Fotografia: diálogo entre o belo de Hegel e o sublime de Kant?

Não tenho o menor problema em confessar que, até ontem, não havia olhado para a fotografia enquanto uma possibilidade de manifestação artística e de experiência estética. Talvez pelo fato de estar inserido em um mundo no qual as fotografias, parte constitutiva do fazer humano contemporâneo, estão tão próximas de nós que não temos o distanciamento oportuno para o estranhamento necessário a qualquer reflexão filosófica.

Foi somente ontem, então, ao entrar em contato com o trabalho profissional de uma fotógrafa talentosíssima*, que tive o espanto e o maravilhamento frente às fotografias que desencadearam toda uma reflexão sobre o belo, sobre a possibilidade da fotografia enquanto manifestação artística e experiência estética, assim como sobre um possível diálogo, em dois pontos inconciliáveis, das estéticas de Kant e de Hegel.

Já aviso de antemão que apenas esbarrarei levemente em Kant e em Hegel, pelo bem da clareza e inteligibilidade dessa reflexão. Falar sobre os dois é uma atividade inesgotável; portanto para este artigo, cabe somente um ponto pequeno e específico da reflexão sobre o belo nesses dois filósofos. Vamos tentar entender em que ponto essas duas estéticas são inconciliáveis para podermos refletir sobre a fotografia enquanto possibilidade de, ao mesmo tempo, desvelar o belo e postar-nos frente ao sublime.

Tanto a estética de Kant quanto a estética de Hegel fundamentam uma reflexão sistemática, sólida e estruturada sobre o belo e proporcionam uma autonomia à dimensão estética, a qual foi herdada pela modernidade e fundamentou todo o pensamento moderno e contemporâneo sobre a arte. Se a estética hoje pode pensar o que a arte representa no presente, ou o que representou desde o seu surgimento ao longo da história, apontando para suas relações com a cultura, é porque Kant pela primeira vez na história do pensamento atribuiu liberdade à experiência estética e autonomia à reflexão sobre o belo. Hegel, não menos importante, fundamentou o que entendemos por história da arte e deixou para nós as chaves e os caminhos para refletir sobre o papel da arte e sua ligação com a história da cultura ao longo do tempo.

Apesar disso, as reflexões de Kant e de Hegel sobre o belo parecem inconciliáveis em um aspecto central e necessário de suas estéticas. Enquanto aquele favorece o belo e a experiência estética no âmbito natural, livre de nenhum conceito — a própria natureza e sua liberdade não determinada pela razão —, este favorece o belo e a experiência estética no âmbito racional, na medida em que somente o trabalho da razão na criação da obra de arte — mesmo que utilize a natureza como ponto de partida ou matéria, mas jamais a imediatizando por uma imitação — pode proporcionar a realização concreta do belo e a experiência estética por meio desta obra de arte.

Hegel constatou que, após a arte cumprir seu papel metafísico no desenvolvimento do Espírito durante a história, ela alcança a plena liberdade do exercício da razão. Ele pôde brilhantemente apontar para a possibilidade de — centenas de anos mais tarde —, a arte tornar-se a abstração extrema, porém legítima, que é a arte contemporânea, na medida em que, para ele, o conteúdo é o que importa, e não a representação pela qual ele é concretizado e realizado. “É assim que todo assunto e toda forma” diz Hegel em sua Estética, “estão hoje à disposição do artista que soube, graças a seu talento e a seu gênio, libertar-se da fixação de uma forma de arte determinada à qual ele fora condenado até então”.

Isso significa que, para Hegel, quando pensamos em arte, devemos levar em consideração a ideia, ou seja, o conteúdo expresso pela obra, e não nos determos na forma pela qual ela é expressa. Deste modo, abre-se margem para qualquer manifestação racional da sensibilidade humana, enquanto intencionada para tal, tornar-se obra de arte. No século XIX Hegel já vislumbrara que “o apego a um conteúdo particular e a um modo de expressão em relação a esse conteúdo tornou-se para o artista moderno uma coisa do passado, e a própria arte tornou-se um instrumento livre que pode aplicar, na medida de seus dons técnicos, a qualquer conteúdo seja de que natureza for”.

Somados a essa guinada que Hegel possibilita às manifestações artísticas, os limites da tecnologia expandiram ainda mais os limites da arte. Enquanto no século XIX o artista possuía certos recursos e meios de efetivar o belo através de uma determinada forma de arte disponível até então, hoje, no século XXI, multiplicamos absurdamente a gama de recursos e meios para levar a efeito a arte que o próprio Hegel previra a possibilidade.

A fotografia, deste modo, encaixa-se também entre a infinidade de possibilidades de formas artísticas para, através da razão, estabelecermos um elo entre o conteúdo e a forma, neste caso, por meio das próprias fotografias. Quando falo em fotografia, não falo simplesmente da captura e reprodução imediatizada e estática da natureza, na medida em que isto iria contra a definição de arte hegeliana. Falo no trabalho profissional, racional e técnico do fotógrafo que, como um artista, utiliza-se de inúmeros recursos para, através de uma manipulação consciente dos aspectos de cores, iluminação e efeitos visuais, dissolver qualquer material natural no processo racional de conceber essa forma de arte que traz em seu bojo todo uma enorme possibilidade de conteúdos da beleza artística. O final do processo, a fotografia, como Hegel enunciava para a pintura no século XIX, parece-se menos com a natureza da qual pudera abstrair seu material e mais com o artista, o qual mergulhou conscientemente e racionalmente na fotografia para transformar tanto a paisagem quanto a si mesmo no processo, culminando em um resultado que não é nem natureza e nem fotógrafo: é obra de arte.

Voltando bruscamente a Kant, para estabelecer o elo com o sublime e possibilitar a nossa reflexão, precisamos definir de maneira geral e abrangente o que ele concebeu como tal. Grosso modo, Kant pontua, na Crítica da Faculdade do Juízo, que “a natureza é, portanto, sublime em seus fenômenos cuja intuição implica a Ideia de sua infinitude”. Portanto, se o belo, por um lado, encontra-se na natureza, e salvo nas mãos de pouquíssimos gênios que conseguem transmiti-lo por meio da arte, de forma livre de nenhum interesse, o sublime, por outro lado, estará na elevação da grandiosidade e incomensurabilidade do belo na natureza e do contraste que temos da nossa pequenez frente a essa grandiosidade.

Se, por exemplo, os lírios são belos, os prados são belos, a grandiosidade e o temor causados pela magnitude de um trovão ou de uma avalanche no pico de uma montanha são sublimes. “Seu espetáculo torna-se ainda mais atraente quando é assustador, com a única condição de estarmos em segurança; e facilmente damos o nome de sublimes a esses fenômenos, pois eles elevam as forças da alma além de seu nível habitual e nos fazem descobrir em nós a faculdade de resistência de uma espécie totalmente diferente que nos dá a coragem de nos compararmos com a onipotência da natureza”.

Deste modo, não se trata apenas de apontar para a natureza, mas para a experiência frente à natureza. Trata-se da experiência estética, tanto do belo quanto do sublime, que pressupõe o sujeito. “No mesmo espírito, o sublime comove, o belo encanta”.

A reflexão que fica é a seguinte: será que haveria, através da fotografia, uma possível união dos dois? Até que ponto podemos considerar uma fotografia — enfatizo para a fotografia como concebi acima, não qualquer mera reprodução imediata da natureza — a replicação da natureza nela mesma? Será que o trabalho racional e consciente do fotógrafo sobre ela deixaria a natureza permanente?

De um lado, Kant aponta para a experiência estética frente ao belo livre e sem conceitos, sobretudo como se encontra na natureza. Hegel, de outro, aponta para o trabalho racional através do qual nada resiste, necessariamente deixando de ser o que é, portanto deixando de ser natureza, para tornar-se arte, realização concreta do conceito de belo. Mas o que dizer do caso de um gênio? No caso de um fotógrafo que conscientemente, através de um processo racional, transforma o belo natural e sublime capturados, mas ainda assim mantém sua infinitude e grandiosidade?

Ora, não parece provável que qualquer um possa criar uma obra de arte como são as fotografias profissionais. Na mesma medida em que a arte da gastronomia possui centenas de cortes e ferramentas que possibilitam um trabalho consciente e preciso ao lidar com os alimentos, impossibilitando qualquer um de inconscientemente reproduzi-lo, a fotografia, do mesmo modo, pressupõe uma técnica e um domínio conscientes dos meios, como enfatiza Hegel, para, através de sua liberdade, estabelecer as relações entre os possíveis conteúdos às formas artísticas. Com efeito, não se trata, nesse caso, de uma mera replicação, mas da construção de todo um universo racional e distinto do natural, mantendo a grandiosidade sublime, através dos quais podemos ter uma experiência estética.

Não é difícil atestar, nas fotografias mais bem trabalhadas e concebidas a partir da grandiosidade da natureza, o contraste da infinitude e do temor que a mesma causa em nosso espírito. Kant, assim como Hegel, não poderia ter previsto o que a tecnologia traria a nós. Entretanto, a abertura para essas reflexões e pensamentos acerca do belo e do sublime, a partir da tecnologia que temos hoje, e das formas de arte que surgem dela, como a fotografia, faz-se necessário para situarmos a própria arte na contemporaneidade.

De qualquer forma, parece que a reflexão sobre esse possível diálogo permanece aberta. Por outro lado, a beleza e a manifestação artística, por detrás da fotografia enquanto arte, permanece inegável. Muitas vezes a experiência do belo nessas condições é tão latente que basta apenas contemplar e se perder no fluxo das sensações que a fotografia, enquanto essa manifestação tão legítima, a partir de sua ligação com Kant e Hegel, pode nos possibilitar.

 

Indicações de leitura:

JIMENEZ, Marc. O que é estética? Trad. Fulvia M. L. Moretto. São Leopoldo, RS: Ed. UNISINOS, 1999.

HEGEL, G. W. F. Curso de estética: o belo na arte. Trad. Orlando Vitorino e Álvaro Ribeiro. 2. ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009.

HEGEL, G. W. F. Curso de estética: o sistema das artes. Trad. Álvaro Ribeiro. 2. ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010.

KANT, I. Crítica da Faculdade do Juízo. Trad. Valério Rohden e António Marques. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012.

* Os créditos para a inspiração do presente artigo e para a imagem estão na nossa página no Facebook.

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