O uso de nootrópicos no mundo acadêmico e suas implicações éticas

Artigo desenvolvido para o curso “Bioética, Filosofía y Biotecnología: Las voces de la Naturaleza”, da Dirección de Postgrado do Centro de Biotecnología da Universidad de Concepción.

 

A relação do homem com a tecnologia é uma das questões mais fundamentais desse início de século. O recente avanço de áreas como a neurociência, a nanotecnologia, a ciência da computação, a biotecnologia e a robótica, retira do nosso horizonte qualquer possibilidade de encontrarmos um limite para o desenvolvimento de tecnologias. Promessas como as de aumento de longevidade, de melhora na qualidade de vida e de um futuro qualitativamente melhor, ingenuamente acompanham o seu desenvolvimento. Entretanto, essas promessas podem, pelo contrário, trazer problemas muito maiores do que os quais o avanço das tecnologias promete solucionar, na medida em que não temos pleno controle sobre os riscos que novas tecnologias podem trazer à vida humana.

Não foi somente em nosso século que grandes filósofos começaram a perceber os efeitos que novas tecnologias podem causar no âmbito social, biológico, moral, político e etc. Como nos alerta João de Fernandes Teixeira, “O triunfo da tecnologia nem sempre é o triunfo da ética e do bem-estar coletivo. Após duas bombas atômicas, no século XX, já deveríamos ter aprendido essa lição”. (TEIXEIRA, 2015, p. 151). Isto posto, neste início de século no qual estamos, a filosofia reaparece como um campo do saber relevante à vida prática, sobretudo no que diz respeito a reflexões cujas implicações são, com efeito, éticas. Portanto, levando em consideração a imprevisibilidade do avanço das tecnologias, seus efeitos e sua relação direta com a humanidade, assim como a rapidez com a qual elas são desenvolvidas, cabe à filosofia se adaptar às necessidades de nosso tempo e inverter o modo com o qual desenvolve suas reflexões: não podemos mais esperar novas tecnologias tornarem-se atuais e concretas no nosso cotidiano para refletirmos sobre suas implicações, seus efeitos, seus perigos e seus benefícios. Heidegger, no século passado, questionou o valor da tecnologia e defendeu que ela poderia levar à destruição da humanidade. De minha parte, não sou tão radical. De modo mais sutil e cauteloso, sem entrar nessa discussão de Heidegger e sem me posicionar precipitadamente contra as tecnologias em geral, defendo que devemos dar um passo à frente e refletir sobre que pode estar por vir, antes de novas tecnologias serem absorvidas em nossas vidas, para evitarmos consequências irreversíveis. “Hoje em dia”, nos alerta João Teixeira, “a aparição de novos produtos tecnológicos precede a nossa capacidade de poder pensar neles e refletir sobre suas consequências, o que leva a uma inversão histórica” (TEIXEIRA, 2015, p. 18): a de termos que refletir, na ética, sobre o que ainda não aconteceu, isto é, especulações sobre implicações decorrentes do que pode, ou não, acontecer.

No que diz respeito às biotecnologias, o argumento de Francis Fukuyama, de que cada avanço da biotecnologia levanta questões sérias e difíceis com as quais diretamente devemos nos confrontar, aponta para a filosofia como uma protagonista nas discussões contemporâneas sobre tecnologias. Uma marca desses avanços rápidos está em reflexões cujas questões parecem ser até mesmo futuristas demais.

“Adaptamos nossos corpos para dirigir carros, guindastes e empilhadeiras, o que tem levado à atrofia de nossos músculos, que precisa ser compensada por exercícios regulares. O que ocorrerá no caso das tecnologias mentais, que substituirão nosso raciocínio, memória e capacidade de calcular?” (TEIXEIRA, 2015, p. 17)

É evidente que ainda não chegamos nesse estágio do desenvolvimento tecnológico. No entanto, nada impede que as reflexões sobre esses problemas sejam feitas hoje. Atualmente, há uma procura por neurotecnologias que aumentem as capacidades mentais dos indivíduos. Assim, o uso de medicamento para o aumento da capacidade cognitiva vem tornando-se um fenômeno do nosso tempo, com o uso de substâncias como Ritalina, Modafinil e Piracetam: os nootrópicos. Originalmente, a neurofarmacologia preocupava-se quase exclusivamente com o tratamento de transtornos mentais, como a narcolepsia, transtorno de atenção e hiperatividade, alzheimer e etc., de modo a melhorar a qualidade de vida e reduzir os efeitos dessas doenças nas pessoas afetadas. Em seus empreendimentos para desenvolver medicamentos para mitigar esses quadros de transtornos que afetam a memória, a concentração e etc., a neurofarmacologia desenvolveu os nootrópicos.

“Nootrópico” foi cunhado para descrever uma classe de remédios que melhoram “funções cognitivas mais elevadas”. O termo foi inventado por Guirgea, que desenvolveu o piracetam, a presumida “droga da memória”, descrita como a primeira de uma nova classe de remédios psicoativos nootrópicos”. (Gualtieri, 2004, p.5)

Entretanto, esses estimulantes cognitivos foram desenvolvidos, segundo Gualtieri (2004, p. 2), como um subproduto da tentativa de melhorar a qualidade de vida de pessoas com quadros mentais qualitativamente abaixo da normalidade. “Um estimulante cognitivo é uma substância neuroativa que eleva as habilidades cognitivas de um indivíduo, de modo significativo e continuado, acima e para além do nível básico de performance deste indivíduo” (GUALTIERI, 2004, p. 2).

Partindo do campo do uso medicinal para pacientes mentalmente debilitados, esses nootrópicos passaram a também ser utilizados por pessoas sadias, a chamada “cosmetic neurology”. Apesar das possíveis preocupações neuroéticas, Anjan Chatterjee defende em um de seus papers que grandes restrições no desenvolvimento dessa neurologia cosmética são improváveis. “Neurologistas e outros clínicos provavelmente encontrarão pacientes-consumidores que veem médicos como guardiões em sua própria busca por felicidade” (CHATTERJEE, 2004, p. 968). Com efeito, com o desenvolvimento dessas “smart pills”, o uso de nootrópicos no mundo acadêmico tem implicações éticas com as quais, mais cedo ou mais tarde, teremos que lidar. Na medida em que defendo a necessidade de uma reflexão ética sobre novas tecnologias antes de elas serem absorvidas em nossas vidas, de modo a evitarmos consequências irreversíveis cujos efeitos ainda desconhecemos, apresentarei pontualmente reflexões sobre possíveis implicações éticas do uso de nootrópicos no mundo acadêmico.

Será que doping é um conceito que se aplica somente para o corpo? Na medida em que as universidades se tornam cada vez mais ambientes competitivos, nos quais os indivíduos são pressionados para produzir em quantidade e qualidade cada vez maior, que conferem honras, prêmios, bolsas, benefícios profissionais e etc., o que diferenciaria essa competição no âmbito mental da competição de ambientes competitivos que dizem respeito ao corpo? Nelas, os competidores não podem utilizar substâncias que aumentem sua capacidade física sem esforço próprio. Será que é justo aumentar a capacidade cognitiva sem o devido esforço próprio? Na medida em que esporte e universidade não são a mesma coisa, será que, como questiona João Teixeira (2012), “teremos de criar um conceito de doping para o cérebro?”.

Esse problema do ambiente acadêmico esbarra em outra questão: Platão, Aristóteles e Kant não tinham datas extremamente exigentes para produzir artigos, participar de congressos, muito menos necessitavam adicionar cada vez mais itens em seus currículos; eles não tinham 10 orientandos, não participavam de bancas de qualificação e nem corrigiam provas. Será que as exigências burocráticas atuais não são excessivas? Será que não estamos buscando solucionar, com medicamentos, os efeitos de uma excessiva burocratização do mundo acadêmico e não as próprias causas desses efeitos? Segundo Rose (2006), “a tendência da nossa sociedade é tratar questões que são de ordem social, política e educacional com medicamentos, tentando modelar cérebros ao invés de rever os modos de vida em sociedade”.

Mas e caso decidamos que os benefícios dos nootrópicos são maiores do que os danos, assim como maiores do que seus dilemas éticos atuais, será que novos dilemas éticos não poderão surgir de sua absorção na vida acadêmica? Se pensarmos no ambiente acadêmico de universidades extremamente competitivas, nas quais os estudantes passem a usar nootrópicos livremente e sem remorso ético, os outros estudantes, por sua vez, que não usarem essas substâncias, estarão deixando de cumprir suas novas responsabilidades morais, dado que colocarão em risco a produtividade de suas universidades. Parece soar contraintuitivo e inaceitável exigir que estudantes sejam obrigados a tomar piracetam para produzir mais. Ora, mas não parece tão contraintuitivo assim exigir que esses mesmos estudantes preencham o currículo com dezenas de atividades com as quais nenhum ser humano teria tempo hábil para desenvolver com rigor, para serem melhores estudantes.

Talvez o crescente uso dessas substâncias seja um alerta, na forma de um efeito de causas que tentamos esconder embaixo do tapete. De qualquer modo, seja defendendo o uso dessas neurotecnologias, seja defendendo a necessidade de evitar que isso se torne comum, as reflexões sobre as implicações éticas devem sempre ser levadas à efeito paralelamente à neurofarmacologia. Isso não significa que o consumo dessas substâncias por pessoas sadias possa ser evitado. Já absorvemos em nossas vidas o socorro farmacológico. “Quando há algo errado com uma pessoa”, conclui João Teixeira, “a primeira hipótese que se levanta é a de que ela precisa de socorro farmacológico. As drogas biopsiquiátricas se tornaram soluções individuais para males coletivos, e é isso que faz com que elas tenham cada vez mais sucesso” (2012, p. 79). Esse problema, no entanto, necessitaria de uma outra discussão.

 

REFERÊNCIAS 

 

CHATTERJEE, Anjan. “Cosmetic Neurology: The controversy over enhancing movement, mentation, and mood.” Department of Neurology and the Center for Cognitive Neuroscience, The University of Pensylvannia, Philadelphia, PA, 2004. Web. 03 Jan. 2016.

FUKUYAMA, F. Our posthuman future: Consequences of the biotechnology Revolution. New York: Farrar Straus and Giroux, 2002.

GUALTIERI, C. Thomas. “Cognitive Enhancers and Neuroprotectants.” Brain Injury and Mental Retardation: Psychopharmacology and Neuropsychology. N.p.: Lippincott Williams & Wilkins, 2004. 2+. Web. 02 Jan. 2016.

HEIDEGGER, M. A questão da técnica. In: _____. Ensaios e conferências. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.

ROSE, S. O cérebro no século XXI: Como entender, manipular e desenvolver a mente. São Paulo: Globo, 2006.

TEIXEIRA, J de F. O cérebro e o robô: inteligência artificial, biotecnologia e nova ética. São Paulo: PAULUS, 2015.

_____. Filosofia do cérebro. São Paulo: PAULUS, 2015.

 

Indicações de leitura:

TEIXEIRA, J de F. O cérebro e o robô: inteligência artificial, biotecnologia e nova ética. São Paulo: PAULUS, 2015.

FUKUYAMA, F. Our posthuman future: Consequences of the biotechnology Revolution. New York: Farrar Straus and Giroux, 2002.

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