Introdução à filosofia de Nietzsche

Nietzsche é um filósofo normalmente considerado mais difícil de se interpretar e compreender do que os demais, na medida em que suas concepções de filosofia, de vida, de verdade e de conhecimento, influenciam diretamente sua escrita. Isso significa que os textos de Nietzsche e seu pensamento são muito diferentes dos textos e do pensamento da esmagadora maioria dos filósofos, sobretudo dos filósofos anteriores a ele cronologicamente.

De fato, não há uma identidade entre os filósofos ou um modo padrão para se pensar e escrever filosofia presente em todos eles. Apesar de termos denominadores comuns entre os filósofos, cada um tem sua visão de mundo, seu vocabulário próprio e seus conceitos, cujo sentido, na maioria das vezes, pode ser compreendido somente à luz de suas próprias teses. Nietzsche não seria diferente. Todavia, há ainda um agravante: ele considera que a maneira de pensar que, apesar de todas as diferenças entre os sistemas, norteia e caracteriza a tradição anterior a ele, é fundamentalmente a mesma, possuindo uma origem e um início. Para que isso faça um pouco mais de sentido, faremos uma breve introdução ao pensamento de Nietzsche, estabelecendo um recorte metodológico na leitura de sua filosofia, para apresentar, em um primeiro momento, o ponto central de sua crítica à cultura ocidental e, em seguida, suas propostas para solucionarmos os problemas que ele encontra nessa cultura.

Todos nós fomos criança um dia. Gostávamos de brincar e de interagir com o mundo, com uma certa inocência. Isso significa que a noção de verdade, de intelecto, de moral, e etc., não eram muito claras para nós. Entretanto, somos parte de uma cultura, portanto recebemos uma educação, aprendemos um conjunto de regras, que normalmente norteiam a nossa experiência de mundo. Há um momento em que começamos a interagir com o mundo de uma maneira cada vez menos inocente. Não podemos mais rir alegremente de qualquer coisa, nem gritar e urrar quando estamos incomodados ou irritados com alguma coisa. De certo modo, adestramos nossos corpos para obedecerem a razão, para que os instintos e as pulsões, pelos quais anteriormente interagíamos com o mundo, sejam suprimidos pelo uso reto da razão.

Isso acontece porque há uma ideia de homem a ser seguida. Não podemos nos comportar de tal e tal modo, dado que ser homem é fazer assim, ser homem é fazer assado. Mas, e se eu refletir e chegar à conclusão de que eu sou um indivíduo, único no mundo, com características físicas e necessidades nem sempre concordantes com essa ideia de homem? E se eu tiver certas necessidades, certas potencialidades, desejar fazer a, b e c, e for muito talentoso para tal, mas, apesar disso, esse ideal de homem não considerar como válidas essas minhas necessidades, potencialidades e desejos? Ou pior, se eu perceber que o mundo e a vida são cheios de mudanças, e eu mesmo, enquanto indivíduo, ora acredito em x, ora defendo y, ora gosto de x, ora gosto de y, portanto nem sempre sou o mesmo? E, talvez, pior do que tudo isso, se esse ideal de homem aprisionar em mim toda a minha potência de existir, todas as características que possuo e que enxergo no mundo, a saber, constante mudança, falta de sentido para uma leitura lógica e causal que não exclua as claríssimas contradições e as diversas perspectivas válidas e, muitas vezes, contraditórias?

Certamente sofreremos, porque estaremos vivendo de acordo com quimeras. Estaremos negando a vida, uma vez que estaremos negando a constante transformação e contradição presentes no mundo, em nome de uma unidade, imutabilidade, perfeição e idealidade que existem tão somente no pensamento: estaremos aprisionando o corpo. Parece uma maneira estranha de viver. Pois é. Nietzsche percebe isso e busca identificar o surgimento desse modo de vida na cultura ocidental. Para explicar esse processo, ele volta-se para a Grécia Arcaica.

No mundo grego antigo, Nietzsche encontra na tragédia grega — uma espécie de teatro em que indivíduos representavam papéis culturais e religiosos predominantes no mundo grego — a representação de duas visões de mundo que caracterizam duas maneiras de lidar com a vida: de um lado, uma visão de mundo de Apolo, caracterização do que é celeste, espiritual, racional, fixo, justo, reto e etc.; e, de outro, uma visão de mundo de Dioniso, caracterização do que é terreno, corpóreo, mundano, transitório, das paixões, desejos e movimento. Nessas peças do teatro grego, os espetadores poderiam passar por uma espécie de catarse, isto é, serem movidos pelos sentimentos e sensações, a partir dos quais eles poderiam se lançar em uma dessas duas perspectivas representadas na peça, ambas igualmente válidas até então.

No mundo da filosofia, da reflexão, surge uma maneira pensar que desenvolve uma linguagem para falar do mundo. Essa linguagem cria, de um modo peculiar, um discurso cujo conteúdo não se encontra no mundo em lugar nenhum. Traduzindo em outros termos, trata-se de abstrair conceitos da contrariedade e transitoriedade do mundo, os quais não são afetados pelas contradições que caracterizam a constante mudança do mundo da vida. Tudo isso fundado na razão, no pensamento. Essa linguagem é a metafísica. Tales de Mileto é o primeiro que, para ele, dá esse salto metafísico, ao perceber que a razão possibilita abstrairmos por detrás de toda transitoriedade e contradições do mundo algo de fixo e de imutável, a ideia de unidade que está na dimensão lógica do mundo. Anaxágoras, diferente de Tales, percebe que podemos abstrair essa unidade abstrativa não somente da natureza e do mundo, mas também de fora deles, de o que é puramente racional. Parmênides levara esse pensamento à sua radicalidade: tudo o que vemos em constante transitoriedade no mundo e na natureza não passa de ilusão. Isso mesmo: vemos, sentimos e estamos inseridos com o corpo no mundo da ilusão, que não é. Para Parmênides, somente o pensamento, livre de todo o corpo, acessa o que é: a Verdade.

Apesar disso, esses filósofos não pensam todos da mesma maneira. Haverá um deles, Heráclito, que perceberá que o mundo é uma constante transformação e conflito, não havendo a possibilidade de pensarmos a vida como fazia Parmênides. Não podemos entrar duas vezes no mesmo rio, dizia ele, visto que tanto as águas do rio quanto nós mesmos não seremos os mesmos na segunda vez. Nietzsche defende que é com Sócrates que tudo isso muda. Ele trará as discussões desses filósofos chamados de pré-socráticos, cujo enfoque era a natureza e o mundo, para o âmbito do homem, do humano, do racional.

Com Sócrates e Platão, para Nietzsche há, radicalmente, uma cisão entre a dimensão de Apolo e a dimensão de Dioniso. A racionalidade e os conceitos desenvolvidos por ela recebem uma carga qualitativa. Por um lado, a Verdade será de Apolo: o bom e divino, imutável, eterno, fora das contrariedades da natureza, inserido na dimensão da razão; por outro, o dionisíaco será o mal e corpóreo, transitório, efêmero, inserido no caos das contradições. Platão fortemente caracteriza todos os outros filósofos que não buscavam esse ideal qualitativamente como correlatos ao que não é bom, não é ideal.

Segundo ele, Platão falava para uma elite, em um mundo aristocrático. Apesar disso, sua visão de mundo, proporcionada por Sócrates, será essencialmente mantida e levada adiante por toda a tradição filosófica. É com o cristianismo que, segundo Nietzsche, esse pensamento que estava fechado para uma dimensão seleta da população será popularizado para todos. O alcance do cristianismo leva para todo o Ocidente essa maneira de pensar de Apolo, que escraviza o corpo em nome da alma, que busca o ideal e nega o real, que subjuga o mundo da vida em nome do mundo dos céus.

Assim como na nossa infância, no período arcaico do mundo grego a ideia de verdade não estava muito solidificada. Segundo Nietzsche, essa linguagem metafísica que cria conceitos quiméricos também criou o conceito de verdade, porém se esqueceu disso e passou a acreditar que essa ideia de verdade sempre existiu e sempre irá existir. Trata-se de somente uma metáfora, mais uma entre tantas outras criadas pela metafísica. Esse conceito, contudo, ganha com Sócrates e Platão, para Nietzsche, um valor qualitativo: a Verdade é correlata ao bem, cujo conhecimento depende da razão. Essa é a separação entre Apolo e Dioniso: a razão é o bem, o corpo é o mal.

Para Nietzsche, contudo, há uma grande inversão de valores aqui. Não há cisão entre razão e corpo. Tudo é corpo, sendo a razão parte dele. A razão e o pensamento são somente uma das muitas perspectivas de leitura de mundo. A moral? Criada. A verdade? Criada. Por quem? Pelos fracos. Os fracos precisam usar a razão para criar um ideal de homem que postule uma identidade por detrás de todas as mudanças e variedades e possibilidades de ser homem, para igualar a todos e rebaixar os outros, que anteriormente eram fortes, ao seu próprio nível de fracos. E pior, torná-los fracos, na medida em que a potência deles estará aprisionada no corpo que é doravante mal e precisa ser negado em nome da razão.

E como faremos para resolver essa inversão? Como faremos para deixarmos de ser fracos e nos tornarmos fortes? Percebendo que o mundo não é Apolo, mas Dioniso. Enxergar a vida tal como ela é: de corpos, de desejos, de sensações, de sofrimento, de instintos, e etc. Mas não basta enxergá-la tal como ela é: temos que amá-la do jeito que ela é. Dizer sim à vida! Dizer sim ao corpo, à mudança, às contradições, já que são diferentes perspectivas. As contradições não são ruins em um mundo em que não existe verdade; elas serão boas, dado que, quanto mais perspectivas tivermos, mais elementos teremos para fundamentar a nossa interpretação sobre as coisas.

Com efeito, poderemos superar esse homem fraco, esse homem que não existe em lugar nenhum. Poderemos superar Apolo, superando esse ideal. Essa superação é o super-homem. Esse indivíduo é aquele que faz a transvaloracão de todos os valores: ele sabe que não existe verdade, mas perspectivas de interpretação de mundo. Então ele é crítico, não mais cegamente se submetendo a esses valores milenares, mas ponderando por si mesmo. Ele levará em consideração todas as perspectivas contraditórias, sem negá-las em nome de mais uma quimera, mas fundamentando o que poderá interpretar correto no mundo da vida, da contradição, da transformação, do corpo, da carne.

Não se trata de negar tudo o que existe e considerar tudo uma mentira, agindo sem moral ou fazendo somente o que quiser. Não. Nada disso. Nietzsche não é o filósofo do tudo pode, da imoralidade e do mal. Essa é a caricatura que o mundo de Apolo fez dele. Recapitulemos: não existe verdade, portanto também não existe mentira. Acusar os valores de mentirosos seria ainda estar preso na lógica da verdade. Ser super-homem é saber que os valores são perspectivas, não sendo ou verdades ou falsidades. Os novos valores não serão a total imoralidade ou perversão, mas tão somente a interpretação do mundo a partir de outra perspectiva: a que ama a vida tal como ela é, da contradição, da mudança.

Somente desse modo, portanto, amando a vida como ela é e transvalorando todos os valores, poderemos viver para além de bem e mal, para além da verdade e da mentira, sem negar nossa potência, nosso corpo, que, ao fim e ao cabo, são a nossa humanidade. Essa solução nietzschiana problematiza os rumos da cultura ocidental de seu período no século XIX e, de certo modo, permanece muito atual, talvez mais do que qualquer grande filósofo.

Agora, com essas chaves de leitura presentes de forma pontual nessa breve introdução, com esse pano de fundo, a leitura de Nietzsche certamente fará mais sentido. Na medida em que esse filósofo não defende a ideia de verdade, não suprime as contradições e não cria quimeras para escondê-las em nome dos axiomas metafísicos, seus textos utilizam muitas metáforas e um estilo quase poético. Ora, se a verdade é uma metáfora, qual a diferença de utilizar outras metáforas em seu texto? Todavia, seus textos ainda assim têm um sentido, uma estrutura. Cabe ao historiador da filosofia refazer os movimentos internos presentes nos textos de Nietzsche, por um lado à luz desse seu método, por outro à luz de suas teorias, isto é, do perspectivismo, do amor fati, da transvaloração dos valores, da vontade de poder, do super-homem, e de tantos outros pontos centrais de sua filosofia presentes em seus textos.

De um modo ou de outro, pensar em Nietzsche é sobretudo pensar em uma filosofia da vida, não da abstração ou da contemplação. É percebermos que a tradição criou conceitos, cujo valor não existe em si mesmo. São perspectivas diferentes que a nós cabe interpretar, mas não somente de forma passiva. Podemos também entrar nessa brincadeira e também criarmos conceitos, assim criaremos mais perspectivas para interpretar o nosso mundo, sem negar nem a vida nem e o próprio mundo que estamos tentando interpretar.

 

Indicações de leitura:

DELEUZE, G. Nietzsche e a filosofia. Tradução de Ruth Joffily Dias e Edmundo Fernandes Dias. Rio de Janeiro: Editora Rio, 1976.

NIETZSCHE, F. W. O nascimento da tragédia. Tradução de Jaco Guinsburg. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

_____. A filosofia na idade trágica dos gregos. Lisboa: Edições 70, 2009.

SOUSA, M. A. de. Nietzsche: viver intensamente, tornar-se o que se é. São Paulo: Paulus, 2009.

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