Hoje Eu Quero Voltar Sozinho e a filosofia

A dificuldade em explicar um conceito abstrato e estranho à linguagem comum está no fato de não ser fácil estabelecer uma ligação possível de traduzi-lo para uma linguagem conhecida e acessível que possa criar as relações necessárias para que o seu interlocutor entenda tal conceito. Muitas vezes por mais que a clareza nas palavras e a calma na explicação contribuam para a comunicação, os aspectos gerais e abstratos de conceitos filosóficos tornam sua explicação definitivamente um desafio.

Nesse momento, os exemplos e as representações aparecem como os maiores aliados da explicação. Na medida em que um bom exemplo consiga demonstrar um conceito por uma de suas múltiplas facetas particulares e, na medida do possível, concretas, tomando elementos do cotidiano do interlocutor como pano de fundo, a comunicação e a explicação dão um grande passo em direção ao seu entendimento.

Ao assistir ao filme Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, achei um exemplo particular, com um pano de fundo ideal, para explicar um conceito muito abstrato da filosofia da mente: os qualia. Ainda que esse seja um filme que possa nos proporcionar inúmeras situações férteis à reflexão filosófica, voltarei a minha análise para um ponto muito específico através do qual será possível apresentar e explicitar esse conceito filosófico. Para poder levar a efeito essa explicação, será preciso primeiramente apresentar, de modo geral, o enredo do filme.

Leonardo é um garoto cego que busca se tornar mais autônomo frente à superproteção de seus pais, sobretudo de sua mãe, por causa dessa limitação — ser deficiente visual. Nessa história, ele passa por diversas situações constrangedoras pelas quais pessoas cegas passam em suas vidas. De humilhações na escola à descoberta da sexualidade na adolescência, Léo terá de lidar com toda a turbulência dessa idade, sendo cego.

Giovanna, sua amiga de infância, é a maior companheira de Léo no seu dia-a-dia, não apenas o auxiliando com mobilidade e suporte, mas também sendo uma grande companheira em todos os momentos. Sua amizade com Léo, contudo, sofre grandes mudanças quando Gabriel, um novato, é matriculado na sala em que eles estudam, passando a ser companheiro dos dois no cotidiano escolar do Ensino Médio.

A história gira em torno da relação dos três, demonstrando as pequenas grandes barreiras que deficientes visuais adolescentes enfrentam todos os dias. Em suma, questões como a sexualidade, o bullying e o papel dos pais na adolescência são o ponto central da história. Seus pais, devido à sua limitação — ser cego de nascença —, impedem-no de, na medida do possível, tentar viver como um adolescente normal. Em meio a toda essa superproteção, ele tenta buscar sua autonomia, mesmo que com a ajuda de seus dois amigos.

A amizade de Léo e Gabriel intensifica-se quando ambos decidem fazer um trabalho de história juntos, tendo que passar horas fora do horário de aulas, estudando e pesquisando sobre o mundo grego antigo. O novo garoto apresenta Léo a situações com as quais ele nunca tinha deparado, abrindo perspectivas para um mundo novo, como assistir a um filme no cinema e presenciar um eclipse. No momento em que eles se tornam mais próximos, Léo apaixona-se por Gabriel.

Gi, por outro lado, estivera fazendo trabalho com outra garota durante todo esse tempo, dado que sua pesquisa não poderia ser feita em conjunto com os dois amigos. Com o passar do tempo, ela sente cada vez mais ciúme da amizade dos dois, já que, de certo modo, Gabriel estava atrapalhando a amizade de dois melhores amigos.

Em certo ponto da trama, Gabriel torna-se mais próximo de uma das garotas da escola, despertando ciúmes em Léo. Durante boa parte da história, Léo sofre com a situação em que ele está inserido, uma vez que, além de confuso, ele tem de lidar com o afastamento de sua melhor amiga e com o amor que tem por Gabriel.

No final da história, Léo revela a Gi que está apaixonado pelo novo amigo. A princípio, a garota reage muito mal à notícia, evitando conversar com seu amigo. No entanto, Gi logo livra-se do ciúme e posta-se novamente ao lado de seu melhor amigo. Dias depois, em uma visita que Gabriel faz a Léo, o garoto revela que está apaixonado por ele. Léo tem a experiência de seu primeiro beijo com Gabriel. Ambos ficam juntos e o trio segue sua amizade, sem nenhum problema por conta dessa relação.

Para falar dos qualia e da filosofia da mente, precisaremos aprofundarmo-nos em dois pontos específicos e subjacentes ao eixo central da história. Léo é um garoto cego, portanto jamais teve as experiências de enxergar as coisas que todas as pessoas com visão enxergam. Do mesmo modo, as pessoas com visão jamais podem ter as experiências de vivenciar o mundo pela perspectiva de uma pessoa que nunca enxergou nada. O conflito efeito da incomunicabilidade dessas experiências, por ambos os lados, leva a situações complicadas para as duas partes.

Presenciar um eclipse, por exemplo, é uma boa maneira de ilustrar esse tipo de situação. Como convidar uma pessoa cega de nascença para assistir a um eclipse? Parece estranho, não é mesmo? Pois é, Gabriel fez isso. Ao chegar ao local, Léo sentiu-se deslocado: o que exatamente eu deveria fazer, dado que não poderei assistir ao eclipse. Eis que ele pergunta ao Gabriel, “qual que é a graça de ver um eclipse?” Quando Léo está fazendo essa pergunta ele está perguntando a seu amigo “como que é a experiência de ver um eclipse?”.

Gabriel tenta explicar a ele o que é um eclipse, demonstrando fisicamente o que acontece na relação entre os corpos celestes. Apesar de conseguir, com dificuldade, explicar o que é um eclipse, na dimensão objetiva do fenômeno celeste, ele não explica como é a experiência de ver um eclipse, reservada necessariamente à dimensão subjetiva da experiência do mesmo fenômeno celeste. No final, ele ri e diz, “engraçado explicar isso, parece tão simples”.

É simples porque, na verdade, as experiências são simples. Experiências são simples na medida em que as temos em todos os instantes conscientes. Quando pensamos, quando falamos, quando comemos, quando executamos funções, quando pessoas entram em contato conosco. O tempo todo enquanto conscientes. Mas explicá-las, isto é, comunicá-las através da linguagem é impossível. Por quê? Porque elas são qualia.

Qualia são experiências subjetivas e sensações das quais um indivíduo é consciente. Devido a seu caráter subjetivo e privado, as experiências subjetivas conscientes são impossíveis de serem comunicadas pela linguagem. Apesar de a linguagem ser intersubjetiva, esses elementos privados não possuem qualquer substrato objetivo, para que sejam passíveis de tornarem-se objeto da linguagem, que é naturalmente intersubjetiva.

Essas experiências não podem ser observadas objetivamente, portanto escapam do crivo da ciência. Por exemplo, a ciência sabe claramente o que acontece quando comemos chocolate, do momento em que as primeiras partículas do chocolate tocam os lábios até o total processamento e absorção dele por nosso corpo. Por isso, um supercientista poderia descrever tudo o que está ativo e a cascata de substâncias químicas e atividade neuronal que ocorrem no momento em que você involuntariamente diz “Mmmmm….” ao saborear um chocolate. Entretanto, ele não experiencia os qualia que dizem respeito à sua experiência subjetiva de comer chocolate. Essas propriedades mentais não podem ser correlacionadas a estados cerebrais ou quaisquer estados físicos pela neurociência. Assim como a consciência, o hard problem ou “problema difícil” da ciência contemporânea, os qualia também são parte do mistério.

Por mais que a ciência tente correlacionar as reações das pessoas a estímulos, mapeando o cérebro com eletroenfacelograma e neuroimagem, para identificar as regiões cerebrais ativadas durante a experiência dos qualia, assim como para observar as alterações físicas do cérebro durante essas experiências, eles não conseguem objetivamente e de forma precisa terem acesso a essas experiências, a menos que o indivíduo as comunique a ele.

Nos momentos que antecedem a conversa de Léo com Gi sobre ele estar apaixonado por Gabriel, os dois amigos têm um diálogo que ilustra perfeitamente a dificuldade de lidar com os qualia objetivamente.

Léo pergunta a ela se ele é bonito. Vamos tomar esse dado, para o bem do argumento, como um dado, no limite, objetivo e lógico. Suponhamos que a propriedade “ser bonito” possa ser definida a partir de um conceito pré-estabelecido. Se for pré-estabelecido, por exemplo, que “ser alto e loiro” implica ser bonito, então, nessa proposição, o indivíduo alto e loiro é bonito. Deste modo, não haveria problema para Gi conferir se seu amigo é bonito, bastando a ela observar se ele é alto e loiro.

Apesar disso, Léo muda a pergunta instantes depois, trazendo à tona todo o nosso problema filosófico: “você acha que as pessoas me consideram uma pessoa bonita?”. Ela tenta responder, dizendo que ela o considera bonito, mas ele parece genuinamente um filósofo da mente: “você não conta, né.” Ele então insiste e repete a pergunta: ele quer saber sobre a experiência das pessoas em relação à sua aparência física.

A garota responde, indicando a posição da ciência frente ao problema, ao dizer que não sabe porque nunca reparou na reação das pessoas. Eis aí o conflito para o problema dos qualia. Por mais que utilizemos diversos modos de observação empírica das reações dos indivíduos, mapeando seus cérebros, nunca vamos captar os qualia objetivamente. Gi finaliza sua fala demonstrando exatamente o que a filosofia tem dito sobre a questão: “pergunte para os outros”.

A partir dos qualia a filosofia da mente pode fazer diversas reflexões, como, por exemplo, questionar a validade do materialismo, na medida em que, de fato, há uma propriedade mental impossível de ser reduzida a termos físicos: a experiência subjetiva. Se ela não pode ser reduzida a termos físicos, significa que ela é um estado mental que escapa do âmbito físico, levando o materialismo à contradição: todos os estados mentais são ou podem ser reduzidos a materiais.

Apesar disso, há muitos materialistas que negam a existência dos qualia. Eu acho que para pôr mais lenha na fogueira, não há argumento melhor do que o do João de Fernandes Teixeira: negar a existência dos qualia “seria o mesmo que querer equiparar a dor de perder um ente querido num desastre de automóvel com a leitura de uma estatística de mortes em acidentes de trânsito”.

 

Indicações de Leitura:

TEIXEIRA, João de Fernandes. Como ler a filosofia da mente. São Paulo: PAULUS, 2008.

HILL, Christopher S. Consciência. Trad. Alzira Allegro. São Paulo: Editora Unesp, 2011.

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