007 e a filosofia

ATENÇÃO: este artigo contém informações reveladoras sobre o enredo de “007 contra Spectre”.

 

Bond, James Bond. Ao espionar à serviço da coroa britânica desde a década de 50, o agente 007 conquistou fãs em todo o mundo, representando o ideal encarnado da masculinidade ocidental: smokings, cassinos, carros luxuosos e mulheres. Ao longo dos mais de 20 filmes da franquia, atores renomados como Roger Moore, Sean Connery e Pierce Brosnan, estrelaram no papel principal da saga, lutando contra o terror em locais exóticos, seduzindo belas e frágeis mulheres e escapando ilesos de tudo isso. Entretanto, por detrás da exaltação desse ideal, há um elemento fundamental a toda a trama: a espionagem e a vigilância.

De um modo geral em todos os filmes, este agente é enviado pelo serviço secreto britânico MI6 em missões ao longo do globo. Nessas missões, Bond recebe investimentos altíssimos em carros luxuosos, armamentos de ponta, equipamentos altamente tecnológicos, assim como a companhia de mulheres sedutoras, prontas para cair nas garras desse agente secreto. Tudo isso para efetivar a espionagem e a vigilância com a punição dos representantes da desordem e do mal, na figura de magnatas, de terroristas orientais, da grande mídia, ou até mesmo o próprio governo. Como pano de fundo dessa cruzada pela ordem, a exaltação do ideal de masculinidade é elevada às margens do absurdo, em cenas de combates que desafiam as leis da ciência contemporânea, o consumo sobre-humano de bebidas alcoólicas e a conquista das mulheres mais desejadas dos quatro cantos o mundo.

As redes de espionagem em todo o mundo auxiliam Bond e sua organização na luta contra o caos e o terror de vilões e organizações criminosas prontos para desafiar o Ocidente. Como uma espécie de eminência parda, as redes de espionagem operam por detrás das cortinas da vida cotidiana. Mesmo assim, as exibições de perseguições implacáveis, lutas no ar entre helicópteros, vinganças nas águas entre lanchas e motos aquáticas e, enfim, toda parafernália tecnológica necessária para matar, explodir, dilacerar, incinerar e eliminar, marcam os conflitos com os quais esse agente depara no enredo.

Apesar de os filmes serem repletos de cenas de ação e de tensão, há questões fundamentais para a reflexão possibilitadas pela própria história da série. No mais novo filme, 007 contra Spectre, abre-se espaço para uma reflexão sobre a nossa forma de organização social desenvolvida no século XX por Michel Foucault, um filósofo francês. Neste enredo, a vigilância e as relações de poder marcam o ponto central da trama, apresentando uma caracterização muito precisa do princípio do panoptismo analisado por este filósofo em suas reflexões no século passado.

Spectre é uma organização criminosa liderada por uma rede de mafiosos poderosíssima e secreta. Ao longo dos últimos filmes, Bond busca desvendar este mistério. Sua organização parece estar provando do próprio veneno, já que infiltrações de espionagens externas levam à morte e à perseguição de seu quadro de liderança. Em meio ao descontrole da situação, o governo decide intervir no MI6, submetendo-o a uma instância superior, para administrar o andamento de seu departamento. Entretanto, para a surpresa de todos, as figuras de liderança às quais sua organização passou a submeter-se estão diretamente ligadas a Spectre, a organização criminosa.

O governo britânico não é o único a cair sob as garras dessa organização. Ao desenvolver ataques organizados em países poderosos, os líderes dessa organização, infiltrados nos governos, conseguiram instaurar o medo necessário para justificar a necessidade de uma vigilância abrangente. Em outros termos, uma vez que o medo e o terror estavam instaurados, os governos encontraram-se obrigados a submeter sua própria população a uma vigilância generalizada, a fim de impedir que a violência desmedida se alastrasse. Como consequência do sucesso desse plano, a organização Spectre conseguiu a adesão dos principais países do globo, elevando o nível de espionagem e vigilância para uma dimensão global. Isso significa que todo o planeta estava sob os olhos vigilantes deste grupo criminoso. Todo o mundo estava submetido ao olho que tudo vê: pan-opticum.

Michel Foucault, em suas reflexões sobre o nosso tempo, percebe que a nossa sociedade se organiza de um modo através do qual todos estão sendo sempre vigiados, em nome do controle absoluto de toda a população. Esse nosso modo de organização nem sempre foi assim. Para ele, houve um surgimento para essa maneira de vivermos, na qual todas as pessoas são constantemente vigiadas, corrigidas, adestradas e controladas. Em seu livro Vigiar e Punir, Foucault tentará demonstrar a história do surgimento da sociedade disciplinar. Este modelo, sustentado pelo princípio do panoptismo — um sistema de vigilância altamente eficaz, através do qual poucas pessoas são empregadas, para levar a efeito a vigilância e a dominação — funciona em todas as instâncias da vida em sociedade, sobretudo na dimensão pública da vida, como escolas, hospitais, penitenciárias, e todo espaço público em geral. Há uma constante tentativa de que as pessoas sejam moldadas, adestradas e corrigidas, para funcionarem dentro da lógica produtiva inerente a essas sociedades.

Para começar, Foucault faz uma análise do surgimento da legislação e das punições. Nem sempre a legislação foi uniforme. Isso significa que nem sempre a mesma pena foi distribuída para todos que cometeram o mesmo crime. Atualmente, para lidar com os crimes, os fatos são ponderados sobre, de um lado, uma perspectiva jurídica e, de outro, uma perspectiva psiquiátrica, havendo um entrelaçamento dessas duas perspectivas. Mas, no passado, métodos de punição como o suplício, eventos grandiosos nos quais indivíduos eram torturados e literalmente destruídos em praça pública, foram práticas comuns na Europa. Este método de punição será uma relação de poder entre o soberano, que decide arbitrariamente as penas, e o criminoso, que é punido e corrigido.

Com o passar do tempo, o povo vai começar a mudar o modo pelo qual encarava o suplício na sociedade. Antes, o suplício era o motivo do entretenimento de todos; depois, ninguém mais aceitará essas práticas. Houve a necessidade, então, de estabelecer-se uma legislação que fosse uniforme para todos, visto que, anteriormente, no período dos suplícios, as penas eram distribuídas arbitrariamente. Na medida em que o conhecimento do ser humano se torna maior, há uma psicologização dos atos e dos comportamentos. Surgem, então, as ideias das patologias, decorrendo na diminuição da severidade das penas. Em suma, nos julgamentos, por um lado, há um discurso de um especializado na área médica, analisando as condições psíquicas dos acusados e, por outro lado, há um discurso jurídico, analisando a legislação necessária para lidar com o acusado.

A partir dessa lógica, as prisões são desenvolvidas para receber esses indivíduos para serem “corrigi-los”. Das prisões, essa lógica passa para a escola, para desenvolver o “adestramento” de indivíduos: úteis e dóceis, para reafirmar o sistema vigente. Esse adestramento, através do qual as crianças, a princípio, brincam e desenvolvem-se, torna-se um adestramento a fim de que os indivíduos desenvolvam a disposição para aguentar as condições exigentes do mercado de trabalho.

Por detrás da lógica das prisões e do desenvolvimento dessa sociedade, há um princípio fundamental que propicia e mantém esta estrutura: o panopticum — o olho que tudo vê. Jeremy Bentham desenvolve uma reflexão sobre as prisões, para pensar em uma prisão que seja eficaz e funcional. Para ele, ela precisaria ter vigilância eficaz, de modo que o vigilante tenha uma visão panóptica, a saber, sempre saber o que cada vigiado está fazendo, vendo tudo. Foucault, por sua vez, critica o princípio panóptico, dado que ele não torna os homens melhores. Pelo contrário, Foucault dirá que o homem, quando é de má índole, continua o mesmo; somente não agirá de modo imprudente, visto que tentará usar sua astúcia para driblar a vigilância. Em outros termos, antes, o homem poderia diretamente roubar; agora, usando de sua astúcia, ele tentará driblar a vigilância para roubar, i.e., ele precisa arquitetar melhor o seu roubo.

Foucault lembra da lógica das masmorras em sua reflexão sobre o panóptico. Ele diz que a escuridão possibilitava a fuga do indivíduo, de modo que ele pudesse escapar. Na sociedade disciplinar, por outro lado, a visibilidade é o que possibilita todos serem controlados. Assim como o sistema Spectre, esse sistema é barato e acessível, uma vez que poucas pessoas ficam em uma posição privilegiada para ver tudo e ver o máximo de pessoas possível. Das prisões de Bentham, Foucault demonstra que o princípio panóptico foi transportado para os acampamentos militares, para os hospitais, para as escolas e, por fim, para todas as instituições da sociedade disciplinar.

Após essa investigação, Foucault busca identificar a gênese do princípio panóptico e da sociedade disciplinar. Ele encontrará esse surgimento nas práticas estatais de quarentena, utilizadas para lidar com a peste negra no século XVII. Apesar de ter surgido com toda a força e proliferação durante o século XIII e matado um terço da população europeia, a peste negra perdura ao longo dos séculos no território europeu. Pequenos focos da peste persistiram através dos séculos, com momentos pontuais de epidemia, surgindo em cidades específicas. Foucault determina que é nesse instante que surge, pela primeira vez, a sociedade disciplinar. Do mesmo modo que os governos fizeram para evitar que os ataques se alastrassem, submetendo-se às exigências das figuras infiltradas de criminosos do Spectre, a sociedade disciplinar também surgiu de um panorama fundamentalmente parecido. Através desse sistema, para evitar que a peste se alastrasse, uma estrutura de quarentena era implantada nas cidades, através da qual surgia um gerenciamento de controle absoluto de toda a população. Ninguém podia entrar ou sair da cidade, exceto os encarregados de levar a efeito a execução dessas quarentenas. O sucesso desse controle absoluto, que impedia a propagação da doença, possibilitava o sucesso da sociedade disciplinar.

Nesta investigação, Foucault encontra dois modelos que proporcionaram a nossa sociedade. De um lado, há este modelo da peste, através do qual sociedades disciplinares são organizadas, na medida em que a cidade toda precisa estar sob um sistema em que cada indivíduo esteja isolado e controlado, para evitar a propagação. De outro, há o modelo da lepra, pelo qual a exclusão e remoção dos indivíduos é efetuada, para que eles sejam tirados de perto dos que não estão doentes. Nessas sociedades nas quais havia leprosos, o problema era solucionado com comunidades de doentes excluídas e exiladas da cidade.

A nossa sociedade, por sua vez, para Foucault, será o resultado da confluência desses dois modelos de sociedade. Há a criação de instituições dentro da cidade, para “excluir incluindo” no seio da sociedade. Manicômios, casas de detenção, prisões, instituições para pessoas irrecuperáveis, fábricas, e assim por diante. Em todos os instantes, todos os indivíduos estão sendo controlados, rotulados e observados: eis a nossa sociedade

De um modo geral, a análise de Foucault continua muito atual. Hoje, em nossas sociedades, estamos constantemente vigiados a todo instante. Todos os gadgets e smartphones possuem sistema de localização de GPS. Superficialmente, parece que essa vigilância serve tão somente para proteger-nos do mal. Como anuncia ‘C’, o protagonista representante da Spectre infiltrado no governo britânico, “vigilância é o que precisamos fazer para manter as pessoas seguras”.

Essa vigilância, contudo, não opera em nossa sociedade por meio de uma organização secreta. Michel Foucault demonstrou que há uma hierarquização da vigilância, que resulta em uma disseminação do princípio panóptico para o seio da sociedade. Não mais há somente a vigilância por meio de indivíduos especializados para vigiar, mas há também a vigilância de iguais e de pares. Uma grande rede de vigilância e de relações de poder estabelece-se a fim de que tudo e todos passem a vigiar a tudo e a todos.

No nosso mundo, certamente não há um James Bond para desmantelar a Spectre, muito menos um governo britânico preocupado em proporcionar “a segurança e o bem-estar a todos”. Na verdade, no nosso mundo há uma inversão nesses papeis: a Spectre é, na verdade, a confluência dos imperativos socioeconômicos que sustentam nossa estrutura social, proporcionando aos governos a possibilidade de eles mesmos efetivarem a constante vigilância e punição. Seria interessante se, como no mundo ficcional de 007, houvesse uma dicotomia tão clara e evidente entre o bem e o mal, passível de ser solucionada por um agente secreto de smoking.

 

Indicações de leitura:

FOUCAULT, M. Vigiar e punir: o nascimento da prisão. Tradução de Raquel Ramalhete. 42. ed. Petrópolis. RJ: Vozes, 2014.

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