Precisamos do feminismo, sim!

Muita gente diz que a pior coisa é um homem ter que defender o feminismo. De certo modo, essa afirmação parece ser muito falaciosa. Facilmente poderíamos refutá-la. Mas vamos considerá-la como verdadeira por um instante. Em primeiro lugar, há inúmeras mulheres extremamente lúcidas, capazes de levar o feminismo adiante, promovendo uma série de ações no campo prático e desenvolvendo o pensamento teórico necessário para fundamentá-lo. Parece que, então, apesar de falaciosa, há um fundo de verdade nessa afirmação.

Por outro lado, não escolhi nascer homem. Na verdade, antes disso, não escolhi nascer em um mundo em que milhões de mulheres são violentadas, diminuídas, colocadas de lado e impedidas de exercer sua excelência na sociedade simplesmente pelo fato de não serem homens. Pois bem, parece que a afirmação já perdeu o pouco da sustentação que previamente tinha. Mais importante do que definir qual é a representação legítima do feminismo, precisamos voltar os olhos para o que realmente está em questão: a justiça de gênero.

Toda busca parte da existência de algo como pressuposto. O que isso significa? Significa que, para buscar uma coisa, necessariamente precisamos definir essa coisa, ou ao menos saber o que ela é. Por exemplo, se busco conhecimento, tenho que primeiramente saber o que é conhecimento; se busco felicidade, tenho que primeiramente saber o que é felicidade, ou, pelo menos, saber o que é felicidade para mim. Vamos para algo mais concreto? Se busco frutas e legumes, tenho que saber o que são frutas e legumes, ou corro o risco de não as obter; ou pior ainda: corro o risco de, em vez de frutas e legumes, obter verduras. Isto é, acabar tendo algo que não queremos nas mãos.

Não podemos buscar algo que não sabemos o que é, ou seja, não podemos buscar algo do qual não somos conscientes. O que é ser consciente de algo? É saber o que é a verdade de uma coisa. Saber o que é um carro torna-nos conscientes da verdade de um carro, isto é, torna-nos conscientes do que é um carro; do mesmo modo que saber o que é uma casa torna-nos conscientes do que é uma casa. E o mesmo para todas as coisas.

Do mesmo modo, não podemos resolver um problema do qual não somos conscientes de sua existência. No dia-a-dia, passamos por situações que muitas vezes não nos damos conta de que estão precisando de solução. Um vazamento no banheiro, uma infestação de cupins, ou até mesmo um problema na cerca da garagem. Essas situações passam despercebidas, e não poderão ser solucionadas enquanto não nos tornarmos conscientes de sua condição: não poderemos resolver o vazamento no banheiro se a água que estiver vazando não se tornar evidente, do mesmo modo que não poderemos solucionar a situação dos cupins ou da cerca se tanto os cupins não se tornarem um problema evidente quanto a falha na cerca da garagem.

Entretanto, esses problemas não têm tanta importância para a nossa vida particular: vazamentos são ruins, mas, a princípio, nossa vida não está em jogo por conta deles, assim como cupins ou falhas em cercas. E na nossa sociedade? Na nossa sociedade, esse princípio funciona da mesma maneira. No dia-a-dia na sociedade, na mesma medida em que na nossa vida particular, passamos por situações que muitas vezes não nos damos conta de que estão precisando de solução. Problemas sociais, questões de desigualdade, e muitas outras questões. Da mesma forma, não poderemos resolvê-las se não nos tornarmos conscientes de sua condição, assim como o vazamento do banheiro, os cupins e a cerca.

Temos muito o que buscar e o que resolver na sociedade para vivermos melhor. Enfrentamos uma desigualdade social muito grande no nosso país, onde bancos enriquecem anualmente bilhões de reais, onde empreiteiras também lucram bastante, muitas vezes construindo de maneira ilícita, porém facilitada pelo aparato público, enquanto mais de 30 milhões de pessoas estão na linha da extrema pobreza, sem ter nenhuma “facilitação” oferecida pelo mesmo aparato público que facilita tudo para bilionários. Há também questões de direitos indígenas, dos quais nossos concidadãos indígenas lutam diariamente para ter pelo menos um pedacinho de terra para viver — pedacinho, diga-se de passagem, usurpado cada vez mais pelos grandes latifundiários.

Todavia, não podemos resolver todas as questões ao mesmo tempo. Precisamos partir das questões mais importantes. Quando entramos nesse campo, a situação complica-se muito! Como definir o que é mais importante? Como saber quando a minha dor é mais “doída” do que a sua? Bem, esse campo é muito controverso. Apesar disso, podemos definir quais questões fazem parte das mais importantes, como a injustiça, e quais fazem parte das menos importantes, como a licitação da construção de um shopping center na Câmara dos Deputados em Brasília.

Ao contrário de um shopping irrelevante, temos questões muito mais abrangentes. Mais da metade da população mundial é composta por mulheres. No nosso país, a situação mantém-se a mesma: mais da metade da população brasileira é composta por mulheres. Fica muito difícil de argumentar que a situação em que as mulheres se encontram, não apenas em um panorama nacional, mas no âmbito global, não faz parte das questões mais importantes. É muito difícil negar que o que as mulheres passam diariamente, sem trégua, faz parte das questões com as quais precisamos deparar hoje, agora, nesse instante em que você lê esse texto.

Que questões? Bem, é até ridículo precisar enumerar isso, mas para o bem do argumento, vamos lá. Há questões práticas mais elementares, como o direito de ir e vir, por exemplo, ao sair à noite sozinha uma mulher precisa ser muito corajosa, pois a maior parte do tempo ela estará tentando se distrair com o seu próprio pensamento, repetindo o mantra “não vai aparecer um homem atrás de mim; não vai aparecer um homem atrás de mim”; e quando aparece, ah, o mantra muda “ele não vai andar na minha direção, ele não vai andar na minha direção” — esses dias li uma garota comentando “quantas vezes tive que atravessar a rua quando me deparei com um grupo de homens enquanto caminhava sozinha”. E há também as questões mais elevadas do convívio social, como ocupar efetivamente os mesmos cargos na gestão pública, ou em posições de destaque na sociedade.

Os números não mentem: os principais cargos públicos no país, assim como os mais bem remunerados, são majoritariamente ocupados por homens. E a violência? A esmagadora maioria dos casos de violência sexual é feita contra mulheres. Foi estuprada? É culpa é da saia! A culpa é da hora! A culpa é da bebida! A culpa é da companhia! A culpa é da rua que escolheu pegar! A culpa é da cidade! A culpa é da… A culpa é da… A culpa é da. Isso mesmo: da. O gênero da preposição ‘da’ é feminino.

A partir do momento em que a sociedade tiver consciência deste problema, a saber, da injustiça de gênero e da atual situação da mulher — cujo histórico não é nem um pouco melhor do que na contemporaneidade —, nós poderemos começar a resolvê-lo. A violência inaceitável que elas sofrem diariamente, tanto no que diz respeito à violência física quanto à violência moral e simbólica. É na rua, no elevador, na fila do banco, na sala de aula, na sala de reunião, na sala da própria casa!

A sociedade precisa tornar-se consciente da situação da mulher. Não há a possibilidade de uma justiça de gênero e de um convívio social mais igualitário entre homens e mulheres na nossa sociedade, se não tivermos consciência da atual situação insustentável e inadmissível em que a mulher injustamente se encontra. Do mesmo modo que não poderemos resolver o problema do vazamento no banheiro, da infestação de cupins e da falha na cerca se o vazamento, se a infestação e se a falha não se tornarem evidentes, não poderemos resolver o problema da injustiça de gênero e da violência contra a mulher se esses problemas não se tornarem evidentes.

Como essas questões podem se tornar evidentes? Através do feminismo. A sociedade precisa urgentemente se tornar consciente da injustiça de gênero, processo construído através do desenvolvimento da sociedade ao longo da história — uma sociedade patriarcal, cuja base política, cultural e filosófica está na sociedade grega antiga, sociedade misógina e predominantemente masculina. Enquanto não nos tornarmos conscientes dessa situação, infelizmente testemunharemos a reprodução e a perpetuação dessa mentalidade. O feminismo é o responsável por tornar esse problema evidente, assim como a água, no caso do vazamento, a infestação, no caso dos cupins e a falha, no caso da cerca. A diferença entre eles é que a água vazando é só água, a madeira perdida na infestação de cupins é só madeira, assim como a cerca. No caso da mulher, estamos falando do futuro de mais da metade da população mundial que se encontra diminuída pela parcela masculina. Estamos falando de vidas que são perdidas na sociedade, de talentos que não são devidamente reconhecidos, de futuros podados e de voos impossibilitados.

Ainda não temos essa consciência, mas parece que estamos no caminho. Todo pensamento que prega a justiça de gênero, demonstrando a objetivação da mulher através das mídias e fomentando uma tomada de consciência mostra-se como válido e necessário. Hoje vemos nas redes sociais uma tentativa de tornar evidente essa questão e do fomento para a tomada de consciência. Essa é uma ótima oportunidade para o nosso século. O feminismo, desse modo, é mais do que necessário para que possamos adquirir a consciência dessa situação para que, de modo efetivo, ela venha a ser resolvida.

Com efeito, essa busca será cada vez mais efetiva com o feminismo, na medida em que esse discurso torna evidente esse problema social e nos aproxima mais da consciência desse problema. Esse discurso precisa dialogar com o nosso tempo, à luz dos fundamentos filosóficos, sobretudo dos desenvolvidos no século passado. Portanto, nada mais legítimo do que o diálogo entre o feminismo e a nossa sociedade, através de propostas e discursos fundamentados nos princípios de justiça de gênero e supressão da violência contra a mulher, pelos quais possamos tornar evidente a situação para que a consciência do problema se torne a chave da solução.

Desde o século XIX, diferentes discursos tornaram essas questões muito evidentes para que o início do processo de consciência fosse levado a efeito. No decorrer do século passado, vários pensamentos convergiram para um processo de mudança e de transformação dessa situação. Precisamos agora, no nosso século, de uma continuação para o processo de amadurecimento do feminismo e da conscientização da sociedade para pôr um fim à injustiça de gênero e à violência contra a mulher. Por isso, nada mais justo do que, mesmo que através de um homem — ou de homens —, a importância desse discurso não seja perdida em meio à radicalização e banalização que esse mesmo discurso pode sofrer nas mãos de movimentos de fanatismo e obscurantismo, mascarados de feminismo. Por isso, a questão que fica é a seguinte: será que podemos repensar um feminismo para o século XXI?

Indicações de Leitura:

MILL, John Stuart. A sujeição das mulheres. Rio de Janeiro: Almedina Brasil, 2006.

ONFRAY, Michel. A potência de existir. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010.

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