Eudaimonia: a felicidade em Aristóteles

Ser feliz parece ser um estado buscado universalmente por todos os homens. Uns dirão que a glória traz felicidade; outros, talvez menos poéticos, dirão que é o dinheiro. Há quem diga que dinheiro não traz felicidade. Será que o dinheiro não pode comprar coisas que façam as pessoas felizes? Mas e no caso de pessoas que desejam algo que o dinheiro não pode comprar, como a presença de um ente querido que já morreu? Ou saúde, para uma enfermidade que a medicina não pode curar? Ou talvez no caso dos que desejam beleza, ou ainda talvez desejam alguma habilidade especial para a qual o treino não é suficiente? A lista é definitivamente enorme. Contudo, por detrás de toda essa gama de possibilidades, parece haver um conceito universal: a felicidade.

Os gregos, no mundo ocidental, foram os primeiros a refletir sobre a felicidade. Uma das palavras utilizadas por eles era eudaimonia (εὐδαιμονία). Como característica de uma sociedade profundamente religiosa, a felicidade, ou eudaimonia, originalmente se relacionava à vontade dos deuses. A palavra em questão é resultado de uma construção entre duas outras palavras: eu (εὖ) e daimon (δαίμων). A primeira é a mais simples: significa “bem”. A segunda, por sua vez, é um pouco mais complicada.

Em grego antigo, daimon é uma espécie de divindade. Todos conhecemos os deuses olímpicos, como Zeus, Hera, Apólo e assim por diante. Estes, na mitologia grega, são descendentes diretos dos deuses originários e, portanto, fazem parte de um grupo seleto das maiores divindades existentes. Por outro lado, o mundo grego daquele período também acreditava na existência de divindades inferiores aos deuses olímpicos, aquelas cuja existência se dá em um grau entre os deuses, os imortais (ἀθάνατοι), e os homens, os mortais (θάνατοι). Acreditava-se que esses deuses intermediários, parte do imaginário e da cultura deste período, interferiam diretamente na vida dos gregos. Podemos inclusive notar, em alguns diálogos platônicos, passagens em que Sócrates se remete a seu daimon, atribuindo-lhe influência sobre si mesmo.

Uma outra variação deste termo é a palavra daimonao, um verbo que significa “estar sob o poder de um daimon”. A junção de εὖ e δαίμων construiu a palavra εὐδαίμων, que literalmente em um sentido originário significava “estar sob o poder de um bom daimon”. Esse significado remete para o sentido que a palavra adquiriu posteriormente: afortunado, feliz. Isso possibilitou a cunhagem do termo eudaimonia. Em grego antigo, o emprego do sufixo -ια confere aos adjetivos uma forma substantivada, ou seja, os adjetivos podem ser usados como substantivos, passando a ter a ideia de estado, situação ou quantidade. O mesmo acontece na língua portuguesa, quando acrescemos a adjetivos o sufixo “–dade”. Portanto, εὐδαίμων [radical εὐδαιμον-] (feliz) + -ια (-dade) = εὐδαιμονία: felicidade.

No imaginário desse povo, a influência dos deuses poderia retirar, a qualquer instante, a sua felicidade. Uma praga, uma guerra, uma catástrofe natural: todos significavam a ira e o descontentamento dos deuses para com os mortais. Nos séculos em que se deu o surgimento da filosofia, algumas reflexões, ainda fortemente marcadas pela influência religiosa dessa cultura, desenvolveram alguns estados para além do eudaimon. Makárioi, ou bem-aventurados, eram aqueles que não poderiam ter sua felicidade removida pelos deuses.

Aristóteles, filho de um período mais tardio, em que o surgimento da polis e da filosofia, de certo modo, possibilitou um discurso explicativo de mundo pautado na razão, também desenvolveu sua reflexão sobre a felicidade. Esta, não mais fundamentava-se na relação direta com os deuses, mas na racionalidade. Para Aristóteles, a felicidade ainda é algo divino, mas sua causa não é mais divina: ela é resultado de uma certa atividade. Em sua Ethica Nicomachea, o discípulo mais brilhante de Platão desenvolve, no primeiro livro — o “Livro I” —, uma reflexão acerca da felicidade, para fundamentar a sua investigação teórica sobre a dimensão prática da vida humana.

Ele inicia o seu texto com a ideia de que o bem é a finalidade de todas as coisas. Isso significa que tudo o que fazemos tem o bem por finalidade. A medicina? Visa o bem dos corpos. A equitação? Visa o bem dos cavalos. E os instrumentos? A cadeira? Para sentarmos bem. Os óculos? Para vermos bem. As vestimentas? Para nos protegermos bem. Entretanto, neste texto Aristóteles não está preocupado nem com as artes, nem com os instrumentos. Sua preocupação está nas ações humanas.

Segundo Aristóteles, as nossas ações também têm por finalidade o bem. Qual é esse bem? Aristóteles identifica o bem humano com a felicidade. Ora, cada tipo de homem enxergará a felicidade de um jeito! Os mais vulgares vão enxergar a felicidade somente nos prazeres; os mais refinados vão enxergá-la sobretudo nas honras! Outros ainda vão associá-la à virtude, já que são geralmente os homens considerados virtuosos que concedem as honras às pessoas. Aristóteles dirá que identificá-la com a virtude é uma meia verdade: trata-se de uma identificação incompleta, na medida em que “pode acontecer que seja virtuoso quem está dormindo, quem leva uma vida inteira de inatividade, e, mais ainda, é ela compatível com os maiores sofrimentos e infortúnios” (1095e30-1096a). Percebe-se, então, que se trata de uma atividade.

Para sair desse campo particular e definir a felicidade universalmente, Aristóteles aponta para o fato de normalmente considerarmos uma coisa boa quando ela é bem-feita. Então, teríamos que encontrar a função do homem, para descobrir qual é o bem humano e, por conseguinte, identificá-lo com a felicidade. Eis então que Aristóteles começa a esclarecer a função do homem: não diz respeito à nutrição e crescimento, já que estes são comuns até mesmo às plantas; não diz respeito à percepção, já que os animais também a possuem. Trata-se, portanto, necessariamente do que diz respeito à alma, ou seja, ao elemento racional, que nos distingue de todos os outros seres. Essa é a função do homem, a saber, utilizar a razão, ou, nos termos deste filósofo, uma atividade da alma, mais especificamente de sua parte mais nobre. Se o “bem feito” é executar bem a função que lhe cabe, então o bem humano será executar a atividade da alma de maneira boa e nobre, ou seja, é uma “atividade da alma em consonância com a virtude, e, se há mais de uma virtude, com a melhor e mais completa” (1098a5-20), mas, segundo Aristóteles, “numa vida completa” (1098a18).

Mas não basta apenas definir a felicidade através de um raciocínio lógico sem verificá-lo na realidade. Como um bom observador, Aristóteles acreditava que a verificação da verdade dos conceitos na realidade era o único modo de concebermos um argumento como verdadeiro. Ele então passa a analisar a opinião vigente entre os outros filósofos, para verificar se sua definição está de acordo com a realidade. Uns apontam para ela como um bem da alma, como o bem viver e bem agir, outros ligam-na à virtude em geral ou a uma virtude específica, acompanhadas ou não de prazer. Aristóteles percebe que, de certo modo, os outros filósofos não estavam completamente errados, e começa a solidificar a sua definição anterior, através dessa verificação.

A felicidade, que é divina, deve ser a coisa mais aprazível do mundo! Deve pertencer às mais excelentes atividades! Mas, apesar de ser possibilitada pela razão em consonância com a virtude, ela parece necessitar de bens exteriores. Em outras palavras, parece que nascer em uma boa família, ser rico, ser belo, ter bons filhos, já é um bom caminho para a felicidade, não é mesmo? Aristóteles também achava o mesmo, “o homem de muita feia aparência, ou mal-nascido, ou solitário e sem filhos, não tem muitas probabilidades de ser feliz” (1098b3-5). Ele pôde, então, após sua verificação na realidade, afirmar que a felicidade é uma dádiva. Apesar de divina, não é conferida pelos deuses, muito menos adquirida por acaso, dado que será adquirida através da atividade virtuosa da razão, segundo a virtude perfeita, em uma vida completa, com o auxílio de elementos exteriores, como a beleza e a riqueza.

Ainda há um probleminha: será que em uma vida completa significa que só poderemos saber se somos felizes no fim? Será que seremos felizes só depois da morte? Há algo de errado aqui. Na vida parece que muitas vezes passamos da felicidade para a infelicidade. Como será que Aristóteles resolveu esse problema em sua definição?

Apesar de aparentemente definir “em uma vida completa” implicar a possibilidade da felicidade variar no percurso, sendo o homem considerado feliz e infeliz, “como um camaleão” (1100b1), esse não é o caso. Aristóteles defende que, dado que a felicidade é uma atividade virtuosa, ser feliz depende exclusivamente das atividades virtuosas, não da sorte ou de infortúnios. Na medida em que as atividades virtuosas são as mais duráveis no que diz respeito à felicidade, os pequenos infortúnios não serão suficientes para fazer um indivíduo infeliz, já que, perto da atividade virtuosa, esses infortúnios “não pesam muito na balança” (1100b25). Quanto aos grandes infortúnios, mesmo que potencialmente eles tornem o homem infeliz, há um detalhe que faz toda a diferença:

“[o] homem feliz, o será durante a vida inteira; porque sempre, ou de preferência a qualquer outra coisa, estará empenhado na ação ou na contemplação virtuosa, e suportará as vicissitudes da vida com a maior nobreza e decoro, se é “verdadeiramente bom” e “honesto acima de toda censura” (1100b17-22)

Em outras palavras, “em uma vida completa” não significa que só podemos saber se um homem é feliz depois que ele viver a vida toda, na hora da morte. Pelo contrário, é na vida que o homem feliz será feliz, e durante uma vida inteira, porque sempre, ou de preferência a qualquer outra coisa, estará agindo virtuosamente. Os infortúnios e os acidentes danosos não podem afetar a felicidade do homem feliz, dado que tal nobreza e grandeza da alma, por agir virtuosamente constantemente, resistirá a esses infortúnios e acidentes. Por sua característica de sempre buscar agir virtuosamente, mesmo que ele perca a felicidade, em tempo ele a recuperará, para durar mais tempo e ser mais forte. Ele não é mutável, já que sempre busca agir do mesmo jeito, a saber, virtuosamente. O homem feliz é, portanto, aquele que realiza atividades virtuosas e que está, por isso, destinado a sempre realizá-las. Em termos aristotélicos, a felicidade é ato.

Podemos ser felizes durante a vida, através da vida racional, com prudência, aquela em que refletimos antes de agir, escolhendo os melhores meios, aqueles que não são nem excessos, nem faltas, mas exatamente a justa medida. Esses e outros conceitos que fundamentam a sua ética estão presentes ao longo desta magnífica obra, além de comporem outras obras como a Magna Moralia ou a Ethica Eudemia, e também compõem parte da “Política”.

De qualquer modo, este primeiro capítulo marca a fundamentação da felicidade como pilar para a vida humana, cuja realização se dá somente pela razão, não mais dependendo da vontade dos deuses; vida em conjunto com outros indivíduos, na cidade, através de meios que sejam escolhidos com prudência. Esses meios precisam estar de acordo com o bem e com a verdade, para atingirmos o fim último de nossas vidas: a felicidade, a eudaimonia.

 

Indicações de leitura:

ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. Tradução do grego, introdução e notas de Mário da Gama Kury. Brasília: Editora da UnB, 1985.

_____. Ética a Nicómaco. Edición bilingüe y traducción de María Araujo y Julián Marías. España: Centro de Estudios Constitucionales, 1994.

_____. Ethica Nicomachea I 13 – III 8: Tratado da Virtude Moral. Tradução, notas e comentários de Marco Zingano. São Paulo: Odysseus Editora, 2008.

VERNANT, J-P. As origens do pensamento grego. Tradução de Ísis Borges B. da Fonseca. 20. ed. Rio de Janeiro: Difel, 2011.

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