Hegel e o fundamento para a fotografia enquanto arte

Artigo publicado na edição Nº67, de outubro de 2015, Amor, Memória e Arte, da Revista Pandora Brasil, ISSN 2175-3318.

 

A estética hegeliana foi talvez o empreendimento mais sistemático, ousado e completo já feito sobre a filosofia da arte e história da arte. Hegel teve um conhecimento vastíssimo sobre cada arte em particular. Marc Jimenez alertou-nos de que “não é possível resumir mil e duzentas páginas de um curso de estética, reconstruído com bastante fidelidade a partir de notas de estudantes”[1]. Mas, para começar, por que filosofia da arte e não filosofia da sensibilidade em geral? Hegel enuncia logo na abertura de sua Estética que “a pior das ideias que perpasse pelo espírito de um homem é melhor e mais elevada do que uma grandiosa produção da natureza — justamente porque essa ideia participa do espírito, porque o espírito é superior ao natural[2]”. Diferente de Kant, Hegel eliminará qualquer possibilidade de experiência estética da beleza na natureza, restringindo-a à dimensão artística; além de considerar o Belo como objetivo e ideal, totalmente na contramão do pensamento de Kant. Para que tudo isso faça sentido, precisamos esclarecer alguns conceitos do pensamento sistemático hegeliano, visto que, assim como Platão, suas concepções sobre a arte e sobre a estética formam um elo necessário com o conjunto de sua filosofia.

Aviso de antemão, sem rodeios: apesar de a explicitação e esclarecimento do conceito de Espírito em Hegel ser necessário para entendermos sua estética, não é possível pontuá-lo de forma explícita e expressa neste artigo, já que seria necessário, por sua vez, desenvolver outro texto para tal. Portanto, tentarei simplificar o não-simplificável. Direi que o Espírito, ou “Geist”, representa a totalidade da realidade, a idealidade pensada e concretude manifestada, o sujeito e o objeto, i.e., tudo o que é. Grosso modo, o conceito ideal infinito de Espírito aparece no pensamento de Hegel concretizado de forma finita como “Espírito Subjetivo”, “Espírito Objetivo” e “Espírito Absoluto”. O primeiro diz respeito ao individual de cada sujeito, à dimensão da consciência ou da alma; o segundo à moral, à ética, ao Estado; e o terceiro à religião revelada, à arte e à filosofia. A natureza material, tudo o que tocamos, assim como as instâncias abstratas são, em termos hegelianos, o ser-outro do conceito ideal, necessário, para que, através de seu Outro, desenvolva-se em um processo de consciência-de-si enquanto Espírito. É o Espírito que conhece a si mesmo como sendo “em si”, ou seja, essencial e verdadeiro, e “para si”, isto é, já que tudo é Espírito, o “sujeito” que conhece o “objeto”, quando percebe que não há nem sujeito e nem objeto, na verdade, conhece a si mesmo, então também “é” essencialmente para si. Nas palavras do próprio Hegel,

“Para fixar esse conceito, é necessário que indiquemos a determinidade pela qual a ideia é enquanto espírito. Ora, toda determinidade só é determinidade diante de outra determinidade: à do espírito em geral se contrapõe, primeiro, a da natureza; por isso aquela só pode ser apreendida ao mesmo tempo com esta. Como a determinidade distintiva do conceito do espírito, deve ser indicada a idealidade, isto é, o suprassumir do ser-outro da ideia, o seu retornar e ser-retornada de seu Outro para si mesma; enquanto ao contrário, para a ideia lógica, o distintivo é o imediato e simples ser-dentro-de-si; para a natureza, porém, é o ­ser-fora-de-si da ideia”[3].

Deste modo, instâncias como o Estado, as leis, e a arte — que é o que nos interessa aqui — são manifestações concretas do Espírito ao longo da história, seu ser-outro, mais precisamente o conceito ideal se realizando e se concretizando em seu processo de desenvolvimento. O espírito humano, o Espírito Subjetivo, é uma parcela do espírito que o ultrapassa, o Absoluto, que rege a atividade racional humana. Portanto, pensar a realidade como espírito é não somente pensar a realidade como substância, mas também como sujeito; é não pensar a realidade como algo em repouso e estática, mas como movimento. Em outros termos, não devemos pensar a realidade como uma coisa, mas como um processo, “o absolutamente irrequieto, a pura atividade”[4].

Para nós, todavia, o que interessa aqui é o processo de desenvolvimento do conceito de belo através da arte, enquanto momento de amadurecimento do Espírito Absoluto. Precisamos entender o papel da beleza nesse desenvolvimento, para conseguirmos enxergar o possível lugar da fotografia na arte. Primeiramente, precisamos identificar com quem Hegel está dialogando em seu sistema, para depois mergulharmos na estética hegeliana e encontrarmos espaço para a fotografia enquanto arte. Seu fundamento central são suas concepções de verdade e de conhecimento, em oposição a Kant. Pedro Paulo Pimenta apresenta-nos sinteticamente a visão de Kant quanto ao conhecimento. Ele afirma que, segundo Kant,

“Se os objetos se regulam pela natureza de nossa intuição; se as intuições se reportam, como representações, a conceitos de uma instância que constitui a própria experiência, o entendimento; ora, se é assim, é forçoso admitir que não conhecemos nenhum objeto como coisa em si mesma (Ding na sich selbst), mas só como fenômeno (Erscheinung)[5]”.

O problema é que Hegel dirá que Kant estaria correto, se as coisas acontecessem dessa maneira. Mas, segundo Hegel, não é assim que funciona a realidade. Ele acredita que há a possibilidade de conhecermos a verdade e as “coisas em si mesmas”, já que, como vimos anteriormente, Hegel diz que a realidade é, em parte, uma constituição concretizada do conceito ideal, i.e., o Espírito enquanto conceito ideal, de certo modo, “encarna” nas próprias coisas, tornando-se finito. Para Hegel, não existe nada na realidade que não seja, em maior ou menor grau, a manifestação do conceito ideal. Portanto, não há nada que, em teoria, o espírito humano não possa conhecer (sobretudo autoconhecer). Para Hegel, tudo o que é real é, ao mesmo tempo, racional e acessível à razão; na mesma medida em que tudo o que é racional pode se concretizar na realidade.

Com efeito, como consequência dessa matriz de pensamento fundamentalmente diferente, precisamos ter em mente que o que Hegel entende por belo também será fundamentalmente diferente do que Kant entende por belo. Em sua Estética, Hegel apresenta o belo da seguinte maneira:

“Conviria lembrar rapidamente que numerosos são aqueles que pensam que o belo em geral, precisamente por ser o belo, não se deixa encerrar em conceitos e constitui, por esse motivo, um objeto que o pensamento é incapaz de apreender. Respondemos a esta maneira de ver dizendo que, embora toda a verdade seja, ainda hoje, considerada como inconcebível e só, portanto, as temporais finitude e ocasionalidade do fenômeno se ofereçam à conceitualização, pensamos, pelo contrário, que só a verdade é concebível pois só ela se funda no conceito absoluto e, mais exatamente, na ideia. Ora, sendo a beleza um certo modo de exteriorização e representação da verdade, por todas as suas faces se oferece ela ao pensamento conceitual quando este possua verdadeiramente o poder de formar conceitos[6]”.

Isso significa que, para Hegel, o belo é um conceito, um ideal objetivo e, portanto, representação do Espírito Absoluto. Quando vemos algo belo, estamos vendo a concretização exteriorizada do conceito ideal de belo. Isso só é possível através da arte, através dos indivíduos que realizam, através de um processo racional, a concretização deste ideal de belo. A natureza, por sua vez, não consegue concretizar o ideal de belo, dado que não pode levar a efeito processos racionais, exclusivos do espirito subjetivo. Por conseguinte, todas as produções da natureza não são representações do ideal de belo.

Hegel parte desse conceito ideal de belo para fundamentar a sua investigação estética. Na verdade, o termo Estética — que surge com Baumgarten —, no período de Hegel, já está consagrado nas reflexões filosóficas, utilizado por Kant, Fichte, Schelling, etc. Por isso, Hegel utiliza-o tão somente para facilitar a identificação de seu estudo, apesar de, segundo Jimenez[7], preferir o termo “filosofia da arte”, dado que sua investigação se restringe à estética na arte. Nesta investigação, Hegel parte do conceito ideal de belo para identificar suas diferentes manifestações concretas ao longo da história.

Assim como Platão, que falava da beleza tendo em vista o ideal de belo, o Belo em si mesmo, Hegel também fundamentará sua investigação neste ideal. Contudo, há uma diferença fundamental entre Hegel e Platão. Se por um lado ambos percebem que por detrás das “manifestações belas” há um ideal de belo, cuja existência se dá por detrás das manifestações, por outro lado eles divergem completamente tanto no que diz respeito às definições deste ideal quanto às definições da manifestação. Platão dirá que o belo ideal é em si mesmo, imutável, eterno, perfeito e real, preexistindo às manifestações materiais, isto é, aos fenômenos, as coisas que aparecem, que são, em comparação com o Belo, ilusórias. Hegel discordará categoricamente desses postulados. Para Hegel, este belo ideal é fundamentalmente mutável, construído historicamente, intrinsecamente ligado ao desenvolvimento do Espírito Absoluto. Deste modo, ele não é pré-determinado, mas sim determinado por seu desenvolvimento racional ao longo da história e pelas próprias aparências. As aparências, por sua vez, são, para Hegel, simultaneamente determinadas pelo belo ideal e tão reais quanto ele, na medida em que elas são a concretização e realização deste conceito ideal na concretude sensível[8].

Ao analisar o processo de desenvolvimento do belo ideal ao longo da história, através da história da arte, Hegel percebe que a finalidade da arte é expressar o belo. O belo ideal é “expresso” pela arte através de diferentes formas de arte, cada qual em uma etapa desse processo racional histórico de desenvolvimento deste ideal, etapa fundamental, por sua vez, no processo de amadurecimento do Espírito Absoluto. Há, portanto, um papel metafísico para a arte ao longo da história, e este papel é expressado, segundo Jimenez, através do próprio desenvolvimento da arte.

“A arte sempre simbolizou, representou, figurou o sentimento religioso do homem ou sua aspiração à sabedoria. É graças aos vestígios artísticos das civilizações e das culturas antigas, às estátuas, aos monumentos, aos mosaicos, etc., que podemos reconstituir o que foram, então, as ideias e as crenças que animavam os homens das épocas anteriores. Se a arte interessa a Hegel até este ponto, é porque exprime a vida do espírito e permite que essa vida seja sentida, percebida graças às obras[9]”.

Hegel pode tão somente falar sobre a arte enquanto manifestação do ideal de belo, cuja manifestação é, por sua vez, representação do Espírito absoluto, porque, segundo a filosofia de Hegel, ele se encontra em um momento histórico no processo de desenvolvimento do próprio conceito, processo de amadurecimento que lhe permite a tomada de consciência desse processo. Para Hegel, seu período marca o momento de consciência-de-si do Espírito Absoluto enquanto arte. Ele é um Espírito que pensa a si mesmo enquanto arte, que questiona “o que é arte?”. Segundo Jimenez, “nem sempre foi assim; este processo teve um início, pode, portanto, ter um fim”[10]. A história teria um sentido de progresso do processo de desenvolvimento do conceito ideal até seu autoconhecimento enquanto em si e para si. Com efeito, ao longo da história, as formas concretas de arte representaram estágios distintos de amadurecimento do Espírito Absoluto, que, por sua vez, faz parte do processo de amadurecimento do conceito ideal. Este amadurecimento do Espírito Absoluto enquanto arte se dá em três formas de arte diferentes: a arte simbólica, a arte clássica e a arte romântica.

Na arte simbólica, não há a racionalidade necessária desenvolvida no Espírito para os artistas representarem a expressão do Absoluto na forma do ideal de belo através da arte. Essa arte utiliza-se de símbolos enigmáticos que não concretizam o ideal em sua representação. A arte egípcia, maior exemplo dessa forma de arte, desenvolve-se como em um enigma, através de suas pirâmides e representações de deuses antropozoomórficos (misturas entre forma humana e formas animais), buscando na natureza o Absoluto divino. Havia, assim, uma impossibilidade de aparição do ideal concretamente. Deste modo, o ideal permanece exterior às obras, dado que a arte é estanque. Há uma limitação na sua própria finalidade, ou seja, ela não consegue expressar concretamente o ideal através de um processo racional. Portanto, segundo Hegel, essa arte será de um tipo “pré-artístico”.

Diferente da arte simbólica, cujas obras, na forma da arquitetura, não conseguem representar ao pensamento as aspirações ao divino, visto que não conciliam o ideal do belo à materialidade, o conteúdo à forma, a arte grega adequa perfeitamente o belo à materialidade. Nesse momento de amadurecimento do espírito, a arte concretiza o belo em suas representações. A possibilidade de a arte estabelecer um processo lógico permite uma concretização do ideal por meio das esculturas, agora assumindo uma forma genuinamente humana, uma vez que este processo pressupõe o exercício da razão, que possibilita uma comunicabilidade para o pensamento, diferente da representação opaca e estanque da arte simbólica. Hegel demonstra essa adequação do ideal à materialidade, dizendo que

“Tal como a temos até aqui considerado, a arte tem por fundamento não só a união da significação e da forma como a da subjetividade do artista com o seu conteúdo e a sua obra. Foi o grau desta união do conteúdo e do modo de sua representação, o grau de adequação da forma e do conteúdo, que nos pareceu constituir o critério substancial que devia inspirar os nossos juízos sobre as obras de arte[11]”.

Por fim, na arte romântica, as representações grandiosas da pintura, da música e sobretudo da poesia impulsionam o Espírito a ultrapassar as contradições e conflitos entre o ideal de belo e a contingência das obras de arte particulares, proporcionando ao Espírito consciência-de-si do fazer artístico.

“A partir destes pontos de vista, vimos que, nos inícios da arte, sobretudo no oriente, o espírito ainda não era livre em si mesmo; procurava ele o Absoluto no mundo da natureza e concebia, portanto, o natural com um caráter divino. Mais tarde, a arte clássica representou os deuses gregos na forma humana, através da qual ainda estavam ligados à natureza, mas pairando sobre os interesses humanos e já iluminados pelo espírito. É porém a arte romântica que, concebendo o espírito como pura e profunda interioridade e depois de recusar qualquer valor à carne, à realidade exterior e ao mundo concreto, meios todavia indispensáveis à manifestação do Espírito e do Absoluto, é a arte romântica que acaba por adotar uma atitude mais conciliadora e positiva” (HEGEL, 1842, p. 657).

Nesse momento, a consciência-de-si e a concretização do ideal de liberdade por meio da arte marcam o final do processo de amadurecimento do Espírito, que se efetua tendo a liberdade por finalidade. Há uma mudança fundamental no que é arte, portanto Hegel chamará esse momento de “Fim da arte”. Atingida a finalidade última, portanto, cessa-se o próprio processo da arte como suporte do amadurecimento do Espírito Absoluto, e ela passa a concretizar a liberdade através da realização do ideal de belo por meio da arte. Hegel descreve esse momento como um momento de liberdade, demonstrando que “é assim que todos os assuntos e todas as formas estão hoje à disposição do artista que soube, com o seu talento e gênio, libertar-se da prisão a uma determinada forma de arte que, até então, estava condenado[12]”.

Isso não significa que a arte acabou. Pelo contrário: com o fim da finalidade metafísica da arte, há o surgimento da arte moderna e da semente fundamental da arte contemporânea. Na medida em que, para Hegel, a arte cumpriu sua função metafísica de busca pelo Absoluto, ela agora representará a plena liberdade que o artista tem em decidir, por ele mesmo, de acordo com as regras de seu tempo, a maneira mais adequada de concretizar o ideal de belo. Isso fica claro com o número de formas de arte possíveis para os artistas “pós-fim-da-arte”, como demonstra Hegel ao afirmar que

“A fidelidade a um conteúdo particular e a um modo de expressão que lhe seja adequado é, para o artista moderno, uma coisa do passado, e a própria arte se tornou um instrumento livre que o artista pode aplicar, na medida dos seus dons técnicos, a qualquer conteúdo de qualquer natureza[13]”.

Com esse pensamento, Hegel fundou uma maneira de pensar sobre a arte, a qual privilegia o interesse pelas obras particulares, cujo conteúdo se expressa através das mais variadas formas de arte, as quais o esteta ou crítico de arte deve ultrapassar, a fim de captar a adequação deste conteúdo não com regras universais ou estabelecidas no passado, mas com regras que dizem respeito ao momento histórico em que a obra é produzida. Nesse pensamento, há uma preocupação fundamental com a história da arte tanto para a estética quanto para a crítica da arte. O legado hegeliano para a posteridade, portanto, fundamenta-se nesse pensamento, como demonstra Jimenez.

“A posteridade considera como “hegeliano” todo procedimento estético que se interessa de maneira privilegiada pela ideia, pelo conteúdo expressos pela obra e lhes dá prioridade sobre a forma. Ela é assim oposta à estética de Kant para a qual — estamos lembrados — a forma, o desenho, são preponderantes porque causam, ao contrário da cor, um prazer desinteressado[14]”.

Isso significa que há uma liberdade para as representações, para as formas de arte. Os artistas, de acordo com seu contexto histórico, podem utilizar qualquer forma de arte cujas regras se encontrem de acordo com seu próprio período. Assim, ao lidar com a arte, não podemos ficar presos às representações, sem conseguir ultrapassá-las para encontrar as determinações que unem o conteúdo à forma desenvolvida. Esse é o único meio de conseguir racionalmente identificar o ideal de belo concretizado em tal e tal forma de arte. Parece que encontramos finalmente o espaço para a fotografia na arte, sobretudo com espaço efetivo na arte contemporânea.

Como vimos anteriormente, Kant não aceitaria a fotografia como arte, uma vez que ele a consideraria uma arte mecânica, desenvolvida de acordo com um aprendizado, com uma técnica. Para Kant, as belas artes são produtos de um gênio, que não pode aprender nenhuma técnica e que deve criar sua arte puramente de acordo com sua inspiração e dons inatos. Isso era o que impedia a fotografia se efetivar enquanto arte. Mas Hegel, por sua vez, não irá concordar com Kant nesse aspecto:

“Quanto à noção de gênio, já observamos que o gênio e o talento são, pelo menos em certo aspecto, dons naturais. Mas o que sobretudo não se deve esquecer é que o gênio, para ser fecundo, tem de possuir um pensamento disciplinado e cultivado por um exercício mais ou menos longo. Porque a obra de arte oferece um aspecto puramente técnico que só pelo exercício se chega a dominar. É isto mais particularmente verdadeiro nas artes que exigem uma destreza manual que as aproxima, mais ou menos, dos ofícios manuais[15]”.

Hegel, portanto, percebe que há a necessidade de estudo para as artes, mesmo no caso de um gênio com dons inatos. Dependendo do tipo de arte, haverá a necessidade de mais estudo. Nesta mesma passagem, Hegel aponta para esse fato ao dizer que “podem certas artes, mais do que outras, ter necessidade de estudo”. Somado ao fato de o fim da arte proporcionar plena liberdade ao artista a utilizar qualquer forma de arte, a fim de adequar forma e conteúdo, concretizando o ideal de belo, a possibilidade de estudo e desenvolvimento de uma técnica ao artista abre total espaço para a fotografia enquanto arte, fundamentada no pensamento hegeliano. Hegel aponta para a atividade artística como tendo uma exigência geral de ser um trabalho racional, ao dizer que

“O homem, enquanto consciência, exterioriza-se, desdobra-se, oferece-se à contemplação própria e alheia. O autor da obra de arte procura exprimir a consciência que de si possui. É esta uma poderosa exigência que advém do caráter racional do homem, origem e razão da arte, bem como de toda ação e de todo saber[16]

A fotografia, deste modo, encaixa-se também entre as possibilidades de formas artísticas para, através da razão, estabelecermos um elo entre o conteúdo — o ideal de belo — e a forma — neste caso, as próprias fotografias. Quando pensamos em fotografia, não nos referimos simplesmente à captura e reprodução imediatizada e estática da natureza dada, na medida em que isto iria contra a definição de arte hegeliana. Referimo-nos ao trabalho profissional, racional e técnico do fotógrafo que, no caso de ser um artista com uma inspiração e dons próprios, utiliza-se de inúmeros recursos para, através de uma manipulação consciente dos aspectos de cores, iluminação, efeitos visuais e etc., dissolver qualquer material dado no processo racional de conceber essa forma de arte que traz em seu bojo uma enorme possibilidade de concretizar, através das fotografias, o conteúdo da beleza artística de nosso tempo. O final do processo, a fotografia, como Hegel enunciava para a pintura no século XIX, parece-se menos com a natureza da qual pudera abstrair seu material e mais com o artista, o qual mergulhou conscientemente e racionalmente na fotografia para transformar tanto a paisagem quanto a si mesmo no processo, culminando em um resultado que não é nem natureza e nem fotógrafo: é obra de arte.

A grande contribuição de Hegel, portanto, não somente abre espaço para a fotografia se efetivar enquanto manifestação artística, mas também desenvolve sua reflexão para elucidar a autonomia da estética. Esta autonomia possibilita à estética contemporânea — herdeira também do pensamento de outros filósofos e críticos de arte posteriores a Hegel, como o pensamento de Theodor Adorno — refletir sobre os fundamentos da arte, assim como fez a de Hegel, para podermos identificar a possibilidade de problematizar ainda mais o que entendemos por arte no século XXI. As contribuições de Hegel foram muitas, mas, dentre elas, Jimenez nos aponta o fato de Hegel

“Ter pensado que o fim da arte romântica marcava, em sua época, a soleira da arte e da estética modernas. A reflexão hegeliana sobre a arte é certamente a que teve e tem sempre maior ressonância na estética contemporânea. Mais ainda do que a de Kant, na medida em que ela prova a paixão de Hegel pelas obras particulares e um conhecimento notável de cada arte em particular. A afirmação da historicidade do belo, contra o platonismo, e a crítica da imitação da natureza, contra Aristóteles, constituem, além disso, pontos sem volta para toda reflexão estética ulterior[17]”.

No século XXI, cabe a nós buscar na filosofia de Hegel, assim como na de Kant e no pensamento de tantos outros filósofos e críticos de arte do passado e do presente, fundamentos claros e distintos para, no nosso tempo, olhar para a arte como inserida em um contexto histórico, político e socioeconômico, e repensá-la à luz desses contextos e desses fundamentos filosóficos e, sobretudo, de novos fundamentos e conceitos que também cabe a nós criar e desenvolver.

 

Notas

 

[1] Marc Jimenez. O que é estética? p. 166.

[2] G. W. F. Hegel, Curso de Estética: o belo na arte, p. 4.

[3] Id. A filosofia do Espírito, § 381, Adendo.

[4] Id., Ibid., § 378, Adendo.

[5] P. P. Pimenta. Reflexão e Moral em Kant, p. 24. Grifo meu.

[6] G. W. F. Hegel, op. cit., p. 119.

[7] Marc Jimenez, op. cit., p. 167.

[8] G. W. F. Hegel, op. cit., p. 22: “Com efeito, só é verdadeiramente real o que existe em si e para si, o que constitui a substância da natureza e do espírito, o que, existindo no espaço e no tempo, não deixa de, com uma existência verdadeira e real, existir em si e para si. É a arte que nos abre os horizontes das manifestações destas potências universais, que no-las torna aparentes e sensíveis. A essencialidade tanto se manifesta no mundo exterior como no interior, tais como no-los revela a experiência cotidiana; mas manifesta-se num caso de acasos e acidentes, aparece deformada pela imediateidade de elemento sensível, pela arbitrariedade das situações dos acontecimentos, dos caracteres etc. Entre a aparência e a ilusão deste mundo mau e perecível e o conteúdo verídico dos acontecimentos, cava a arte um abismo para erguer tais acontecimentos e fenômenos a uma realidade mais alta, nascida do espírito. Mais uma vez ainda, as obras de arte não são, em referência à realidade concreta, simples aparências e ilusões, mas possuem uma realidade mais alta e uma existência verídica”.

[9] Id., Ibid., p. 169.

[10] Id., Ibid., pp. 170-171.

[11] Id., Ibid., p. 657.

[12] Id., Ibid., p. 661.

[13] Id., Ibid., p. 659.

[14] Marc Jimenez, op. cit., 185.

[15] G. W. F. Hegel, op. cit., p. 47.

[16] Id., Ibid., p. 51.

[17] Marc Jimenez, op. cit., p. 185.

 

Referências

 

HEGEL, G. W. F. Curso de estética: o belo na arte. Tradução de Orlando Vitorino e Álvaro Ribeiro. 2. ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009.

_____. Enciclopédia das ciências filosóficas em compêndio. v. 3. A filosofia do espírito. 2. ed. Texto completo, com os adendos orais, traduzido por Paulo Meneses, com a colaboração de José Machado. São Paulo: Loyola, 2011.

JIMENEZ, M. O que é estética? Tradução de Fulvia M. L. Moretto. São Leopoldo, RS: Ed. UNISINOS, 1999.

PIMENTA, P. P. Reflexão e moram em Kant. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2004.

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