A felicidade política: a corrupção e você

No artigo que escrevi sobre o problema da corrupção e da necessidade de estabelecermos um liame mais efetivo e concreto entre política e moral — A corrupção e você —, defendi o argumento de que uma das causas da corrupção na dimensão política está no próprio indivíduo, no agente moral, naquele que em seu dia-a-dia delibera e decide como agir, nas dimensões mais particulares e comezinhas da vida, como, por exemplo, achar uma carteira e não devolvê-la ao dono, ou não respeitar a sinalização de trânsito quando ninguém está olhando.

Ao fundamentar esse argumento, apresentei a ideia de que há uma associação necessária entre as partes e o todo, definindo o agente moral como uma parte do todo social e político em que ele está inserido. Isso significa que tanto o “político”, muitas vezes tomado como uma entidade metafísica que não existe em lugar nenhum, quanto o famoso “povo”, são, na verdade, o próprio agente moral numa dimensão coletiva. Deste modo, há uma inversão nas esferas do público pelas esferas do privado nas nossas instituições estatais, isto é, aquelas ações que o indivíduo faz no campo moral, as quais ele denomina como inofensivas, como sonegar seu imposto de renda no final do ano, são levadas para a esfera do público, para a dimensão estatal pelos administradores públicos, os quais agem na esfera pública como se estivessem agindo na esfera privada.

Como consequência desse argumento, defendi a ideia de que cabe a nós, a cada indivíduo, aos agentes morais, desenvolvermos a consciência de que o problema, na verdade, não está somente no “campo político” — se é que podemos chamá-lo assim —, afastado da dimensão moral, afastado das nossas vidas particulares. Para resolver o problema do todo, dizia eu, precisamos resolver, primeiro, o problema das partes; ou, pelo menos, resolver o problema do todo tendo em vista as partes, e vice-versa.

Não estou tentando reduzir um problema pertencente a uma mentalidade inserida em um processo de longa duração que se arrasta desde a Colônia, a fim de tentar excluir todo o nosso contexto histórico. Muito menos estabelecendo um reducionismo dos aspectos econômicos, sociais, culturais — e até mesmo religiosos —, que sustentam essa mentalidade. Estou apenas apontando para a importância da conscientização de que fazemos parte de uma sociedade, na qual parece não haver uma cisão clara e concreta entre a dimensão política e a dimensão moral, para podermos lidar com o problema da corrupção em seus fundamentos. Em outras palavras, aponto para a necessidade de levarmos em consideração as causas de nosso problema político. Para entendermos melhor o que isso significa e termos uma possibilidade mais clara de tornarmo-nos conscientes dessa necessidade, vamos entender primeiro o que chamo de política e o que chamo de moral.

Nós, enquanto brasileiros e inseridos na cultura ocidental, somos herdeiros da estrutura de pensamento grega antiga. Vivemos em sociedade, embora os níveis de convivência social possam variar de cidade para cidade, do interior para os centros urbanos. Todos vivemos em sociedade na medida em que nos agrupamos coletivamente, dividindo o mesmo idioma, os mesmos costumes, e assim por diante.

Aristóteles, um dos maiores pensadores do mundo grego antigo, desenvolveu em sua Política e em sua Ética um pensamento que fazia parte da lógica de seu próprio tempo: a vida humana é comunitária; somos indivíduos que vivemos em grupo. É claro que ele vai mais além, apontando para uma natureza humana gregária, a qual postula a ideia de que, necessariamente, independentemente do local ou dos processos históricos, desenvolveríamos, enquanto humanos, uma vida estabelecendo sociedades e cidades.

Além disso, nessas mesmas obras, ele aponta para um fato muito importante, também herdeiro do modo de pensar de seu próprio povo. Ele diz que apesar de alguns desejarem honras e riquezas, outros podem aspirar por coisas totalmente distintas, como saúde e tranquilidade. Entretanto, por mais que os desejos e o sentido da vida possam variar entre as pessoas, parece que o fim último de todas as ações de um indivíduo é a sua felicidade. Pelo fato de a sociedade ser um conjunto de indivíduos, o fim último das ações políticas deveria ser a felicidade do coletivo, sendo esta mais importante do que a individual.

E qual é a importância disso para entendermos o que é política e o que é moral? Bem, apesar de Aristóteles não fazer essa distinção que farei adiante, podemos tentar estabelecê-la de um modo bem simples.

De um lado, moral é deliberar e agir no âmbito individual, ou seja, são as escolhas e as ações que você faz, em detrimento dessas escolhas, que dizem respeito a você mesmo. Trata-se de fazer algo sem ter em mente uma recompensa pela ação, ou reconhecimento. É agir por dever. São as ações feitas quando ninguém está olhando. Isso significa que as ações morais dizem respeito à nossa consciência moral, ou seja, agir de modo a fazer determinadas coisas que permitirão você deitar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilamente.

Política, de outro, é deliberar e agir no âmbito do coletivo. Assim como a moral, através da qual fazemos escolhas para agir bem de acordo com a nossa consciência, na política fazemos escolhas para agir bem de acordo com o grupo, isto é, não é mais o que é bom somente para mim, mas o que é bom também para todos. Pelo menos deveria ser assim, não é mesmo? Para que pudéssemos viver bem em sociedade.

Desde o berço da nossa sociedade, no mundo grego antigo, desde Aristóteles e sua Política e sua Ética, cidadania é participar da sociedade. Enquanto inseridos na sociedade, todas as nossas ações são políticas, uma vez que, se nos tornamos cidadãos e participamos da sociedade para melhorá-la, somos políticos ativamente; por outro lado, se não fazemos nada, se não participamos da deliberação da sociedade e não agimos para melhorá-la, mas ainda assim vivemos nela e estabelecemos relações interpessoais com outras pessoas, somos políticos passivamente. De qualquer modo, portanto, seja passiva ou ativamente, na medida em que estamos inseridos em uma sociedade, independentemente da situação, somos todos políticos.

Somos políticos quando avançamos o farol vermelho. Somos políticos quando paramos em cima da faixa de pedestres. Somos políticos quando, no transporte público, usamos o banco reservado para idosos, gestantes, portadores de deficiência, pessoas com crianças de colo e pessoas sofrendo de obesidade, sem estarmos inseridos em nenhum desses grupos. Somos políticos quando avançamos à frente da faixa amarela na plataforma do metrô, deixando para trás pessoas que estavam aguardando o trem chegar a muito mais tempo do que nós.

E qual é a semelhança entre todos esses atos citados acima? Eles são atos de corrupção. Eles são atos de corrupção porque eles contribuem para a deteriorização da dimensão coletiva da vida em sociedade. Eles são atos de corrupção porque constituem ações políticas que vão na contramão do que defini como política nos parágrafos acima. Em suma, esses atos são de corrupção porque — conscientemente ou não — são atos de antipolítica. E apesar de parecerem atos de corrupção na dimensão da moral, apesar de parecerem estar circunscritos ao âmbito do indivíduo, já que ele faz isso sozinho e sem a ajuda de outros indivíduos, eles são atos de corrupção política. Será que dá para estabelecermos uma cisão e uma divisão entre o agir moral e agir político? Será, então, que a corrupção na política não é, fundamentalmente, a corrupção na moral?

É evidente que a solução para o nosso problema contemporâneo não é desenvolvermos um ideal similar ao do grego antigo, no qual política e moral eram a mesma coisa, ou em que cidadania era estar ativamente participando das discussões políticas na cidade. Tratava-se de um outro contexto histórico, em que transformações inseridas em um processo de longa duração, desde a Invasão Dórica até o surgimento das poleis, proporcionaram o desenvolvimento de uma mentalidade coletiva e comunitária. Nossa mentalidade, 25 séculos depois desse período, não é mais coletiva e comunitária; pelo contrário, a modernidade trouxe em seu bojo o individualismo como paradigma mental para o Ocidente. Além disso, desde o dever, esse panorama se transformou completamente. Não faz sentido tentar buscar esse tipo de ideal sendo parte de um mundo pós-renascimento, pós-subjetividade, pós-individualismo, pós fetichismo e coisificação da lógica capitalista.

Buscar um ideal grego é inviável sobretudo por conta do mundo digital, do modo pelo qual a internet faz parte de nossas vidas hoje. Ninguém pode negar a importância e o avanço em todas as esferas do desenvolvimento humano que a internet trouxe e continua trazendo a nós: a eliminação de fronteiras, a “publicidade e democratização” da informação, a aproximação entre culturas e modos distintos de vida, e etc.

Entretanto, em nome desse lado positivo, também temos que, de um lado, abrir mão de coisas valiosíssimas, como as relações interpessoais concretas e a atividade no dia-a-dia das cidades, e de outro, aceitar o excesso de informações inúteis, o crescimento da obesidade, o aumento da solidão, e assim por diante. Mas, talvez, o ponto mais negativo da lógica que desenvolvemos a partir da internet em nosso tempo seja o da política artificial, do ativismo digital. As pessoas não precisam mais tentar mudar o mundo e agir politicamente de modo efetivo, já que elas podem compartilhar uma foto. Elas não precisam mais alimentar um morador de rua, já que podem compartilhar a foto dele abraçado a um cão. Não precisamos mais resgatar animais abandonados nas ruas, já que podemos compartilhar os vídeos deles e, ao mesmo tempo, ver como são tão fofinhos! A propósito, não esqueçam de curtir esse artigo no final! Não, espere um pouco…

Apesar de não precisarmos — e nem podermos historicamente — regressar à lógica do mundo grego antigo para lidarmos com o problema da corrupção, podemos construir o nosso próprio mundo hoje, aqui e agora. Parece que a melhor maneira de darmos o primeiro passo é tornarmo-nos conscientes do próprio problema, a saber, a corrupção política não diz respeito apenas a partidos políticos, à administração pública, mas a você mesmo, ao agente moral — que também é político — em seu dia-a-dia, todos os dias, em todos os momentos do nosso cotidiano. Na mesma medida, a felicidade política, o agir altruísta, o agir de modo a ter em mente o bem-estar do todo, do grupo, também diz respeito a você mesmo.

Podemos, então, agir politicamente no âmbito das relações interpessoais, sem levar a efeito atos de corrupção. Temos que refletir sobre a questão e pensar se atravessar fora da faixa de pedestres é tão inofensivo assim; se não respeitar a sinalização de trânsito, mesmo quando não há risco de vida, é tão inofensivo assim; se furar fila, se sonegar imposto, se fazer “gato da televisão”, se baixar jogos piradas, se pegar as moedas que estavam sobre o balcão da cozinha, é tão inofensivo assim; se enganar, mentir, ludibriar, para proveito próprio, individual e egoísta, é tão inofensivo assim…

Esses atos não são inofensivos porque eles geram e mantêm, fundamentam e solidificam, a corrupção em todos os âmbitos da existência humana inserida na vida social. São esses atos que possibilitam o desvio de bilhões de reais dos cofres públicos, são esses atos que possibilitam o massacre de indígenas em nosso país, são esses atos que possibilitam a perpetuação de sua própria lógica que se retroalimenta: a corrupção em geral.

Podemos fazer a diferença, se começarmos a fazer a diferença nas nossas próprias vidas, no âmbito moral, no momento em que ninguém estiver olhando, para estender isso à dimensão política, ao bom dia ao porteiro do prédio, ao respeito à fila para entrar no metrô, ao devolver o troco errado, e assim por diante.

Aristóteles talvez nos ensinou com clareza que a felicidade é o que motiva a agirmos como agimos. Não podemos esquecer, contudo, que a felicidade da maioria é mais nobre do que a individual, já que não adianta a mão ou o pé estarem sadios, quando o resto do corpo está doente. Precisamos ter em mente que não é só a nossa felicidade, a felicidade individual que importa, mas também a felicidade política.

Esse é o ideal que devemos buscar. Ideal nunca atingível, é claro. Porém nada nos impede de, pelo menos, tendermos a ele. Nada nos impede de darmos os primeiros passos. De fato, os primeiros passos costumam ser rebarbativos, dolorosos e desanimam muito. Mas depois que o corpo aquecer, não sentiremos mais o incômodo!

 

Indicações de Leitura:

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Trad. Leonel Vallandro e Gerd Bornheim da versão inglesa de W.D. Rosá. São Paulo: Abril Cultural, 1973. Col. Os Pensadores.

ARISTÓTELES. A Política. Trad. Nestor Silveira Chaves. 2. ed. Bauru, SP: EDIPRO, 2009.

COMTE-SPONVILLE, A. Pequeno tratado das Grandes Virtudes. 2. ed. São Paulo: Wmf Martins Fontes, 2009.

ZINGANO, Marco. Aristóteles: tratado da virtude moral; Ethica Nicomachea I 13 – III 8. São Paulo: Odysseus Editora, 2008.

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