Unbroken e a filosofia

ATENÇÃO: este artigo contém informações reveladoras sobre o enredo de “Unbroken”.

Artigo publicado na edição Nº74, de setembro de 2016, Fantasia Fantástica e Filosofia, da Revista Pandora Brasil, ISSN 2175-3318.

 

Na primeira análise de Warcraft, em Rise of the Horde e a Filosofia, pudemos entender, através do início do desenvolvimento do enredo desta série, a relação entre os draenei, a Burning Legion, os orcs e Azeroth, assim como pudemos refletir sobre a democracia, suas contradições e seus limites em um tempo de pouco posicionamento crítico. No que diz respeito ao enredo, contudo, a história terminou inconclusiva, na medida em que se tratava apenas do primeiro passo de uma jornada através de mais de 40 livros.

Micky Neilson escreveu a continuação de Rise of the Horde, na forma de uma história angustiante e reveladora, campo fértil para nossas reflexões: Unbroken. Essa história parte da continuação do ponto central da anterior, quando a Orcish Horde, após destruir todas as cidades e refúgios dos draenei e utilizar o sangue de Mannoroth como propulsor para aumentar sua força consideravelmente, converge suas forças para a capital dos draenei, Shattrath City. O romance de Christie Golden, narrado sobretudo pelo ponto de vista dos orcs, não apresentou os acontecimentos concernentes à batalha de Shattrath City, à destruição dos draenei, a seu futuro e ao desfecho desse ciclo. É Unbroken que estabelecerá a ligação entre as histórias e cronologicamente formará um elo no enredo de Warcraft, de Rise of the Horde até Night of the Dragon.

Nessa história, o sofrimento aparece como o eixo para as reflexões de Nobundo, a protagonista desta narrativa. Unbroken pode proporcionar-nos os ingredientes para analisarmos a maneira com a qual lidamos com o sofrimento, com a pressão social e com os desafios frente ao fracasso em nossas vidas. Antes de analisar essa história, precisamos conhecê-la e entender a maneira como o sofrimento se articula com o desenvolvimento dessa personagem.

O estilo de narrativa in medias res, cujo sentido cronológico do texto narra a história partindo ‘do meio’ de uma outra história já em curso, de uma dramatização em andamento, explicita os acontecimentos durante a batalha de Shattrath City e a situação dos draenei em Draenor nos anos que se seguiram à perseguição e à quase aniquilação de sua raça pelas mãos da Orcish Horde. Devido à característica anacrônica deste estilo literário in medias res, toda a narrativa é desenvolvida em analepse, com uma volta constante do ponto presente para o passado, de modo que temos duas perspectivas interpretativas do enredo: a do passado e a do presente; tudo isso para explicitar os acontecimentos até o ponto em que Nobundo — um exvindicator e defensor do povo draenei — luta contra o ostracismo imposto pelos draenei a ele e a seus iguais.

A história começa com Nobundo anos após a destruição de Shattrath City e da evasão de grande parte dos orcs de Draenor. Ele é descrito como uma espécie de draenei profundamente castigado pela debilitação física, um tipo de ancião que se locomove apoiado em uma bengala: este é o ponto presente da narrativa. Nesse momento, ele dirige-se à cidade de Telredor, em Zangarmarsh, refúgio oculto dos draenei nas regiões pantanosas e secretas de Draenor. Enquanto desloca-se com dificuldade através dos pântanos para a reunião convocada por ele em Telredor para revelar sua epifania, Nobundo reflete sobre o fato de ele e seus iguais serem considerados como Krokul, ou “quebrados”, na língua dos draenei. Como será que um indivíduo com dons tão favoráveis pela Luz — potência e energia sagrada, natureza dos naaru, seres que salvaram os draenei de Argus e os protegeram ao longo dos séculos — pode ter decaído tanto, ao ponto de se tornar um quebrado?

Eis que, ao chegar em Telredor, a narrativa volta-se ao passado, na iminência da batalha de Shattrath City, com Nobundo então como um dos Vindicators, os guerreiros sagrados protetores dos draenei, paladinos que se utilizam da Luz para proteger os inocentes e lutar contra as forças demoníacas. Nesse momento na história, os draenei aguardavam solenemente, do lado de dentro dos muros de Shattrath City, o momento em que as massas demoníacas da Orcish Horde rolariam contra as muralhas de a sua cidade como um rolo compressor. Nesse ponto na história, por utilizar-se do sangue do demônio Mannoroth, os orcs tornam-se escravos dos demônios da Burning Legion, sedentos por sangue e violência. Eles eram apenas criaturas monstruosas, sem estratégia, que se importavam apenas com o derramamento de sangue, prontos para destruir a última cidade dos draenei.

Nobundo e os outros Vindicators mantinham tal posto na guarda porque faziam parte de um plano maior: Velen, o líder dos draenei, profeta e protetor de sua raça, previu que não haveria salvação e força suficiente para conter a massa de orcs em Shattrath City. Portanto a única maneira de salvar o futuro dos draenei seria forjar a extinção da raça na batalha de Shattrath City. A esmagadora maioria da população, dos protetores, mulheres e crianças, foram deixados para serem assassinados pelos orcs, para que a Orcish Horde não suspeitasse que, na verdade, Velen e alguns escolhidos partiram para o vale pantanoso secreto de Zangarmarsh, para levar adiante a raça dos draenei.

Como um verdadeiro paladino e protetor dos inocentes, Nobundo permaneceu como um devoto defensor, guerreiro sagrado dos draenei, pronto para sacrificar-se em nome da justiça e do Bem. Ele era um paladino forte e muito bem treinado, corpulento e vigoroso, armado com seu martelo de guerra e seu fanatismo. Seu sacrifício e sua defesa seriam por uma causa boa e nobre, deste modo lhe garantindo o descanso quando seu espírito se unisse à Luz. Do mesmo modo, seus companheiros defensores também estavam dispostos a defender sua cidade e seu povo, sacrificando-se por um bem maior.

Não demorou muito para os orcs, com seu vasto exército e seu amplo aparato bélico, com tambores e tochas para amedrontarem seus inimigos, derrubarem as paredes externas com suas catapultas e com sua magia demoníaca. Os draenei, por outro lado, em clara desvantagem, buscaram proteger-se com o poder de seus Vindicators. Nobundo chamou pelo auxílio da Holy Light, que respondeu a seu chamado e enviou sua potência aos draenei. Apesar disso, enquanto os paladinos tentavam inspirar os combatentes de Shattrath City, a Orcish Horde derrubou o portão principal e efetivamente invadiu a cidade. Eles usaram necromancia e escuridão para combater os poderes da Luz.

Em pouco tempo, as forças defensoras de Shattrath City foram rapidamente aniquiladas pelos orcs demoníacos, de olhos vermelhos, possuídos pela fúria e descontrolados pelo prazer da carnificina. Nobundo não desistiu, e continuou a enfrentar os orcs em combate corpo-a-corpo. Apesar de forte e grandemente superior aos orcs em combate, ele foi surpreendido pela magia de seus inimigos. Os warlocks, bruxos demoníacos das trevas, conjuram uma névoa vermelha que enfraqueceu os draenei. Nobundo foi pego de surpresa por essa névoa, e, ao tentar combater um dos orcs, foi alvo de magias demoníacas excruciantes. Ele tentou chamar pelo poder da Luz e, para sua surpresa, pela primeira vez a Holy Light não o respondeu e ele foi inevitavelmente abatido.

Nobundo acordou horas depois, perdido. Ele caíra da muralha sobre a qual defendia Shattrath, derrubado por um orc demoníaco, e fora soterrado nos escombros da plataforma. Ao despertar, ele sentiu-se sozinho e abandonado, confuso e com medo, já que fora deixado pela Luz. Ele tentou concentrar-se e novamente chamar pela Holy Light, mas não obteve resposta. Abatido e grandemente lesionado, Nobundo perguntou-se se isso, por acaso, seria algum castigo. Será que, apesar de ter vivido uma vida justa, ele estaria sendo castigado?

Sem a ajuda da Luz, Nobundo teve que suportar a dor e o sofrimento, sem poder cessá-los magicamente. Ele encontrou seu martelo de guerra e utilizou-o para abrir passagem e sair dos escombros em que se encontrava. Do lado de fora, com ar puro invadindo seus pulmões, o defensor percebeu que horas passaram desde o início da invasão. Shattrath City, contudo, ainda estava sendo devastada. Ele pôde escutar os gritos de terror a distância. Ao ajustar sua visão e olhar para o que o cercava, Nobundo viu uma cidade coberta por corpos de draenei esquartejados, com mulheres e crianças juntos aos defensores.

Inconformado, Nobundo clamou pela Holy Light, desesperado para ajudar e salvar os inocentes, cujos gritos, sobretudo das mulheres, imploravam por ajuda. Nobundo continuava inutilizado, com parte de seu corpo quebrado, e sem resposta. Ele então decidiu não se sacrificar e perecer precipitadamente, quebrado e sem poder lutar. Pelo contrário, Nobundo decidiu escapar, para um dia servir a algum propósito maior. Ao aproveitar-se de uma brecha nas muralhas da cidade após a ruína da invasão da Horde, o defensor deixou Shattrath City. Momentos depois, o herói sucumbiu por conta da dor.

Ele acordou dias depois, sendo tratado por Rolc, outro draenei, em uma caverna. Ele havia passado dias desacordado, em Zangarmarsh, no local onde os draenei se esconderam. Esse pântano secreto, repleto de cogumelos gigantes e vida natural, foi um refúgio perfeito para o povo do profeta Velen. No acampamento em que se encontrava, Nobundo percebeu que os sobreviventes não aparentavam apenas estar fisicamente lesionados: eles estavam, principalmente, quebrados em espírito. Em uma conversa nos dias que se seguiram, Nobundo descobriu que os outros sobreviventes também foram submetidos à névoa demoníaca vermelha dos orcs.

Estações passaram, e Nobundo percebeu que sua memória começou a falhar bastante. Velen visitou o campo e conversou com os draenei. O refúgio e esconderijo do líder dos draenei permanecia secreto até mesmo aos níveis mais altos da sociedade, para que o local jamais fosse revelado, caso os orcs capturassem e torturassem-nos em busca de seu profeta. Velen revelou que, apesar de os orcs insistentemente procurarem os draenei e abaterem alguns que encontravam esporadicamente, essa ameaça tinha diminuído. Nos últimos meses, os orcs estavam demasiadamente ocupados, construindo uma espécie de portal.

Nobundo finalmente percebeu que os sobreviventes estavam fisicamente se transformando, decaindo e tornando-se inferiores. Ele sentiu que havia algo de errado com todas essas transformações e suas condições após a batalha. Nobundo continuava tentando contatar a Luz, negando sua atual condição. Apesar disso, não havia resposta.

No momento em que outros draenei informaram-lhe que o Dark Portal estava terminado e que os orcs o atravessaram, de modo a deixar Draenor para invadir outro mundo, Nobundo presenciou o processo final de decadência dos sobreviventes de Shattrath City. Ele testemunhou a transformação final de Korin, uma das sobreviventes. Ela deixou de ser uma draenei e transformou-se em uma versão quebrada e decadente de um draenei.

Nobundo foi informado que transformações similares estavam acontecendo aos sobreviventes da batalha de Shattrath City nos outros campos. Os draenei tornaram-se paranóicos, com medo de que essas transformações pudessem afetar os outros. Ele e o restante dos sobreviventes foram chamados para serem informados de que eles não poderiam mais ficar com os draenei. Todos ficaram abismados. Eles não podiam aceitar serem banidos por conta de sua condição. Porém os draenei argumentaram que eles não sabiam se essa condição era contagiosa, além de já terem feito de tudo e mesmo assim nada foi capaz de curá-la: os draenei não poderiam pagar um preço que pudesse custar a sobrevivência da espécie.

Krokul, quebrados. Nobundo e seus iguais foram exilados e ficaram em um ostracismo radical. Eles tornaram-se indivíduos tristes, sofrendo diariamente, por não poderem mais ser o que eram antes, sem poderem ser o que queriam ser. Tratava-se do sofrimento e da dor de indivíduos que anteriormente foram abençoados pela Luz, sem terem ideia do que realmente era sofrer. Sua degradação física chegou a níveis alarmantes, e alguns deles se tornaram zumbis, carcaças sem consciência, que perambulavam até se perderem, para nunca mais voltar. Ainda assim, Nobundo continuou tentando estabelecer contato com a Luz, sem sucesso. Korin revelou a Nobundo que aparentemente os orcs estavam reunidos novamente, seguindo um warlock poderoso — Ner’zhul. Como consequência dos atos de Ner’zhul após a Segunda Guerra, Draenor foi desmantelada, na medida em que o warlock tentou abrir centenas de portais para outros mundos, sobrecarregando a energia do planeta. O local em que os draenei e os krokul encontravam-se não foi obliterado, mas boa parte do planeta se foi com Ner’zhul.

Desde que havia escapado de Shattrath City, Nobundo tinha sonhos com os gritos das mulheres implorando por socorro. Em seus pesadelos, Nobundo sempre estava do lado de fora de Shattrath City, batendo contra os portões fechados enquanto escutava os gritos de pessoas morrendo. Ele batia até suas mãos sangrarem; do lado de dentro, mulheres e crianças eram assassinadas. Durante um dos pesadelos, algo diferente ocorreu: Nobundo conseguiu entrar na cidade e a encontrou vazia, sem corpos, em meio a uma grande tempestade. No local onde ele se encontrava, havia apenas uma fogueira. Os corpos das mulheres voltavam e avançavam lentamente contra ele, culpando-o com o olhar. Imobilizado no sonho, Nobundo ficava sem defesa. Ele acordou assustado, sem energia, e decidiu respirar ar puro para sentir-se melhor. Do lado de fora de sua cabana, Nobundo descobriu que Korin havia partido para se matar. Ele tentou evitar que ela se matasse, mas falhou e outra vez entrou em desespero. Em meio ao desespero, ele escutou vozes. Depois de todos esses anos pedindo ajuda, finalmente Nobundo recebeu uma resposta: não da Luz, mas do vento: “tudo o que é, é vivo”.

Nobundo descobriu que o vento estava estabelecendo contato, o mesmo vento que proporcionava poder aos orcs shamans, espécies de xamãs que se utilizavam das forças dos elementos da natureza. Por ser um draenei, Nobundo ignorava essas práticas, não conhecendo nada sobre elas. Após alguns dias comunicando-se com o vento, ele recebeu a visita do fogo e foi ordenado a partir para Nagrand, para iniciar sua jornada como shaman. O krokul rebateu a ordem do fogo, argumentando que para chegar a Nagrand, ele teria que passar pelos campos dos draenei, onde ele não era mais bem-vindo. O fogo respondeu a ele com fervor: “não questione a oportunidade que está sendo dada a você!”.

A caminho de Nagrand, ao conversar com o vento, Nobundo descobriu que os orcs shamans comunicavam-se com os elementos, mas sua conexão tinha sido cortada quando os orcs se voltaram para praticar magias demoníacas. Horas depois, ao chegar no campo, ele foi questionado pelos draenei e impedido de atravessar. Nobundo resistiu e, por isso, foi atacado pelos guardas. No entanto, para a surpresa de Nobundo, o vento lançou os guardas para longe. Ele atravessou calmamente o campo, deixando todos chocados e confusos, partindo para Nagrand.

Nobundo procedeu sua jornada cansado e desgastado, porém sempre ajudado pelos elementos, sendo empurrado pelo vento e recebendo força da terra e provisões da água na forma de chuva. Em meio à ansiedade de comunicar-se novamente com um shaman, os elementos atordoaram Nobundo, que os ordenou a pararem de se agitar em seu pensamento. Ao conectar-se com os elementos, Nobundo sentiu-se parte do ambiente e sentiu o ambiente tornar-se parte dele.

Dessa vez, quem se comunicou com ele foi o elemento menos afetado pela destruição de Draenor. Esse elemento sempre é o menos afetado, porque ele se adapta rápido: a água. Nobundo conversou com ela, que disse a ele que levaria anos para ele ter todo o conhecimento necessário para entender plenamente os elementos. Mesmo assim, ele deveria começar a jornada do shaman. Os elementos escolheram-no porque a destruição em Draenor os deixaram perdidos e eles encontraram nele um espírito bom, apenas confuso e negligenciado. Nobundo sentiu-se assustado e ponderou se valeria a pena aceitar o risco de nunca mais receber a bênção da Luz. Eis que a água explicou que a relação entre os shamans e os elementos é de sincronia: a influência dos shamans ajuda a acalmar e unir os elementos, na mesma medida em que a influência dos elementos enriquece e completa o shaman. Deste modo, os elementos sempre respondem ao chamado dos shamans – nunca ordens –, ajudando-os da melhor forma possível, contanto que se eles considerassem justas as razões do shaman.

Mesmo sabendo que levaria anos para compreender tudo verdadeiramente, Nobundo ganhou o conhecimento das energias vitais ao seu redor. Das maiores criaturas ao mais insignificante grão de areia, ele tornou-se consciente de que tudo, enquanto existente, está vivo, com energia vital. Essa energia ligava tudo e tornava todas as coisas interdependentes. Desse modo, o ambiente era parte dele e ele era parte do ambiente.

Os elementos mantiveram sua promessa, dando a ele aspectos de sua natureza: da água ele ganhou clareza e paciência; do fogo ele ganhou paixão, uma renovada apreciação pela vida, desejando superar qualquer obstáculo; da terra ele ganhou determinação inabalável, uma potência de aço; do vento ele recebeu coragem e persistência, aprendendo a ousar e prosseguir mesmo diante de adversidades. Apesar disso, ele sentiu que os elementos ainda guardavam algo dele. Ele ainda tinha seus sonhos, mesmo podendo se comunicar com os elementos durante eles. Em um deles, ele conversou com a água, que disse que ele estava em conflito. Esse conflito não dizia respeito aos espíritos dos que partiram, disse-lhe a água, mas a ele mesmo.

O conflito cessou quando ele entendeu que o equilíbrio frente ao caos das transformações e frente às mudanças estava em entender que a jornada através dessas mudanças nunca termina. Neste momento, ao perceber isso, Nobundo desprendeu-se do conflito que barrava seu grande potencial como shaman. Ele pôde ser transportado e visualizar a escuridão do vazio sem fim em que todos os mundos se encontravam. Nobundo percebeu que os incontáveis mundos têm seus próprios elementos, cujo conhecimento estabelece o equilíbrio de perceber que há uma constante mudança e conflito na jornada sem fim que é a vida. Por fim, Nobundo percebeu que nesse vazio infinito, por detrás desses incontáveis mundos e seus elementos, havia um elemento que proporcionava unidade e mantinha todos os outros sendo o que são: a vida. Essa foi a epifania de Nobundo.

Eis que a história volta para o presente, com Nobundo em Telredor, de frente para uma multidão, pronto para revelar para os draenei a esperança de seu futuro e sua salvação. Entretanto, ele foi ridicularizado e hostilizado. Humilhado, Nobundo decidiu deixar Telredor. Ele estava partindo do encontro quando deparou com Velen. O profeta questionou Nobundo, perguntando se ele iria desistir, depois de tudo o que ele fez e depois de tudo pelo que ele havia passado. Nobundo argumentou que ninguém queria escutá-lo; Velen indicou que o problema, talvez, estivesse com Nobundo, não com os outros. Ele disse que Nobundo ainda estava com o peso das mortes de Shattrath, indeciso quanto às suas próprias ações, em dúvida se agira bem e se fora um covarde ou não. Entretanto, ele completou, parte de Nobundo sabia que ele deveria sobreviver, para abraçar um destino maior. Mesmo passando por muito sofrimento desde então, Nobundo nunca desistiu. Todos chamavam-no de Krokul, de Broken, de quebrado, mas, na verdade, ele era a maior esperança para os draenei. Nobundo finalmente estava livre desse fardo, já que agora podia ver claramente que fizera a coisa certa ao abandonar Shattrath City para sobreviver.

Ele voltou-se para a multidão e então finalmente disse, com a voz carregada através do vento para chegar a todos, com a força dos elementos, fazendo a multidão se espantar em temor e admiração. Nobundo disse a todos que eles deveriam seguir o caminho dos shamans, para evitar que jamais nenhuma atrocidade aconteça aos draenei. Eles deveriam andar juntos, lado a lado, Krokul e draenei, para realizar o sonho que há muito tempo fora esquecido pelo seu povo: verdadeira liberdade. Todos finalmente decidiram aceitar Nobundo, e ele enunciou a todos que a jornada começa com as simples palavras: “tudo o que é, é vivo”.

A partir dessa história, podemos perceber o papel do sofrimento no futuro dos draenei, e a importância da tomada de consciência de Nobundo frente a sua própria condição. A volta para si mesmo, para o mundo que o cerca, para sua própria condição natural, levou-o à tomada de consciência. É a maneira de encarar o sofrimento e a dor que, de certo modo, o fez forte. Do mesmo modo, para nós não parece fazer sentido buscar superar o sofrimento através da magia e do ideal, de fabulação ou da ajuda do sobrenatural, mas buscar na própria vida outras perspectivas de encará-lo, para ser forte e ultrapassá-lo, desenvolvendo a partir dele, de certo modo, nossa própria força.

No caso de Nobundo, a conversa com o vento, com a água, com o fogo, não foi nada mais do que a conversa com a própria consciência, a volta para si mesmo, a reflexão. Os elementos respondem sem imposição, apenas se julgam coerentes e justas as vontades do shaman. Trata-se de uma racionalidade e uma ligação lógica entre o indivíduo e sua própria consciência. Há necessidade, na medida do possível, de buscar as razões e justificativas para as situações com quais deparamos, assim como buscar mais perspectivas para lidar com elas.

Essas perspectivas, na história de Nobundo, foram potencializadas pela relação dos elementos com os próprios shamans. Os elementos aparecem como uma forma de lidar com o sofrimento. A água representa a clareza e a paciência, o fogo a paixão e a apreciação da vida, a terra a determinação e o vento a persistência e a coragem de ousar e prosseguir diante das adversidades. É essa “filosofia” que sustenta a tentativa de salvar o povo draenei da situação em que se encontravam em Zangarmarsh. Mas, para isso, Nobundo precisou aceitar o sofrimento, precisou buscar ultrapassá-lo e não o negar por completo.

A nossa sociedade, por outro lado, chegou ao ponto em que o sofrimento se tornou um tabu, uma espécie de grande mal a ser evitado. Dor de cabeça? Dipirona. Estresse? Passiflora. Tristeza? Fluoxetina. Problemas na universidade ou no trabalho? Piracetam. Tornamo-nos zumbis e carcaças ambulantes sem consciência, assim como os krokul que não buscam refletir. Não há mais a volta para si mesmo, para buscar entender as razões para o sofrimento, buscar perspectivas para lidar com ele. Uma consequência disso são os altíssimos índices de suicídio e de outros problemas psicossociais, como Korin, por exemplo, que decidiu tirar a própria vida. Está claro que não faz parte da lógica do nosso tempo encarar o sofrimento como algo imanente à condição humana, cuja existência proporciona um amadurecimento necessário para o desenvolvimento do indivíduo.

Isso não significa que o sofrimento seja um bem, no sentido cristianizado pelo qual o sofrimento é transformado em um passaporte de entrada para o reino dos céus: essa vida pouco importa, e, na verdade, se importa algo, é apenas como a possibilidade de ingressar no Reino; ela não tem valor em si mesma, já que se trata apenas de uma espécie de penitência para o pecado original. Não me refiro a isso: falo do sofrimento como correlato à própria angústia da existência humana no aqui e no agora, em olhar para a vida como ela é, tendo em vista a terra, não os céus.

De certo modo, parece que uma das razões para a situação de ver o sofrimento como um mal a ser evitado a qualquer custo está na mentalidade do sucesso e da produtividade, a qual faz com que o sofrimento seja visto como característica do perdedor. Na medida em que a idealização de pessoas bem-sucedidas, como cantores e atrizes, empresários e grandes publicitários, atesta a condição de ‘felizes’ desses mesmos indivíduos, o mortal, aquele que não está inserido nesse mundo do glamour, aspirará a essa vida na plena felicidade, sem qualquer espaço para o fracasso e a tristeza. Ora, nas fotos de jornais e revistas eles aparecem sempre sorrindo, então eles são felizes o tempo todo! Se eu quero ser bem-sucedido como eles, preciso evitar o sofrimento e a infelicidade!

Apesar disso, o ideal está bem distante do real. Esses indivíduos, apesar de sua condição, também sofrem. É na consciência do sofrimento como condição inevitável e, de certo modo, necessária para o amadurecimento que há a possibilidade de ultrapassá-lo. Nobundo demonstra isso, na medida em que a conversa com a água mostrou que ela, enquanto água, por adaptar-se a qualquer recipiente e local, adquirindo qualquer forma, é a menos afetada por mudanças e turbulências, por conseguinte, pelo sofrimento. Não se trata de aspirar um ideal ou negar por completo o sofrimento, de modo a buscar uma felicidade perene e imutável, mas de se adaptar à constante mudança e, portanto, aprender a sofrer.

Foi no momento em que Nobundo percebeu que ele não precisava aspirar ao ideal que regia sua vida, como a Luz, ou ao ideal de se tornar novamente um draenei, mas sim aprendeu aceitar a vida como ela é, de modo a fazer de seu sofrimento sua força, é que ele conseguiu ultrapassá-lo e viver de acordo com sua vontade, demonstrando para os draenei que eles eram iguais enquanto indivíduos, apenas diferentes fisicamente.

Parece um pouco difícil para nós encarar a vida como uma constante mudança e, portanto, sempre sujeita ao sofrimento, na medida em que a nossa maneira de pensar, fundamentada no pensamento ocidental, judaico-cristão, grego e europeu, aspira o perene a qualquer custo, a imortalidade, a perfeição, o paraíso, o espiritual, e assim por diante. Apesar disso, como Nobundo, ao perceber que através dos diversos mundos, no universo tão vasto e infinito, existia algo que proporcionava sua existência, a saber, a vida, poderíamos perceber que toda essa maneira de pensar, na verdade, nos tira da vida, do aqui e do agora, da terra, do nosso bem mais precioso.

Isso não significa que não vamos sofrer, já que o sofrimento faz parte da vida; ele é inevitável devido às constantes mudanças e transformações que caracterizam a própria vida. É a maneira de lidar com ele, as perspectivas de enxergá-lo, somadas a entender que a única coisa que persiste é a própria jornada, as mudanças e transformações, que nos permite ter liberdade para lidar, na medida do possível, de forma positiva com o sofrimento: aprender a sofrer e, portanto, aprender a viver: um aprendizado sempre constante.

Apesar de não sermos draenei, muitas vezes nos sentimos krokul, quebrados, deixados de lado, dado que passamos por momentos de sofrimento e rejeição. É a maneira com a qual lidamos com o sofrimento que nos torna shamans, que nos possibilita usar a clareza e adaptabilidade da água, a paixão pela vida do fogo, a determinação da terra e a persistência do vento de encarar a vida como ela é. Isso é ser unbroken: aprender a sofrer. Ser shaman é perceber que viver é estar em constante mudança e sempre sujeitos ao sofrimento; negá-lo é negar a própria vida e, portanto, precisamos aprender a sofrer para aprender a viver. Para isso, precisamos voltar o pensamento para nós mesmo e enxergar a em nossas próprias experiências a relação de interdependência com o mundo e com a sempre constante mudança, algo imanente a todas as coisas: a vida.

Afinal, como o vento diria, “everything that is, is alive”.

Revisado em junho de 2018. 

 

Indicações de leitura:

NEILSON, Micky. Unbroken. Blizzard Entertainment, 2006.

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