir, a reflexão sobre os aspectos mais gerais das ações no âmbito individual e na pólis, isto é, a reflexão sobre a Ética e a Política, deveria ser levada a efeito pelo filósofo. A política, ou a arte do estadista, deveria submeter-se à Ética, a ciência desenvolvida pelo filósofo, assim como a Política (a ciência de como deliberar no âmbito do coletivo) também deveria submeter-se à Ética, dado que tanto a deliberação sobre a vida na cidade quanto a no âmbito particular partem do mesmo fundamento: a reflexão possibilitada pela virtude intelectual: isso não poderia ser feito por qualquer um.

Muitos séculos após esses dois gigantes da filosofia, Kant percebeu que, para desenvolvermos um discurso rigoroso e científico sobre a moralidade, deveríamos fundamentar sua reflexão igualmente de um modo preciso e rigoroso. Para Kant, qualquer pessoa sabe o que é o certo e o que é o errado: não precisamos de filósofos para nos ensinarem isso. Todavia, para agir moralmente, isto é, para pôr em prática o certo, para superarmos as contradições que surgem entre o uso da razão e a esfera dos sentidos, para agirmos de acordo com o justo e o bom (e não o justo e o bom para nós, mas o justo e o bom universalmente para todos), precisamos fundamentar essa prática filosoficamente: na razão prática.

E contemporaneamente, como está esse cenário estruturado por Platão, Aristóteles, Kant (e muitos outros filósofos)? De certo modo, ainda podemos concordar com o fato de que pensar em soluções para contradições Éticas e Políticas pode ser muito mais efetivo se levarmos em considerações o que foi pensado pelas maiores cabeças da humanidade nos últimos 2500 anos. E o que isso quer dizer? Quer dizer que, para pensarmos efetivamente sobre Ética e Política e, consequentemente, desenvolvermos discursos rigorosos e coerentes sobre ambas as áreas, devemos debruçarmo-nos sobre os filósofos do passado: a história da filosofia é a nossa aliada.

Todavia, a excessiva burocratização e fragmentação do conhecimento têm atrapalhado muito essa reflexão. Os filósofos do presente, diferentemente dos filósofos do passado, que buscavam efetivamente lidar com as contradições de seu tempo — mesmo que majoritariamente as contradições no âmbito teórico —, estão caindo no mais profundo academicismo. Em seus trabalhos e suas reflexões, essa nova casta de filósofos dos últimos tempos, os “historiadores da filosofia”, dedica-se quase que exclusivamente ao estudo dos filósofos do passado. Isso significa que, de modo geral, um filósofo nos dias de hoje passa por uma formação acadêmica na qual ele dedica todos os seus esforços para compreender os filósofos do passado. Temos especialistas em Hegel, em Kant, em Platão, e etc. Muitas vezes, esses filósofos jamais dirão o que eles pensam. Ou melhor: eles vão dizer o que Agostinho pensava, o que Descartes pensava, o que Heidegger pensava… No máximo, vão dizer o que pensam sobre Agostinho, sobre Descartes ou sobre Heidegger. Mas e os especialistas sobre o nosso tempo? E os que desenvolvem novos paradigmas sobre o mundo contemporâneo? Onde estão os nossos “Platãos, Aristóteles e Kants”? Esses parecem estar extintos.

Temos um cenário no mundo contemporâneo no qual outros indivíduos precisam fazer as vezes dos filósofos. Assim, mesmo que de forma ingênua, temos outros profissionais desenvolvendo reflexões sobre Ética e Política — assim como temos outros profissionais muitas vezes desenvolvendo de forma ingênua reflexões metafísicas, epistemológicas e estéticas. De um modo geral, isso não é, per se, algo fundamentalmente ruim. No entanto, a extinção de filósofos como os do passado abre margem para o desenvolvimento do mais alto grau de obscurantismo, proselitismo e relativização do que entendemos rigorosamente por Ética e Política. Pensamentos são descontextualizados, reflexões são desenvolvidas para justificar práticas inaceitáveis, discursos são construídos recheados por sofismas, e etc. — parece que o temor de Platão se tornou realidade.

Isso é culpa de quem? Bem, talvez essa transformação não seja tão simples quanto parece. Estamos inseridos em um processo histórico que se transforma gradualmente ao longo dos séculos, no bojo de um sistema econômico e de um modo de vida que é fundamentalmente diferente do ambiente no qual os filósofos do passado estavam inseridos. Mesmo assim, em grande parte podemos apontar para os filósofos do nosso tempo e questioná-los sobre a efetividade de seu trabalho enquanto filósofos e historiadores da filosofia e de seu papel social em nosso mundo. Precisamos de mais filósofos que pensem o nosso mundo e ultrapassem a comentariologia que assola a academia.

Entretanto, as coisas não são tão obscuras como estou tentando fazê-las parecer. De fato, essa argumentação não defende que hoje não há nenhum filósofo refletindo sobre o mundo contemporâneo fora da história da filosofia. Todavia, essa reflexão do século XXI não tem o alcance e a abrangência necessária para que, de um modo efetivo e concreto, tenhamos uma reflexão de alto nível sobre as contradições que temos com personagens como o Estado Islâmico, a ação de Israel, Arábia Saudita e Irã no Oriente Médio, a neurofarmacologia, o desenvolvimento da ciência e assim por diante.

Portanto, para responder a nossa pergunta, parece que qualquer um pode falar sobre Ética e Política. Contudo, para transformarmos o nosso mundo do mesmo modo como cabeças do passado — Platão, Aristóteles e Kant — fizeram em sua contemporaneidade, necessitamos de uma reflexão muito mais profunda e fundamental. Essa, infelizmente (ou felizmente), ainda precisa ser desenvolvida pelo filósofo.

 

Indicações de leitura:

CONCHE, M. O sentido da filosofia. Tradução de Márcia Valéria Martinez de Aguiar. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

ONFRAY, M. A potência de existir: manifesto hedonista. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010.

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2 comentários sobre “Todos podem falar de Ética e Política?

  1. Ótimo texto. O mundo contemporâneo parece não perceber o valor imprescindível da filosofia; do papel do filósofo em suas reflexões profundas. Apontaria que parte deste problema deve-se ao cientificismo. Existe uma mentalidade de que a ciência superou a filosofia e esta, não é mais necessária. Quando é evidente que a mesma não alcança todas as questões humanas.

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