A Estética na contemporaneidade

Muitos pensam que pensar estética é simplesmente pensar no que é belo, arbitrariamente e de forma imediata, sem nenhuma reflexão. Apesar disso, pensar em estética, sobretudo nos dias de hoje, é pensar em imaginação, em sensibilidade, em sensações, e em sua ligação com a razão, com a moral, com a cultura, com a sociedade, e etc. Trata-se de uma dimensão da nossa existência, através da qual nos relacionamos com o mundo e com a vida.

Desse pensamento, contudo, surgem problemas, com os quais precisamos deparar. Problemas como “será que as pessoas são dotadas de uma espécie de senso comum estético, pelo qual podemos comunicar o gosto estético e torná-lo objetivo?”, “será que há autonomia para que tenhamos liberdade de julgar esteticamente uma coisa?”, ou ainda “podemos racionalmente julgar algo belo?”, e, provavelmente, as mais importantes na contemporaneidade, “o que é arte?” e “arte para quê?”. Para isso, precisamos da estética, como campo do conhecimento, para levar a efeito uma investigação que trabalhe essas questões, proporcionando-nos mais clareza e consciência de elementos constitutivos de nossa vida, como as obras de arte e manifestações culturais.

Kathrin Rosenfield, uma estudiosa com ênfase em Estética e Literatura, desenvolveu o livro Estética, da coleção Passo-a-Passo Filosofia, da editora Zahar, como uma apresentação sintética dos problemas contemporâneos da estética, com ênfase no pensamento de Kant e Hegel, os dois pilares da fundamentação filosófica da estética como campo do conhecimento. Neste pequeno livro, a autora faz uma breve passagem pelo desenvolvimento do pensamento sobre o belo na antiguidade até a fundamentação da estética autônoma com Kant e posteriormente da filosofia da arte com Hegel, finalizando-o com os desdobramentos desse pensamento sistemático até a contemporaneidade.

Logo de início, em sua introdução, Kathrin Rosenfield deixa claro que a proposta do livro é apresentar, de forma sintética, os objetivos e os problemas contemporâneos da estética como disciplina acadêmica e como base teórica da crítica da arte. Com efeito, não se trata de um manual de história da arte, ou história do desenvolvimento do pensamento sobre a arte. Seu propósito é apresentar, de forma pontual, os fundamentos do que se entende hoje por estética e crítica da arte, remetendo-nos para os problemas que a tradição levantou, os quais, em grande parte, continuam atuais até os dias de hoje, como definir se há no gosto elementos racionais, ou se temos capacidade autônoma de perceber e julgar, mesmo inseridos em um contexto pelo qual o poder econômico e político influenciam e determinam a cultura das produções artísticas de massa.

O enfoque do livro, deste modo, está na apresentação clara do desenvolvimento da estética como disciplina acadêmica autônoma, com sua plena autonomia com Kant e na fundamentação da arte por Hegel. Com efeito, o enfoque posta-se no modo pelo qual esses filósofos, e os sistemas que os precederam, assim como os críticos de arte e os filósofos contemporâneos, investigam a arte e a experiência estética.

Ao apresentar o belo na antiguidade, a autora evidencia claramente a associação entre os aspectos da vida e da mentalidade do período com as representações artísticas. Essa associação não permite enxergarmos a arte como apenas um campo de representações de sensações, dado que as representações têm um papel de ligação com o divino, portanto religioso, de interação social, fundamentando as ações e o modo de vida, portanto moral e cultural. Deste modo, pensar em uma história da arte na antiguidade é também pensar em uma história da cultura, em seu desenvolvimento tanto no âmbito artístico quanto no filosófico.

Para Rosenfield, Sócrates e Platão aparecem como os percursores do pensamento sobre o belo e sobre a arte na antiguidade. Sócrates, por um lado, enxergará o belo pelo viés que este tinha no mundo grego, a saber, uma ligação indissociável com o bem. Platão, por outro lado, além de enxergar o belo nessa perspectiva, elevará a função do belo, assim como definirá uma função para a arte, ao estabelecer uma finalidade metafísica para ambos em seu pensamento filosófico.

Para Platão, a obra de arte contemporânea apresentava-se como um obstáculo à ascensão à verdade e ao divino. A finalidade e função do belo era servir como etapa necessária para a verdade. Seus contemporâneos, contudo, não desenvolviam obras de arte que proporcionassem ao belo esta função, na medida em que eles desenvolviam obras que tinham por finalidade, segundo ele, confundir os sentidos, mover as paixões e levar as pessoas apenas ao prazer. Tratava-se de uma falsa aparência de verdade.

Entretanto, Platão desenvolve, especialmente no Fedro, uma distinção entre a arte “boa”, a aparência, e a arte “ruim”, a falsa aparência ou simulacro. A arte boa, de um lado, seria aquela que tem em vista a verdade e o divino, como a poesia, cuja inspiração precisa ser, necessariamente, o delírio divino para a verdade; a ruim, de outro, seria aquela que não tem a verdade e o divino por finalidade, mas a apresentação do divino de forma danosa, a erística e a suscitação de paixões, e etc. A autora diz implicitamente que a filosofia platônica se resume em uma relação modelo/cópia, quando, na verdade, a participação proporciona ser e realidade às coisas sensíveis. Isso seria o mesmo que dizer que Platão é contra toda e qualquer arte, quando, na verdade, ele é contra toda e qualquer arte corrente na Atenas de seu período. Há espaço para a poesia, e até mesmo para a retórica, como fica claro no Fedro, contanto que elas remetam ao divino e à verdade. Deste modo, a arte “boa”, cuja participação no que é — para usar um vocabulário platônico — proporciona realidade a ela, mesmo que de forma precária e inferior, não é uma mera cópia, mas é vista com bons olhos por Platão, uma vez que ela se posta como acesso às realidades plenas e superiores.

Aristóteles, diferente de seu mestre, apesar de ainda estabelecer críticas às artes excessivamente espetaculares e exageradas, enxergava na representação artística uma finalidade moral importante. Ele resgata a arte contemporânea do estatuto platônico de falsa aparência e estabelece uma finalidade a ela. De outro modo, pelo fato de ele estabelecer uma diferença entre representação e coisa representada, ele apontou para a possibilidade de poder captar conflitos morais representados na tragédia que serviriam para que, ao assisti-los, os indivíduos pudessem passar por perturbações emocionais provocadas pelas tragédias que teriam por finalidade sanar as próprias perturbações dos indivíduos. Em outras palavras, sua finalidade era uma espécie de catarse que causaria um equilíbrio passional e espiritual nos espectadores.

Essa ligação entre o belo e o bem, entre a representação artística e o divino, perpassa o período antigo através do medieval, e será mantido até os séculos XVII e XVIII. Os percursores de Kant ainda continuam a submeter a experiência estética e o papel do belo como inferior ou preparatório para a esferas cognitivas ou morais. De um lado, há o pensamento em que estabelece ao belo a finalidade moral, na medida em que sua adequação prática contribui para um bem-estar; de outro, há o pensamento que estabelece ao belo uma finalidade epistêmica, isto é, definem a beleza como um estágio anterior e incompleto que prepara a ordem racional do conhecimento discursivo.

É apenas com Kant que há uma ruptura nítida e total do belo e da experiência estética tanto com as determinações morais quanto com as determinações epistêmicas. A autora apresenta que, para Kant, ao invés de haver uma hierarquia entre sensibilidade e razão — como pensavam seus predecessores —, a experiência estética subjetiva não está submetida, determinada ou tem por finalidade o conhecimento e a razão prática. Ela relaciona-se com o gosto, com o conhecimento e com a razão prática de forma autônoma.

Kant preocupa-se em fazer uma análise formal do juízo estético, isto é, ele analisa a possibilidade de estabelecermos um juízo objetivo e universal sobre o belo. Entretanto, esse juízo não é fundamentado na razão, isto é, não é o entendimento que possibilita encontrarmos aspectos pertencentes aos objetos para definirmo-nos como belos. A grande inovação de Kant é enxergar na imaginação a fundamentação e a possibilidade de estabelecermos juízos estéticos sobre as coisas.

Deste modo, segundo Rosenfield, é o juízo reflexionante, isto é, a capacidade de estabelecer finalidade às coisas, através da reflexão, que nos permite estabelecer juízos estéticos. Isso significa que não há um conceito de belo, ou seja, não há um parâmetro conceitual pelo qual os objetos se encaixariam logicamente como belos, cujos juízos fossem determinados pelo entendimento. Para Kant, é justamente por não haver um conceito de belo que precisamos usar a reflexão para subjetivamente conferirmos beleza às coisas.

Quando dizemos que algo é belo, então, não estamos nos referindo apenas a nós mesmos, como, por exemplo, “essas flores são belas para mim”. Na verdade, estamos aspirando a universalidade e conferindo beleza às flores, de modo que dizemos “essas flores são belas”, para comunicar esse juízo estético, potencialmente a todas as outras pessoas. Eis a universalidade e objetividade de um juízo subjetivo e particular: eu posso comunicar o juízo a todas as pessoas. Esse juízo comunicável é livre de nenhum interesse, na medida em que não é a razão ou a moral que determinará o meu juízo estético, mas o sujeito, através de um livre jogo entre a imaginação e o entendimento. O juízo estético manifesta-se através da coincidência imediata entre o juízo e o sentimento, entre o dizer “é belo” e o prazer pelo belo. Deste modo, como ambos surgem no mesmo instante, isto é, como no momento em que julgo algo belo, ao mesmo tempo, sinto prazer pelo belo, não é possível subordinar o juízo ao gosto pessoal ou à razão e a moral, nem subordinar o gosto pessoal, a razão e a moral ao juízo. O juízo estético para Kant, portanto, é universal e sem conceito, desinteressado e livre e uma finalidade sem fim, na medida em que sua finalidade está no próprio juízo e prazer.

Se de um lado Kant investiga apenas a experiência da beleza, isto é, investiga a experiência do sujeito durante o momento em que faz seu juízo de gosto, Hegel, de outro, trata a arte como fenômeno histórico e articulação lógica da razão. Deste modo, Kant trata essa experiência diante do belo como pura, livre de nenhuma interferência cognitiva ou moral; Hegel, por outro lado, focará na articulação racional e moral da arte, na medida em que ela efetua seus conceitos na história.

Deste modo, segundo a autora, Hegel não se importará com o belo natural, como Kant frente ao Sublime. Para Hegel, a arte sustenta o processo lógico e histórico de amadurecimento da razão. Deste modo, é belo apenas o que é efetivado pelo processo lógico do espírito, isto é, é belo apenas o que é transformado em obra de arte através de um processo racional.

Ao longo da história, esse processo de efetivação do belo por meio de obras de arte amadurece e evolui, na medida em que a razão gradualmente conquista consciência de si mesma enquanto em um processo de amadurecimento. A arte, desse modo, também gradualmente vai perdendo a importância. Na medida em que o Espírito, isto é, a razão enquanto razão em si mesma e para si mesma, conquista a liberdade frente às contingências e particularidades sensíveis e a ideia de Belo, ela os ultrapassa e conquista consciência-de-si enquanto arte. Eis então o “fim da arte”, segundo a autora a superação da imediatez e contingência da experiência estética frente a uma obra de arte particular.

A obra de arte, segundo Hegel, é feita através de um processo lógico pelo qual o artista transforma a matéria em um trabalho racional de si mesmo, com suas sensações e sentimentos, para, no final do processo, transformar tanto a matéria quanto a si mesmo. O produto disto, a saber, a obra de arte, não diz respeito ao material e ao substrato do qual ela foi retirada, mas sim ao artista e ao conteúdo que representa. Tudo se dissolve, portanto, nesse processo lógico e racional. Cada obra de arte, segundo a autora, seria o aparecer da ideia de Belo, abstrata e conceitual, na aparência sensível e concreta. Portanto, a arte é o processo lógico e racional pelo qual o ideal efetiva-se e se concretiza na história. A experiência estética, para Hegel, portanto, concilia a contingência das obras de arte e seu substrato material e o movimento espiritual, tanto o que as concebe enquanto obra de arte particular quanto o que desenvolve o conceito universal de belo. Em outras palavras, o material transforma-se no processo racional, transformando-se em representação, um instante estático e visível do movimento que produz as diferentes obras de arte: a apresentação. A apresentação trata-se do processo racional que efetiva concretamente o conceito abstrato de arte por meio das obras de arte, que são as representações estáticas e concretas do Conceito.

Para Hegel, a ideia de Belo efetiva-se ao longo da história, proporcionando o amadurecimento do conceito de arte, que por sua vez faz parte do processo de amadurecimento da razão. Essa efetivação dá-se por meio de três formas de arte, segundo Rosenfield. Trata-se da forma de arte simbólica, da arte clássica e da arte romântica.

A forma de arte simbólica é o estágio mais primitivo das formas de efetivação da ideia de Belo. Nesse estágio, a arte não tem autonomia nem liberdade para representar a ideia de forma racional através de uma linguagem inteligível. Ela permanece inacessível por meio das representações, uma vez que essas representações estanques e opacas, como a arquitetura egípcia da esfinge e pirâmides enigmáticas, não são representações racionais para o pensamento: são símbolos enigmáticos e obscuros.

Na forma de arte clássica, por outro lado, as esculturas gregas, por exemplo, que demonstram formas humanas, atestam o amadurecimento da razão em relação à forma de arte simbólica. Nesse momento, há uma liberdade racional para concretizar e efetivar a ideia de belo através da arte, e comunicá-la ao pensamento através dessa mesma arte. Se de um lado a arte simbólica representava o ideal por meio de divindades estranhas e enigmáticas, a arte grega, de outro, consegue efetivá-lo de forma concreta nas esculturas, com a liberdade e autonomia racionais necessárias para desenvolver formas humanas de divindades nessa forma de arte.

Para finalizar essa etapa do processo de amadurecimento da razão na arte e do amadurecimento de seu próprio conceito, a autora aponta para a forma de arte romântica como o ponto mais alto do amadurecimento do conceito de arte para Hegel. Nesse período, que perpassa toda a Idade Média e desemboca no século XVIII, a partir da música, da pintura e da poesia, a arte, através da concretização de suas representações, amplifica a contingência das representações através dos sentimentos, da reflexão e da imaginação. Ela excede a contingência, proporcionando um salto abstrativo que ultrapassa a particularidade das representações artísticas. Deste modo, este processo faz surgir os aspectos essenciais dos objetos. Portanto, a ampliação dessa representação revela o conceito, a verdade, o essencial, universal, objetivo, por detrás da contingência e particularidade da representação.

A arte no sistema de Hegel, desse modo, segundo Rosenfield, chega a seu fim, na medida em que é capaz de revelar a verdade, a liberdade e o belo em seus conceitos universais e objetivos através das representações contingentes e do próprio processo.

De acordo com a autora, após o sistema hegeliano, o pensamento sobre a estética fragmenta-se em análises ricas feitas pelos próprios artistas e críticos de arte. Essas análises demonstram que os grandes sistemas, apesar de fundamentarem a visão sobre o belo e sobre o gosto, estabelecendo uma relação da sensibilidade e imaginação com a razão e a moral, não conseguem dar conta da multiplicidade dos fenômenos artísticos e de sua relação com as mais plurais formas de representações. Além dessas análises, alguns filósofos, como Adorno, Heidegger e Derrida, levam adiante os problemas levantados pelas estéticas sistemáticas e trabalham as críticas feitas pelas novas abordagens.

Na segunda metade do século XX, o pensamento de críticos da arte utiliza os fundamentos dos sistemas filosóficos, mesmo que implicitamente, em sua crítica sobre a arte. Apesar disso, segundo a autora, não há uma precisão e profundidade filosóficas nesses discursos, característica da própria filosofia. Mesmo assim, Kant e Hegel, explícita ou implicitamente, sustentam o pensamento da crítica da arte contemporânea. Essa fundamentação, no entanto, não é uniforme. Segundo Rosenfield, essa fundamentação ora alimenta-se amplamente de Hegel, ora mescla Kant e Hegel. De qualquer modo, a reutilização dos conceitos transforma totalmente o valor que eles tinham nos sistemas filosóficos originais.

Ao ler a obra de Kathrin Rosenfield, fica claro que temos hoje na estética contemporânea muitos dos problemas colocados pelos filósofos desde Platão, os quais precisam ser repensados e retrabalhados no nosso tempo. Será que a obra de arte pode postar-se como simples imitação da natureza? Isso não retiraria o aspecto racional e livre do artista? E quanto às representações, podem elas serem desinteressadas e livres, sendo que há um mercado por detrás de sua produção? Será que a arte não é determinada por esferas econômicas, políticas e governamentais, cujo interesse desvirtua e manipula a arte para estabelecer um mercado? E o que falar de conciliar conteúdo e forma, com o nível de abstração da arte contemporânea?

Mesmo que, no que diz respeito à arte, não sejamos kantianos ou hegelianos (e muito dificilmente platônicos!), não podemos negar sua contribuição ou deixar de lado sua conceituação da experiência estética e da possibilidade de definir o que é arte, sobretudo para os dias de hoje, com essa pluralidade assustadora de fenômenos artísticos e culturais. É exatamente essa pluralidade de fenômenos artísticos e a dificuldade de definirmos a arte em nosso tempo que fazem necessária uma volta a Kant e Hegel para que possamos pensar nos problemas da estética contemporânea de forma rigorosa e fundamentada.

Indicações de leitura:

JIMENEZ, Marc. O que é estética? Tradução de Fulvia. M. L. Moretto. São Leopoldo, RS: Ed. UNISINOS, 1999.

ROSENFIELD, K. H. Estética. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2006.

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