A menina que roubava livros e a filosofia

ATENÇÃO: este artigo contém informações reveladoras sobre o enredo de “A menina que roubava livros”.

 

Trágico. Para resumir A menina que roubava livros em uma palavra, repito: trágico. Por gosto pessoal, busco afastar-me da fantasia realista. Parece que um grande número desse tipo de literatura busca demonstrar a realidade da vida por seu lado trágico. Aristófanes conseguiu, através de suas comédias, demonstrar a realidade de uma Atenas decadente e gradualmente corrompida. Mas parece que a fantasia realista contemporânea demonstra — ou o meu limitado contato com ela atesta — preferir Ésquilo, Sófocles e Eurípedes…

Pouco importa o meu gosto pessoal. A grande riqueza e a qualidade indelével dessa literatura proporcionam a nós, leitores e amantes da escrita, uma alteridade à altura da realidade em que vivemos. Se não são crônicas ou relatos historiográficos, essas obras de arte da fantasia são enaltecidas por representarem a realidade tal como ela é. O romance de Markus Zusak não poderia ser diferente.

A riqueza literária e a estrutura desse romance, a princípio aparentemente “mais um” entre o mundaréu de livros que a produção em nosso tempo nos proporciona, surpreende o leitor mais atento. O estilo de escrita — simples e direto, sem metáforas e metonímias que confundem o leitor e tornam a obra obscura e inacessível — é fundamentado em técnicas de escrita quase tão antigas quanto a própria escrita em prosa. De certo modo, essa estrutura nos remete para o mundo grego antigo, para a mesma Atenas de Aristófanes e dos trágicos, especialmente para as obras de outro grego, aquele ateniense que por acaso deu início à filosofia.

Antes de começar a análise, preciso apontar para um aspecto importante: um romance tão rico estruturalmente, tão bem escrito e tão fértil em sua temática abre margem para perspectivas incontáveis de análise. Há a possibilidade de levar a efeito diversas abordagens desta obra, como análises sociológicas, psicológicas, historiográficas, antropológicas, e assim por diante. Das reflexões filosóficas que podem ser feitas a partir dessa obra, poderíamos passar uma vida escrevendo. Portanto escolho uma das inúmeras possíveis abordagens filosóficas para este livro.

Escolhi essa perspectiva de análise porque a julguei como a que mais poderia se alinhar ao ponto central do livro, à estrutura mais clara e evidente apesentada pelo autor. Apesar de saber que inegavelmente há infindáveis perspectivas adjacentes a essa, potencialmente não menos importantes, não menos válidas e coerentes, decidi por escolher a que parece mais se alinhar à estrutura do romance. Então vamos à história!

Devido ao estilo da narrativa, A menina que roubava livros foi um livrinho preto, escrito no porão do número 33 da rua Himmel, entre agosto e outubro de 1943, por Liesel Meminger, uma garotinha de 13 anos. Para nós, quem narra a história é a própria Morte, já que é ela quem tem a posse do livrinho preto de Liesel Meminger.

Liesel e seu irmão seriam adotados pelos Hubermann, do número 33 da rua Himmel, em Munique. Apesar de estarem em uma cidade considerável, a rua Himmel encontrava-se em um bairro pobre. Na viagem de trem a Munique, Liesel presencia seu irmão falecer por complicações respiratórias.

Ao chegar a seu destino, Liesel torna-se membro da família dos Hubermann. Naquela casa, ao longo do romance, a princípio, moram Rosa e Hans Hubermann, ou “papai” e “mamãe”, como eram chamados pela garotinha. Mamãe sempre teve “punhos de ferro”; por outro lado, papai sempre foi seu grande amigo. Ensinara Liesel a ler, com todo o carinho, desde as primeiras letras até ela se tornar uma escritora de verdade, sempre a incentivando, ao presenteá-la com livros — trocados por cigarros, dado à sua condição de pobreza — e fazer vista grossa a seus roubos de livros.

Como consequência desse novo aprendizado, Liesel pôde escrever cartas para sua verdadeira mãe. Entretanto, após tentativas frustradas, sem resposta, em meio à adaptação e ao carinho recebido no número 33 da rua Himmel, Liesel desistiu de contatar sua verdadeira mãe e passou a sentir-se em casa, com seu papai e sua mamãe.

Em seu novo lar, Liesel precisou ajudar sua nova mãe, assim como ingressar na escola. Ela andava por Munique a serviço de Rosa Hubermann, coletando as roupas que a entregavam para os serviços de sua mãe. Rosa era lavadeira. Em meio a essa nova rotina, Liesel fez amigos na rua Himmel. Dentre eles, o principal era Rudy Steiner, um garoto de cabelos amarelos que adorava correr, sonhando ser um “Jesse Owens” — corredor olímpico americano —, além de sempre encontrar uma oportunidade para requisitar um beijo a Liesel. Talvez, por isso mesmo, eles tornam-se grandes amigos, dividindo aventuras pelos anos que se passaram, sobretudo na arte dos subterfúgios do roubo. Eles iniciaram sua empresa nessa arte com maçãs e comida, mas logo se tornaram grandes parceiros nos roubos de livros: especialidade de Liesel.

Sua reputação de “roubadora de livros” iniciou-se em uma comemoração na cidade, quando, em nome de Hitler, fizeram uma celebração, com uma enorme fogueira. Para mantê-la acesa, os organizadores queimaram diversos livros. A garotinha logo percebe um livro próximo à fogueira. Ao pegá-lo, Liesel não fora notada, a não ser por Ilsa Hermann, mulher do prefeito. Apesar de notar o que sua filha fizera, Hans Hubermann não a repreendeu, uma vez que incentivava a jovem garotinha em suas leituras. Um de seus filhos queixara-se do teor das leituras de Liesel, insistindo que a garota deveria ler algo mais alinhado aos interesses alemães. Foi quando Hans lembrou-se do Mein Kampf, livro apologista de Adolf Hitler.

Nesse instante, Hans teve um insight: lembrou-se da situação do filho de um amigo seu, e resolveu enviar ajuda, requisitando-o a viajar para sua casa para instalar-se na segurança de seu lar; essa ajuda seria feita através do envio de uma versão do Mein Kampf, com uma chave de sua própria casa escondida dentro do livro.

Max Vandenburg, filho do amigo de Hans Hubermann, na verdade, não era uma pessoa qualquer precisando de ajuda. Tratava-se de um alemão em uma situação complicadíssima na Alemanha daquele período: era um judeu. Ainda assim, era filho de um ex-companheiro de batalha de Hans na Primeira Guerra, cuja relação com Hans — e morte — levou o papai de Liesel a prometer à esposa de seu amigo, no momento em que percebera que seu amigo deixara um bebê de colo para ela criar sozinha, que, caso precisasse de qualquer ajuda no futuro, Hans certamente os ajudaria.

O judeu chega ao número 33, exausto e desgastado pela situação em que se encontrava (cativo, como a maioria dos judeus na Alemanha do período), com a chave, e encontra Hans Hubermann. Ninguém naquela casa hesitou em ajudá-lo, e logo Max instalou-se no local, sob a proteção dos Hubermann e da jovem Liesel.

A relação com Liesel é boa, já que ambos têm coisas em comum, como pesadelos à noite, e se aproximam bastante durante esse período. Ele conta sua história a Liesel, e também a presenteia com um livrinho escrito por ele, possibilitando-a a entender melhor as razões para sua situação. Eles tornam-se grandes amigos, com a garotinha suavizando a situação terrível em que o judeu se encontrava. Ela levava palavras cruzadas para ele distrair-se, contava como estava o céu do lado de fora, conversava sobre os sonhos, fazendo com que Max se sentisse, na medida do possível, muito melhor.

No mesmo período, a mulher do prefeito, também cliente dos serviços de lavadeira de Rosa Hubermann, aproxima-se de Liesel, ao se recordar de que fora essa a garotinha que ela vira roubando um livro da fogueira na celebração em Munique. Ilsa Hermann, então, convida Liesel para ler na biblioteca de sua casa, e ambas dividem momentos juntas naquele local. Com o avanço da guerra e a situação na Alemanha se tornando cada vez pior, Rosa Hubermann gradativamente perde os seus clientes, dentre eles Ilsa Hermann. Liesel não entende a situação e descarrega todo o seu descontentamento na mulher.

Sem se falar com a mulher do prefeito e sem retornar para suas leituras no local, Liesel decide por incluir a biblioteca do prefeito em sua lista de locais para praticar seus subterfúgios com livros. Enquanto isso, seu companheiro da arte está passando por problemas com um outro garoto na juventude hitlerista, Frans Deutscher, uma espécie de instrutor que perseguia o pobre Rudy. Ele acaba por deixar de frequentar a juventude hitlerista e encontra uma outra seção para jovens alemães, livre do garoto que o importunava.

Max acaba por adoecer, já que passava a maior parte do tempo no porão gélido e úmido. Em meio ao desespero, na iminência de perder um grande amigo, Liesel faz de tudo para ajudá-lo. Ela passa grande parte de seus dias ao leito de Max Vandenburg, em um dos quartos da casa, lendo seus livros e histórias para reanimar o judeu que se encontra em um estado desacordado. Por conta disso, Liesel decide roubar um livro mais adequado na biblioteca do prefeito, com Rudy. Após lê-lo para Max, o judeu recupera-se de sua enfermidade e as coisas, por ora, tornam-se melhores no número 33.

Já recuperado, Max passa por apuros quando, no avançar da guerra, membros do partido nazista passam a inspecionar as casas para encontrar abrigos adequados para resistir a ataques aéreos. O número 33 não seria diferente, e também foi inspecionado, com os agentes visitando o porão de Max. Por sorte, nada aconteceu ao pobre judeu, e o local se mostrou inadequado para se tornar um abrigo.

Liesel mantém uma ótima relação com seu pai, às vezes o acompanhando em seus afazeres em Munique, sempre aproveitando a presença agradável de seu grande amigo. Nessas tarefas, Liesel aprendeu boas ações e virtudes com seu pai, como o respeito, a caridade e a compaixão. Enquanto isso, Rudy, seu melhor amigo, leva a efeito um treinamento rigoroso para destacar-se nas olimpíadas da juventude hitlerista. Ele consagra-se campeão de praticamente todas as modalidades possíveis de corrida, demonstrando ser um atleta promissor.

Eis que a guerra avança bastante, ao ponto de Munique receber o primeiro ataque aéreo. Todos rapidamente movem-se para esconderem-se no abrigo próximo à casa dos Hubermann. Max infelizmente fica sozinho no número 33, e todos aguardam no abrigo ao som dos alarmes. Apesar do temor, não havia ataque algum. Tratava-se de um falso alarme. Entretanto, logo em seguida, ao soar dos alarmes, todos novamente movem-se para o abrigo no porão mais adequado da rua Himmel. Em meio ao desespero de todos, Liesel decide começar a ler um de seus livros, como fizera com Max, para ver se poderia ajudá-los, assim como havia feito com o judeu.

Ao retornar à sua casa, Hans conta a Max do sucesso da pequena garota em sua leitura, e o judeu fica orgulhoso da garota. Decide, então, escrever uma história para ela, inspirado pelas ações de Liesel Meminger. Também como consequência das palavras carinhosas de Liesel em sua leitura no abrigo, Frau Holtzapfel, que travava uma guerra de uma década com Rosa Hubermann — fazendo questão de cuspir diariamente na porta do número 33 —, visita Liesel e faz uma oferta a garota: cessaria a guerra com sua mãe, caso ela concordasse em ler semanalmente para ela em sua casa. Sua vizinha adorara a leitura que ouvira no abrigo.

Nos dias que se seguiram, a primeira marcha de judeus capturados, a caminho dos campos de concentração, passa pela rua central da cidade. As pessoas movem-se para observar a passagem dos pobres judeus, e em meio à dor e ao sofrimento, Hans Hubermann decide ajudar um dos pobres judeus, ao alimentá-lo na frente de todos no local. Hans e o judeu são açoitados por um soldado nazista, e as consequências desse ato trouxeram mais dor e sofrimento para o número 33.

Max decide deixar o número 33, dado que Hans se tornou um alvo para investigações dos nazistas, ao ajudar um judeu na frente de toda a cidade. Além de perder seu amigo Max, Liesel vê-se na situação de perder o próprio pai, na medida em que, como castigo por seu ato inconsequente na rua principal, ele fora convocado para ir à guerra. Seu amigo Rudy, pelo desempenho como atleta e pela situação complicada na qual o exército alemão se encontrava, também fora convocado. Apesar disso, seus pais recusaram-se a deixá-lo partir, e, também como castigo, tiveram Alex Steiner, chefe da família, convocado para a guerra, assim como Hans.

Ambos não vão para as batalhas, mas coletam dois dos piores trabalhos nas retaguardas. Hans Hubermann depara com a morte e o sofrimento da guerra, passando por bons bocados. Em meio ao risco de vida e da insegurança de sua função, um acidente quase tira sua vida, e ao ficar imobilizado por conta de uma fratura na perna, é mandado de volta para casa por seu comandante. Não apenas a perna, mas seu bom coração, foram responsáveis por sua volta ao número 33.

Enquanto seu pai estava na guerra, Rosa entrega a Liesel a história que Max escrevera para ela, inspirado por seus atos de leitura no abrigo durante os ataques. Liesel depara com uma história que demonstra as razões para a ascensão de Hitler e da situação nefasta na Alemanha: as palavras. Nessa história, Liesel também depara consigo mesma, inserida na ficção. Ela aparece como antítese de Hitler, demonstrando a jovem garota que, na mesma medida, as palavras podem ser a salvação.

No hiato entre esses acontecimentos, Liesel e Rudy encontram um livro no parapeito da janela da biblioteca do prefeito, como uma espécie de convite para ser roubado. Tratava-se de um dicionário deixado por Ilsa Hermann, com uma carta na qual escrevera um pedido de desculpas, explicando-se a Liesel, contando que sabia que a garota perambulava por sua biblioteca, porém sempre deixava ela levar os livros que quisesse para ler. Liesel decide por perdoá-la, e encontra a mulher do prefeito em sua biblioteca.

Após o regresso de seu pai, o governo de Hitler começa a chegar a seu ponto mais baixo. Liesel finalmente encontra Max sendo levado em mais uma marcha para os campos de concentração. Em mais uma das marchas que Liesel presenciara, após tanto tentar alimentar judeus quanto escapar de soldados alemães em marchas anteriores, a jovem garotinha identifica Max Vandenburg nessa marcha para os campos de concentração, em meio aos prisioneiros judeus. Eles encontram-se e trocam carinhos. Ambos são açoitados por um soldado alemão. Quando Liesel, mesmo assim, decide persegui-los para juntar-se novamente ao judeu, Rudy impede-a de fazê-lo. Mais calma, após toda essa confusão, Liesel confessa a Rudy tudo sobre Max, dividindo com seu amigo o que acontecera no número 33 nos últimos meses.

Ainda inconformada com a situação, Liesel vai até a biblioteca da mulher do prefeito e, em um ataque de fúria, rasga um dos livros, para punir as palavras, responsáveis por tudo o que estava acontecendo. Ela deixa uma carta a Ilsa Hermann, desculpando-se pelo que fizera e dizendo que jamais voltaria ao local. Após ler a carta, a mulher do prefeito vai visitá-la em sua casa e lhe presenteia com um livro em branco para que Liesel escreva sua própria história, já que, segundo Ilsa Hermann, a garotinha escrevera muito bem a cartinha que deixara na biblioteca.

Ao escrever seu livrinho, A menina que roubava livros, e contar sua história, Liesel passa muitas noites em seu porão. Após algumas semanas, finalmente a menina que roubava livros termina seu livro, mas, infelizmente (ou felizmente), adormece no local, enquanto Munique é fortemente bombardeada. A rua Himmel é varrida do mapa. Liesel é a única a sobreviver ao ataque, perdendo todos os que ela amava: Hans, Rosa, Rudy e seus outros amigos.

Segundo os relatos da própria Morte, Liesel morreu muitos e muitos anos depois desses acontecimentos. No momento de sua morte, Liesel relembrou-se dos instantes que sucederam essa catástrofe em 1943, como o sofrimento de encontrar os corpos de seus entes queridos, assim como o de Rudy, que infelizmente não pôde dizer a ele o quanto o amava. Mesmo assim, a pobre garotinha beijou-lhe os lábios, mesmo após seu amigo não estar mais vivo. Órfã, Lisa fora adotada por Ilsa Hermann, a mulher do prefeito, e felizmente reencontrara Max Vandenburg após o término da guerra.

A história acaba com um diálogo entre Liesel e a Morte, conversando sobre A menina que roubava livros e a situação da humanidade, o binômio bem e mal, retratados pelas duas face do peso das palavras.

Apesar de comovente e aparentemente infantil, A menina que roubava livros foi escrita com um rigor e uma estrutura invejáveis. Não apenas o modo pelo qual a divisão interna do livro foi desenvolvida, mas também a forma dos capítulos e sua fluidez, demonstram a genialidade de um autor que utiliza diversas técnicas literárias, como analepse e prolepse, para desenvolver sua história. Contudo, a grande marca da genialidade do autor está em um estilo de narrativa peculiar, uma técnica tão antiga quanto a filosofia: a narrativa em abismo.

Em seu diálogo mais lido, junto de A República, Platão demonstra ser um mestre na prosa ao desenvolver a narrativa em abismo. No Symposion (ΣΥΜΠΟΣΙΟΝ), traduzido para o português (equivocadamente) como “o banquete”, Platão narra uma série de discursos em elogio a Eros, em um encontro comum à aristocracia ateniense, em que, após as refeições, convivas passavam horas bebendo e conversando. A genialidade da narrativa de Platão trata-se do fato de ele narrar o ponto central do diálogo, a apresentação metafísica da ascensão às Formas e sua caracterização ontologica, por meio de um recurso literário extremamente complexo e difícil de se dominar.

Esse recurso resume-se em colocar um personagem dentro de uma narrativa contando ao leitor — e a outros personagens –, o texto criado pelo autor. Dependendo da sofisticação do autor, esse recurso pode ser elevado a mais do que um nível, ou seja, pode haver abismos dentro de abismos.

No caso de Platão, há quatro abismos: Platão escreve o diálogo em que a sacerdotisa Diotima narra a ascensão às Formas e suas características ontológicas. No diálogo, entretanto, é Sócrates quem conta aos convivas o que Diotima narrou. E o que Sócrates está contando no diálogo, por sua vez, está sendo contado por Apolodoro a Gláucon anos depois. Por fim, o que Apolodoro está contando a Gláucon foi, na verdade, ouvido por ele de Aristodemo, que estava presente no symposion. Do lado de fora dos abismos, temos Platão como escritor do diálogo: 1) no primeiro abismo, temos Apolodoro como narrador do diálogo a Gláucon; 2) já no segundo abismo, temos o relato de Aristodemo, que estava presente no symposion; 3) no terceiro abismo, contudo, temos Sócrates como narrador da ascensão às Formas e sua caracterização para os convivas; 4) por fim, no quarto e último abismo, temos Diotima, a sacerdotisa, narrando para Sócrates, de forma primeira, a mesma ascensão e caracterização. Muitos não percebem essa estrutura sutil, e pensam tratar-se de Sócrates fazendo a narrativa, quando, na verdade, o narrador é Diotima (e, em última instância, Apolodoro).

Ao interpretar essa genialidade e recurso literário de Platão, podemos perceber que, na verdade, o mestre da Academia faz justiça ao pensamento de seu mestre. Historiográfica e filosoficamente falando, Sócrates jamais poderia ter dito essas coisas, na medida em que Sócrates não possuía essa profundidade metafísica, genuinamente platônica. Essas teorias filosóficas jamais poderiam ter sido proferidas por Sócrates, dado que seu pensamento se preocupava, primordialmente, com questões morais e psicológicas. Os pensamentos sobre os fundamentos metafísicos da realidade e da possibilidade de aquisição de conhecimento são incontestavelmente de Platão. Portanto, faz sentido Platão manter Sócrates como seu personagem principal, entretanto deixando claro para todos: Sócrates já está morto, por isso quem narra esse acontecimento do passado é Apolodoro, tendo ouvido de Aristodemo, o qual, por sua vez, ouviu Sócrates contar o que uma sacerdotisa disse. Esse recurso permite-nos depreender que, de fato, não é Sócrates quem narrou isso, e, além disso, muito do que se diz sobre Sócrates em Atenas — inclusive suas falsas acusações — é fundamentado em especulações, de memórias de pessoas que ouviram falar o que, por sua vez, outras pessoas teriam presenciado Sócrates supostamente dizendo. Por fim, vale também pontuar que, em muitos outros diálogos metafísicos maduros e de uma fase mais desenvolvida do pensamento de Platão, o filósofo de Atenas apresenta Sócrates sempre cercado por elementos os quais jamais poderiam existir, claramente atestando o caráter propositalmente fictício, anti-historiográfico e anacrônico dos personagens de seus diálogos mais desenvolvidos e cristalizados, sobretudo Sócrates.

Mais de 2300 anos depois, outro brilhante escritor, J. R. R. Tolkien, desenvolveu a fantasia fantástica O Senhor dos Anéis, outra obra prima, assim como o Symposion foi na filosofia. Do mesmo modo, Tolkien tentou reproduzir o brilhantismo de Platão na narrativa em abismo. Em diversas partes de seu diálogo, Tolkien emprega esse recurso literário. Em uma delas, Gandalf conta a Frodo, na toca de Bolsão, sobre os acontecimentos referentes à Segunda Era. Ao falar do Um Anel a Frodo, Gandalf conta para o jovem Hobbit o que havia sido narrado sobre o Senhor do Escuro. Frodo, por sua vez, escreve o livro no qual se passa a história, este último traduzido por Tolkien e relatado para nós. Temos, portanto, três abismos nesse cenário. Tolkien traduz o Livro Vermelho do Marco Ocidental: 1) Frodo é o autor desse livro, no qual narra suas memórias sobre a Guerra do Anel, dentre elas a conversa com Gandalf; 2) a conversa sobre o Um Anel é narrada dentro do livro de Frodo, como uma passagem da Guerra do Anel, na qual Gandalf está contando 3) a narrativa conhecida pelos sábios daquele período sobre o Um Anel.

Esse recurso de Tolkien permite-nos ter a sensação de que a história sobre a Guerra do Anel e os acontecimentos de O Senhor dos Aneis foram, na verdade, acontecimentos reais em outro mundo, traduzidos para nós por J. R. R. Tolkien, linguista, filólogo especialista em línguas pouco conhecidas, professor da Universidade de Oxford. Esse recurso sutil, como no caso de Platão, também é dificilmente percebido pelos leitores menos atentos da obra de Tolkien, os quais conseguem captar apenas, no máximo, o terceiro abismo. Porém, implicitamente, todos percebem essa estrutura e têm a sensação de que, mesmo sendo fantástica, ela parece ser mais real do que deveria ser, caso fosse narrada sem esses recursos literários tão enriquecedores.

Finalmente, o brilhantismo de Markus Zusak em A menina que roubava livros não é menos rico do que o de Platão e de Tolkien. Ele utiliza essa técnica literária com maestria. Ele constrói a estrutura de seu livro de forma infantilizada e caricata, para representar que, na verdade, aquele livro foi escrito por Liesel Meminger e está sendo contado pela Morte. Cada capítulo é apresentado de forma simplista e infantilizada, para retratar que, na verdade, não foi Markus Zusak quem o escreveu, mas Liesel, uma garota de 13 anos (assim como não percebemos que Platão escreveu o Symposion, mas focamos em Sócrates). Quanto aos abismos, no caso de A menina de roubava livros eles aparecem tal como em O Senhor dos Aneis, na forma de três abismos. Markus Zusak relata a história: 1) contada pela Morte, atual possuidora do livro; 2) que, por sua vez, fora escrito por Liesel Meminger; 3) garotinha que, em certo momento, escuta diversas narrativas de Max Vandenburg, inclusive a narrativa central da estrutura da obra, A sacudidora de palavras.

É em “a sacudidora de palavras”, história de Max Vandenburg, contudo, que filosoficamente o binômio bem e mal é apresentado no romance, na forma de palavras: palavras podem causar dominação e destruição através do medo e do ódio e palavras podem acarretar amor e salvação através da coragem e da amizade. Nesse conto, propositalmente de forma ‘anti-historiográfica’ e caricata, porém mantendo a verossimilhança necessária à lógica de sua fantasia, o autor apresenta Hitler como aquele que apenas através das palavras edificou o aparato necessário para conquistar o que conquistou.

Hitler é apresentado de modo infantil, sem pretensões historiográficas. A estrutura lógica dessa fantasia requer, necessariamente, a apresentação de Hitler como aquele cuja ascensão deu-se através de palavras: para dominar e destruir. Desconsiderando, portanto, as implicações políticas, econômicas, sociais, psicológicas, religiosas, e todas as outras que proporcionaram o desenvolvimento do que aconteceu na Alemanha na primeira metade do século passado, o autor apresenta as palavras como dominadoras de uma nação e edificadoras do bastião da destruição que foi o Reich nazista.

Palavras que, na lógica do romance, “destruíram” os judeus, tirando-os suas próprias vidas. Não apenas fisicamente, é claro; essa destruição posta-se como sobretudo psicológica e social (o que é muito mais cruel e perverso do que um simples aniquilamento instantâneo). Essas palavras tiraram-nos suas próprias vidas, no sentido mais amplo do termo. Essas palavras destruíram e mataram bons amigos. Elas causaram os bombardeios que assolaram a Alemanha civil. De certo modo, ingenuamente culpamos e apontamos o dedo para o povo alemão, quando, na verdade, de certo modo, ele foi tão vítima quanto o resto do mundo.

Essas palavras causaram guerras (no caso, uma guerra), cujas consequências trouxeram apenas mais medo e ódio. Trata-se de um ciclo cego, sem fim: o meu medo e ódio a X causaram a guerra, mas minha visão é tão curta e limitada que vejo apenas que a guerra está sendo causada por X, então tenho mais ódio e mais medo de X por causa da guerra, eximindo-me da culpa inicial. As palavras, de qualquer forma, no fim causaram a queda do Reich e do próprio Führer.

Liesel, por outro lado, é apresentada, do mesmo modo nesse conto de Max Vanderburg, como a representação da antítese de Hitler, como o outro lado dessa moeda: a que usa palavras para amar e salvar. Essas palavras, diferentes das do Führer, trouxeram amor e vida. Desde as leituras para Max que, na lógica da fantasia, “salvaram” um judeu de sua doença. Suas palavras ressuscitaram o bom amigo, deram vida novamente a ele; no porão da resistência civil alemã aos bombardeios dos aliados opositores do Reich nazista, mantiveram a ordem para o bem; cessaram a ‘guerra’ — que já durava dez anos —, entre sua mãe, Rosa Hubermann, e sua vizinha, Frau Holtzapfel, e posteriormente tentaram, na medida do possível, reparar as profundas feridas da perda de seu filho na guerra.

Do mesmo modo que as palavras odiosas de Hitler causaram sua morte e seu fim, as palavras amorosas de Liesel causaram a sua ressurreição e seu recomeço, na medida em que foram suas palavras que estabeleceram uma ligação com Ilsa Hermann, ligação que a possibilitou renascer necessariamente por causa das palavras. Ela desenvolveu o amor pela leitura, pela escrita, ligando-se a Ilsa Hermann e a muitos outros. No final, quando se encontrava órfã e perdida, fora Ilsa Hermann que a acolhera como filha.

Liesel sabia que as palavras pesavam muito, sobretudo as que não são ditas. As palavras que não foram ditas a Rudy Steiner, o ‘eu te amo’ e seu amor verdadeiro que permaneceram inacessíveis e impedidos de acontecer; as à Rosa Hubermann, o ‘eu te amo, minha mãe’ e seu amor na relação mãe e filha que permaneceram, do mesmo modo, não manifestados. Ambas foram ditas após a morte dos dois.

Ela destrói as palavras de um livro na biblioteca de Ilsa Hermann como meio de descarregar sua ira frente a tudo o que acontecia em sua vida naquele instante. Todas as perdas, todas as mortes, todo o sofrimento era resultado de palavras. Ela deixa uma carta a Ilsa Hermann, desculpando-se pelo que fizera e dizendo que jamais voltaria ao local. A própria mulher do prefeito vai visitá-la em sua casa e lhe presenteia com um livro em branco para que ela escrevesse sua própria história, já que, segundo Ilsa Hermann, Liesel escrevera muito bem a cartinha que deixara na biblioteca. Ao escrever seu livrinho, A menina que roubava livros, contando sua história, Liesel reconhece o peso que as palavras têm. Ela as odiava e as amava: as odiava porque todos os males eram causados pelo lado perverso do binômio, na mesma medida em que as amava porque todas as coisas boas eram causadas pelo lado bondoso. No final, fora escrever suas palavras que a salvou das bombas e da morte prematura.

Entretanto, será que as palavras têm todo esse poder? Há momentos em que a própria Morte — nessa fantasia uma das personagens principais — impede que as palavras tenham qualquer valor. E o que dizer de doenças terríveis que impedem que pais vejam seus filhos crescerem, ou que filhos tenham mais tempo com seus pais? O que falar de pessoas que são separadas por uma doença, e não podem viver o amor de suas vidas juntos, nem se tivessem todo o poder das palavras em suas mãos? Cadê o poder das palavras contra o câncer? Apesar dessa aparente ambiguidade, a palavra continua sendo importantíssima para todos os demais casos, onde nem a morte nem a doença impedem o desenvolvimento humano.

O poder das palavras, seu peso e sua relação direta com a vida, tornou-se evidente pela primeira vez na política na polis ateniense de Péricles, no auge da democracia. Não era o poder econômico, o poder político, o a herança dos deuses, ou qualquer outra coisa que governava a vida na Atenas do século V a.C. Era a palavra, o logos. No auge da democracia, a virtude relacionava-se com a arte de utilizar a palavra para persuadir seus concidadãos.

Apesar disso, as palavras começaram a perder seu espaço, após o final da guerra do Peloponeso, e finalmente foram suprimidas na derrota para os macedônios. Apenas com o Estado Nacional Francês, praticamente 2000 anos depois, teoricamente tivemos a retomada do peso e do papel da palavra na sociedade. Do mesmo modo, teoricamente, os séculos que os sucederam solidificaram a estrutura responsável por dar poder às palavras e nos proporcionaram a possibilidade de efetivar uma vida pautada centralmente nelas. O século XIX provou que a cega crença no logos, de certo modo, poderia causar grandes desastres.

Há espaço efetivo para as palavras apenas em uma democracia. A Alemanha de Hitler, no período de Liesel, demonstra essa tentativa de sobrepujar as palavras dissonantes em nome de um único discurso, travestido de benevolente, capaz de efetivar um dos maiores dos males que a humanidade já viu. Se levarmos em conta filosoficamente o que A menina que roubava livros nos ensina, veremos que, de certo modo, as palavras parecem ter esse poder, tanto para o bem, quanto para o mal.

Eis o poder das palavras, e, do mesmo modo, da democracia, capaz de utilizá-las para amar e salvar ou dominar e destruir. Hoje será que precisamos mais de amor e coragem ou de medo e ódio? O que vemos hoje no nosso cenário político-econômico mundial — e, talvez, ainda mais no brasileiro — a não ser o medo e o ódio? Será que hoje no Brasil o medo e o ódio não estão sendo disseminados para que a população cometa absurdos tão sombrios como os do século passado? Bater em judeu pobre, pode. Que absurdo, não é mesmo? Bater em preto pobre, pode… Ué, achei que isso só acontecesse na Alemanha nazista! Também temos os nossos Maxs Vandenburgs no Brasil, nossos Amarildos, nossos esquecidos.

Parece que precisamos de mais Liesels, Hubermanns, Steiners do que Hitleres, Deutschers e Chemmels. Você, de certo modo, pode ser qualquer um deles através de suas palavras. E então, como você vai querer usar as suas palavras?

Indicações de leitura:

ZUSAK, MARKUS. A menina que roubava livros. Tradução de Vera Ribeiro. 3. ed. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2013.

PLATÃO. Συμπόσιον = O Banquete. Edição Bilíngue: Texto grego de John Burnet; tradução de Carlos Alberto Nunes. 3. ed. Belém: ed:ufpa, 2011.

TOLKIEN, J.R.R. O Senhor dos Anéis. Tradução de Lenita Maria Rimoli Esteves, Almiro Pisetta. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

HEIDEGGER, Martin. A época das imagens de mundo. Tradução de Claudia Drucker.

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2 comentários sobre “A menina que roubava livros e a filosofia

  1. Ao ler seu artigo, consigo refletir sobre a grandiosidade a qual as palavras estão propensas, é algo fantástico e que ao analisarmos de tal modo a potencialidade da comunicação, guerras podem serem feitas e evitadas. De tal forma, podemos colocar a pontuação a ser descrita como uma das mais importantes ferramentas nos dias atuais. Atuando de forma incoerente em diversos jornais, revistas, noticiários, entre outros. Causando vários alardes, na maioria das vezes desnecessários.
    Agradeço, por mais uma vez abrir minha mente sobre o quão se faz importante as reflexões, trazendo de certa forma, os acontecimentos passados em uma sintonia com a atualidade. Que a satisfação de ajudar na reflexão, continue diariamente por ser desinteressada.

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    • Muito obrigado pelo comentário! Fico feliz em saber que o meu texto pôde ajudá-la em suas reflexões. De certo modo, temos todos uma abertura, em maior ou menor grau, para refletirmos filosoficamente sobre as coisas. Muitas vezes precisamos somente de um empurrãozinho, para desenvolvermos as nossas próprias reflexões! Continue lendo e refletindo!

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