The Last Guardian e a filosofia

ATENÇÃO: este artigo contém informações reveladoras sobre o enredo de “The Last Guardian”.

Artigo publicado na edição Nº74, de setembro de 2016, Fantasia Fantástica e Filosofia, da Revista Pandora Brasil, ISSN 2175-3318.

 

The Last Guardian é provavelmente o romance mais filosófico de todo o universo de Warcraft. Do início ao fim, questões como verdade e ilusão, essência e existência, determinismo e liberdade, universalidade ética e relativismo cultural, prendem o leitor nessa fantasia mágica e emocionante. Ao longo de suas mais de 300 páginas, podemos vislumbrar a essência da magia de Warcraft, viajando desde seus princípios e fundamentos até a solidificação do maior conflito dessa série: Orcs vs. Humans.

Nesse capítulo da história, podemos entender o desenvolvimento do enredo no período da Primeira Guerra, cenário em que a Orcish Horde derruba a poderosa capital Stormwind, acabando com a raça humana no reino de Azeroth — cenário sobre o qual o filme Warcraft é baseado. Nos capítulos anteriores, em Rise of the Horde e a Filosofia e em Unbroken e a Filosofia, por uma perspectiva de enredo entendemos o surgimento da Horde em Draenor, seu conflito com os draenei, as consequências de seu pacto com a Burning Legion, a construção do Dark Portal e a sobrevivência do povo draenei. Pela abordagem filosófica, por seu turno, entendemos as implicações do uso da democracia em sociedades nas quais os indivíduos não possuem a autonomia necessária para tomar decisões racionais para um grupo, conflitos morais e o choque entre diferentes culturas, refletimos sobre a trivialidade das diferenças étnicas, assim como a posição do sofrimento no pensamento ocidental.

Agora, o enredo de The Last Guardian — terceiro capítulo da série, na forma de um romance escrito por Jeff Grubb —, demonstra a invasão dos orcs em Azeroth e seu conflito com a humanidade. A estrutura central do enredo, no entanto, gira de em torno de questões muito mais fundamentais: será que o universo opera cosmologicamente como um mecanismo implacável, representado pela figura de um relógio? Será que, pelo contrário, ele opera como uma ampulheta, sem a determinidade dos ponteiros e de uma estrutura racionalmente ordenada? Será que temos liberdade para construir a nós mesmos através de nossas ações ou será que somos determinados a representar o papel que nos foi arbitrariamente escolhido? E, finalmente, será que, apesar de sermos livres para racionalmente escolher como agir, somos livres em detrimento ao nosso corpo, às nossas necessidades e aos nossos desejos: será que a nossa vontade é livre? Para refletirmos sobre essas questões, devemos primeiramente embarcar de cabeça na magia da torre de Karazhan.

Dalaran é um reino mágico, ao norte de Azeroth, governado por uma magocracia — forma de governo cujo poder é representado por uma oligarquia de magos. Construída às margens do lago Lordamere, suas torres violetas postavam-se nas margens opostas às de Lordaeron, a cidade capital do reino mais poderoso do Norte. Sua proximidade, contudo, não era somente geográfica, dado que sua influência nos governos dos reinos da humanidade é quase tão antiga quanto a própria Dalaran. Essa magocracia é representada pelo Kirin Tor, uma organização mágica composta pelos magos mais poderosos do mundo. Nesse reino de magos, o governo operava de forma diplomática, sempre buscando guardar e proteger o mundo de problemas que os outros reinos não conseguiam compreender. Em Dalaran, Khadgar, um jovem aprendiz de 17 anos, começou a tornar-se um problema para o Kirin Tor, na medida em que, dotado igualmente de magia e curiosidade, possuía uma habilidade notável para descobrir o que não deveria ser descoberto. Por isso, o Conselho dos Seis, magocracia que governava Dalaran e o Kirin Tor, decide enviá-lo a Karazhan, lar do mago mais poderoso do mundo: Medivh.

Khadgar não sabia muito sobre Medivh, somente sabia que ele era um mago independente. Em Kirin Tor, os magos independentes são mal vistos, na medida em que essa ordem, considerada por si mesma como a mais poderosa do mundo, buscava instaurar-se como a soberana e guardiã do mundo, visando uma abrangência total e absoluta — mesmo que tão somente diplomática. Com Medivh, por outro lado, isso não funcionava: ele era mais poderoso que todos da ordem juntos; e isso, certamente, provocava nos magos do Kirin Tor, sobretudo no Conselho dos Seis, desejo e temor. Enviar Khadgar a Medivh como um aprendiz resolveria dois problemas de uma só vez: de um lado eles poderiam espionar Medivh e, de outro, poderiam livrar-se de Khadgar. Entretanto, Medivh não aceitava aprendizes. É nesse contexto político em que a história desses magos é colocada em ação.

Após uma longa jornada de Lordaeron para Azeroth, trazido em navios mercantes por membros de outros reinos em outras regiões, Khadgar chegou ao seu destino. Trazendo poucos pertences pessoais e uma carta selada com a marca escarlate de Dalaran, o jovem mago chegou aos portões da imensa torre de Karazhan. Esse local era afastado de Stormwind City, a capital do reino de Azeroth. A torre era localizada entre as montanhas de Redridge, em uma cratera erma e desolada. Este aprendiz, com borboletas no estômago, foi recebido por Moroes, o castelão da torre.

Com uma viseira na cabeça, como rédeas de um cavalo, o servo aparentemente excêntrico introduziu Khadgar à torre. Apesar de o local ser uma das maiores torres do mundo, Khadgar descobriu de Moroes que apenas três pessoas residiam no local: Medivh, o senhor de Karazhan; Moroes, o castelão e servo de Medivh; e o cozinheiro. Ele também descobriu que Medivh aceitou outros assistentes antes — assistentes, não aprendizes ou discípulos; porém nenhum deles durou mais do que uma noite no local: havia visões e aparições assustadoras na torre, por isso Moroes usava sua proteção equina. Após subir os incontáveis pavimentos e passar por diversos salões e aposentos, Khadgar chegou ao topo da torre no observatório de Medivh. Lá, ele encontrou o Magus, um indivíduo com ombros largos, longos cabelos e barba negra, vestido em uma túnica mágica e com um olhar penetrante e poderoso.

Logo de cara Khadgar fora testado inúmeras vezes por Medivh. Khadgar provou ser um jovem promissor, na medida em que impressionou Medivh com suas respostas originais e ousadas. Medivh, em élfico, significava Keeper of Secrets. Khadgar, por seu turno, na antiga língua dos anões, significava Young Trust. Durante sua estada em Karazhan, Khadgar tornou-se o “young trust” de Medivh. Depois de ser recebido por Medivh, Khadgar foi levado por Moroes a seus aposentos. Ao dirigir-se ao salão para o jantar, Khadgar simplesmente se perdeu e acabou entrando em uma visão. Nessa visão, ele foi transportado para outro lugar, com um céu sangrento e vegetação árida. Lá ele deparou com um guerreiro mago, comandante de uma legião, envelhecido e com longas barbas brancas. Essa legião estava aguardando um exército de criaturas verdes e monstruosas, com armaduras de couro e armas desproporcionais: os orcs.

Moroes encontrou Khadgar perdido e a visão foi-se na mesma medida em que tinha aparecido. Ele, então, aprendeu o que eram as visões e entendeu o motivo de Moroes proteger-se delas com sua viseira. Em pouco tempo ele começou a habituar-se com o local. Medivh incumbiu-lhe com a tarefa de organizar sua biblioteca. Esta encontrava-se em puro caos: uma enorme biblioteca, ocupando dois pavimentos da torre, com amplos espaços e incontáveis volumes. Em pouco tempo, com ajuda de subterfúgios mágicos, Khadgar colocou a biblioteca em ordem. Após um longo sumiço, Medivh regressa à torre de Karazhan e ataca Khadgar, aparentemente por se esquecer de que ele era seu assistente. Quando o jovem mago conseguiu refrescar sua memória, Medivh encerrou o encantamento com o qual estava atacando o jovem e se surpreendeu com a organização da biblioteca.

Com a memória recuperada, Medivh alertou seu assistente de que eles precisavam partir rapidamente. No topo a torre, Moroes havia preparado grifos: criaturas meio aves e meio leões, treinadas pelos aliados anões de Khaz Modan, para transportar a elite das forças de proteção de Azeroth. Khadgar nunca havia montado em grifos, então Medivh colocou um encantamento de aprendizagem em sua cabeça, ensinando-lhe instantaneamente a arte de voar com grifos. Eles sobrevoavam a região de Black Morass, quando foram alvejados por flechas. Khadgar caiu e enfrentou orcs que haviam invadido Azeroth. Apesar de resistir a alguns, no final o jovem mago estava exausto e foi salvo por Medivh.

Lord Anduin Lothar, cavaleiro campeão do reino de Azeroth, chegou ao local e foi instruído por Medivh a cuidar de Khadgar, enquanto ele investigaria o local. Nesse instante, Khadgar descobre que Medivh foi amigo de infância de Lothar e do King Llane, rei de Azeroth. Ele revela a Khadgar que Medivh estivera em um coma durante muitos anos. Ele fora acometido subitamente pelo coma, sendo tratado em Northshire e esperando décadas para acordar, perdendo toda a sua juventude. Portanto, Lothar preocupava-se muito com Medivh, sempre tentando manter olhos bem abertos. Por fim, Lothar pediu para ele, na medida do possível, cuidar de Medivh. O campeão revela a ele que tentou enviar aprendizes a Karazhan em diversas ocasiões, para colocar alguém para cuidar do Magus. Entretanto, ele nunca aceitou um. Por isso, Lothar estava surpreso com Khadgar ser o novo aprendiz de Medivh.

De volta à torre, Khadgar revela a Medivh que havia visto os orcs em uma visão, relatando tudo o que vira. Eles, então, têm uma conversa sobre Karazhan. Medivh diz a ele que o universo funciona como o tempo: por um lado, um relógio é desenvolvido de modo que cada ponteiro se mova de forma determinada, isto é, exatamente da maneira através da qual o relojoeiro o projetou; uma ampulheta, por outro, apesar de também contar o tempo, move seus grãos de areia sempre de uma maneira diferente e, de certo modo, livre e desordenada. Karazhan era um local em que as coisas funcionavam de forma mágica: na lógica da ampulheta. Para Medivh, todo o universo deveria funcionar dessa maneira: essa é a verdadeira forma pela qual o universo opera.

Sozinho novamente em seus estudos, Khadgar tem outra visão: a de Medivh, Llane e Lothar adolescentes, em algum local em Azeroth, aparentemente nas selvas de Stranglethorn Vale. Eles estavam acampando, contando histórias e rindo uns dos outros. De repente surgem três trolls, criaturas enormes e fisicamente muito mais fortes do que os três juntos. Em uma luta apertada, Medivh de repente libera todo o seu poder, obliterando os trolls terrificamente. Nesse instante, contudo, Medivh cai em coma, perdendo a consciência por longos e longos anos. Tão rápido como veio, a visão escapa do alcance de Khadgar e ele está de volta na torre. Medivh topa com ele e avisa que está de partida, sem previsão para retornar. Seu aprendiz, então, decide que ele deverá descobrir um meio de domar a ampulheta: ele busca desenvolver um encantamento para controlar as visões.

Enquanto Medivh estivera fora por algum tempo, Khadgar decidiu investigar sobre as visões para tentar ativá-las. Deixando seu dever de lado, ele investiu todo seu intelecto em tentar descobrir como acessá-las. Depois de algumas semanas, ele desenvolve um encantamento forte o bastante. Entretanto, o encantamento, de certo modo, falha: ele trouxe uma visão, mas não a visão sobre o jovem Medivh que Khadgar queria. Nessa visão, Khadgar foi transportado para o pico de geleiras em meio a uma imensidão branca e azul: Northrend. Lá embaixo, Khadgar viu demons causando destruição por onde passavam. Ele sentiu a presença de outra pessoa, quando percebeu que não estava sozinho. Tratava-se de uma mulher alta e bela, mas sobretudo poderosíssima. Ela usava vestes de magos e tinha uma leveza que fazia com que suas botas brancas de couro nem mesmo afundassem na neve. Seus olhos verdes e penetrantes eram inconfundíveis para Khadgar: os olhos de Medivh. Ela só podia ser Magna Aegwynn, mãe de Medivh, a poderosa e quase imortal lenda. Nesse cenário gélido, Khadgar presenciou Aegwynn confrontar os demons e vencer um a um, até o instante em que as forças da Burning Legion conseguiram invocar Sargeras, o senhor do caos no universo: um titã colossal, de dimensões montanhosas. Mesmo assim, Aegwynn venceu-o em combate, esgotando todo o seu poder de magia. Khadgar instantaneamente retornou aos aposentos na torre. Ao refletir sobre o que vira, ele notou que Aegwynn, no final, possuía duas sombras.

Medivh retornou subitamente e exigiu que Khadgar se preparasse para partirem a Stormwind City, a capital de Azeroth. Chegando lá, Khadgar ficou completamente espantado pelo que viu de seu grifo: a beleza dos castelos, das torres, das muralhas. Tudo parecia majestoso e feito cuidadosamente pelas melhores mãos. A cidadela era impressionante, ainda mais imponente e bem trabalhada do que o resto da cidade. Certamente havia sido construída de algum material similar a ouro e prata, tendo sua construção parecendo ter sido feita com magia. Ao chegar na cidade, Lord Lothar informou a Khadgar de que dois dos mais poderosos magos de Azeroth estavam mortos, sob suspeita de atividade demoníaca em seus aposentos. Na torre dos magos, Medivh e Khadgar constataram que realmente se tratava de atividade demoníaca: ambos foram assassinados por um demon.

Apesar de muito promissor, Khadgar era ignorante no que diz respeito a demons. Medivh, então, decidiu ensiná-lo, devido ao perigo das atuais circunstâncias. O Magus diz a seu aprendiz que há uma organização secreta chamada Order of the Tirisfalen. Para entendê-la, contudo, Khadgar deveria entender os fundamentos e os princípios da magia. Então, ele pergunta o que é magia. Khadgar responde com uma reposta escolar pronta. Ele insiste a Medivh que magia, como a água, é universal. Medivh, por sua vez, responde que nem sempre foi assim: houve um momento em que era como se toda a água do mundo estivesse concentrada em um só local, em uma só fonte. Entretanto, diferente de água, Medivh lembra seu aprendiz que é de magia que eles estão falando. Havia uma fonte única e concentrada de magia, um poder indelével conferido pelos titãs, na ordenação do mundo em sua gênese. Essa fonte serviria de entrada para outros mundos através do universo. Essa fonte era chamada de Well of Eternity. Os Kaldorei foram os primeiros a serem atraídos por essa fonte de magia. Eles tornaram-se poderosos, porém sem entender os fundamentos e os princípios da magia, cujo poder atraía os mais poderosos seres do universo através dos mundos. Esses seres eram os demons da Burning Legion. Eles foram atraídos pelo uso indiscriminado de magia. Sargeras, seu líder, decidiu corromper os Kaldorei, a fim de controlá-los, para que eles possibilitassem sua invasão de Azeroth.

Com o tempo, os Kaldorei ajudaram a Burning Legion invadir Azeroth. Apesar disso, alguns dos Kaldorei, com a ajuda de outros povos, impediram a invasão. Esse conflito acabou causando a explosão do Well of Eternity e dividindo o mundo em continentes. A explosão do Well of Eternity fez com que a concentração de magia se espalhasse pelo mundo, tornando a magia universal. Durante muitos e muitos tempos, alguns sobreviventes dos Kaldorei juraram que fariam de tudo para evitar que isso acontecesse novamente. Assim, eles criaram a Order of the Tirisfal. Após milênios, os humanos, que também sobreviveram à explosão do Well of Eternity, começaram a usar indiscriminadamente o poder da magia, ao ponto de pôr em risco a segurança de Azeroth ao atrair mais demons. Nesse instante, os Kaldorei que sobreviveram decidiram alertá-los e contar a história da explosão. Desde então, eles decidiram manter essa sociedade secreta, para proteger o mundo da possibilidade de o uso de magia trazer mais demons a Azeroth.

Para conseguir proteger o mundo, essa ordem escolhia um Guardião, imbuído com o poder milenar e supremo de Tirisfalen, sendo, portanto, encarregado de proteger o mundo das invasões demoníacas. Com o tempo, a ordem começou a ser manipulada e fazia parte de aliciamentos políticos. Os guardiões passaram a responder aos reinos e não mais honravam com os princípios da ordem. Magna Aegwynn era um membro promissor e poderoso. A ordem decidiu torná-la Guardiã, achando que seria fácil manipular uma jovem garota. Isso se provou um erro, já que ela buscou honrar os princípios da ordem e não mais agir como um fantoche. Para evitar que o poder do Guardião fosse passado a outro indivíduo corrupto, ela buscou gerar um filho para passar o poder de Tirisfalen. Medivh revela a Khadgar que é o filho de Aegwynn, o mais poderoso mago do mundo e o mais poderoso guardião de todos os tempos.

Medivh parte para perseguir o demon em Stormwind City e pede a Lord Lothar para que cuide de Khadgar enquanto ele estivesse fora. Em uma das torres da cidade, Lothar e Khadgar conversam. O campeão de Azeroth revela que escutou rumores sobre o desaparecimento de magos. Ele revela que outros magos em Alterac, Lordaeron e em outras partes do mundo também estavam sendo atacados. Esse era o terceiro ataque fatal: isso apenas confirmava os rumores de Dalaran quando Khadgar partiu. Lothar acredita que pode haver uma ligação entre a invasão dos orcs e os ataques aos magos. Ele teme que algo esteja caçando os membros do Kirin Tor e teme, consequentemente, por Medivh. Este, então, retorna vitorioso do confronto com o demon e volta à torre de Karazhan com Khadgar.

Claramente esgotado pelos recentes acontecimentos, Medivh novamente entra em coma. Dessa vez, no entanto, o coma dura apenas cinco semanas. Durante esse período, Khadgar é incumbido de receber as correspondências. Por isso, ele foi ensinado a decifrar a codificação da correspondência confidencial da Order of the Tirisfal. Lothar escreve para Medivh, dizendo que a situação com os orcs estava ficando fora de controle. Em uma das noites, Khadgar recebe correspondência de Dalaran, junto com uma carta da Order. Nessas correspondências, eles informam a Khadgar e a Medivh que Guzbah, o instrutor de Khadgar em Dalaran, estava morto. Na carta da Order, por sua vez, Khadgar lê que Guzbah fora assassinado brutalmente por um demon, há semanas atrás. Tudo parece fazer sentido, e a preocupação de Lothar vem à mente de Khadgar. Enquanto lia, Khadgar presencia uma visão aterrorizante: Sargeras, Senhor da Burning Legion, subitamente se materializa no aposento de Medivh, na forma de uma visão, e observa atentamente o sono do guardião. Medivh acorda, e Khadgar, além de informar seu mestre sobre as correspondências, revela o que tinha acabado de ver. O Magus, entretanto, insiste que Sargeras estava morto e não poderia ter entrado na torre. Para o espanto de Khadgar, quando Medivh ouviu sobre a preocupação de Lothar, ele sorri e diz que, de acordo com as notícias que Khadgar tinha acabado de revelar, as coisas estavam acontecendo exatamente como ele esperava.

No momento em que Medivh estava recuperado, Karazhan recebe um emissário. Khadgar não é informado por seu mestre e desconhece completamente a identidade do novo hóspede. Ele ficou intrigado com isso, dado que Medivh passou a ordená-lo a fazer certas coisas na torre, somente para chamar o visitante em seus aposentos, de modo que Khadgar estivesse ausente durante os encontros. O jovem aprendiz perguntava-se quem poderia ser o visitante. Não saber quem era o visitante era frustrante, mas não ser confiado a identidade dele pelo próprio Medivh era muito pior. Khadgar então decide fazer um encantamento para bisbilhotar os aposentos de Medivh a distância, para presenciar sua conversa com o emissário. Ele prepara os materiais e desloca-se a uma sala propícia. Assim como anteriormente, o encantamento envia outra visão a Khadgar: a do encontro entre Aegwynn e Nielas Aran, o conjurador chefe ao trono de Azeroth. Nesse encontro, é revelado a Khadgar que Aegwynn seduziu Nielas e o levou para a cama somente para engravidar dele e poder passar a este filho o poder de Tirisfalen. No momento em que a visão cessou, Khadgar percebeu que estava sendo espionado pelo emissário. Ele persegue o novo hóspede pelos corredores escada abaixo, e então o derruba no chão. Khadgar percebe que o emissário é, na verdade, um orc.

Medivh recebe seu aprendiz em seus aposentos. Claramente machucado por ter apanhado de Garona, a emissária, Khadgar insiste a seu mestre que isso era loucura: ela era uma espiã e Medivh estava recebendo-a em seu lar. Este, por sua vez, diz a Khadgar que ela não era uma orc, mas uma “meio-orc”, uma mestiça. Além disso, para Medivh essa acusação não fazia sentido, dado que Khadgar também chegou à torre como um espião. Muito contrariado, Khadgar volta à biblioteca e encontra Garona bisbilhotando seus livros. Khadgar irrita-se com Garona, mas se lembra da discussão com Medivh e respeita a mestiça. Ela pede ao mago para ele mostrá-la algum livro sobre os reis de Azeroth. Ao estudar sobre os humanos, Khadgar questiona Garona sobre sua lealdade aos orcs. Garona, por sua vez, demonstra a Khadgar que nem todos os orcs pensam da mesma maneira, na mesma medida em que nem todos os humanos concordam e pensam da mesma forma. Sobre os orcs, Garona ensinou a Khadgar que eles se dividem em numerosos clãs, vindos de um mundo árido e escasso. Ele lembrou-se da visão que teve no primeiro dia na torre. Ela revelou não pertencer a nenhum clã, sendo uma renegada vista como inferior pelos orcs, por ser demasiadamente humana, do mesmo modo que é vista como inferior pelos humanos, por ser demasiadamente orc. Garona está em Karazhan para tentar achar um meio de negociar com os humanos para evitar conflito, por isso está estudando sobre eles para entendê-los melhor.

Enquanto conversavam, um demon subitamente surge na biblioteca, causando destruição e quase levando ambos à morte. Juntos, eles conseguem dar cabo da criatura, mas quando vão chamar Medivh para averiguar, a criatura desaparece e nenhum sinal dela, além da destruição, é deixado para trás. Medivh irrita-se com ambos e pede para eles deixarem a biblioteca como estava. Durante a reconstrução da biblioteca, Garona e Khadgar tornam-se próximos e conversam sobre muitas coisas. Dentre elas, Garona revelou que a Horde era dividida em clãs distintos, liderados por warchiefs. Os clãs eram muito diferentes, com alguns deles possuindo líderes violentos, outros possuindo líderes poderosos, e outros ainda não possuindo líder nenhum.

Ao tentar relatar o que descobrira sobre a Horde a Medivh, Khadgar notou um grande desinteresse em seu mestre. Ele não estava disposto a ouvir, sempre distante. Medivh não estava estranho somente com Khadgar, mas também com Garona e Moroes. Ela questionou Khadgar sobre o comportamento de seu mestre. Ambos estavam intrigados com as mudanças. O Magus insistiu que não agiria em defesa de Stormwind, alegando que seu papel era de cuidar da ligação entre as dimensões de Azeroth e de Twisting Nether, para impedir que demons invadissem o mundo. Mesmo ao apontar para o fato de que Azeroth estava em perigo, Medivh insistiu que esse não era seu papel, argumentando que mesmo se tivesse que ser o guardião para os orcs, caso eles vencessem os humanos, ele o seria e cumpriria seu dever.

De volta à sua rotina, Khadgar recebeu a notícia de que Stormwind City tinha sido atacada pelos orcs. No entanto, as forças foram repelidas, dado que os dois clãs atacantes estavam lutando entre si. Garona argumentou que não sabia dos ataques em Stormwind City, porém o alertou de que eles iriam se reagrupar e voltar a atacar. Ao pressioná-lo para descobrir se ele havia se comunicado com Lothar repassando as informações dadas por ela, Garona revelou que não estava se comunicando com seus aliados. Ela revela que foi enviada por Gul’dan. Este disse que Medivh era especial, dizendo que suas informações seriam preciosas para a Horde. Entretanto, na medida em que foi recebida por Medivh e teve as informações divididas abertamente, Garona sentiu que estaria traindo a confiança de Medivh, caso relatasse tudo a Gul’dan. Esse contato com Medivh fez Garona sentir-se humana. Contudo, o comportamento recente do poderoso Magus estava preocupando-a. Khadgar, todavia, tentou colocar panos quentes na situação e perguntou a Garona sobre como eles vieram parar em Azeroth. Ele revelou que tivera uma visão sobre Draenor, com céus vermelhos e muitos orcs. Ela, então, revelou que a vida em Draenor era difícil. Eles foram prometidos por Gul’dan a possibilidade de ir para outro mundo fértil, com muitas terras e vegetação. Apesar de alguns resistirem e terem medo, eles foram forçados a fazer a travessia e vir para Azeroth. Ao fazer a passagem, todos ficaram encantados com Azeroth, com a quantidade de vegetação e água no local.

Finalmente, Garona revela que não sabe quantos clãs passaram pelo Dark Portal e de onde ele surgiu. Porém, ela diz que Khadgar pode descobrir. Ela sugere a ele fazer um encantamento para acessar as visões, como fizera semanas atrás para acessar a visão de Aegwynn. Khadgar, assim, prepara-se mais do que jamais fizera e conjura o encantamento com maestria e perfeição, acessando exatamente a visão que precisava. No momento em que conjurou o encantamento, Garona e Khadgar foram transportados para outro local, em uma sala com uma janela que dava para céus vermelhos. Eles estavam no quarto de Gul’dan, após a batalha de Shattrath City, depois de seus exércitos, a mando de Kil’jaeden, terem exterminado os draenei em Draenor. O líder do Shadow Council acorda assustado, tendo pesadelos com um humano. Este humano materializa-se encapuzado em seu quarto. Ele demonstra ao orc imagens de Azeroth, das vegetações, de Stormwind, e finalmente da Tomb of Sargeras. Depois de mostrar Azeroth, ele insistiu a Gul’dan para o orc juntar suas forças e seus soldados, construir o Dark Portal e invadir Azeroth. Khadgar reconheceu a voz da figura encapuzada e desesperou. O indivíduo preparou-se para desvelar sua imagem e retirar o capuz, e Khadgar desesperado acenava negativamente com a cabeça. Medivh revelou-se para Gul’dan e disse que era o guardião, o responsável por abrir o portal para a Horde.

Khadgar e Garona estão perplexos pelo que viram. Khadgar não pode acreditar que Medivh pôde trazer os orcs para Azeroth. Garona, mesmo assim, tenta encontrar uma razão para inocentar Medivh. O aprendiz não estava tão certo da inocência de seu mestre. Pelo contrário, para ele todas as coisas começaram a fazer sentido agora: as inexplicáveis desaparições do Magus, as mortes dos membros do Kirin Tor, o comportamento depressivo, a passividade frente aos orcs, e assim por diante. De repente, Medivh surge no salão em que eles se encontravam. Ao surgir na entrada do local, Medivh pergunta suspeitosamente o que os dois estavam fazendo. Garona responde com uma resposta evasiva. Khadgar hesita, e então eles percebem que havia duas sombras por detrás do Magus. Irritado, Medivh insiste para ambos seguirem-no. Khadgar, entretanto, decide enfrentá-lo e pergunta por que ele trouxe os orcs para Azeroth. Ele provoca seu mestre, revoltado com o que ele fez com os magos em Stormwind, com Guzbah e com as outras vítimas. Nesse instante, Medivh descontrola-se e avança contra os dois. Apesar disso, a defesa da torre, sobretudo dessa sala, impede-o de entrar, na medida em que ela impedia a passagem de demons. Totalmente descontrolado, Medivh força a passagem e seu poder começa a corromper a proteção da torre. Desesperados, Khadgar e Garona pensam em uma saída: o único modo de escapar é passar pela entrada em que Medivh se encontrava. Khadgar decide usar um encantamento para chamar uma visão, e pede para que o mostrem alguém que já enfrentou essa criatura.

Eles são transportados para o topo da torre, local em que Medivh é confrontado por Aegwynn, sua mãe. Ela questiona-o sobre os orcs, perguntando o mesmo que Khadgar perguntou. Ela grita descontrolada com ele. Medivh revela que seu plano é tornar-se o mais poderoso de Azeroth, a fim de controlar todo o mundo. Na medida em que os reinos nem ao menos sabem da existência de um guardião e a Order of the Tirisfal é corrupta e preocupa-se somente com política, ao permitir a invasão dos orcs ele demonstraria seu poder ilimitado e todos eles se submeteriam a seu poder. Sua motivação era quebrar com o ciclo que Aegwynn impusera a ele. Medivh não queria viver uma vida totalmente planejada à revelia de seu consentimento. Aegwynn, revoltada, ataca Medivh, mas é lançada para longe. Ela esbraveja, dizendo que ele não é seu filho. Medivh, então, responde que nunca foi: uma risada diabólica e grave irrompe de suas entranhas, e Khadgar reconhece instantaneamente como — Sargeras! Ele explica a Aegwynn que ela derrotara somente um corpo, nada mais do que isso. Ele sabia que não poderia persuadi-la, muito menos derrotá-la, portanto tornou-se seu herdeiro.

Enquanto Aegwynn e o Medivh do passado discutiam, Medivh do presente ajoelhava-se em desespero, assistindo atentamente à cena. Garona e Khadgar aproveitam-se da situação e passam despercebidos por detrás do Magus e descem escadas abaixo, ouvindo a gritaria por detrás dos ombros. Eles encontraram Moroes a caminho dos primeiros pavimentos e avisam-no do perigo de continuar na torre com Medivh e dizem-lhe para, junto com o cozinheiro, deixá-la o mais rápido possível. Eles fogem em um grifo, mas no caminho precisam pousar bruscamente, visto que Medivh começou a invocar o animal de volta. Durante a longa peregrinação em direção de Stormwind City, ambos são atacados por orcs, porém conseguem escapar. No final do percurso, estando muito mais próximos da capital, Garona é encontrada por cavaleiros. Khadgar a defende e enfrenta todos, até o momento em que Anduin Lothar chega ao local e os leva em segurança à cidadela de Stormwind City.

Em uma audiência com o rei e Lord Lothar, Khadgar e Garona revelam o que descobriram sobre Medivh, além de alertá-lo sobre o perigo dos orcs. Llane, por sua vez, está excessivamente confiante no espírito e na coragem dos homens de Azeroth, assim como confiante na lealdade de Medivh. Apesar de toda a insistência de Khadgar e Garona, Llane continua a insistir que Medivh era tomado por louco e perigoso por muitas pessoas. E, mesmo assim, Medivh esteve sempre ao lado de Stormwind. Mesmo com todos os fatos revelados por Khadgar e Garona, King Llane argumentava que as visões e as revelações deveriam fazer parte de um plano maior de Medivh, o qual em breve seria revelado, para o bem de todos.

Apesar da cegueira do rei, Lord Lothar decidiu dar ouvidos a Khadgar e Garona. Ele organizou um pequeno grupo de cavaleiros de elite para voar de madrugada em grifos à torre de Karazhan. Lothar disse que Llane estava sempre excessivamente confiante na coragem dos homens de Azeroth, portanto sempre deveria haver pessoas prontas para fazer o certo em seu lugar quando ele estivesse errado. Khadgar perguntou se Lothar acreditava no que Khadgar havia dito. Então Lord Lothar revelou que também viu Sargeras, quando Medivh caiu no coma pela primeira vez. Ele sempre suspeitou desse fato, e agora com as revelações de Khadgar tudo parecia fazer sentido.

Ao chegar na torre, todos deparam com um observatório abandonado. No laboratório de Medivh, havia a mesma sensação anterior: o local estava completamente vazio. No entanto, eles progrediram a descida das escadarias da torre, pavimento por pavimento. No caminho, salões e aposentos vazios, tochas apagadas e uma sensação de que a torre estava abandonada. Entretanto, essa não era a verdadeira situação: no pavimento térreo, eles encontraram o corpo de Moroes, destruído encostado em uma parede. Na cozinha, Garona encontra o corpo do cozinheiro. Pela posição do corpo de Moroes, aparentemente ele fora arrastado em um arco por alguma porta secreta. Com um encantamento preciso, Khadgar descobre uma passagem secreta. Com a ajuda dos cavaleiros e Lothar, a porta é aberta e eles encontram um conjunto de escadarias que levava para as profundezas abaixo de Karazhan.

Ao descer, Khadgar notou que essas escadarias eram uma duplicação oposta das escadarias que davam para o topo da torre. Isso significa que Karazhan possuía uma cópia exata, como um espelho, a qual os levaria para a região mais profunda em oposição ao laboratório de Medivh no topo. Ao chegar no pavimento correlato à biblioteca, todos caíram em encantamentos de armadilha de Medivh, com demons liberados para atacá-los. Enquanto Lothar e os cavaleiros davam conta dos demons, Khadgar e Garona prosseguiram na busca pelo guardião.

No entanto, eles caíram em uma visão, assim que deixaram Lothar e os cavaleiros: Stormwind City estava em chamas, sitiada e tomada pelos orcs, enquanto os humanos tentavam um último respiro de defesa. King Llane continuava no comando, determinado a impedir que o coração dos humanos falhasse. Foi Garona, contudo, que removeu esse coração: quando ficaram sozinhos, ela apunhalou Llane no lado esquerdo do peito, para derrubar a linhagem de Azeroth de uma vez por todas. Com o fim da visão, Garona caiu em desespero e precisou de Khadgar para conseguir se recompor e alcançar o local em que Medivh se encontrava.

Nas profundezas cavernosas da torre eles encontraram o guardião de Tirisfal aguardando por eles. Medivh revela a Khadgar que esse é a pessoa que ele sempre foi: manchado desde o nascimento, uma semente ruim crescida para formar um fruto amargo. Ele, então, revela seu plano a Khadgar: deixar os orcs extinguirem os humanos, para, através de Gul’dan, comandá-los a fim de enviá-los à Tomb of Sargeras, local onde sua mãe escondeu o corpo do titã. Visto que ela não foi originalmente selada para ser protegida contra orcs, eles poderão invadi-la para recuperar o corpo de Sargeras. Assim, ele poderá deixar a carcaça de Medivh para trás e voltar a seu verdadeiro corpo, para queimar esse mundo do modo como ele merece ser queimado. Segundo ele, quando Aegwynn venceu seu avatar em Northrend, ele se escondeu em seu ventre e aguardou pelo momento em que ela concebeu Medivh. Ele, então, escondeu-se na criança, dividindo espaço com a Holy Light e o poder de Tirisfalen. Khadgar questiona se há espaço para Medivh dentro dele, e o Magus responde que ele utiliza Medivh como uma máscara, na superfície, para lidar com os mortais.

Aproveitando a distração de Medivh na conversa com seu aprendiz, Garona tenta atacá-lo por trás, mas é surpreendida pela maestria do guardião. Khadgar, desesperado, ao tentar contra-atacar, é acometido por um encantamento poderosíssimo. Feitiço atrás de feitiço, o mestre estava causando dores excruciantes em seu aprendiz. No final, Medivh não matou Khadgar. Este, porém, sentia-se sem vida. Garona, nesse instante, havia se recuperado e avançou em Medivh. Ao invés de recuar, Medivh avançou para Garona e causou-lhe mais encantamentos, para levá-la à loucura. Khadgar conseguia respirar agora, mas dificilmente podia se mover. Ele olhou para o chão de obsidiana e viu seu reflexo, envelhecido e drenado, com olheiras profundas e longas barbas brancas, exatamente do modo como vira o mago guerreiro comandante das tropas de humanos na visão que tivera sobre o mundo dos orcs.

Medivh virou-se para Khadgar e lamentou-se por estar em uma forma humana. Segundo ele, esse era o preço a ser pago: fazer amigos, ser bonzinho, para depois ter dificuldade em matá-los. No entanto, com o tempo isso ficava mais fácil. Primeiro Moroes e o cozinheiro; agora era a vez de Khadgar morrer. Quando Medivh se preparou para matar Khadgar, Lothar chegou pronto para impedir um absurdo. Em um duelo com Medivh, Lothar demonstrou toda a sua habilidade de combate. Medivh, com muita dificuldade, impediu os golpes de Lothar com um escudo mágico. Entretanto, para parar seu amigo Medivh colocou-o em chamas. Com o sabor da vitória na boca, Medivh virou-se sem perceber que essa distração foi tempo suficiente para Khadgar postar-se exatamente por detrás dele, empunhando a espada que Lothar lhe ofereceu quando vieram para Karazhan. Apesar de Medivh insistir que Khadgar não teria coragem para isso, seu aprendiz disse que sua parte humana deixou seus amigos por perto, para que estes pudessem quebrar o ciclo, no momento em que ele mesmo não pudesse. Assim, Khadgar enfiou a espada até o fim e feriu mortalmente seu mestre. Ambos se ajoelharam e Medivh agradeceu Khadgar, dizendo que lutou até onde pôde. Ele começou a transformar-se em Sargeras e Lothar regressou, ainda um pouco queimado, para desferir um golpe fortíssimo e mortal em Medivh, arrancando-lhe a cabeça dos ombros. Assim, o último guardião foi derrotado.

Lothar disse que ele não deveria ficar triste, porque eles tentaram de tudo para impedir que isso acontecesse. Mas, no final, tudo era parte de um grande esquema: de um ciclo que eles agora finalmente colocaram um fim. Ele decidiu voltar a Stormwind, enquanto Khadgar ficava para cumprir um último dever. Ele colocou os restos de Medivh em uma caixa e enterrou seu mestre ao lado do cozinheiro e de Moroes. Ao olhar para a torre, Khadgar pôde ver algo se movendo no topo, um invasor que observava todos os movimentos de Khadgar. O invasor conversou com Khadgar. Ele estava intrigado pelo fato de Khadgar poder vê-lo. Khadgar, por sua vez, estava intrigado pelo fato de tê-lo enterrado a poucos instantes. A visão de Medivh revelou ser do futuro. Ele não era o Medivh que Khadgar conheceu, mas era um Medivh puro e limpo da marca de Sargeras. Ele voltou para consertar os erros que fizera, para lidar diretamente com Sargeras. Khadgar perguntou se as visões eram verdadeiras, se Stormwind cairia, se Garona mataria Llane e se ele morreria no mundo dos orcs. Medivh respondeu que na medida em que houver guardiões e a Order, há papeis a serem cumpridos. As decisões tomadas há milênios atrás tornam as vidas atuais somente partes de um grande ciclo. Khadgar argumenta que esse é um preço muito alto para se ter guardiões. Medivh concordou, e disse que, por ora, todos temos que cumprir o nosso papel: temos que pagar o preço; para, então, começarmos de novo. A imagem de Medivh desapareceu e Khadgar decidiu pegar os livros mais valiosos e proteger a torre com encantamentos, para depois partir e unir-se a seus companheiros.

Medivh, por sua vez, apesar de ter presenciado tantos sacrifícios, deveria cumprir um último sacrifício. Ele teria que drenar todo o poder de Karazhan, se ele quisesse ter sucesso no que estava por vir: a invasão da Burning Legion na Terceira Guerra. Ele conjurou um encantamento que materializou um redemoinho que engoliu toda a torre. Nesse redemoinho, todo o poder e a magia da torre foram sugadas para dentro de Medivh. Todas as lembranças, as visões, as memórias, os acontecimentos: tudo regressava para dentro dele. Essa era a necessidade de impedir que isso acontecesse de novo. Por último, a imagem que restou foi a de um jovem aprendiz, com uma carta na mão e borboletas no estômago, chegando pela primeira vez em Karazhan. Uma lágrima caiu no rosto de Medivh e ele havia cumprido seu último sacrifício. Agora o poder do local estava nele, assim como a responsabilidade de fazer o certo dessa vez; e, então, começar de novo. Ele transformou-se em um corvo e partiu.

No momento em que começamos a entender a lógica intrínseca à história de Warcraft, percebemos que, a princípio, este universo é instaurado sob a perspectiva de um determinismo cosmológico: titãs, deuses, entidades poderosas e guardiões, estruturam o desenrolar dos eventos, enquanto os mortais estão fadados a tão somente desempenhar seu papel nesse grande esquema de coisas: o que Medivh chama de ciclo. Enquanto os titãs ordenam os mundos e imbuem criaturas poderosas para protegê-los (os guardiões), a Burning Legion e os demons buscam desfazer essa ordem e instaurar o caos no universo. E os mortais? Em um primeiro momento, estão determinados por essa estrutura cósmica e, de certo modo, política: somente cumprem papéis escritos há milênios.

E como será que isso funciona no nosso mundo? Será que podemos tentar refletir sobre a nossa realidade, a partir dessa fantasia? Ao longo do desenvolvimento da cultura ocidental, diferentes abordagens tentaram definir o funcionamento da realidade, grosso modo divididos em dois grupos: por um lado estão os que acreditam que o universo funciona a partir da lógica do determinismo e, por outro, estão os que defendem a ideia de que, pelo contrário, não há determinidade nem estrutura fundamentalmente ordenada do universo, consequentemente havendo liberdade para o desenvolvimento da humanidade.

Medivh, nessa fantasia, começa a perceber que há, sim, a possibilidade de os mortais reverterem essa determinação imposta pelos titãs e deuses. Segundo seu pensamento, o universo não funciona verdadeiramente dessa maneira: não há um relógio construído por um relojoeiro, de modo que cada ponteiro sempre exercerá o papel preestabelecido por aquele, assim como cada uma e todas as outras engrenagens do relógio. Nos eventos decorrentes do Well of Eternity, Sargeras, um titã, teve seus planos arruinados por mortais, ao impedirem que ele entrasse no planeta, causando a grande explosão dos continentes. Mesmo assim, os próprios mortais desenvolveram a Order of the Tirisfal, a fim de perpetuarem mais papeis a serem cumpridos pelos mortais durante milênios.

Na medida em que a Order fosse extinta, com o ciclo dos guardiões quebrado, os mortais poderiam decidir, por eles mesmos, o modo pelo qual eles deveriam lutar, assim como construir o seu próprio destino por eles mesmos: a liberdade cósmica. Dado que seu corpo estava controlado por Sargeras, esse plano a princípio não deu muito certo: Sargeras lutou para que o ciclo fosse quebrado, mas não visando a liberdade. Caso recuperasse seu corpo da Tomb of Sargeras, ele poderia, finalmente, destruir o planeta e reverter o trabalho dos titãs. Portanto, seu único interesse era o caos. Entretanto, seus planos foram frustrados por Khadgar, Anduin Lothar e outros mortais. Eles finalmente colocaram fim ao ciclo e liberaram Medivh desse aprisionamento. No futuro, contudo — e isso já faz parte de outra história posterior — ele finalizaria a era dos guardiões, com a vitória das raças mortais frente à Burning Legion no final da Terceira Guerra.

Na nossa realidade, houve um período em que esse “ciclo” também era considerado um modelo de realidade. Alguns povos acreditavam que as ações humanas e a vida dos mortais eram tão somente efeitos da vontade de deuses e de entidades superiores. Quando povoados e plantações eram acometidos por pestes, catástrofes naturais ou inclusive destruídos por outros povos, eles acreditavam que, de algum modo, a ira dos deuses fora provocada. Heródoto, historiador grego, ao analisar a derrota dos persas nas batalhas que aconteceram no período áureo do mundo grego antigo, considerou que a principal causa para a derrota do vastíssimo exército persa frente ao diminuto exército espartano e ateniense — diminutos em comparação com os números persas — foi sua hýbris, isto é, a desmedida dos persas frente aos deuses. Mas será que nós, seres racionais, estamos submetidos à relação causal da natureza? Em outras palavras, será que deuses, entidades, ou até mesmo as próprias leis da natureza, determinam as nossas escolhas e as nossas ações?

Immanuel Kant buscou resolver esse problema. Ele percebeu que estamos inseridos em um mundo que funciona de acordo com leis. Isso significa que a natureza funciona de acordo com uma estrutura causal: se os animais conseguem viver e prosperar, é porque há um ambiente cujas leis os permitem sobreviver, ou, de certo modo, porque sua adaptabilidade aos aspectos predatórios do ambiente permite-lhes a sobrevivência e prosperidade da espécie. E os humanos? Será que eles funcionam tão somente de acordo com leis? Segundo Kant, não. A racionalidade é a instância na qual a transcendentalidade permite ao ser humano agir de acordo com a representação de leis: leis criadas pela razão, que funcionam como as leis da natureza — a moralidade. Isso significa que há leis da natureza, há necessidades físicas e há desejos. Apesar disso, o ser humano consegue deliberar de acordo com fatos da razão: a liberdade da vontade.

Arthur Schopenhauer, entretanto, coloca outro problema mais fundamental: ser livre não significa poder fazer, como Kant demonstra que, de fato, podemos deliberar e escolher de acordo com a nossa vontade; pelo contrário, o problema mais fundamental é o poder querer. Será que controlamos a nossa própria vontade? Será que escolhemos o querer? Ele diz respeito a quê? Aos nossos desejos? Às nossas inclinações? Às nossas necessidades?

De volta à fantasia, Garona Halforcen é uma mestiça, híbrida entre orcs e draenei. Ela cresceu acreditando que estava determinada a ser uma aberração: os orcs consideravam-na inferior, na medida em que ela, de certo modo, era uma humana. Na sociedade tribal dos orcs, nenhum clã reconhecia Garona como uma igual. Assim, ela cresceu como um cão vira-lata e renegada nessa cultura. Ao invadir Azeroth, a cultura orc entrou em contato com os humanos. Estes, por sua vez, instantaneamente se postaram como inimigos dos orcs, por seu comportamento bestial e destruidor. Ao ser enviada por Gul’dan como emissária à torre de Karazhan, a perspectiva de Garona mudou fundamentalmente: ela foi bem recebida por Medivh, tratada como uma igual por ele, por Moroes e pelo cozinheiro, inclusive, por fim, por Khadgar.

No entanto, com a loucura de Medivh e sua traição aos ideais da humanidade, Garona desesperou. Ela achou que Medivh finalmente faria a diferença. Ele era poderoso, importante, disposto a dialogar; mas provou ser somente mais um homem seduzido pelo poder. Assim, ela pensou que não poderia fugir da determinidade de sua condição: ela achou que fosse somente mais um peão no jogo. Khadgar, por sua vez, relembrou Garona de que não somos determinados por uma natureza, isto é, não nascemos com uma essência que define o que seremos. Ele diz a Garona que nós somos o que fazemos de nós mesmos.

As palavras de Khadgar lembram muito o existencialismo do século XX. Esse pensamento filosófico, de certo modo, rompeu de vez com as concepções que poderiam postular um determinismo cosmológico, na ligação direta entre deuses e mortais, entre a vontade divina e a vontade mortal, a partir de uma essência humana preestabelecida e determinada. Pelo contrário, esse pensamento defende a ideia de que o homem é um ser aberto: ele pode construir a si mesmo, desenvolver seu próprio papel, independentemente de relações cósmicas com deuses, construir o constante imperfectum que é durante sua existência. Jean-Paul Sartre foi uma das maiores expressões do existencialismo, defendendo a ideia de que a existência precede a essência: primeiramente nascemos, desenvolvemo-nos, para então construirmos a nós mesmos através das nossas ações. Talvez, ou por isso mesmo, a angústia da responsabilidade caiu sobre seus ombros: dado que ela pode construir a si mesma de acordo com suas ações, Garona tem a responsabilidade de desenvolver o que ela é. E nesse conflito — angústia comum a todos os seres humanos — Garona decidiu tornar-se humana.

Talvez a grande lição de The Last Guardian para nós seja essa: não vivemos mais em uma era de deuses, de guardiões, de divindades protetoras: talvez a grande saída para os conflitos e problemas de nosso mundo esteja na própria humanidade. Não temos titãs do caos tentando destruir o nosso planeta, muito menos sociedades secretas responsáveis por impedir a invasão de demons em nosso mundo — e também não estamos sendo invadidos por orcs alienígenas.

Apesar disso, vemos o ódio, o poder, o fanatismo e o obscurantismo, as diferenças e a desigualdade, tornando-nos cada vez menos humanos, cada vez mais próximos de orcs. No entanto, podemos buscar desenvolver a nossa humanidade, renunciando à ardente busca pelo poder e à aparente diferença que há entre as raças, entre as classes, entre as culturas: sim, há diferenças, mas elas não definem o que somos: nossas ações certamente podem cumprir esse papel.

Podemos fazer como Garona: enxergar por detrás das diferenças, construir-nos pela alteridade, isto é, incluir o outro em nossas relações justamente por sua diferença, por suas características distintas. Assim, podemos construir um mundo que não busque acabar com as diferenças, mas que opere pela diversidade. Nem todos pensamos da mesma forma, por isso podemos utilizar essa pluralidade em nosso favor, agregando cada vez mais perspectivas e visões de mundo distintas à nossa própria perspectiva de mundo.

 

Indicações de leitura:

GRUBB, Jeff. The Last Guardian. New York: Simon and Schuster Pocket Books, 2001.

PIMENTA, Pedro Paulo. Reflexão e moral em Kant. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2004.

SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Petrópolis, RJ: Vozes de Bolso, 2012.

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3 comentários sobre “The Last Guardian e a filosofia

  1. Camarada, bela análise.
    O único parênteses que colocaria é em relação a sua visão da Horda orquica x o Reino de Azeroth (Stormwind antes do retcon da blizzard). Os orcs do warcraft são claramente inspirados nos hunos, enquanto que a nova horda do Thrall é mais próxima dos mongols (Inclusive Thrall é uma releitura de Temujin). Para sociedades nômades como os orcs não existe a noção de pertencimento. A terra não é propriedade, é posse. Logo invadir outros mundos e tomar a terra dos outros não é uma “brutalidade”. A Guerra é um agente modificador nessa sociedade, quase um processo de constante evolução, onde permanecer onde está é estar fadado a extinção. O outro nesse caso não é semelhante (como no caso específico deles realmente não é, Orcs e Humanos são inclusive aliens uns para os outros) e portanto se tem força para ocupar a terra deles é porque são mais merecedores. Partindo do ponto de vista desta sociedade, não há injustiça ou barbárie. Esse é um conceito arraigado no sedentarismo, em que propriedade determina direitos.

    Podemos claramente aplicar o que aconteceu a Azeroth ao que aconteceu na América. Os Nativos daqui viviam a sua maneira, tinham suas terras, alguns cidades colossais, estruturas sociais ainda mais sofisticadas que a dos invasores, mas foram subjugados pela força maior. No nosso caso a tecnologia bélica dos colonizadores, e sua imunidade biológica de séculos de evolução garantiram a vitória inicial. No caso dos Orcs, seu apetite pela guerra e o poder vil dos bruxos. Garona é Malintzin, considerada por muitos como uma traidora de seu próprio povo, ao mesmo tempo que “progenitora” de toda uma nova ordem social a se instalar “no novo mundo”

    Logo os humanos de Azeroth são vítimas aos nossos olhos pois foi a sociedade sedentária quem prevaleceu e foi nos valores dela que fomos criados. Os Night Elves teriam uma posição diferente, acusando os humanos de barbarismo pode destruírem a flora nativa de Stormwind, idólatras por adorarem a Luz e indignos de habitar Azeroth por suas práticas exploratórias.

    Ao meu ver a questão que tu quisestes levantar, “Nós e os outros” é algo perene a nossa condição terráquea. O ambiente em que vivemos molda nossas ações e comportamentos. Nosso planeta é uma pequena bola azul e assassina que a todo momento tenta nos exterminar, é fato. Nada vem de graça aqui na Terra e por isso somos tão violentos, inclusive uns contra os outros, já que ao longo dos milênios de nossa evolução nos dividimos e adaptamos ao ambiente desenvolvendo traços que nos diferenciaram a tal ponto que precisamos de tecnologia microscópica para descobrir que eram só aparências. Que no âmago somos quase todos iguais. Agora, que o mundo parece pequeno por causa da internet esse choque civilizacional, tão bem retratado no World of Warcraft através de alegorias homéricas (taurens = sioux / trolls = caribenhos) parece estar realçando o conceito de “Nós e os outros”, reativando aquele instinto de sobrevivência que no passado movia as sociedades nômades guerreiras que aterrorizaram Europa, Asia e Oriente Médio.

    Novamente, isso é inerente a nossa condição neste planeta. Fosse a Terra um Jardim das Hespérides, não haveria necessidade de lutar. Ou estivesse uma raça alienígena a nos ameaçar e todas nossas diferenças desapareceriam em prol da nossa concepção de que essa Terra é nossa.

    E comparada a Azeroth, nosso planetinha é um paraíso. Se já temos todos estes problemas com UMA raça sapiente, imagina com centenas delas.

    No fim, somos mais parecidos com os membros de outra franquia da blizzard. Nada mais Terrano que um Terráqueo.

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    • Muito obrigado pelo comentário! Adorei as suas reflexões sobre o enredo do texto. Novas perspectivas ajudam a compreendermos as nossas próprias ideias e ponderarmos sobre a possibilidade de desfazermo-nos delas ou de, pelo contrário, fortalecê-las. Essas discussões são muito construtivas, na medida em que dialogamos sobre questões que muitas vezes se perdem no momento em que fazemos as leituras.

      Parece que desde sempre a fantasia me encantou. Quando resolvi me tornar historiador, queria entender melhor as histórias com as quais cresci e desenvolvi a minha perspectiva e leitura de mundo. Nesse momento, deparei pela primeira vez com a leitura de “O Senhor dos Anéis”. Tive uma professora de História da Idade Moderna que desenvolveu um artigo sobre estes livros. Lembro-me de ficar completamente encantado pelo enredo, ao ponto de não prestar muita atenção ao prefácio da obra. Somente quando decidi me tornar um filósofo dei o devido valor às palavras de um mestre sobre a sua própria escrita. Ao fazer a terceira ou quarta leitura desta história, encontrei um ponto no prefácio que marcou a minha leitura: a distinção entre “aplicabilidade” e “alegoria”.

      Hoje percebo que não havia dado a devida importância a essa discussão justamente pelo fato dela ser uma discussão genuinamente filosófica. Ao lermos uma história, buscamos a verdade ou o sentido de um texto? Essa questão fez somente sentido para mim depois de estar lidando diariamente com os filósofos do passado.

      Ao interpretar um sistema filosófico, a leitura necessita levar em consideração uma estrutura causal interna à obra. O que isso significa? Significa que há teses e argumentos nos textos que são desenvolvidos e construídos internamente em uma certa estrutura. Por isso, a interpretação levará em consideração as razões para tal e tal tese presentes no próprio sistema, isto é, no movimento interno dos textos. Em outros termos, se um filósofo afirma X, normalmente a razão disto não é o fato dele ser depressivo ou nazista, mas porque há uma estrutura interna na qual premissas e outras teses permitem ele afirmar X. Apesar disso, muitas vezes somos tentados a resolver aparentes problemas de leitura através de razões extrínsecas ao texto que, ao fim e ao cabo, tornam o sistema um mero “sintoma” de causas anteriores a ele (i.e. ser depressivo ou nazista).

      Quando lidamos com fantasia fantástica, por sua vez — inquestionavelmente uma linguagem diferente de sistemas filosóficos —, deparamos com textos que possuem elementos similares a aspectos da nossa própria realidade. Com efeito, somos levados a identificar esses elementos aos aspectos interpretados como correlatos a eles. E isso é muito interessante! Devemos ser encorajados a fazer as leituras também levando em consideração os elementos com os quais construímos a nossa própria leitura de mundo.

      Essa interpretação, no entanto, precisa, necessariamente, também levar em consideração, acima de tudo, a lógica interna dos textos, ou seja, a estrutura sobre a qual o enredo é desenvolvido. E o que é essa lógica interna e essa estrutura na fantasia fantástica? São as leis, os costumes, as regras, e etc. dos universos presentes nas histórias: a imaginação pode materializar alimentos para as crianças na Terra do Nunca; pedras retiradas do estômago de cabras podem salvar bruxos de envenenamento; depois da meia noite carruagens podem virar abóboras; salamandras falantes podem salvar indivíduos das garras de serpentes marinhas; e assim por diante. Em outras palavras, há regras persistentes na estrutura de histórias fantásticas sobre as quais devemos fazer nossas leituras, independentemente da semelhança encontrada entre essas histórias e a realidade.

      Mas se percebermos que há elementos, em uma história fantástica, muito similares a acontecimentos presentes na realidade? Eis o momento em que podemos discutir as possibilidades de “aplicabilidade” e “alegoria”. Será que estou lendo um conto através do qual o autor tenta fundamentalmente passar uma mensagem e ensinar uma lição? Caso a resposta seja afirmativa, há uma grande chance de a estrutura da escrita ser alegórica. Mas se eu estiver lendo uma história situada em um universo com muitas regras e leis persistentes, no qual conflitos são gerados, mantidos ou, muitas vezes, resolvidos; no qual culturas são transformadas, corrompidas e até mesmo superadas; no qual há idiomas, raças, música, e uma infinitude de aspectos culturais originais? Há uma grande chance de, por outro lado, tratar-se de uma estrutura interna desenvolvida de modo a fundamentalmente contar uma história fantástica: eis onde entra a aplicabilidade.

      Isto posto, quando faço as minhas análises filosóficas de fantasia, sempre busco refletir sobre problemas subjacentes ao enredo — e não resolver problemas do próprio enredo. Com efeito, na maioria das vezes as análises pouco esclarecem a história fantástica em questão: pelo contrário, elas dão luz a diálogos entre filósofos do passado e a contemporaneidade (i.e. na minha análise moral de Garona, queria trazer a discussão para perto da ética contemporânea). De outro modo, os leitores certamente encontram nos meus textos reflexões sobre problemas filosóficos clássicos na história do pensamento, suscitadas por enredos fantásticos e histórias apaixonantes sobre elfos, dragões, princesas, e etc.

      Nessas histórias, portanto, há estruturas sobras as quais as minhas resenhas são desenvolvidas. Isso significa que apresento os enredos tão somente como um cronista, levando em consideração a lógica interna das histórias analisadas. Há elementos cuja origem parece alegoricamente estar em outros lugares, fazendo referências a causas externas à fantasia. Contudo, levando em consideração a estrutura das histórias, recorro, no máximo, à possibilidade de aplicabilidade de referenciais teóricos não presentes na obra, para dar sentido a análises e reflexões, mas nunca para postular a verdade de um texto — a esta, de fato, exceto o autor, ninguém nunca terá acesso: a menos que ele conte para nós.

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