A robossexualidade para ser pensada hoje

Temos que sempre ter em mente que a ética não é um código de conduta pronto e acabado, com o qual deparamos ao nascer, para seguirmos durante toda a vida. Esse campo da filosofia, apesar de trabalhar com questões com as quais o homem deparou desde o berço da nossa civilização ocidental no mundo grego antigo, precisa lidar com questões novas que surgem no dia-a-dia.

Se se tratasse de apenas um código de ética pronto e acabado, seria impossível lidarmos com novas questões e novos dilemas que surgem com as contradições entre o moralmente aceito pela sociedade e o novo: não poderíamos jamais aceitar o novo. Para podermos desenvolver-nos enquanto sociedade e lidar com novas perspectivas de enxergar o mundo que surgem com o próprio desenvolvimento da sociedade, necessitamos da ética para refletir e pensar em soluções para os conflitos morais decorrentes desse encontro de águas entre o moralmente bom e o moralmente novo.

Novas questões e novas contradições morais podem trazer à ética novos modelos e novas reflexões, a fim de adequar à sociedade e ao nosso modo de vida essas novas situações. Para ficar mais claro, pensemos na internet. A conduta nas redes sociais, a comunicação virtual e as relações interpessoais que decorrem dessa nova realidade apareceram como um novo modelo de relação interpessoal, cuja introdução no modelo moral vigente no final do século passado gerou — e ainda gera — grandes contradições. Precisamos refletir, então, por exemplo, sobre a maneira pela qual utilizamos esses novos modelos e como interagimos com ele a partir do nosso paradigma moral. Apesar disso, contradições são inevitáveis e com isso surgem choques éticos.

No século XIX o grande choque ético foi a adequação da população negra, após séculos de escravidão e subjugação, no mundo predominantemente branco ocidental. Em parte do século XX a questão da posição da mulher na sociedade tornou-se um dos maiores dilemas com os quais a ética se voltou para pensar em novas perspectivas e abordagens. Agora, na contemporaneidade, no nosso tempo mais presente, no final do século XX e começo do XXI, a homossexualidade parece ser o que está gerando as grandes contradições éticas com as quais devemos lidar nos dias de hoje, sobretudo após a controvérsia na qual estivemos inseridos nas últimas semanas, decorrente da aprovação do casamento gay pelo governo americano. A história, e do mesmo modo a filosofia e a ética, não são lineares e não são tão simplificadas como estou tentando fazê-las parecerem ser. Essas questões são inconstantes e correlacionadas, variando de acordo com o lugar e sendo retomadas com o tempo, na medida em que ainda não estão solucionadas. Essas contradições éticas devem ser pensadas e, na medida do possível, resolvidas, sem se perderem de vista umas às outras, uma vez que todas são importantíssimas para a nossa sociedade.

Para pensar no hoje e no amanhã, se a homossexualidade é talvez o grande tabu ético da contemporaneidade, em parte por conta de implicações sociais e sobretudo religiosas, que desembocam em homofobia, a robossexualidade, de modo similar, poderá ser o grande tabu ético de um futuro próximo — mais próximo do que se imagina.

A neurociência e a robótica avançaram assustadoramente nas últimas décadas. Aliás, avançaram principalmente na última década, sendo ambas duas áreas pioneiras e que podem trazer resultados consideráveis para o nosso modo de vida nas próximas décadas. A neurociência, de um lado, com o desenvolvimento e aprimoramento de tecnologias como o eletroenfacelograma e a neuroimagem, pode ajudar-nos a solucionar, ou pelo menos problematizar ainda mais, as nossas questões sobre as relações entre o mental e o cerebral, esbarrando em um dos problemas mais espinhosos da filosofia: a consciência. De outro lado, a robótica avança de tal modo que definitivamente precisamos da filosofia como sua guarda-costas, para que evitemos um uso desmedido dessa mesma tecnologia para fins não tão seguros. Falo do desenvolvimento de drones e de tecnologias que, se de um lado podem ser riquíssimas para o homem e para o nosso modo de vida, de outro podem ser fatais e acarretar em problemas não apenas morais, mais jurídicos.

Quando essas duas áreas caminham lado a lado — e mais interessante ainda quando surge um triangulo amoroso com a filosofia —, temos o desenvolvimento de tecnologias e de reflexões que pensávamos serem possíveis apenas a partir da ficção científica. Hoje já temos o desenvolvimento de robôs e de inteligência artificial altamente tecnológicos. Temos, por exemplo, o desenvolvimento de robôs construídos para assemelharem-se com seres humanos, tendo tecidos extremamente similares à pele e a outros tecidos humanos enxertados em seu corpo, sendo usados para cuidar de idosos que necessitam de atenção e de cuidados. Esses idosos estão apegando-se emocionalmente e, em muitos casos, não estão conseguindo mais diferenciá-los dos humanos. Com o avanço dessa tecnologia, temos no horizonte a possibilidade de não sabermos a priori a diferença entre seres robôs e seres humanos.

Por fim, hoje já estamos inseridos em uma realidade transhumanizada. O transhumanismo basicamente é a adequação de tecnologias ao ser humano, a fim de prolongar a vida ou proporcionar uma maior possibilidade efetiva de vida, como, por exemplo, utilizarmos medicamentos e tecnologias que permitem que sobrevivamos, tanto os relativos às questões mais simples, como antibióticos, quanto os mais sofisticados, como os exoesqueletos. Cada vez mais adequamos tecnologias às nossas vidas para que possamos viver com mais qualidade, ou para que, no limite, possamos viver.

Hoje já somos ciborgues, seres, de certo modo, híbridos. Vivemos com marca-passos, com próteses dentárias, com chips no cérebro e assim por diante. Já somos capazes de substituir partes humanas por partes artificiais, podendo ser, de certo modo, parte humanos e parte artificiais. Vivemos com a utilização de tecnologia para melhorar e prolongar a nossa vida, como analgésicos, antibióticos, próteses, aprimoramentos cognitivos como os nootrópicos, e assim por diante. De certo modo, já somos o transhumano e o ciborgue, na medida em que já incorporamos tecnologias em nossos corpos e em nossas mentes.

A robossexualidade, apesar de diferente da homossexualidade por N motivos, evidentemente não sendo a mesma coisa e não partindo dos mesmos fundamentos, aparece como inevitavelmente uma questão com a qual teremos de lidar mais cedo ou mais cedo — a robossexualidade não será algo tardio, dado que ela já bate na nossa porta. Não se trata de algo do futuro ou de ficção científica e fantasia. Há cada vez mais casos de romances pela internet entre pessoas que jamais se viram, coisa considerada ficção e fantasia por nossos avós no século passado. Hoje já temos um desenvolvimento considerável e um forte mercado para os girlfriend apps.

Segundo a Dra. Helen Driscoll, professora e pesquisadora do University of Sunderland’s Psychology Department, pessoas hoje já se apaixonam por personagens fictícios, embora não haja chance dessas pessoas interagirem com eles. Além disso, já temos hoje muitas pessoas vivendo sozinhas, que talvez não podem conseguir um parceiro — ou até mesmo perderam um. Segundo a doutora, parceiros sexuais virtuais podem trazer benefícios psicológicos significantes, dado que um parceiro virtual é certamente melhor do que nenhum parceiro. Em seu mesmo artigo, Driscoll aponta que no Japão jovens já estão começando a evitar o sexo e relações íntimas, sendo esse fenômeno uma sugestão de que essa realidade aparentemente futurística pode já estar acontecendo: japoneses já estão levando seus apps de namoradas — programas desenvolvidos para simular artificialmente uma relação virtual com uma namorada — com eles para férias na Ilha de Atami.

Se levarmos em consideração um pico no avanço da tecnologia robótica ao ponto de não distinguirmos a priori as diferenças entres seres artificiais e seres humanos, além de os nossos próprios hábitos atuais de isolamento e relacionamento interpessoal predominantemente artificial afastar-nos de outros seres humanos, é provável que tenhamos a robossexualidade como um modo de vida. E não apenas isso, visto que, segundo a Dra. Helen Driscoll, psicologicamente não sofreremos se não formos capazes de notar a diferença.

A grande questão que fica para nós a partir dessa problemática é a seguinte: será que a ética precisa, como Hegel disse sobre a filosofia na Filosofia do Direito, esperar o anoitecer para alçar voo, ou será que não podemos voar e refletir sobre esses problemas antes do anoitecer? De outro modo: será que precisamos esperar que a robossexualidade se efetive e se torne um fenômeno comum para levarmos a efeito reflexões que possam tentar negá-la ou adequá-la à nossa ética e ao nosso modo de vida, ou será que podemos refletir sobre isso antes dela acontecer?

 

Indicações de Leitura:

AIUB, Monica et al. Filosofia da Mente, Ciência Cognitiva e o pós-humano: para onde vamos? São Paulo: FiloCzar, 2015.

TEIXEIRA, João de Fernandes. O cérebro e o robô: inteligência artificial, biotecnologia e a nova ética. São Paulo: Paulus, 2015.

_____. Filosofia do cérebro. São Paulo: Paulus, 2012.

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