Star Wars e o Despertar da Força feminina

ATENÇÃO: este artigo contém informações reveladoras sobre o enredo de “Star Wars Episódio VII: O Despertar da Força”.

 

Star Wars é um prato cheio para análises filosóficas: uma sociedade polarizada espiritualmente entre o Lado Negro e o Lado Luminoso da Força; polarizada politicamente entre a República, cuja participação política se dá democraticamente e o Império, marcado pelo fascismo e totalitarismo; caracterizada por uma diversidade étnica e cultural que faz inveja ao nosso mundo; a interação entre diversas culturas diferentes; e assim a lista poderia ir ao infinito.

Não apenas em filmes, mas em dezenas de livros, quadrinhos, games digitais, animações e etc., esse universo desenvolve-se em uma série de conflitos, aproximações e distanciamentos, ora mais sutis ora mais nítidos, entre a fantasia fantástica e a nossa realidade. Se de um lado os amantes da ficção científica e dos efeitos especiais encontram em Star Wars um mundo propício para o entretenimento, os amantes da nossa realidade, de outro lado, encontram a possibilidade de levar a efeito uma racionalização do que constitui o significado de naves espaciais, sabres de luz e poderes sobrenaturais.

Ao longo dos seis filmes que marcaram o eixo central da história, o enfoque da trama gira em torno de duas figuras distintas: Luke Skywalker e Anakin Skywalker. Este último, apesar de surgir como um Jedi promissor, cavaleiro de uma ordem espiritual e política que busca trazer a paz e o equilíbrio à ordem do universo, é seduzido pelo Lado Negro e termina por buscar o conflito e a violência. Aquele primeiro, por sua vez, desenvolve-se de modo a reverter os males causados por seu pai, que se tornou conhecido pelo nome utilizado após sua ascensão à escuridão: Darth Vader.

Em Star Wars Episódio VII: o Despertar da Força, contudo, há uma mudança de enfoque na figura do herói central. Não mais por meio de um cavaleiro Jedi masculino, mas é pela figura de uma jovem garota que a trama é desenvolvida. Ora, a essa mudança de enfoque subjaz um problema muito interessante: a utilização de protagonistas centrais femininas na fantasia é marcada pela negação da mulher na nossa cultura. Em outras palavras, ao desenvolver o personagem principal na figura de uma mulher, a fantasia utiliza a personagem como uma rebelde, como uma garota traumatizada, ou melhor, como uma não-mulher. Em vez de libertá-la da posição de inferior que a nossa cultura a impõe, a fantasia continua a aprisioná-la pela negação desta posição, sem dar liberdade para o desenvolvimento de uma personagem genuinamente feminina que ultrapasse esses estigmas. Para essa reflexão fazer sentido, faremos uma digressão ao enredo do filme.

Neste filme, no Episódio VII: o Despertar da Força, anos passaram-se desde as aventuras dos dois protagonistas dos seis filmes anteriores. O conflito entre a República e o Império abriu espaço para o surgimento de uma nova ordem após a queda de Darth Vader e do Império: a Primeira Ordem. Após a República ser restaurada, Luke Skywalker decide treinar novos cavaleiros Jedi, na medida em que a ordem dos cavaleiros fora praticamente extinta por Vader e o Império. Entretanto, um de seus discípulos rebela-se contra ele durante o treinamento, levando-o a abandonar a tentativa de treinar novos cavaleiros e exilar-se em algum local escondido do universo.

Lea, sua irmã e uma das líderes da Resistência, decide enviar o melhor piloto da galáxia em uma busca pelo paradeiro de Luke, ainda desconhecido. Este piloto, no entanto, é capturado por agentes da Primeira Ordem. Em meio a muita tortura, ele acaba por revelar que está em uma missão para encontrar Luke. Sua única esperança encontra-se em um droid, que possui um fragmento de mapa que relevaria o paradeiro do Jedi. Dado que a Primeira Ordem possui o restante do mapa, este fragmento seria a peça final para eles extinguirem de uma vez por todas os Jedi da face do universo e efetivar sua ordem como a soberana de todas as galáxias. Assim, as forças da Primeira Ordem passam a procurar este droid.

Apesar de capturado pelas forças da Primeira Ordem, este piloto é resgatado por um stormtrooper que decide se levantar contra as arbitrariedades da Ordem. Durante a fuga, o piloto revela a Finn, o stormtrooper, o paradeiro do mapa. Embora os dois tenham fugido das garras da Primeira ordem, ambos são separados após a derrubada de sua nave de fuga. Em sua peregrinação pelo planeta Jakku após a queda da nave, Finn encontra o droid na posse de uma jovem catadora de lixo chamada Rey. Com a ajuda da incrível habilidade de pilotagem da jovem garota com a nave Millennium Falcon, ambos fogem das forças da Primeira Ordem, até encontrarem Han Solo e Chewbacca. Os dois decidem ajudar os jovens a fugir das forças da Primeira Ordem e entrar para a Resistência. Todos acabam entrando em apuros juntos.

A jovem garota é capturada pelas forças da Primeira Ordem e cabe a Han Solo, Chewbacca, Finn e às forças do piloto enviado por Lea a resgatar a jovem e destruir a base da Primeira Ordem. Entretanto, através de seus próprios poderes, Rey escapa das garras de um Sith poderoso. Em meio a sua tentativa de fuga, ela encontra seus amigos e eles dividem-se para sabotar a base da Ordem do mal. Apesar de alguns infortúnios, a Força desperta em Rey e ela utiliza os poderes Jedi para combater o Sith maligno. Em um combate corpo-a-corpo, após o Sith matar Han Solo e ferir gravemente Finn, com um sabre de luz a jovem garota vence o duelo e regressa vitoriosa à base da Resistência.

Embora inseridos em um universo fantástico, não podemos perder de vista a nossa própria sociedade. A posição da mulher no Ocidente é marcada pela submissão e inferioridade à figura masculina em geral. Desde os pilares da nossa cultura, no mundo greco-romano, a mulher não faz parte das principais funções político-sociais. Ao longo séculos, durante o período medieval, essa posição de inferioridade continua a perdurar, na medida em que as principais instituições e instâncias políticas são caracterizadas pela administração masculina e patriarcal. Na modernidade, apesar de uma tentativa de reduzir essa desigualdade, o panorama continuou o mesmo. Não preciso nem entrar em maiores detalhes, na medida em que este assunto é suficientemente evidente.

Como consequência dessa mentalidade, o desenvolvimento da fantasia, enquanto linguagem literária, não poderia fugir desse modelo, dado que toda produção humana é filha de seu tempo. Com a grande propagação e popularização da fantasia fantástica no século XX, seus personagens continuaram a retratar essa imagem: a mulher é coadjuvante, satélite da figura masculina, participando normalmente de forma insignificante, ou até mesmo objetivada. É a concubina, a boticária, a fazendeira. Por outro lado, quando a mulher assume as rédeas e aparece como protagonista principal, ela é representada como um homem: a valquíria nórdica, a guerreira tribal, a guerreira rebelde que se faz passar por homem, sempre masculinizada. Ou é representada de forma negativa, como personagem do mal: a bruxa, a feiticeira, a diabólica, a envenenadora, a sedutora, a demasiadamente erotizada e objetificada.

No final do século XX e início do XXI, como consequência do desenvolvimento de uma conscientização da posição da mulher na sociedade e da necessidade de uma mudança estrutural, a figura da mulher começa a tomar outras formas na fantasia. Ainda assim, esse princípio de mudança de mentalidade é uma meia mudança: a mentalidade da mulher nessas histórias é apresentada na forma da negação da mulher da nossa cultura. A protagonista feminina normalmente aparece como a exceção à regra: é uma traumatizada que busca vingança, que foi estuprada na infância, maltratada e etc.; sem sentimentos femininos, sem ternura e sem compaixão. Isso significa que, se não tivesse passado pelos infortúnios que passou, não seria a protagonista: seria a submissa e inferior. Tornou-se igual ao homem devido à ser uma exceção.

Em O Despertar da Força, por outro lado, a personagem principal rompe com esse paradigma, ao superar a negação da mulher da nossa cultura. Ela ultrapassa os estigmas do que é ser mulher no Ocidente. Rey não precisa ser rebelde, ser valentona, ser masculinizada, ou ser apresentada como fraca e submissa. Ela antes de ser apresentada como uma garota frágil ou masculinizada é apresentada de forma neutra: ela é primeiramente somente um personagem. Apesar de órfã, ela aparece como independente e sensível a interações, dado que logo de cara recebe o droid e aceita estabelecer um laço afetivo com ele. O primeiro estigma, o da revolta e rebeldia por ser órfã é superado: se o enredo não tivesse revelado, seu comportamento não demonstraria esse suposto trauma. Portanto, ela já supera a primeira marca da negação: ser uma exceção caricaturada.

Em um primeiro contato com figuras masculinas, ela apresenta-se de igual para igual: não é agressiva, muito menos submissa. Durante uma abordagem na qual tentam roubá-la, ela responde à altura, com golpes de artes marciais. Ao tentar ser ajudada por Finn, através de uma atitude efetivamente masculina — tentou carregá-la pelas mãos na fuga —, Rey demonstrou que sabia correr: uma pessoa não precisa ser homem para correr, ou para lutar, ou para ser corajoso. Mesmo assim, momentos após essa abordagem, ela demonstra carinho e preocupação por Finn, mesmo sem desejá-lo eroticamente. Outros dois estimam são ultrapassados, o da masculinização da protagonista e o do excessivo erotismo e objetificação.

Do mesmo modo, ao pilotar a nave com Han Solo, Rey demonstra que não há a necessidade de ser homem, muito menos de ser masculinizada, para ser uma excelente piloto e uma engenheira de mão cheia. Isso não significa que ela precisou deixar de ter sentimentos ou de tornar-se um garoto: ao descobrir os acontecimentos de seu passado, Rey desesperou e deixou suas emoções livremente tomarem conta de si, como qualquer pessoa normal, independentemente do gênero. Ela buscou fugir, mas retornou quando viu que seus amigos estavam em apuros e acabou sendo capturada. No final de toda a trama, após retornar como heroína da batalha, Rey encontra Luke e entrega-lhe seu sabre de Luz, trazendo equilíbrio novamente à Força.

A fantasia fantástica em geral aprendeu uma lição com O Despertar da Força, na medida em que aprendemos que não importa o gênero do protagonista quando a história é retratada sem caricaturas. Uma garota não precisa ser caricaturada como um garoto enrustido, como uma aberração, como uma sedutora pervertida, e assim por diante. Não há a necessidade de “forçar a mão” ao desenvolver um personagem feminino ao ponto dos leitores e espectadores perceberem claramente uma tentativa de excessiva politização da história, com interesses ideológicos por detrás do enredo. Pelo contrário, ela pode simplesmente ser uma garota forte, como boa parte das mulheres são, e decidir salvar o universo. Desde quando precisa ser homem para salvar o universo?!

Assim, o lado positivo do desenvolvimento de personagens como a Rey na fantasia — em uma produção tão influente e abrangente como Star Wars — está na possibilidade do desenvolvimento de uma visão de mundo que ultrapasse a subjugação da mulher na sociedade. O feminismo não é uma guerra dos sexos; não é uma cruzada contra o masculino; não é uma superação do homem, mas sim a superação da visão de mundo que possibilita e mantem a desigualdade de gênero. Não precisamos de nada além de uma conscientização do problema para darmos início à sua superação. Em suma, é positivo porque possibilita ao Ocidente perceber que a mulher não está em uma posição inferior. Tanto na fantasia quanto na realidade ela tem tanta “força” quanto o homem: eis o despertar da força feminina.

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4 comentários sobre “Star Wars e o Despertar da Força feminina

  1. Oi Andre, gostei muito do texto! Mas gostaria de dar um toque: coloca no início que tem spoilers, pra quem for de alegre ler e ainda não tenha visto o filme 😉

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  2. Bom texto. Acabei de chegar do cinema e achei isso tbm. Ela não precisou ser “feminina demais”, ou masculinizada demais. Ela não é a mocinha que está em perigo e espera ser salva, mesmo que tenham ido atrás dela, ela soube se safar sozinha.

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    • Muito obrigado! Exatamente, Hiale. Você entendeu o ponto mais fundamental e sutil do texto: Star Wars VII não inventou a roda no que diz respeito a heroínas em fantasia. Temos inúmeros exemplos de heroínas incríveis em histórias mais antigas, assim como de escritoras provando que o universo da fantasia (assim como o nosso mundo como um todo) não pertence somente à dimensão masculina. Todavia, o meu texto não discute isso — e causou grande confusão interpretativa justamente por esse detalhe.

      Como bem observado por você, o ponto central do meu texto discute o fato de a maioria dessas personagens como, por exemplo, Xena, Mulher Maravilha, Tomb Raider, e etc. (todas muito “badass”), serem demasiadamente estigmatizadas por, de um lado, marcas de negação da mulher na nossa cultura, quando são completamente masculinizadas, e, de outro lado, uma excessiva erotização das personagens, utilizando armaduras que, ao invés de protegê-las, deixam-nas vulneráveis, mostrando seios fartos e boa parte de simbolismos sexuais machistas: a objetificação da personagem.

      Assim, levando em consideração a síntese de seu comentário, Rey é um exemplo de personagem que ultrapassa esses estigmas e pode, portanto, com a ajuda da abrangência e alcance de popularidade de Star Wars, estabelecer um novo paradigma de personagens femininas como protagonistas centrais na fantasia em geral.

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