Se é opinião da maioria, então deve ser verdade!

Sempre queremos opinar e nos posicionar frente a todo tipo de coisa. Não importa o assunto: sempre buscamos defender o nosso pensamento — uma entre inúmeras perspectivas — frente a um problema. Mas por quê? O que nos daria autoridade e legitimidade para discorrer sobre assuntos com os quais talvez nunca deparamos antes? A princípio, a capacidade de organizar ideias e fundamentar opiniões racionalmente daria, na medida do possível, conta disso, proporcionando-nos a possibilidade de estabelecer os mais variados discursos sobre as coisas — muitas vezes discursos contrários, porém, em teoria, igualmente fundamentados e válidos.

Apesar disso, o cenário descrito acima é o ideal, muito longe de ser o processo real pelo qual se estabelecem discursos e opiniões no dia-a-dia. Para tender a esse processo ideal, aparentemente tão simples, precisamos passar por um processo duro. Precisamos abrir mão de nossas verdades pré-estabelecidas não fundamentadas, cuja origem é anterior ao processo de fundamentação. Essas verdades que possuímos precisam ser colocadas em dúvida pelo pensamento crítico. Isso causa angústia e, na maioria das vezes, até mesmo desespero, pelo fato de perdermos a sustentação que tínhamos para as nossas posições, ou seja, por “perdermos o chão”.

Nem todas as pessoas suportam passar por esse processo. Na verdade, são poucas as que, após esse momento de angústia e desespero, prosseguem como Heráclito, pulando sobre pedras soltas ao longo do rio, sem afundar com elas e sem se fixar em nenhuma delas. Deste modo, como fica a maioria? Podemos aceitar a opinião da maioria como sinal de verdade ou validade de uma posição, ainda que ela não estabeleça, com coesão e coerência, discursos fundamentados racionalmente?

Como vimos no artigo Somos realmente autônomos?, para levar a efeito a atividade de pensamento necessária para pensarmos por nós mesmos, há a necessidade de uma formação, de um processo que se inicia desde o princípio da atividade de reflexão até a tomada de consciência de si mesmo enquanto parte de uma sociedade, inserida em um momento no tempo e um lugar no espaço. Neste mesmo artigo, também vimos que a maioria da nossa população não possui escolaridade suficiente para efetivar esse processo. O pensamento crítico, parte desse processo de formação, é necessário para fundamentarmos as nossas opiniões racionalmente. Deste modo, a maioria fatalmente não tem sequer a possibilidade de fundamentar racionalmente sua posição perante todo e qualquer tipo de problema, de simples questões de ordem prática em suas vidas privadas, às grandes questões de ordem teórica, ou até mesmo políticas e sociais que envolvem todo o grupo. Apesar disso, como afirmado no início do texto, sempre queremos opinar e nos posicionar frente a todo tipo de coisa.

No diálogo Críton de Platão, Sócrates e Críton estão em uma cela onde Sócrates aguarda por sua execução, discutindo sobre uma tentativa de fuga de Sócrates da prisão. Entre os argumentos utilizados para persuadir Sócrates a fugir, Críton defende que a maioria pensaria que, apesar de terem a oportunidade de fugir com Sócrates, seus amigos, por alguma vil covardia, não o fizeram; e do mesmo modo, a maioria pensaria que Sócrates também não o fez. A refutação de Sócrates para esse argumento vai ao encontro do que estamos discutindo aqui: a opinião da maioria.

Sócrates começa a sua argumentação defendendo que há opiniões que deviam ser objeto de elevado apreço, ou seja, opiniões válidas, ao passo que outras, não. Isto posto, não devemos conferir apreço a todas as opiniões dos seres humanos, mas a algumas sim e a outras não. Isso significa que Sócrates está dizendo que não são todas as opiniões que são válidas, mas algumas das opiniões. Ora, isso parece extremamente evidente, dado que valorizamos as boas opiniões, mas não as más. Mesmo assim, de forma clara, Sócrates continua sua argumentação com um exemplo: se um homem é um atleta e faz do atletismo sua profissão, ele não dará atenção à opinião da maioria, mas à opinião de somente um homem, a saber, o médico ou o instrutor de ginástica. Portanto, ele deve atuar, exercitar-se, comer e beber como julgar melhor seu instrutor que conhece a atividade. Caso não o fizesse, ele atrairia dano a si mesmo. Eis que, por fim, Sócrates conclui que no que toca todas as outras inúmeras matérias, não devemos acatar a opinião da maioria, mas daqueles que tem conhecimento e diante dos quais podemos verificar essa validade nas opiniões, caso contrário causaremos danos a nós mesmos, como no caso do exemplo do atleta.

Platão aqui já está nos alertando de uma coisa: a maioria, apesar de não ter a possibilidade de fundamentar racionalmente suas opiniões, ainda assim as desenvolverá. E, além disso, essas opiniões causam danos àqueles que as seguem cegamente, sem ponderá-las para verificar sua validade. Bertrand Russell parece que também percebeu essa peculiaridade das opiniões da maioria, ao considerar que não podemos desconsiderar as opiniões como absurdas somente pelo fato delas serem aceitas pela maioria. Ele, pelo contrário, defendia que dado à estupidez da maioria, uma crença amplamente aceita tem mais probabilidade de ser tola do que sensata. Ele também defendia que devemos ter uma certa medida de dúvida frente às nossas próprias opiniões: as pessoas não devem acreditar dogmaticamente em uma filosofia, nem mesmo à sua própria filosofia, dizia Russell.

Até mesmo aqueles que não seguem os mesmos caminhos filosóficos de Platão, como Nietzsche, mantêm a mesma posição frente à opinião da maioria. Zaratustra, a figura do sábio, ao descer da montanha para levar luz à humanidade, é amplamente rejeitado e ridicularizado. Na verdade, Zaratustra só não foi morto pela maioria porque foi tomado como um palhaço por suas opiniões — opiniões que retratam o coroamento do pensamento filosófico de Nietzsche, o super-homem ou além-do-homem. Logo ele se afastou da maioria. Não são todas as opiniões que são válidas, como apontaram esses três filósofos, mas apenas algumas.

Através desse passeio pela história da filosofia, podemos perceber que há a necessidade de validade às opiniões para que elas possam, a princípio, serem consideradas, para que possamos analisá-las a fim de verificar sua verdade. Para tal, elas precisam estar fundamentadas racionalmente, processo que é feito através do pensamento crítico, cuja possibilidade se dá por meio de uma formação e de um amadurecimento do pensamento. Nunca é tarde para começar esse amadurecimento, para tentar levar a efeito a reflexão como atividade do pensamento, ponto de partida para podermos pensar de forma mais sensata frente a todas as coisas, na medida em que estaremos tentando fundamentar a nossa visão de mundo na razão.

Portanto, a opinião da maioria das pessoas pode não ser válida, dado que a maioria das pessoas não tem pensamento crítico para refletir racionalmente sobre suas opiniões. Dia após dia, nas ruas ou até mesmo no mundo virtual, deparamos com as mais diversas opiniões sobre todas as coisas. Precisamos ser como Sócrates, como Russell, como Nietzsche: não levar em consideração uma opinião porque ela é amplamente aceita pela maioria, mas porque é válida e verdadeira. Caso contrário, faremos como Críton ou como a maioria, guiando-nos pelo famoso “eu penso assim porque é a minha opinião”. Bem, parece que tudo que é ruim pode achar um meio de ficar pior, já que poderiam dizer: “eu penso assim porque Bolsonaro pensa assim”.

Indicações de Leitura:

PORCHAT PEREIRA, O. Rumo ao Ceticismo. São Paulo: Editora UNESP, 2007.

NIETZSCHE, F. W. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s