Unbroken e a filosofia

ATENÇÃO: este artigo contém informações reveladoras sobre o enredo de “Unbroken”.

Artigo publicado na edição Nº74, de setembro de 2016, Fantasia Fantástica e Filosofia, da Revista Pandora Brasil, ISSN 2175-3318.

 

Na primeira análise da série de Warcraft, Rise of the Horde e a Filosofia, pudemos entender, através do início do desenvolvimento do enredo desta série, a relação entre os draenei, a Burning Legion, os orcs e Azeroth, assim como analisar filosoficamente as relações entre a democracia e a autonomia de pensamento e suas implicações políticas e morais. No que diz respeito ao enredo, contudo, a história terminou inconclusiva, na medida em que se tratava apenas do primeiro romance de uma série de mais de 40 histórias.

Micky Neilson escreveu a continuação de Rise of the Horde, na forma de uma história angustiante e reveladora, campo fértil para a reflexão filosófica: Unbroken. Essa história parte da continuação do ponto central da anterior, quando a Orcish Horde, após destruir todas as cidades e refúgios dos draenei e utilizar o sangue de Mannoroth como propulsor para aumentar sua força consideravelmente, converge suas forças para Shattrath City, a capital dos draenei. O romance de Christie Golden, narrado sobretudo pelo ponto de vista dos orcs, não apresenta os acontecimentos concernentes à batalha de Shattrath City, à destruição dos draenei, a seu futuro e ao desfecho desse ciclo. É Unbroken que estabelecerá a ligação entre as histórias e cronologicamente tece um elo no enredo de Warcraft de Rise of the Horde até Night of the Dragon.

Nessa história, o sofrimento aparece como ponto central para a reflexão e a ação do personagem principal, Nobundo. Unbroken pode proporcionar-nos os ingredientes para analisarmos a maneira pela qual lidamos com o sofrimento, com a pressão social e com os desafios frente ao fracasso na contemporaneidade. Antes de analisá-la, precisamos conhecer a história e entender a maneira pela qual o sofrimento se articula com o desenvolvimento desse personagem.

O estilo de narrativa in medias res, cujo sentido cronológico apresenta-se como partindo ‘do meio’ da história, de uma dramatização a priori em andamento, explicita os acontecimentos da batalha de Shattrath City e a situação dos draenei em Draenor nos anos que se seguiram à perseguição e à quase aniquilação de sua raça pelas mãos da Orcish Horde. Devido à característica anacrônica do estilo literário utilizado nesta história, toda a narrativa é desenvolvida em analepse, com uma volta para o passado para explicitar os acontecimentos até o ponto em que Nobundo, um exvindicator e defensor do povo draenei, luta contra o ostracismo imposto a ele e a seus iguais, por conta da paranoia dos draenei.

A história começa com Nobundo, anos após a destruição de Shattrath City e da evasão de grande parte dos orcs de Draenor. Ele é descrito como uma espécie de draenei profundamente castigado pela debilitação física, um tipo de ancião que se locomove apoiado em uma bengala. Ele está dirigindo-se à cidade de Telredor, em Zangarmarsh, refúgio oculto dos draenei nas regiões pantanosas e secretas de Draenor. Enquanto desloca-se com dificuldade através dos pântanos para a reunião convocada por ele em Telredor, para revelar sua epifania, Nobundo reflete que ele e seus iguais são considerados como Krokul, ou “quebrados”, na língua dos draenei. Como será que um indivíduo com dons tão favoráveis pela Luz — potência e energia sagrada, natureza dos naaru, seres que salvaram os draenei de Argus e os protegeram ao longo dos séculos — pode ter decaído tanto, ao ponto de se tornar um quebrado? Essas são as reflexões de Nobundo frente à sua situação.

Eis que, ao chegar em Telredor, a narrativa retorna ao passado, na iminência da batalha de Shattrath City, com Nobundo sendo um dos Vindicators, guerreiros sagrados protetores dos draenei, paladinos que se utilizam da Luz para proteger os inocentes e lutar contra as forças demoníacas. Nesse momento na história, os draenei aguardam solenemente, do lado de dentro das muralhas de Shattrath City, o momento em que as massas demoníacas da Orcish Horde destruíssem a sua cidade. Nesse ponto na história, por utilizar-se do sangue do demônio Mannoroth, os orcs tornam-se escravos dos demônios da Burning Legion, sedentos por sangue e violência. Eles são apenas criaturas monstruosas, sem estratégia, que se importam apenas com o derramamento de sangue, prontos para destruir a última cidade dos draenei.

Nobundo e os outros Vindicators aguardam solenemente porque fazem parte de um plano maior: Velen, o líder dos draenei, profeta e protetor de sua raça, previu que não haveria salvação e força suficiente para conter os orcs em Shattrath City. Portanto a única maneira de salvar o futuro dos draenei seria forjar a extinção da raça na batalha de Shattrath City. A esmagadora maioria da população, dos protetores, mulheres e crianças, foram deixados para serem assassinados pelos orcs, para que a Orcish Horde não suspeitasse que, na verdade, Velen e alguns escolhidos partiram para o vale pantanoso secreto de Zangarmarsh, para levar adiante a raça dos draenei.

Como um verdadeiro paladino e protetor da Holy Light, Nobundo posta-se como devoto defensor, guerreiro sagrado dos draenei, pronto para sacrificar-se em nome da Holy Light e do Bem. Ele era um paladino forte e muito bem treinado, corpulento e vigoroso, armado com seu martelo de guerra e seu fanatismo. Seu sacrifício e sua defesa seriam por uma causa boa e nobre, deste modo lhe garantindo o descanso quando seu espírito se unisse à Holy Light. Do mesmo modo, seus companheiros defensores estavam dispostos a defender sua cidade e seu povo, sacrificando-se por um bem maior.

Não demorou muito para os orcs, com seu vasto exército e seu amplo aparato bélico, com tambores e tochas para amedrontarem seus inimigos, derrubarem as paredes externas com suas catapultas e magia demoníaca. Os draenei, por outro lado, em clara desvantagem, buscam proteger-se com o poder de seus Vindicators. Nobundo chama pelo auxílio da Holy Light, que responde a seu chamado e envia sua potência aos draenei. Apesar disso, enquanto os paladinos tentam inspirar os combatentes de Shattrath City, a Orcish Horde derruba o portão principal e efetivamente invade a cidade. Eles usam necromancia e escuridão para combater os poderes da Holy Light.

Em pouco tempo, as forças defensoras de Shattrath City são rapidamente aniquiladas pelos orcs demoníacos, de olhos vermelhos, possuídos pela fúria e descontrolados pelo prazer da carnificina. Nobundo não desiste, e enfrenta os orcs em combate corpo-a-corpo. Apesar de forte e grandemente superior aos orcs em combate, ele é surpreendido pela magia de seus inimigos. Os warlocks, bruxos demoníacos das trevas, conjuram uma névoa vermelha que torna os draenei fracos e doentes. Nobundo é pego de surpresa por essa névoa, e, ao tentar combater um dos orcs, é alvo de magias demoníacas excruciantes. Ele tenta chamar pelo poder da Luz e, para sua surpresa, pela primeira vez a Holy Light não o responde e ele é inevitavelmente abatido.

Nobundo acorda horas depois, perdido. Ele caíra da muralha sobre a qual defendia Shattrath, derrubado pelo orc demoníaco, e fora soterrado nos escombros da plataforma. Ao despertar, ele sente-se sozinho e abandonado, confuso e com medo, já que fora deixado pela Luz. Ele tenta concentrar-se e novamente chama pela Holy Light, mas não obtém resposta. Abatido e grandemente lesionado, Nobundo pergunta-se se isso, por acaso, seria algum castigo. Será que, apesar de ter vivido uma vida justa, ele estaria sendo castigado?

Sem a ajuda da Luz, Nobundo teve que suportar a dor e o sofrimento, sem poder cessá-los com o poder mágico da Holy Light. Ele encontra seu martelo de guerra e utiliza-o para abrir passagem e sair dos escombros em que se encontrava. Do lado de fora, com ar puro invadindo seus pulmões, o defensor percebe que horas passaram desde o início da invasão. Shattrath City, contudo, ainda está sendo devastada. Ele escuta os gritos de terror a distância. Ao ajustar sua visão e olhar para o que o cercava, Nobundo viu uma cidade coberta por corpos de draenei esquartejados, com mulheres e crianças juntos aos defensores.

Inconformado, Nobundo clama pela Holy Light, desesperado para ajudar e salvar os inocentes, cujos gritos, sobretudo de mulheres, clamam por ajuda. Nobundo continua inutilizado, com parte de seu corpo quebrado, e sem resposta. Ele então decide não se sacrificar e perecer de forma sem sentido, quebrado e sem poder lutar. Pelo contrário, Nobundo decide escapar, para um dia servir a algum propósito maior. Ao aproveitar-se de uma brecha na destruição, o defensor deixa Shattrath City, mas sucumbe por conta da dor.

Ele acorda dias depois, sendo tratado por Rolc, outro draenei, em uma caverna. Ele passara dias desacordado, em Zangarmarsh, no local onde os draenei se esconderam. Esse pântano escondido, repleto de cogumelos gigantes e vida natural, é um refúgio perfeito para o povo do profeta Velen. No acampamento em que se encontrava, Nobundo percebe que os sobreviventes não aparentam apenas estarem fisicamente lesionados: eles estão, principalmente, quebrados em espírito. Em uma conversa nos dias que se seguiram, Nobundo descobre que os outros sobreviventes também foram submetidos à névoa demoníaca vermelha dos orcs.

Estações passaram, e Nobundo percebe que sua memória começa a falhar bastante. Velen visita o campo e conversa com os draenei. O refúgio e esconderijo do líder dos draenei é secreto até mesmo aos níveis mais altos da sociedade, para que o local jamais seja revelado, caso os orcs aprisionem e torturem-nos em busca de seu profeta. Ele revela que, apesar de os orcs insistentemente procurarem os draenei e abaterem alguns que encontram esporadicamente, essa ameaça tem diminuído. Nos últimos meses, os orcs estavam demasiadamente ocupados, construindo uma espécie de portal.

Nobundo finalmente percebe que os sobreviventes estão fisicamente se transformando, decaindo e tornando-se inferiores. Ele sente que há algo de errado com todas essas transformações e suas condições após a batalha. Nobundo continua tentando contatar a Luz, negando sua atual condição. Apesar disso, não há resposta.

No momento em que outros draenei informam-lhe que o Dark Portal estava terminado e que os orcs o atravessaram, deixando Draenor para invadir outro mundo, Nobundo presencia o processo final de decadência dos sobreviventes de Shattrath City. Ele testemunha a transformação final de Korin, uma das sobreviventes, através da qual ela deixa de ser uma draenei e transforma-se em uma versão quebrada e decadente de um draenei.

Nobundo é informado que transformações similares estão acontecendo aos sobreviventes da batalha de Shattrath City nos outros campos. Os draenei estão ficando paranoicos, com medo de que essas transformações afetem os outros. Ele e os outros sobreviventes são chamados para serem informados de que eles não podem mais ficar com os draenei. Todos ficam abismados. Eles não aceitam serem banidos por conta de sua condição. Porém os draenei argumentam que eles não sabem se essa condição é contagiosa, além de já terem feito de tudo e mesmo assim não podiam curá-la: os draenei não podem pagar esse preço que custaria a sobrevivência da espécie.

Krokul, quebrados. Nobundo e seus iguais são exilados e ficam em um ostracismo radical. Eles tornam-se indivíduos tristes, sofrendo diariamente, por não poderem mais ser o que eram antes, sem poderem ser o que queriam ser. É o sofrimento e a dor de indivíduos que anteriormente foram abençoados pela Holy Light, sem saberem o que era sofrer. Sua degradação física chega a níveis alarmantes, e alguns deles se tornam zumbis, carcaças sem consciência, que perambulam até se perderem, para nunca mais voltarem. Ainda assim, Nobundo continua tentando estabelecer contato com a Luz, sem sucesso. Korin revela a Nobundo que aparentemente os orcs estão reunidos novamente, seguindo um warlock poderoso — Ner’zhul. Como consequência dos atos de Ner’zhul após a Segunda Guerra, Draenor é desmantelada, na medida em que o warlock tentara abrir centenas de portais para outros mundos, sobrecarregando a energia do planeta. O local em que os draenei e os krokul encontravam-se não é obliterado, mas boa parte do planeta se foi com Ner’zhul.

Desde que escapara de Shattrath City, Nobundo tem sonhos com os gritos das mulheres clamando por socorro. Em seus pesadelos, Nobundo estava do lado de fora de Shattrath City, batendo contra os portões fechados enquanto escutava os gritos de pessoas morrendo. Ele batia até suas mãos sangrarem; do lado de dentro, mulheres e crianças eram assassinadas. Durante um dos pesadelos, algo diferente ocorre: Nobundo consegue entrar na cidade e encontra-a vazia, sem corpos, em meio a uma tempestade. No local onde ele se encontra, há apenas uma fogueira. Os corpos das mulheres voltam e avançam lentamente contra ele, culpando-o com o olhar. Imobilizado no sonho, Nobundo fica sem defesa. Ele acorda assustado, sem energia, e decide tomar um ar para sentir-se melhor. Do lado de fora de sua cabana, Nobundo descobre que Korin partira para se matar. Ele tenta evitar que ela se mate, mas falha e entra em desespero. Em meio ao desespero, ele escuta vozes. Depois de todos esses anos pedindo ajuda, finalmente Nobundo recebeu uma resposta: não da Luz, mas do vento: “tudo o que é, é vivo”.

Nobundo descobre que o vento está estabelecendo contato, o mesmo vento que proporcionava poder aos orcs shamans, espécies de xamãs que se utilizavam das forças dos elementos da natureza. Por ser um draenei, Nobundo ignorava essas práticas, não conhecendo nada sobre elas. Após alguns dias comunicando-se com o vento, ele recebe a visita do fogo e é ordenado a partir para Nagrand, para iniciar sua jornada como shaman. O krokul argumenta que, para chegar a Nagrand, ele teria que passar pelos campos dos draenei, onde ele não era mais bem-vindo. O fogo responde a ele com fervor, “Não questione a oportunidade que está sendo dada a você!”.

A caminho de Nagrand, ao conversar com o vento, Nobundo descobre que os orcs shamans comunicavam-se com os elementos, mas sua conexão fora cortada quando os orcs se voltaram para praticar magias demoníacas. Por fim, ele chega no campo, mas é questionado pelos draenei e impedido de atravessar. Ao ser atacado pelos guardas, para a surpresa de Nobundo, o vento lança-os para longe. Ele atravessa calmamente, deixando todos chocados e confusos, partindo para Nagrand.

Nobundo procedeu sua jornada cansado e desgastado, porém sempre ajudado pelos elementos, sendo empurrado pelo vento e recebendo força da terra e provisões da água na forma de chuva. Em meio à ansiedade de comunicarem-se novamente com um shaman, os elementos atordoam Nobundo, que os ordena para pararem de se agitar em seu pensamento. Ao conectar-se aos elementos, Nobundo sente-se parte do ambiente e sente o ambiente tornando-se parte dele.

Dessa vez, quem se comunica com ele é o elemento que foi menos afetado pela destruição de Draenor. Esse elemento sempre é o menos afetado, porque ele se adapta rápido: a água. Nobundo conversa com a água, e ela diz a ele que levará anos para ele ter todo o conhecimento necessário para entender plenamente os elementos. Mesmo assim, ele deve começar a jornada do shaman. Os elementos escolheram-no porque a destruição em Draenor os deixaram perdidos e eles encontraram nele um espírito bom, apenas confuso e negligenciado. Nobundo sente-se assustado e pondera se valeria a pena aceitar o risco de nunca mais receber a bênção da Luz. Eis que a água explica que a relação entre os shamans e os elementos é de sincronia: a influência dos shamans ajuda a acalmar e unir os elementos, na mesma medida em que a influência dos elementos enriquece e completa o shaman. Deste modo, os elementos respondem ao chamado dos shamans, nunca ordens, ajudando-os de qualquer modo possível, se eles considerarem justas as causas do shaman.

Mesmo sabendo que levaria anos para compreender tudo verdadeiramente, Nobundo ganhou o conhecimento das energias vitais ao seu redor. Das maiores criaturas ao mais insignificante grão de areia, ele tornou-se consciente de que tudo, enquanto existente, está vivo, com energia vital. Essa energia ligava tudo e tornava todas as coisas interdependentes. Desse modo, o ambiente era parte dele e ele era parte do ambiente.

Os elementos mantiveram sua promessa, dando a ele aspectos de sua natureza: da água ele ganhou clareza e paciência; do fogo ele ganhou paixão, uma renovada apreciação da vida, desejando superar qualquer obstáculo; da terra ele ganhou determinação inabalável, uma potência de aço; do vento ele recebeu coragem e persistência, aprendendo a se jogar e prosseguir face às adversidades. Apesar disso, ele sentiu que os elementos ainda estavam guardando algo dele. Ele ainda tinha seus sonhos, mesmo podendo se comunicar com os elementos durante eles. Em um deles, ele conversara com a água, que dissera que ele estava em conflito. Esse conflito não diz respeito aos espíritos dos que partiram, dissera-lhe a água, mas a ele mesmo.

O conflito cessa quando se entende que o equilíbrio frente ao caos das transformações e frente às mudanças, o perene e essencial, está em entender que a jornada através dessas mudanças nunca termina. Neste momento, ao perceber isso, Nobundo desprendeu-se do conflito que estava barrando seu grande potencial como shaman. Ele pôde ser transportado e visualizar a escuridão do vazio infinito em que todos os mundos se encontravam. Nobundo percebeu que os incontáveis mundos têm seus próprios elementos, cujo conhecimento estabelece o equilíbrio de perceber que há uma constante mudança e conflito na jornada sem fim que é a vida. Por fim, Nobundo percebe que nesse vazio infinito, por detrás desses incontáveis mundos e seus elementos, há um elemento que proporciona unidade e mantém todos os outros sendo o que são: a vida. Essa é a epifania de Nobundo.

Eis que a história volta para o presente, com Nobundo em Telredor, de frente para uma multidão, pronto para revelar para os draenei a esperança de seu futuro e salvação. Entretanto, ele é ridicularizado e hostilizado. Humilhado, Nobundo decide deixar Telredor. Ele estava partindo do encontro quando depara com Velen. O profeta questiona-o, perguntando se ele iria desistir, depois de tudo o que ele fez e depois de tudo pelo que passou. Nobundo argumenta que ninguém o escuta, e Velen indica que o problema, talvez, esteja com Nobundo, não com os outros. Ele diz que Nobundo ainda está com o peso das mortes em Shattrath, indeciso quanto às suas próprias ações, em dúvida se agira bem e se fora um covarde ou não. Entretanto, ele diz que parte de Nobundo sabia que ele deveria sobreviver, para abraçar um destino maior. Mesmo passando por muito sofrimento desde então, Nobundo nunca desistiu. Todos chamam-no de Krokul, de Broken, de quebrado, mas, na verdade, ele é a maior esperança para os draenei. Nobundo finalmente estava livre desse fardo, já que agora podia ver claramente que fizera a coisa certa ao abandonar Shattrath City para sobreviver.

Ele volta-se para a multidão e então finalmente fala, com a voz retumbando através do ar, com o vento levando-a a todos, com a força dos elementos, fazendo todos se espantarem em temor e admiração. Nobundo diz a todos que eles devem seguir os caminhos dos shamans, para evitar que jamais nenhuma atrocidade aconteça aos draenei. Eles devem andar juntos, lado a lado, Krokul e draenei, para realizar o sonho que há muito tempo fora esquecido pelo seu povo: verdadeira liberdade. Todos finalmente decidem aceitar Nobundo, e ele enuncia a todos que a jornada começa com as simples palavras: “tudo o que é, é vivo”.

A partir dessa história, podemos perceber o papel do sofrimento no futuro dos draenei, e a importância da tomada de consciência de Nobundo frente a sua própria condição. A volta para si mesmo, para o mundo que o cerca, para sua própria condição natural, levou-o à tomada de consciência. É a maneira de encarar o sofrimento e a dor que, de certo modo, o fez forte. Do mesmo modo, para nós não parece fazer sentido buscar superar o sofrimento através da magia e do ideal, de fabulação ou da ajuda do sobrenatural, mas buscar na própria vida outras perspectivas de encará-lo, para ser forte e ultrapassá-lo, desenvolvendo a partir dele, de certo modo, a própria força.

No caso de Nobundo, a conversa com o vento, com a água, com o fogo, não é nada mais do que a conversa com a própria consciência, a volta para si mesmo, a reflexão. Os elementos respondem sem imposição, apenas se julgam coerentes e justas as vontades do shaman. Trata-se de uma racionalidade e uma ligação lógica entre o indivíduo e sua própria consciência. Há necessidade, na medida do possível, de buscar as razões e as causas das situações pelas quais deparamos, assim como buscar mais perspectivas para lidar com elas.

Essas perspectivas, na história de Nobundo, são potencializadas pela relação dos elementos com os próprios shamans. Os elementos aparecem como a forma de lidar com o sofrimento. A água representando a clareza e a paciência, o fogo a paixão e a apreciação da vida, a terra a determinação e o vento a persistência e a coragem de se jogar e prosseguir face às adversidades. É essa “filosofia” que sustenta a tentativa de salvar o povo draenei da situação em que se encontravam em Zangarmarsh. Mas, para isso, Nobundo precisou aceitar o sofrimento, precisou buscar ultrapassá-lo e não o deletar por completo.

A nossa sociedade, por outro lado, chegou ao ponto em que o sofrimento se tornou um tabu, uma espécie de grande mal a ser evitado. Dor de cabeça? Dipirona. Estresse? Passiflora. Tristeza? Fluoxetina. Problemas na universidade ou no trabalho? Piracetam. Tornamo-nos zumbis e carcaças ambulantes sem consciência, assim como os krokul que não buscam refletir. Não há mais a volta para si mesmo, para buscar entender as razões para o sofrimento, buscar perspectivas para lidar com ele. Uma consequência disso são os altíssimos índices de suicídio e de outros problemas psicossociais, como Korin, por exemplo, que decidiu tirar a própria vida. Está claro que não faz parte da lógica do nosso tempo encarar o sofrimento como algo imanente à condição humana, cuja existência proporciona um amadurecimento necessário para o desenvolvimento do indivíduo.

Isso não significa que o sofrimento seja um bem, no sentido cristianizado pelo qual o sofrimento foi transformado em um passaporte de entrada para o reino dos céus: essa vida pouco importa, e, na verdade, se importa algo, é apenas a possibilidade de ingressar no Reino. Ela não tem valor em si mesma, já que se trata apenas de uma espécie de penitência para o pecado original. Por outro lado, refiro-me ao sofrimento como correlato à própria angústia da existência humana no aqui e no agora, em olhar para a vida como ela é, tendo em vista a terra, não os céus.

De certo modo, parece que uma das razões para a situação de ver o sofrimento como um mal a ser evitado a qualquer custo está na mentalidade do sucesso e da produtividade, as quais fazem com que o sofrimento seja visto como característica do perdedor. Na medida em que a idealização de pessoas bem-sucedidas, como cantores e atrizes, empresários e grandes publicitários, atesta a condição de ‘felizes’ desses mesmos indivíduos, o mortal, aquele que não está inserido nesse mundo do glamour, aspirará a essa vida na plena felicidade, sem qualquer espaço para o fracasso e a tristeza. Ora, nas fotos de jornais e revistas eles aparecem sempre sorrindo, então eles são felizes o tempo todo! Se eu quero ser bem-sucedido como eles, preciso evitar o sofrimento, a infelicidade!

Apesar disso, o ideal está bem distante do real. Esses indivíduos, apesar de sua condição, também sofrem. É na consciência do sofrimento como condição inevitável e, de certo modo, necessária para o amadurecimento que há a possibilidade de ultrapassá-lo. Nobundo novamente demonstra essa situação, na medida em que a conversa com a água mostra que ela, enquanto água, por adaptar-se a qualquer recipiente e local, adquirindo qualquer forma, é a menos afetada por mudanças pelo sofrimento. Não se trata de aspirar um ideal, algo perene e imutável, mas de se adaptar à constante mudança.

Foi no momento em que Nobundo percebeu que ele não precisava aspirar ao ideal que regia sua vida, como a Holy Light, ou ao ideal de se tornar novamente um draenei, mas sim decidiu aceitar a vida como ela é, fazendo seu sofrimento sua força, é que ele conseguiu ultrapassá-lo e viver de acordo com sua vontade, demonstrando para os draenei que eles eram iguais enquanto indivíduos, apenas diferentes fisicamente.

Parece um pouco difícil para nós encarar a vida como uma constante mudança, na medida em que a nossa maneira de pensar, fundamentada no pensamento ocidental, judaico-cristão, grego e europeu, aspira o perene a qualquer custo, a imortalidade, a perfeição, o paraíso, o espiritual, e assim por diante. Apesar disso, como Nobundo, ao perceber que através dos diversos mundos, no universo tão vasto e infinito, existia algo que proporcionava sua existência, a saber, a vida, poderíamos perceber que toda essa maneira de pensar, na verdade, nos tira da vida, do aqui e do agora, da terra, do nosso bem mais precioso.

Isso não significa que não vamos sofrer, já que o sofrimento faz parte da vida; ele é inevitável devido às constantes mudanças e transformações que caracterizam a própria vida. É a maneira de lidar com ele, as perspectivas de enxergá-lo, somadas a entender que a única coisa que persiste é a própria jornada, as mudanças e transformações, que nos permite ter liberdade para lidar, na medida do possível, de forma positiva com o sofrimento.

Apesar de não sermos draenei, muitas vezes nos sentimos krokul, quebrados, deixados de lado, dado que passamos por momentos de sofrimento e rejeição. É a maneira pela qual lidamos com o sofrimento que nos torna shamans, que nos possibilita usar a clareza e adaptabilidade da água, a paixão pela vida do fogo, a determinação da terra e a persistência do vento de encarar a vida como ela é. Isso é ser unbroken. Ser shaman é perceber que a vida está em constante mudança, é voltar o pensamento para si mesmo e enxergar a sua própria relação de interdependência com o mundo e com todas as coisas, afinal, como o vento diria, “everything that is, is alive”.

 

Indicações de leitura:

NEILSON, Micky. Unbroken. Blizzard Entertainment, 2006.

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