A origem do amor e da felicidade

Ο ΤΟΥ ΕΡΟΥ ΦΥΣΙΣ

 

Musas poderosas, invoco-as para aqui auxiliar,

Frente aos inimigos de sua mãe bondosa.

Preciso do auxílio de seu poder e beleza,

Para na loucura e no delírio de sua manifestação,

Cantarmos a natureza do amor e da felicidade.

Emprestem, como outrora fizeram a Hesíodo,

O Logos do surgimento da ordem e das causas imortais,

E permitam que o Logos fale por mim entre os mortais,

Para demonstrar que o amor, nosso presente mais caro

É o maior presente dos deuses que os mortais receberam

E o caminho mais intenso e eternizador para a felicidade.

Α

Réia submetida a Cronos pariu brilhantes filhos:

Héstia, Deméter e Hera de áureas sandálias,

O forte Hades que sob o chão habita um palácio

Com impiedoso coração, o troante Treme-terra

E o sábio Zeus, pai dos Deuses e dos homens,

Sob cujo trovão até a ampla terra se abala.

Β

Este último, o deus poderoso, Zeus, filho de Cronos,

Nunca fora desafiado abaixo dos céus do Olimpo.

Até quando há milhares de anos atrás certa vez,

O mais belo, justo e bom dos deuses olímpicos,

Desconhecido e apagado pela ira de Zeus,

Desafiou o poderoso pai do Monte Olimpo.

Γ

Este carinhoso deus, o mais belo, justo e bom,

Não buscava desafiar Zeus para roubar-lhe o trono,

Queria apenas poder transmitir o amor verdadeiro,

Gerado por toda a sua beleza, bondade e justiça,

Para libertar os mortais do sofrimento penoso,

E da fugacidade na vida no reino do Tempo e da Morte.

Δ

Zeus, o deus da justiça, não aceitou o pedido do deus.

Uma vez que o amor verdadeiro fosse dado aos mortais,

Estes não precisariam mais da proteção dos deuses,

Pois na beleza, bondade e justiça do amor verdadeiro,

Guiariam suas vidas sem dor, sem medo e sem tristeza.

Ε

O deus desconhecido, o mais belo, justo e bom, perdeu,

E o pai dos Deuses e dos Homens, Zeus, filho de Cronos,

Empreendeu toda a sua força e astúcia contra o nobre deus,

Utilizando o seu raio mais poderoso de todos os tempos,

Em uma batalha no topo do poderoso monte Olimpo.

Ζ

Muitos o chamariam de tolo e de um deus ingênuo,

Por ser bondoso, justo e bom, deixando Zeus destruí-lo,

No entanto muitos não conhecem o belo, o justo e o bom,

Justamente por não o terem contemplado quando deveriam,

Impedidos pela ganância do filho de Cronos, Deus do Olimpo.

Η

Zeus atingiu-o com seu mais poderoso raio cósmico sagrado,

Partindo-o em dois, duas metades separadas pela ira de Zeus,

Fadados a jamais se reencontrarem enquanto Zeus reinasse,

Separados para toda a eternidade, destituídos do poder de deus,

Não seriam mais imortais como todos os deuses são,

Teriam que viver como mortais no tempo e no eterno vir-a-ser,

Θ

Zeus sentiu-se tão furioso com o deus mais belo, justo e bom,

Pela audácia de frente aos deuses os mortais favorecer,

Que lhe lançou uma maldição poderosíssima para perdurar,

Até o momento em que as duas metades se reencontrassem,

Nas terras mortais onde o Tempo reina soberano sob os céus.

Esta maldição seria o sofrimento e a dor para sempre lembrar,

O que aconteceria com aqueles que tentassem enfrentar,

O poderoso pai dos Deuses e dos Mortais, Zeus, filho de Cronos.

Ι

O lado esquerdo do deus mais belo, justo e bom,

Ficou amaldiçoado para sentir o sofrimento do corpo,

Tendo que eternamente enfrentar problemas físicos,

Dos quais até mesmo o mais poderoso dos deuses,

Teria medo de enfrentar e jamais poderia superar,

Enquanto não encontrasse a outra metade separada,

Pela ira e fúria de Zeus, o pai dos Deuses e dos Mortais.

Κ

O lado direito do deus mais belo, justo e bom,

Por outro lado sofreu a maldição da mente e da alma,

Eternamente fadado a enfrentar problemas espirituais,

Levado a odiar a si mesmo e buscar sempre ilusões,

Das quais até mesmo o mais poderoso dos deuses,

Teria medo de enfrentar e jamais poderia superar,

Enquanto não encontrasse a outra metade separada,

Pela ira e fúria de Zeus, o pai dos Deuses e dos Mortais.

Λ

Por 10.000 anos essas duas metades vagaram pela eternidade,

Sentindo suas dores e sua maldição sem podê-las enfrentar.

Até o dia em que na eternidade do éter e das formas perfeitas,

Encontraram-se, em face às determinações do Deus do Olimpo.

Apesar de reunidos na eternidade das terras imortais e perfeitas,

A maldição de Zeus não deixaria de perdurar em suas metades,

E, portanto, o mais belo, justo e bom dos deuses ainda seria dois,

Duas metades do mesmo Ser, divididos pela ira do poderoso deus.

Μ

Havia apenas uma maneira da maldição acabar,

E as duas metades novamente Um se tornar.

Para as terras do deus Tempo e da deusa Morte,

Os dois estavam fatalmente fadados a se aventurar,

Para entre os mortais sofrer a maldição de Zeus,

Doravante a parte esquerda dor do corpo enfrentar,

E inevitavelmente da alma a parte direita sofrer.

Ν

Agora dois por causa da fúria do filho de Cronos,

Esta maldição no deus imortal quase eterna chegaria ao fim,

Apenas quando as duas metades nas terras mortais,

Sofressem muito e a maldição enfrentassem,

Sem deixar de serem belos, justos e bons,

Para regressarem à eternidade como Um,

Ainda sendo o mais justo, belo e bom.

Ξ

Nas terras mortais quando as duas metades encarnaram,

Primeiro a metade esquerda e depois a metade direita.

A parte esquerda com muito medo de ser mortal,

Não recebeu a coragem que tinha quando era imortal,

Fadada, então, ao medo nas terras do Tempo e da Morte,

Enfrentar até o momento em que à eternidade viesse a retornar.

Além do medo, ela recebeu toda a beleza, delicadeza e bondade,

Herdados da alma eterna e imortal do deus que um dia,

Nas terras imortais costumava ser, como Um e imortal.

Ο

Ao ver a sua outra metade aterrorizada pelo medo,

A parte direita não aceitou dela mais uma vez se separar.

E jurou encontrá-la a qualquer custo nas terras mortais.

Por não aceitar de sua outra metade se separar,

A parte direita recebeu a justiça, a coragem e a proteção,

Para ao encontrar a sua outra metade nas terras do Tempo,

Proteção e segurança à sua outra metade sempre dar.

Π

Ao encarnar, as duas metades do mais belo, justo e bom,

Mergulharam nas águas escuras do Lēthe do esquecimento,

Perdendo todas as verdades eternas dos deuses,

Sem ajuda da bondosa Mnemosine para do esquecimento salvar,

Passaram a achar que se tratavam de meros seres mortais.

Ρ

Após muito tempo de sofrimento, muitos invernos,

Dias escuros e frios nas terras dos mortais,

As duas metades pelo acaso do deus Tempo,

Após ambos a deusa Morte enfrentar,

Voltaram após 10.000 anos a se encontrar.

Σ

A parte direita, atormentado pela maldição de Zeus,

Que da alma o fez sofrer em sua jornada finita,

Na escura, solitária e fria terra do Tempo e da Morte,

Reconheceu a sua outra metade separada pelo Deus,

Em um dia comum como outro qualquer nesse mundo,

Deparando-se com a beleza eterna, perfeita e imutável,

Que a sua outra metade recebeu de forma completa,

Mas, também, com o medo de viver nas terras mortais.

Τ

Ao olhar para seus dois perfeitos e belos olhos azuis,

A parte direita se lembrou de sua outra metade,

E pôde reconhecer, através do diálogo empregado,

Toda a justiça, a bondade, e a inteligência contidas,

Na sua outra metade separa dele há 10.000 anos,

Pelo pai dos Deuses e dos Mortais no topo do Olimpo.

Υ

A parte esquerda, atormentada pela maldição de Zeus,

Que do corpo a fez sofrer em sua jornada finita,

Na escura, solitária e fria terra do Tempo e da Morte,

Reconheceu a sua outra metade separada pelo Deus,

Em um dia comum como outro qualquer nesse mundo,

Deparando-se com a Proteção eterna, perfeita e imutável,

Que a sua outra metade recebeu de forma completa,

E também com a missão de eternamente protegê-la,

Enquanto com ela viesse a viver, tanto entre os mortais,

Quanto na perene e perfeita terra da eternidade dos deuses.

Φ

Após 10.000 anos amaldiçoados e separados por Zeus,

As duas metades do deus mais belo, justo e bom,

Reencontraram-se na terra do Tempo e da Morte,

Onde felizes e livres da maldição para sempre hão de viver,

Em sua memória as duas metades do deus mais belo, justo e bom.

Χ

Viver com a sua outra metade, eternamente com amor,

Da forma mais bela, mais justa, e boa vão desfrutar,

De volta à eternidade de onde necessariamente deveriam ter saído,

Para ensinar aos mortais o verdadeiro amor da eternidade.

Por mais 10.000 anos completamente amantes e amados vão viver,

Com o amor verdadeiro do reino da eternidade que um dia

Frente ao deus mais poderoso tentaram aos mortais presentear.

Ψ

Agora poderão, por fim, dela desfrutar,

Gerando mortais também belos, justos e bons,

Para chamar de filhos e filhas e uma família criar,

Filhos do corpo perene e filhos da alma imortal,

Após sofrer por tanto tempo a maldição do Deus,

As duas metades felizes para sempre hão de viver,

Eternamente no vir-a-ser e na eternidade dos deuses.

Ω

Unindo essas duas dimensões da mesma realidade,

Proporcionaram aos mortais viver instantes de eternidade,

Mesmo no mundo do deus Tempo e da deusa Morte,

Para todos aqueles que desse amor vierem a desfrutar,

Poder viver cada instante da vida desejando sua eternidade.

E na fugacidade desses momentos com o amor presenteado,

Poder desejar e viver a eternidade de cada instante.

ΑΦΑΣΙΑ

Indicações de Leitura:

HESÍODO. Teogonia. Edição Bilingue com introdução e tradução do grego de Christian Werner. São Paulo: Hedra, 2013.

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