Virtude moral em Aristóteles: o segredo para a felicidade

No artigo sobre a eudaimonia, sobre a felicidade em Aristóteles, discutimos sobre como Aristóteles pôde defini-la e chegar a seu conceito de felicidade. Vimos que, diferentemente da cultura grega, carregada de religiosidade e simbolismo, Aristóteles não fundamentou sua concepção de felicidade na vontade divina ou em causas obscuras e sobre-humanas. Pelo contrário: para Aristóteles, a felicidade é única e exclusivamente possibilitada pela atividade racional, em consonância com a virtude. É a moral, portanto, que possibilita a felicidade, e o prudente é quem conscientemente leva a efeito ações morais.

Contudo, uma vez definido o que é felicidade, parece que se faz necessário apresentar como, para Aristóteles, podemos ser felizes. De que modo um indivíduo pode tornar-se feliz? Para recapitular em linhas gerais o que foi dito, Aristóteles iniciou uma investigação acerca das ações humanas. Para ele, as ações humanas têm uma razão, um propósito: uma finalidade última. Essa finalidade última das ações humanas é identificada com a felicidade. Isso significa que todas as ações humanas, por mais múltiplas e plurais que possam ser, têm em vista, ulteriormente, uma única coisa, a saber, a felicidade.

Ela foi definida, de modo geral, como a atividade da alma segundo a perfeita virtude, em uma vida completa. Para melhor esclarecer essa definição, Aristóteles explicou que o indivíduo virtuoso, de preferência a qualquer coisa, estará levando a efeito ações virtuosas durante toda a vida. Portanto, isso significa em uma vida completa, dado que a felicidade se dá, para o indivíduo virtuoso, durante toda a vida. Entretanto, para nós ainda não está muito claro como que um indivíduo pode tornar-se feliz. Ele pode ter esclarecido o que significa em uma vida completa, mas o resto ainda está muito confuso! Que atividade da alma é essa? O que é virtude, então?

Analisar o que é a virtude e em que consiste essa atividade da alma é fundamental para compreender a felicidade e como um indivíduo pode tornar-se feliz. Segundo ele, a alma possui três divisões: a nutritiva, responsável pelo crescimento; a impulsiva, que necessita obedecer a racional; e racional, que comanda a alma. A primeira em nada diz respeito às ações virtuosas, na medida em que opera sobretudo durante o sono, para tratar das questões nutritivas do corpo, como o crescimento; deste modo, não diz respeito à atividade da alma relativa à virtude. A segunda, por seu turno, diz respeito aos desejos: aos apetites, aos impulsos e ao querer, que podem atrapalhar a alma e puxá-la para longe da razão. No homem temperante, entretanto, essa parte obedece a terceira, submetendo-se completamente ao exercício da razão, proporcionando ao homem a possibilidade da atividade da alma que diz respeito à virtude: a atividade racional.

Encontramos a atividade da alma! Esta atividade consiste em uma atividade racional, reflexiva, porém sem ser um intelectualismo teórico. Pelo contrário, trata-se do que a filosofia moderna chamará de razão prática: a atividade intelectual que nos possibilita refletir e ponderar acerca de como agir.

Agora que já sabemos o que é a atividade da alma, precisamos entender o que é virtude. Para começar, a virtude, assim como a alma, também terá uma divisão: a virtude intelectual e a virtude moral. A que nos interessa aqui é a virtude moral. A natureza da virtude moral é fundamentalmente diferente da intelectual. Apesar de não importar para nós o que é a virtude intelectual neste momento, Aristóteles apresenta sua natureza como adquirida e aumentada em grande parte através do ensino. A virtude moral, por sua vez, resulta do hábito, da atividade. Ele dirá que a virtude moral resulta de praticar frequentemente atos virtuosos. Torna-se justo aquele que pratica ações justas; temperante aquele que pratica ações temperantes. Portanto, um indivíduo torna-se virtuoso por praticar ações virtuosas.

Hábito. O hábito de agir virtuosamente é fundamental para que o indivíduo seja virtuoso. É o hábito que indicará as disposições de agir virtuosamente. Já que a virtude não se adquire através do ensino, muito menos estaria em nós previamente em potência, ela é adquirida através do hábito. Ora, das coisas que existem em nós previamente por natureza, não podemos mudá-las com o hábito. Por exemplo, a natureza da pedra é ser pesada e, segundo Aristóteles, tender para baixo quando arremessada. Podemos mudar sua natureza com o hábito? É claro que não. Podemos lançar uma pedra um milhão de vezes, ela não se habituará a “cair para cima”.

Ser virtuoso, então, significa praticar ações que criem o hábito de praticarmos essas próprias ações. Em outras palavras, um indivíduo que faz uma ação virtuosa não é virtuoso, mas aquele que a faz sempre. E por que ele faz sempre? Porque ele já adquiriu, através do hábito, a disposição para agir virtuosamente. Isso permite Aristóteles definir a virtude moral como a disposição para fazer aquilo que lhe cabe fazer bem. No caso do homem, o que lhe cabe fazer bem? Aristóteles diz que é agir moderadamente, de acordo com uma deliberação racional. Portanto a virtude é a disposição de escolher por deliberação um meio para agir de acordo com certa mediedade, tendo em vista o meio termo para nós.

A virtude moral, então, diz respeito à mediedade. Esta não pode ser entendida como absoluta, já que ela diz respeito ao meio termo para nós. Para um atleta, por exemplo, a mediedade no treino será muito maior do que a mediedade para aqueles que não são atletas. Por conseguinte, o atleta treina bem quando desenvolve a disposição para não treinar nem em excesso, nem treinar pouco. Mas, se um indivíduo comum resolver treinar como um atleta, ele treinará em excesso no que diz respeito a ele mesmo, ao indivíduo comum. Ele não estará agindo virtuosamente, já que não está agindo na justa medida para si, mas no meio termo para o atleta.

Chegamos ao ponto que buscávamos! Felicidade é a atividade da alma, na virtude, em uma vida completa. Traduzindo: felicidade é a atividade racional, que escolhe reflexivamente ações que desenvolvem a disposição de agir na mediedade, no meio termo, em uma vida completa, já que estará disposto a sempre agir assim. Parece que está mais claro! Mas ainda temos um problema. Que tipo de escolha é essa?

A distinção fundamental para entender a escolha deliberada é feita entre o querer e o escolher. O querer pode referir-se a coisas impossíveis, como, por exemplo, querer ser imortal, ou a coisas que estão fora do alcance do agente, i.e., querer que um atleta vença determinada competição. A escolha deliberada, na verdade, diz respeito ao que é possível atingir e ao que está ao alcance do agente. Assim, o querer diz respeito aos fins e a escolha deliberada aos meios pelos quais é possível atingir esse fim.

Não se delibera sobre o que é eterno, sobre os astros, sobre os corpos celestes, sobre o que diz respeito a outros povos, sobre coisas que estão fora do nosso alcance e de nosso poder. Escolhemos as coisas que estão em nosso poder, sobre as coisas que podemos fazer; sobre aquilo que ocorre não por deuses ou por qualquer causa que esteja fora de nós mesmos, mas sobre o que ocorre por nós mesmos. Deliberamos no escuro, escolhemos como agir sem saber no que as ações vão acarretar. Isso significa deliberar: escolher, voluntariamente, como agir, sem saber os resultados das ações, sobre o que está ao nosso alcance praticar.

Deliberar, para Aristóteles, significa escolher os meios possíveis e necessários para atingir os fins alcançáveis por nós mesmos. Deste modo, deliberar nunca será investigar sobre como atingir os fins impossíveis, ou sobre meios através dos quais o princípio da ação não esteja em nós mesmos, em algo externo cujo controle não depende somente de nós. Portanto, deliberar significa escolher os meios necessários e possíveis para atingir os fins desejados e realizáveis. Isso permite Aristóteles concluir que o homem é o princípio e causa última da ação. As ações e as escolhas morais, portanto, não dizem respeito aos deuses, às forças sobrenaturais, ou a qualquer fim impossível de se alcançar. Tendo o homem por princípio, as ações são levadas a efeito por meio de deliberações, que são escolhas voluntárias a partir da investigação dos meios necessários para se atingir os fins desejados.

Portanto, um indivíduo pode tornar-se feliz quando, através de uma atividade racional, reflete sobre escolhas que possam o levar a agir de modo a desenvolver a disposição de não fazer as coisas em excesso, muito menos em falta, mas na justa medida. Parece fácil! Na verdade, Aristóteles não desenvolveu uma fórmula. É sempre você que terá de encontrar a fórmula. Por isso disse que somente parece ser fácil.

Aristóteles afirma que “é árduo ser bom, pois é árduo determinar o meio termo em cada situação”. Não é fácil deliberar o meio termo em cada situação. A cada momento, em cada situação, devemos deliberar de modo a atingir a virtude, isto é, a disposição de escolher a mediedade entre dois extremos, entre o excesso e a falta, para agirmos virtuosamente e bem. Para tal, teremos que calcular e descobrir o que cada situação exige, missão árdua e difícil. Um dos extremos levará mais ao erro do que ao acerto, por isso devemos ficar atentos ao que somos mais propensos a errar e nos afastar dele. Por isso, ora teremos que tender mais para um lado, por exemplo a um excesso, ora teremos que tender para o outro, uma falta, para desenvolvermos, através do hábito de determinar o meio termo em cada situação, a disposição de agir virtuosamente. Por exemplo, uma pessoa que está propensa a comer demasiadamente, precisará voltar-se para o outro extremo, para a falta, para conseguir habituar-se a comer moderadamente. Por isso nunca é fácil atingir com exatidão a mediedade e agir virtuosamente. Cada situação exigirá um exame, uma ponderação, uma atividade racional, atividade reflexiva, para encontrar a mediedade.

Para ser feliz, então, precisamos dar um passo atrás ante cada ação, cada situação, e refletirmos sobre os melhores meios de atingir os fins desejados. No escuro, precisamos escolher a justa medida de cada ação, sentirmos a moderação de cada emoção, para não cometermos excessos ou não estarmos em falta quanto ao que nos faz humanos. Não vamos saber se agimos bem ou se estamos sendo suficientemente prudentes antes dos resultados das nossas ações. Podemos supor, através da reflexão, se um pouco mais de falta, ou um pouco mais de excesso, levar-nos-á em direção a mediedade buscada. Mas essa suposição nunca será exata, já que não se trata de uma ciência, mas de uma dimensão constitutiva da existência humana.

Está nas nossas mãos, portanto, a possibilidade de realizarmo-nos no mais alto grau, de criarmos as disposições necessárias para tornarmo-nos virtuosos, escolhendo sempre os melhores meios para atingirmos a tão desejada felicidade, sempre de acordo com a verdade e com o bem. Essa é a maneira aristotélica de bem viver, racionalmente, livremente, na cidade, com outros indivíduos, cujos desejos também remetem à mesma felicidade, a única e mais bela felicidade, não pelo prazer em excesso, mas pela parte mais nobre da nossa alma que nos faz verdadeiramente humanos: a razão.

Deve ser por isso que meu mestre ama tanto Aristóteles: porque ele é talvez o maior gênio da história da filosofia.

 

Indicações de leitura:

ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. Tradução do grego, introdução e notas de Mário da Gama Kury. Brasília: Editora da UnB, 1985.

_____. Ética a Nicómaco. Edición bilingüe y traducción de María Araujo y Julián Marías. España: Centro de Estudios Constitucionales, 1994.

_____. Ethica Nicomachea I 13 – III 8: Tratado da Virtude Moral. Tradução, notas e comentários de Marco Zingano. São Paulo: Odysseus Editora, 2008.

GUTIERREZ, J. L. R. A felicidade, a vida e a amizade. Revista Pandora Brasil. São Paulo, n. 29, abr. 2011.

Anúncios

Um comentário sobre “Virtude moral em Aristóteles: o segredo para a felicidade

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s