Wittgenstein e as selfies com decote

A década dos anos 10 do nosso século, para muitos, é a década das selfies. Cada vez mais dezenas de selfies são compartilhadas nas redes sociais, estabelecendo uma interação social entre as pessoas. Além das selfies, há também um grande número de fotos em geral, compartilhando momentos com a família, com os amigos, em viagens, em museus, e etc., ou até mesmo dividindo momentos inusitados e peculiares com todos os amigos virtuais.

Antes de mais nada, antes mesmo de juízos de valor, deve-se ter em mente que se trata de um tipo de linguagem. Através dessas fotos, as pessoas podem comunicar-se de muitas maneiras, comunicando momentos alegres, momentos tristes, momentos engraçados, e assim por diante. Não somente as palavras, mas também as fotografias, os desenhos, os gestos, as expressões faciais, etc., e todo o fazer humano constituem linguagem. Através desses meios, podemos relatar a nossa perspectiva de mundo, de diferentes modos, com as mais variadas formas de linguagem.

Através da fala, a ambiguidade dos enunciados pode causar confusão entre as pessoas, impedindo que a comunicação seja desenvolvida de modo satisfatório. Isso significa que, quando estamos dialogando em um contexto, o uso de expressões que não dizem respeito a esse contexto são rejeitadas à comunicação. Em outras palavras, é difícil se comunicar em situações nas quais há elementos ambíguos e descontextualizados sendo divididos entre as pessoas em uma mesma situação.

Em uma conversa entre jogadores de futebol, por exemplo, há certas expressões que não fariam sentido, ou que teriam um significado totalmente diferente, em uma conversa entre estudantes de letras. Por um lado, os jogadores costumeiramente falariam “Ah, lá vem o Manuel com a resenha dele. Ele acha que isso faz algum sentido!”. No caso dos estudantes de letras, por outro lado, esse enunciado poderia ter o seguinte sentido: o Manuel não escreve bem; enquanto para os jogadores, por sua vez, o sentido do enunciado seria o fato do Manuel não saber conversar sobre coisas divertidas no meio dos jogadores. Por que será que isso acontece? Isso acontece porque há uma linguagem característica do mundo do futebol, assim como há uma linguagem característica do mundo acadêmico, ambas necessárias para que seus participantes possam se comunicar satisfatoriamente.

No caso das selfies, há também uma linguagem característica desse universo; e também das fotos em geral. Por exemplo, caso uma pessoa compartilhe uma foto em uma festa entre amigos, com muita diversão e confusão, ela estará comunicando a todas as pessoas que fazem parte de um universo no qual existem selfies elementos que fazem parte das regras que as pessoas esperam ver em uma foto de festa: bebidas, piscinas, multidão, e etc. Por outro lado, se as mesmas propriedades presentes em uma festa estivessem contidas em uma foto num museu, a comunicação da fotografia teria um problema: todos que a vissem estranhariam essa ambiguidade na linguagem da foto. Ela seria, no mínimo, bizarra. A utilização das selfies e sua finalidade, seja ela na forma de um mecanismo de autopromoção, seja para simplesmente dividir com os amigos momentos únicos, torna-se ambígua e confusa quando seus elementos também se apresentam descontextualizados. Uma selfie com decote fora de contexto certamente causará problemas de comunicação.

Não há nenhum problema, por exemplo, em uma garota tirar uma selfie mostrando seu decote, ou até mesmo vestindo roupas de banho extremamente reveladoras. Na medida em que estiver seguindo as regras de uso da plataforma pela qual está compartilhando as fotos, qualquer pessoa pode mostrar o corpo da maneira que lhe achar devido. Deste modo, o problema de linguagem presente nas ambiguidades não está no fato de uma garota decidir tirar fotos sensuais, ou de um garoto decidir compartilhar suas fotos em uma festa muito animada. Pelo contrário, o problema de linguagem não surge pelo juízo de valor do conteúdo das fotos, mas surge quando uma foto que aparenta comunicar um chá da tarde em família, por exemplo, comunica explicitamente elementos que não fazem sentido neste contexto, como, por exemplo, as partes íntimas de qualquer pessoa.

Para entendermos melhor essa situação, podemos pedir ajuda a Wittgenstein! Esse filósofo teve dois grandes períodos no seu pensamento, assim como muitos outros filósofos. Sua peculiaridade, entretanto, está no fato de que seus dois períodos são opostos, isto é, ele refuta a si mesmo, defendendo, no segundo período, uma ideia fundamentalmente contrária a que defendia no primeiro período de seu pensamento.

Em seu período tardio, Wittgenstein, assim como havia feito anteriormente, desenvolve uma investigação sobre a linguagem. A diferença, dessa vez, está no conteúdo de seu pensamento. Para ele, usando como exemplos a aritmética e o xadrez, sua função não diz respeito ao desenho dos numerais ou ao formato das peças de madeira. Wittgenstein está indo contra a concepção de que os números ou peças de xadrez substituem algo, carregando neles mesmos um significado. Ao contrário disso, ele dirá que o significado de símbolos matemáticos ou de peças de xadrez decorre do conjunto das regras que determinam como eles serão usados.

Daí surge o termo “jogos de linguagem”. Wittgenstein, através deste conceito, tinha por preocupação demonstrar que há muitas semelhanças entre a linguagem e os jogos. Como assim? Para ele, assim como os jogos utilizam símbolos e signos, que podem ser os mesmos entre um jogo e outro (por exemplo, há cartas em diversos jogos diferentes), a linguagem também utiliza palavras e proposições que são as mesmas entre um contexto e outro (como a resenha no futebol e no mundo acadêmico); o que dará significado tanto às cartas quanto às proposições e às palavras serão as regras do jogo em que elas estão inseridas. Esse significado decorre do contexto em que são utilizadas. Em outras palavras, a linguagem, assim como o jogo, é uma atividade guiada por regras.

Em suas Investigações Filosóficas, em um nível mais fundamental, Wittgenstein dirá que a linguagem possui suas regras gramaticais, que constituem sua estrutura, assim como os jogos possuem suas regras estruturais (o xadrez usa um tabuleiro quadrilátero, 32 peças e etc.). Em um nível mais abstrato, o significado das palavras, assim como o das peças, não subsiste às palavras ou às peças, ou seja, as palavras e as peças não têm correspondência essênciais e imutáveis (como o “primeiro Wittgenstein” defendia no Tratactus, no estatuto realista das palavras), mas seu significado é tão somente determinado pelas regras que possibilitam sua utilização.

Quando aprendemos a falar, aprendemos as palavras através de seu uso, do mesmo modo como aprendemos a jogar xadrez pela observação dos movimentos, ou pela leitura das regras em um manual; não por conhecer a essência das peças ou das palavras. E em um nível mais prático, os enunciados e as proposições não têm significado quando estão fora de determinado jogo. Assim, as frases e os enunciados possível dependem do contexto em que são comunicadas. Para cada frase ou enunciado, certas reações serão compreensíveis e outras não. Agora o exemplo dos jogadores de futebol e dos estudantes de letras ficou mais claro.

Portanto, o “segundo” Wittgenstein não acreditava que o significado das palavras deveria ser entendido como algo fixo e determinado, mas sim como algo que a linguagem exerce em um contexto específico e com objetivos específicos. Consequentemente, os significados podem variar dependendo do contexto em que as palavras são utilizadas e do propósito deste uso. As palavras, que durante a tradição foram utilizadas para descrever a realidade, também podem realizar algo pragmático como fazer uma saudação, um pedido, dar uma ordem, agradecer, contar piadas, e etc. Esses usos que as palavras têm no dia-a-dia, em diferentes contextos e de diferentes modos, é o que Wittgenstein denomina “jogos de linguagem”.

Esse conceito abre a possibilidade de encararmos a linguagem como uma forma de comunicação cujo significado dos meios de comunicação depende de como interpretamos o objetivo de seu uso nesses jogos de linguagem. Podemos entender agora, finalmente, a razão da ambiguidade no objetivo de certas selfies causarem estranhamento e perplexidade. Isso acontece porque elas contrariam a si mesmas. No caso de uma selfie de um garoto posando seminu, seu círculo de amigos logo entenderá que o objetivo da foto pode ser, talvez, promover o próprio corpo, então automaticamente as pessoas que aprovarem este corpo podem curtir a imagem, e as que não aprovarem poderão mover adiante no infinito carousel de selfies. Por outro lado, no caso de uma selfie de uma garota mostrando a nova blusa que ganhou de presente, se as pessoas gostarem da blusa (ou da garota) poderão, do mesmo modo, curtir a imagem e etc.

Todavia, no caso de uma imagem cujo objetivo se torne ambíguo pelo fato da mistura dos dois contextos, a comunicação estará impossibilitada e, no mínimo, acharemos o fato bizarro o suficiente para darmos umas boas risadas da situação. Para manter o mesmo exemplo, caso a garota, através de uma selfie, queira que pensemos que ela está mostrando uma blusa que ganhou, mas, por detrás disso, busca sutilmente mostrar seu corpo, e então percebemos que ela não está comunicando a blusa, mas sim o corpo, então o jogo de linguagem muda completamente, dado que há uma linha tênue na qual não temos mais certeza se ela está comunicando X ou Y, a blusa nova ou o corpo, causando uma contradição e um problema de linguagem. De um lado, parte das pessoas estará no jogo de linguagem da blusa; de outro, parte das pessoas estará no jogo de linguagem do corpo. E haverá o filósofo que, ao perceber ambos jogos de linguagem, apontará para a contradição e dirá: “Ah! Há aí um problema de linguagem”.

O problema na minha argumentação não está no fato de, por exemplo, por conta de machismo, garotas não poderem tirar fotos de decote e com pouca roupa ou não poderem tirar fotos sensuais em geral. Claro que não. Não estamos no Oriente médio, portanto garotas podem mostrar o corpo em selfies, inclusive o decote, ou até mostrar tudo, se quiserem. Isso pouco importa para a argumentação. O que faz as selfies perderem o sentido e tornarem-se bizarras, já que são rejeitadas no jogo de linguagem, é não fazerem mais parte do contexto e das regras determinadas pela postagem. É tudo uma questão de honestidade e de jogos de linguagem, não de machismo.

 

Indicações de leitura:

GLOCK, Hans-Johann. Dicionário Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações filosóficas. Tradução de José Carlos Bruni. Col. Os Pensadores. São Paulo: Ed. Nova Cultural, 2000.

_____. Tractatus Logico-Philosophicus. Tradução de José Arthur Giannotti. Série Filosofia. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1968.

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