Ser criança e a filosofia, segundo Nietzsche

Thaumazein: maravilhar, admirar, surpreender, espantar, estranhar; a sensação de todos esses estados, que causam perplexidade. Em qualquer interação com uma criança podemos notar a facilidade com que elas se admiram, se surpreendem e se espantam com muitas coisas. Eu ousaria dizer que, potencialmente, maravilham-se com todas as coisas. Um pedaço de papel? Mas por que não um avião? Um coelhinho de pelúcia? Mas por que não um coelho mágico? Legumes de plástico? Mas por que não uma boa sopa imaginária? A ideia de “verdade” não está muito desenvolvida nas crianças, por isso elas são capazes de abraçar o novo, de criar o novo, por mil perspectivas diferentes; e tendem a não submeter a vontade à verdade, mas, sim, a verdade à vontade.

Foi no thaumazein que começou a filosofia. Nas investigações, de certo modo, científicas dos físicos jônicos, houve um momento em que os meios pelos quais eles levavam a efeito suas investigações não eram mais suficientes e não davam mais conta de resolver as então contradições decorrentes de sua investigação. Essa perplexidade e esse estranhamento frente às contradições levou-os à filosofia.

Parece que há essa necessidade de espanto, de maravilhamento e de estranhamento, para que possamos nos interessar pelo mundo, para buscar questioná-lo, investigá-lo, conhecê-lo, entendê-lo. Isso é característica das crianças, sempre perguntando os porquês das coisas. Mas por que o sol se põe todos os dias? Para onde ele vai? Mas por que chove? Ser criança é enxergar a vida e a possibilidade de, através da imaginação, criar um mundo de possibilidades e um universo próprio que, apesar de mágico, de certo modo possui suas regras e seu sentido interno. Elas sempre perguntam, ‘mas por quê? Por quê?’

Todos os filósofos precisam ter esse espírito de criança, mesmo que metodologicamente. A capacidade de olhar para as coisas que já se tornaram banais para nossos olhos de adulto e desbanalizá-las, estranhá-las novamente, nunca perdendo a capacidade de maravilhar-se com o mundo: a dúvida faz isso. Entretanto, parece que há uma certa tendência para acreditarmos que somos capazes de dar resposta a todas as perguntas, até chegarmos ao ponto em que não estranhamos mais nada, já que resolvemos todas as coisas e tornamo-nas banais e respondidas. Mesmo quando elas não têm uma resposta: o dogmatismo faz isso. Como fazemos isso? Criamos justificativas para respondermos a todas as questões, mas nem sempre somos honestos nessas respostas…

No período dos físicos jônicos, assim como para as crianças, a ideia de verdade também não estava muito desenvolvida no pensamento ocidental. Nos séculos seguintes, a partir do surgimento da filosofia na cidade, de sua relação com a retórica, com a oratória e com a política, há a sedimentação e fundamentação da ideia de verdade na transcendência do bem, na imutabilidade e superioridade da razão em detrimento do corpo, no desenvolvimento de uma continuação da vida após a morte que, segundo Nietzsche, sobretudo pelo pensamento de Parmênides e Sócrates-Platão (que o nosso amigo alemão considerava um pensamento só), possibilitou a estruturação da racionalidade ocidental e a fundamentação filosófica da nossa moral.

No período de Nietzsche, século XIX, o ideal da racionalidade chegou talvez a seu ponto mais alto, sobretudo com o avanço da ciência. Sua filosofia, assim como a de alguns de seus antecessores, fez frente ao pensamento que considerava que a razão poderia dar conta da totalidade dos problemas do universo, sendo uma questão de tempo para as ciências darem uma resposta a tudo e resolverem todos os problemas. No bojo desse ideal, encontrava-se a moral, herdeira dessa estrutura de pensar (Parmênides-Sócrates-Platão).

Essa moral, segundo Nietzsche, suprime o corpo em detrimento da razão. É a moral escravizadora, à qual a nossa vontade submete-se. É a moral do “não-farás”. Séculos e séculos passaram-se desde Sócrates-Platão, mas o Ocidente manteve essa estrutura e, apesar de levar adiante diferentes discursos, eles sempre mantiveram a mesma roupagem. “Tu deves” é a voz que reverbera pelo mundo, fazendo silêncio e calando o “eu quero”.

A solução, para Nietzsche, é — grosso modo — a “transvaloração” de todos os valores: a superação dessa moral e a criação de novos valores, que não neguem o “aqui” e o “agora” em nome de um mundo que, para Nietzsche, não existe em lugar nenhum; que não escolham a razão em nome do corpo, das paixões, das pulsões, dos desejos; que não preguem o sofrimento e a humildade em nome da realização da nossa potência; que não considere o bem como o imutável, o eterno, o perfeito, em nome do devir, das transformações e da mutabilidade que caracterizam a própria vida e o corpo; que percebam que a razão é apenas uma perspectiva de leitura de mundo, assim como a arte, a música, a poesia, a sensibilidade, e etc., também são. Em outras palavras, a solução, para Nietzsche, é a afirmação da vida: não apenas aceitar a vida do jeito que ela é, sem criar toda a parafernália que possibilita afirmarmos que possuímos todas as respostas para ela, mas também vivê-la de modo a amá-la pela transformação, pela terra, pelo corpo, pela vontade e pela potência.

Em Assim falou Zaratustra, Nietzsche apresenta-nos, logo no início, o aforismo “Das três metamorfoses”:

“Três metamorfoses do espírito menciono para vós: de como o espírito se torna camelo, o camelo se torna leão e o leão, por fim, criança.

Há muitas coisas pesadas para o espírito, para o forte, resistente espírito em que habita a reverência: sua força requer o pesado, o mais pesado.

O que é pesado? Assim pergunta o espírito resistente, e se ajoelha, como um camelo, e quer ser bem carregado.

O que é o mais pesado, ó heróis?, pergunta o espírito resistente, para que eu o tome sobre mim e me alegre de minha força.

Não é isso: rebaixar-se, a fim de machucar sua altivez? Fazer brilhar sua tolice, para zombar de sua sabedoria?

Ou é isso: alimentar-se das bolotas e da erva do conhecimento e pela verdade padecer fome na alma?

Ou é isso: estar doente e mandar para casa os consoladores e fazer amizade com os surdos, que nunca ouvem o que queres?

Ou é isso: entrar em água suja, se for a água da verdade, e não afastar de si as frias rãs e os quentes sapos?

Ou é isso: amar aqueles que nos desprezam e estender a mão ao fantasma, quando ele quer nos fazer sentir medo?

Todas essas coisas mais que pesadas o espírito resistente toma para si: semelhante ao camelo que ruma carregado para o deserto, assim ruma ele para seu deserto.

Mas no mais solitário deserto acontece a segunda metamorfose: o espírito se torna leão, quer capturar a liberdade e ser senhor em seu próprio deserto.

Ali procura o seu derradeiro senhor: quer se tornar seu inimigo e derradeiro deus, quer lutar e vencer o grande dragão.

Qual é o grande dragão, que o espírito não deseja chamar de senhor e deus? “Não-farás” chama-se o grande dragão. Mas o espírito do leão diz “Eu quero”.

“Não-farás” está no seu caminho, reluzindo em ouro, um animal de escamas, e em cada escama brilha um dourado “Não-farás!”.

Valores milenares brilham nessas escamas, e assim fala o mais poderoso dos dragões: “Todo o valor das coisas brilha em mim”.

“Todo o valor já foi criado, e todo o valor criado — sou eu. Em verdade, não deve mais haver ‘Eu quero’!” Assim fala o dragão.

Meus irmãos, para que é necessário o leão no espírito? Por que não basta o animal de carga, que renuncia e é reverente?

Criar novos valores — tampouco o leão pode fazer isso; mas cria a liberdade para nova criação — isso está no poder do leão.

Criar liberdade para si e um sagrado Não também ante o dever: para isso, meus irmãos, é necessário o leão.

Adquirir o direito a novos valores — eis a mais terrível aquisição para um espírito resistente e reverente. Em verdade, é para ele uma rapina e coisa de um animal de rapina.

Ele amou outrora, como o que lhe era mais sagrado, o “Tu-deves”; agora tem de achar delírio e arbítrio até mesmo no mais sagrado, de modo a capturar a liberdade em relação a seu amor: é necessário o leão para essa captura.

Mas dizei-me, irmãos, que pode fazer a criança, que nem o leão pôde fazer? Por que o leão rapace ainda tem de se tornar criança?

Inocência é a criança, e esquecimento; um novo começo, um jogo, uma roda a girar por si mesma, um primeiro movimento, um sagrado dizer-sim.

Sim, para o jogo da criação, meus irmãos, é preciso um sagrado dizer-sim: o espírito quer agora sua vontade, o perdido para o mundo conquista seu mundo.

Três metamorfoses do espírito eu vos mencionei: como o espírito se tornou camelo, o camelo se tornou leão e o leão, por fim, criança. — —

Assim falou Zaratustra. E nesse tempo ele permanecia na cidade que se chama A Vaca Malhada”.

Para ilustrar a transvaloração de todos os valores (e não complicar ainda mais a explicação, já que esta passagem não se reduz a isso), vou tentar tornar compreensível o presente aforismo. A escrita de Nietzsche é um pouco obscura, apesar de ser razoavelmente clara, caso tenhamos em mente alguns pressupostos e conceitos necessários para sua compreensão. No posfácio da obra, Paulo César de Souza divide conosco os seguintes pensamentos:

“Nietzsche tinha uma preocupação extrema com a sonoridade das frases, e sempre recordava que ler, para os antigos gregos, significava ler em voz alta. Um de seus alunos afirmou que ele costumava declamar o que havia escrito, “a fim de experimentar a cadência, a tonalidade e a métrica, e também para testar a clareza e a precisão da ideia expressa” (conforme C. P. Janz, no primeiro volume de sua monumental biografia de Nietzsche). No Zaratustra esse pendor é intensificado, a ponto de ele dizer: “Meu estilo é uma dança; um jogo de simetrias de toda espécie e um ‘saltar por cima’ e escarnecer dessas simetrias. Isso vai até à escolha de vogais” (carta ao amigo Erwin Rohde, 22 de fevereiro de 1884). Essa afirmação condiz notavelmente com a seguinte, de um grande poeta-pensador português: “Há prosa que dança, que se declama a si mesma. Há ritmos verbais que são bailados, em que a ideia se desnuda sinuosamente, numa sensualidade translúcida e perfeita” (Fernando pessoa, em O livro do desassossego).”

Por isso, para explicá-la, vou buscar ater-me ao ponto central que permeia essa passagem.

Para começar, o camelo é o espírito da reverência, da humildade, do sofrimento, da negação da vida, da negação da terra, da negação do corpo, da negação do aqui e do agora. Ele ama a moral e a verdade, amando curvar-se diante de tudo isso que impede a realização da vida tal como ela é. Sua realização, enquanto camelo, é sua própria condenação: ele ama dizer não a si mesmo, para “dizer-sim” ao dever. Sua vontade, nesta forma, é a vontade da verdade. Em nome da verdade, ele tem vontade de curvar-se; em nome da verdade, ele tem vontade de rebaixar-se; em nome da verdade, ele tem vontade de não viver, não regozijar, não realizar sua potência. Ele obedece, ele sujeita-se, ele põe todos os valores sobre as costas e vai para seu deserto.

Mas lá, ao voltar-se para si mesmo, o espírito, que era camelo, torna-se leão. Esse leão é o momento da negação de todos os valores, da destruição de tudo aquilo que sustenta a vontade da verdade, da obediência, da submissão, da humilhação, e etc., impedindo a realização da vontade de “dizer-sim” à vida. É o momento de rugir! Ele encontra o dragão “Não-farás”. Esse dragão é a representação dos “valores milenares”, construídos desde o surgimento da civilização e elevados a seu ápice por Sócrates-Platão, posteriormente, pelo cristianismo e, então, pela ciência e pelo idealismo. Este dragão de ouro possui seu corpo coberto por escamas que contêm escrito “Não-farás” e “Tu-deves”. Esse dever, que escraviza o corpo e a vida em nome da razão, faria o camelo ajoelhar-se rapidamente. Mas o leão não! O leão percebeu a força que ele tinha, enquanto camelo que carregava tudo aquilo em suas costas, e agora consegue dizer Não! Dizer não a quê? Dizer não aos valores milenares, dizer não ao dever, dizer não ao “Não-farás!”

Mas o dragão é esperto. “Não-farás” diz ao leão que “todo o valor das coisas brilha em mim”. Ele é astucioso e poderoso. “Todo o valor já foi criado, e todo o valor criado — sou eu”, esbraveja o dragão. O camelo? Já estaria curvado. Na verdade, ele ama o dragão. Mas o leão não! Nietzsche explica: “para que serve o leão?”, já que ele não consegue criar novos valores, na medida em que está em conflito com o dragão. Ele é necessário. Ora, de um lado, o leão é a negação, e é justamente negação que permite a superação dos valores, para, de outro, criar a libertação dessas amarras e abrir espaço à afirmação. Afirmação de quê? Da vida, o “dizer-sim”, a afirmação de sua própria potência: a criança.

“Inocência é a criança, e esquecimento; um novo começo, um jogo, uma roda a girar por si mesma, um primeiro movimento, um sagrado dizer-sim”. Essa inocência permite uma abertura para criar os novos valores, o maravilhamento e a admiração com a vida, com a terra, com aquilo que podemos ver e sentir com o corpo. A criança usa a imaginação para, como um artista, criar tudo aquilo que diz respeito à vontade de potência, não à vontade de verdade: para a criança a ideia de verdade não faz o menor sentido. Esquecimento? Esquecimento do sentido histórico, esquecimento de tudo aquilo que nos tira do instante do presente. Esquecimento de tudo aquilo que edifica o túmulo do aqui e do agora. Uma roda a girar por si mesma, sem ser girada pela mão da verdade e da moral, para poder “dizer-sim”! Afirmar o amor à vida como ela é. A criança consegue fazer aquilo que nem o camelo e nem o leão puderam fazer: ser artista, criar, jogar, brincar. Por quê? Porque a verdade não tem relevância nenhuma para a criança.

Às vezes um olhar aparentemente mais extremo e radical, como o de Nietzsche, volta-nos para repensarmos a maneira pela qual lidamos com a verdade, a maneira pela qual lidamos com a moral, e sobretudo a maneira pela qual lidamos com a própria vida, com a própria contingência, com os instantes do presente e com o devir. Na verdade, ser criança é fundamental para a reflexão filosófica, talvez não pelo modo através do qual Nietzsche a apresentou nesse aforismo, já que ele não estava falando disso aqui (sua preocupação aqui é com a atua situação do homem, com a ideia de verdade e com a realização da vida, não a reflexão filosófica per se). Entretanto, olhar para esse aforismo possibilita-nos vislumbrar que o dogmatismo nubla a reflexão. Na verdade, o dogmatismo não gosta da reflexão, já que a reflexão pode colocar uma dúvida no próprio dogmatismo.

Precisamos ultrapassar a pretensão de acharmos que temos todas as respostas, que atingimos a verdade, que a resposta para tudo é filósofo X, ou a resposta para tudo é filósofo Y. A verdade não está em um livro. Kant não tem todas as respostas. Hegel não tem todas as respostas. Marx não tem todas as respostas. Assim como Nietzsche, Heidegger, Sartre, e etc., também não têm todas as respostas. Eles são perspectivas, que dizem respeito a um momento pontual na história, inexoravelmente presos à sua realidade sociopolítica, filosófica, econômica, artística e etc.: seu contexto histórico. Devemos olhar para eles como perspectivas e interpretá-los, não buscarmos a verdade de Nietzsche, a verdade de Kant, e assim por diante. Com efeito, deveríamos até mesmo deixar de lado a pretensão de acharmos que podemos dar respostas a todas as questões. Podemos perguntar, mas responder a tudo? Essa é a porta de entrada para o dogmatismo.

Isso não significa que precisamos chegar ao ponto do esvaziamento moral. Nem Nietzsche nem eu estamos falando de niilismo moral. Para começar, esse termo tem outros significados para Nietzsche, os quais não cabem aqui. Nietzsche apontou-nos um problema muito importante, caro a nós, cuja reflexão pode — e deve — ser desenvolvida. Por outro lado, o intuito deste artigo é esclarecer que, para a própria busca da verdade (ou para a busca de perspectivas de interpretação de mundo), há necessidade de tornarmo-nos crianças, enquanto filósofos, para sermos como artistas, para podermos estranhar aquilo que já é banal, nos maravilhar com aquilo que se tornou comum, para evitarmos cair no dogmatismo e engessarmos a reflexão.

“Ignorar é não saber alguma coisa. A ignorância pode ser tão profunda que nem sequer a percebemos ou a sentimos, isto é, não sabemos que não sabemos, não sabemos que ignoramos. Em geral, o estado de ignorância se mantém em nós enquanto as crenças e opiniões que possuímos para viver e agir no mundo se conservam como eficazes e úteis, de modo que não temos nenhum motivo para duvidar delas, nenhum motivo para desconfiar delas e, consequentemente, achamos que sabemos tudo o que há para saber”.

– Marilena Chauí.

 

Indicações de leitura:

NIETZSCHE, F. W. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

ONFRAY, M. A potência de existir. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010.

CHAUÍ, M. Unidade 3: A verdade. In: Convite à Filosofia. 14. ed. São Paulo: Editora Ática, 2012.

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