Neuro-hedonismo: uma ética para o séc. XXI

A neurociência e a psicologia como fundamentação para o neuro-hedonismo como proposta ética: o prazer e os neurônios

 

Introdução

 

Em um de seus artigos mais famosos, a primeira coisa que Thomas Nagel afirma é que “a consciência é o que torna o problema mente-corpo realmente intratável”. Na medida em que meu objetivo é usar a relação cérebro-corpo-ambiente, para fundamentar uma proposta ética, parece que não precisarei mexer no nó da consciência. Ao invés de desatá-lo, cortarei ele da minha investigação antes de começá-la. Tratar da consciência posta-se como uma necessidade da filosofia da mente e da ciência em nosso tempo, de modo a esclarecer o funcionamento de nosso cérebro e sua relação com a subjetividade e a moral. Negar a importância desse problema é um contrassenso que atrapalha o desenvolvimento das investigações sobre o mental e o cerebral. Apesar disso, não faz parte da proposta do presente texto elucidar a relação entre corpo e mente através da explicitação da condição física ou metafísica da consciência, ou até mesmo de sua exclusão por completo. Construo meu texto ciente de possíveis acusações de uma visão reducionista e sei que o problema da consciência continua posto de qualquer forma.

O argumento central do presente texto gira em torno da ideia de que a autoconsciência da estrutura neuronal e relação eletroquímica do cérebro com ele mesmo, assim como da relação psicossocial com o ambiente, isto é, uma característica superorganismal possibilitada pelos neurônios espelho, pode fundamentar uma espécie de neo-hedonismo como proposta ética para vivermos melhor: o que chamo de neuro-hedonismo. Para estruturar essa argumentação, levando em consideração o caráter expresso desse artigo, faz-se necessário a apresentação pontual do hedonismo, da estrutura neuronal do cérebro e seu funcionamento, dos neurônios espelho e suas implicações, da relação psicossocial que decorre do funcionamento dessa estrutura neuroquímica, da minha proposta ética possibilitada pelo caráter superorganismal de nossa espécie — efeito dos neurônios espelho —, fundamentado na evolução de nossa própria espécie, da plasticidade neuronal e possíveis consequências positivas do neuro-hedonismo frente a condições psíquicas como a depressão e outros problemas psicossociais contemporâneos. Em suma, fundamento uma proposta ética na neurociência e na psicologia para possibilitar uma nova perspectiva de bem viver em nosso mundo contemporâneo.

A apresentação dessa fundamentação extrapola os limites da filosofia, ao visar uma interdisciplinaridade capaz de estabelecer um diálogo entre cérebro, corpo, interação social e moral. Como consequência dessa proposta, a apresentação da fundamentação parece fazer-se mais inteligível através de uma divisão clara entre esses diversos campos do saber. O desenvolvimento do texto será dividido em cinco partes explicativas, cada qual apresentando uma faceta dessa estrutura, e uma conclusão defendendo o neuro-hedonismo como proposta ética. O desenvolvimento das cinco partes explicativas divide-se da seguinte forma: 1) em um primeiro momento, serão apresentados o funcionamento cerebral no que diz respeito à estrutura eletroquímica neuronal, que proporciona um diálogo entre cérebro, corpo e ambiente e a neuroplasticidade; 2) após estruturar, de forma expressa, um esboço inicial sobre a relação neurológica do cérebro e suas consequências, será desenvolvida uma rápida apresentação dos neurônios espelho e a consequente ligação que eles proporcionam entre o cérebro e o ambiente; 3) a partir do funcionamento dos neurônios espelho e da estrutura psicossocial do cérebro, a validação social será apresentada como psíquico e quimicamente necessária para o nosso desenvolvimento; 4) nesta etapa, como conclusão das três etapas anteriores, a saber, estrutura eletroquímica cerebral, neurônios espelho, plasticidade neuronal, validação social e a relação neurológica e psicoquímica entre cérebro-corpo-ambiente, a ideia da autoconsciência dessas estruturas será apresentada como sendo grandemente enriquecedora para a nossa experiência de vida; 5) após a fundamentação neurocientífica e comportamental, será finalmente definido filosoficamente, de forma sucinta, o que é hedonismo, dialogando com releituras contemporâneas do hedonismo grego e apresentando sua ligação com Epicuro, John Stuart Mill e Michel Onfray. Por fim, após o desenvolvimento explicativo da fundamentação, no último momento do artigo será feita uma conclusão ao se estabelecer filosoficamente o neuro-hedonismo como proposta ética válida para os dias de hoje, fundamentada na autoconsciência do funcionamento neurológico do nosso cérebro e em sua relação psicossocial com o ambiente.

 

1. Estrutura eletroquímica cerebral e neuroplasticidade

 

Nosso cérebro é composto por aproximadamente oitenta e quatro bilhões de neurônios. Eles são células cerebrais que coordenam a nossa vida. Esses neurônios causam uma espécie de descarga elétrica quando sua voltagem chega a um certo nível. Essas descargas funcionam como uma espécie de sinal elétrico para outras células. Por termos bilhões de neurônios, essas descargas não são isoladas. A todo instante, muitos neurônios disparam seus impulsos elétricos, causando o que se conhece por ondas cerebrais. Essas ondas cerebrais acontecem em nosso cérebro. No entanto, dado que temos diversas emoções e experiências diferentes, essas ondas não poderiam ser todas iguais. Elas são classificadas em faixas, as quais “viajam” em sintonias diferentes, para serem captadas pelas células cerebrais correspondentes. A transferência de informações entre os neurônios torna-se satisfatória quando há uma sincronia e ressonância em sua atividade, quando as ondas cerebrais são captadas pelas células que devem captá-las e quando são ignoradas pelas que devem ignorá-las.

Isso significa que temos sensações e podemos pensar, imaginar, falar, e etc., porque há essa comunicação neuronal satisfatória por meio dessas ondas cerebrais. Quando sentimos medo, ondas cerebrais responsáveis por essa emoção possibilitam a experiência de medo (ou qualquer causa do medo). Se sentimos fome, frio, euforia, prazer, e assim por diante, é porque temos reações eletroquímicas em nosso cérebro, isto é, reações pelas quais o sistema nervoso emite descargas elétricas e coordena a produção e liberação de substâncias químicas. Toda a nossa relação com o ambiente e com nós mesmos é possível por conta de nosso funcionamento neuronal, ou seja, dos nossos neurônios e de sua relação eletroquímica.

Apesar disso, não é apenas através de nossos neurônios que nosso cérebro funciona. Ele articula suas diferentes regiões a funções distintas, as quais trabalham para sustentar e possibilitar um funcionamento para todo o nosso organismo. Segundo Vilayanur S. Rachamandran, um neurocientista contemporâneo, nossa relação racional com o mundo além de ser fundada em nossas relações eletroquímicas internas, isto é, além de ser possibilitada por uma comunicação entre nossos neurônios e suas substâncias químicas, ela é regulada pelas partes de nosso cérebro, sobretudo pela relação entre o hemisfério esquerdo e o hemisfério direito.

Para ele, o hemisfério cerebral esquerdo funciona de modo a possibilitar que criemos um sistema de crenças sólido que fundamente a nossa visão de mundo e da realidade. Apenas estabelecemos verdades sólidas acerca do mundo e da ordem das coisas por conta do hemisfério esquerdo do cérebro. Ele proporciona-nos uma ideia de continuidade e sentido à nossa relação com o mundo. Deste modo, ao longo da nossa relação com o mundo, novas experiências são guardadas como nossas verdades nesse sistema pré-existente de crenças.  Entretanto, esse sistema, assim como a comunicação neuronal, funciona satisfatoriamente quando há sincronia entre as verdades pré-estabelecidas e novas experiências, ou seja, quando há uma ressonância entre as crenças guardadas no hemisfério esquerdo e as novas experiências. Isso significa que, quando uma nova verdade decorrente de uma experiência não está de acordo com as crenças pré-estabelecidas, ela é negada em nome de ressonância e sincronia. Em outras palavras, para que possamos ter uma sensação de continuidade e enxergar a realidade racionalmente, precisamos dar fixidez a certas verdades, e negar o que não se encaixa para manter coesão e coerência.

Do mesmo modo que duas ondas cerebrais distintas que produzam sensação de frio e calor, por exemplo, não são comunicadas pelas mesmas células ao mesmo tempo, já que uma onda será ignorada em nome da outra, de modo que não sintamos frio e calor ao mesmo tempo, nosso cérebro não permite que tenhamos duas ideias contraditórias ao mesmo tempo. Muitas vezes veremos algo que causará uma grande contradição ao nosso entendimento. Perplexos, normalmente tentaremos resolver essa contradição, já que não podemos aceitar duas ideias opostas como verdade no nosso conjunto de crenças. O hemisfério esquerdo, portanto, manterá a ideia que tenha mais ressonância e sincronia com as crenças pré-existentes, isto é, manterá as novas experiências que se encaixam e negará as que não se encaixam.

O hemisfério cerebral direito, por outro lado, constantemente desafia o conjunto de crenças pré-existente. Enquanto o hemisfério esquerdo tenta preservar uma coesão e coerência em nome do próprio modelo, o hemisfério direito busca forçar uma reavaliação de nossa visão de mundo. Esse mecanismo existe para que possamos aprender novas coisas, mesmo que elas sejam o oposto do que atualmente sabemos. Por exemplo, sabemos o que são frutas, e todas as novas experiências que tragam a nós novos alimentos que se alinhem com frutas serão guardados pelo hemisfério esquerdo como frutas. Imaginem a seguinte situação: conhecemos a banana e a maçã. Costumamos comer ambas. Elas ficam guardadas no hemisfério esquerdo como frutas. No momento em que experimentarmos uma pera e percebermos que se trata de um alimento que se alinha com a banana e a maçã, o hemisfério esquerdo do cérebro não terá dificuldades de guardá-lo no conjunto de crenças como uma fruta. Se experimentarmos a alface, por exemplo, nesse cenário, o hemisfério esquerdo terá mais dificuldades de aceitá-la como fruta. Isso acontece porque somos habituados a classificá-la como verdura, então ela será tratada de modo diferente da banana, da maçã e da pera. O hemisfério direito, por outro lado, no momento em que surgem dissonâncias, ou seja, contradições discrepantes muito grandes, como, por exemplo, a experiência com o tomate (que parece uma verdura porque comemos com salada), tentará revisar o que se entende por fruta e tentará realocar o tomate enquanto fruta.

Entretanto, apesar de esse ser o cenário ideal para o processamento racional, nem sempre o hemisfério direito tem sucesso em revisar o sistema de crenças de modo a resolver grandes contradições e proporcionar um processamento racional otimizado. Quando nossas crenças pré-existentes são muito fortes e fundamentam as nossas percepções sobre a realidade e visão de mundo mais profundas, nosso hemisfério direito não consegue revisar o sistema de crenças pré-existentes e a negação de novas experiências é inevitável. No caso do tomate, a crença sobre os frutos não fundamenta de forma profunda a nossa visão de mundo ou da realidade. O tomate pode ser fruta ou verdura, continuaremos podendo lidar com o mundo e com a realidade sem pensar muito nele. Mas e se nosso sistema de crenças tiver que abrir mão de certas noções como a gravidade? Ou como Deus, por exemplo? Nesses casos, o hemisfério direito tem muita dificuldade em reavaliar essas ideias, na medida em que elas sustentam a nossa relação com a realidade e com o mundo. Mesmo com argumentos extremamente racionais e persuasivos, teríamos dificuldade em abrir mão de nossa crença na gravidade ou em Deus.

Diferentes experiências têm diferentes impactos no cérebro. Enquanto sentir dor causa uma comunicação neuronal que produzirá as sensações referentes à dor, sentir calor, do mesmo modo, causará uma comunicação neuronal que produzirá sensações referentes ao calor; e assim para todas as sensações. Essa comunicação causa conexões entre os neurônios, que fisicamente dão forma à nossa composição cerebral. Teremos, portanto, diferentes conexões neurais, acarretando diferentes emoções e posturas perante à vida. Por exemplo, uma pessoa que passa por experiências completamente diferentes das nossas terá conexões neurais diferentes. E dependendo de quais neurônios são utilizados para se relacionar com as experiências do indivíduo, certas conexões tornam-se mais fortes e mais eficazes, na mesma medida em que outras podem se tornar mais fracas. Isso é o que é chamado de neuroplasticidade ou plasticidade neuronal.

Enquanto um corredor olímpico desenvolve conexões neuronais fortes e eficientes que se referem ao ato de correr longas distâncias, um nadador desenvolverá conexões neuronais diferentes que o possibilitem se tornar um nadador. As nossas experiências no dia-a-dia conseguem confirmar a neuroplasticidade de maneira muito eficiente. Sabemos que nos tornamos mais habilidosos com a prática. Quando aprendemos a andar de bicicleta, o processo parece praticamente impossível. Depois de muitas quedas e muitos arranhões, aquele mesmo processo praticamente impossível se torna muito fácil, de modo que, depois de um certo tempo, conseguimos andar de bicicleta até sem as mãos! Deste modo, qualquer tipo de habilidade pode ser desenvolvido através do treino.

Não importa de que maneira você está experienciando o mundo. Por conta da plasticidade neuronal, através de ações e emoções, nosso cérebro está estabelecendo conexões neuronais a todo instante, fortalecendo conexões e, inevitavelmente, enfraquecendo outras em nome das que fortalece. Ainda não sabemos muito bem como toda a nossa memória funciona, por isso não podemos afirmar que poderíamos nos tornar habilidosos em centenas de milhares de atividades diferentes. Sabemos que a neuroplasticidade funciona através de nossas experiências, sendo elas que definem a nossa maneira de lidar com o mundo. Estamos fisicamente modificando o nosso cérebro para aperfeiçoarmo-nos em nossas habilidades.

 

2. Neurônios espelho e neuroplasticidade

 

Por que será que nos sentimos tão tristes quando presenciamos experiências de pessoas que estão, de algum modo, sofrendo? Ou por que será que sentimos a euforia de presenciar um momento eufórico de alguma pessoa, mesmo que não estejamos diretamente ligados à causa dessa euforia? E o que dizer dos filmes de terror? Por que tanto medo se sabemos racionalmente e sem sombra de dúvidas que se trata de algo irreal e fantasioso? Se as nossas experiências causam conexões neuronais e sentimos dor, euforia e medo através do estímulo efeito dessas experiências, por meio de uma comunicação entre corpo e cérebro, por que será que parece que sentimos o que as outras pessoas estão sentindo, se não tivemos suas experiências? A princípio, isso parece não fazer sentido. Muitas vezes já escutamos o famoso “você não sabe o que estou sentindo”. Apesar disso, parece que, na verdade, sabemos.

De acordo com Giacomo Rizzolatti, outro neurocientista contemporâneo, experimentos neurofisiológicos demonstram que quando indivíduos observam uma ação feita por outro indivíduo, sua parte cerebral que diz respeito a movimentos torna-se ativa, mesmo quando ele não está exercendo nenhum movimento físico. Rizzolatti quis dizer que, mesmo quando os indivíduos observados estavam totalmente imóveis, suas regiões cerebrais que deveriam ser ativadas em caso de movimento funcionavam quando eles observavam outras pessoas praticando as ações correspondentes. Isso ocorre graças à existência de um sistema de neurônios espelho. Para entender melhor essa relação, precisamos situá-los no âmbito dos neurônios em geral.

Como dito anteriormente, através das nossas experiências, conexões neurais são criadas por causa da atividade dos neurônios. Isso significa que quando realizamos uma ação ou experienciamos uma emoção, neurônios disparam suas descargas eletroquímicas. Todavia, segundo Rizzolatti e, posteriormente, Ramachandran, quando observamos outra pessoa realizar a mesma ação ou experienciar a mesma emoção, muitos dos mesmos neurônios vão disparar novamente, como se nós mesmos tivéssemos realizado a ação e sentido a emoção. Isso é incrível, porque nosso cérebro pensa que estamos realizando aquelas ações e passa a funcionar de modo análogo. Agora está explicado toda a adrenalina que sentimos ao presenciar um acidente ou ao assistir a um filme de terror, ou a salivação quando vemos alguém tomando um sorvete muito saboroso. Dessa forma, podemos sentir o que outras pessoas sentem através desses neurônios.

Talvez o ponto mais revolucionário dessa descoberta esteja na possibilidade da plasticidade neuronal através dos neurônios espelho. Isso significa que ao observarmos um nadador, estaremos fisicamente modificando o nosso cérebro a fim de tornarmo-nos habilidosos em nadar. E mais impressionante do que isso é o fato de que imaginar e pensar uma ação também dispara muitos dos mesmos neurônios que são ativados quando realizamos essa ação. Com efeito, podemos usar a imaginação, o pensamento e a reflexão para estabelecer conexões neuronais que nos ajudem a melhorar nossas habilidades. Um músico que se imaginar tocando fortalecerá suas conexões neuronais que o possibilitam ser um bom músico. E assim para todas as coisas.

Nós estamos constantemente “espelhando” pessoas ao nosso redor, inconscientemente procurando por ideias e sensações que reflitam o nosso próprio estado e personalidade para estabelecer uma ressonância a fim de proteger o nosso equilíbrio emocional. É por isso que nosso humor é tão afetado pelas pessoas ao nosso redor. Nossa percepção inicial dos sentimentos e da personalidade das outras pessoas é resultado de neuronalmente ligarmos nossa percepção inicial do comportamento dos indivíduos a nossas memórias de experiências passadas. Esse processo dá-nos uma primeira impressão intuitiva. Com isso, podemos entender as pessoas através de nossos neurônios espelho. Da mesma maneira que o hemisfério esquerdo do nosso cérebro nega as novas ideias que estão em dissonância com as crenças pré-estabelecidas, pessoas que estejam em dissonância com memórias de experiências passadas são inicialmente negadas pela nossa estrutura cerebral.

Segundo Ramachandran, o neurônio espelho não sabe a diferença entre ele e os outros. Esse é o fundamento que sustenta toda a possibilidade de uma interação interpessoal efetiva. Ora, se nossos neurônios espelho não sabem a diferença entre ele e os outros, podemos então experienciar as emoções e sensações das outras pessoas como se fossem nossas, na mesma medida em que as outras pessoas podem experienciar as nossas emoções e sensações como se fossem delas. Isso significa que quando temos contato com outras pessoas e observamos suas ações e suas emoções, nossos neurônios não conseguem diferenciar as nossas ações e emoções e as das outras pessoas, estabelecendo uma espécie de ressonância entre o que acontece com o indivíduo e o que acontece com o ambiente. E essa é a razão pela qual nós somos tão dependentes da validação social e pela qual queremos nos sentir parte da sociedade.

 

3. Validação social e a relação neurológica e psicoquímica entre cérebro-corpo-ambiente

 

Todos nós, de alguma maneira, buscamos ser aceitos na sociedade e sermos reconhecidos pelo que acreditamos ser. Tal afirmação parece banal, uma vez que facilmente concordamos com ela sem precisar de longas argumentações persuasivas, dado que a todo instante podemos observar esse tipo de comportamento em nós mesmos e nas pessoas que nos cercam. Todavia, não se trata apenas de senso comum. Segundo Daniel Goleman, psicólogo de Harvard, há implicações psicoquímicas para tal comportamento. Ao sermos confrontados com diferenças em opinião, as substâncias químicas que são liberadas no nosso cérebro são as mesmas que tentam garantir a nossa sobrevivência em situações de risco de vida.

Neurônios e neurotransmissores específicos, como a noradrenalina, disparam um estado defensivo quando nós somos invalidados socialmente, ao sentir que nossos pensamentos têm que ser protegidos da influência de outros. A parte mais primitiva de nosso cérebro interfere com o pensamento racional nesse estado primitivo, e o sistema límbico pode suprimir a maior parte da nossa memória funcional, fisicamente causando a condição de “cabeça fechada”. Facilmente podemos notar essas situações em discussões triviais em nosso quotidiano, quando alguém irracionalmente empaca no raciocínio simplesmente por suas ideias serem negadas em uma discussão. Não importa o quanto uma ideia seja racionalmente válida, o cérebro terá dificuldade em processá-la nesse estado.

Segundo o Journal of the Association for Psychological Science, sacudir o sistema de crenças de algumas pessoas tende a torná-las assíduas defensoras de suas próprias crenças, muitas vezes as motivando a procurar mais adeptos e convencer outros. Quando um fundamentalista tem suas crenças colocadas em cheque de maneira abrupta, ele tenderá a interpretar essa abordagem como um ataque pessoal e buscará juntar o maior número de adeptos possíveis para sua causa irracional. Por outro lado, a abordagem de buscar entender, sem julgamento, tende a inspirar as pessoas à condição de “cabeça aberta” e diminui os níveis de resistência e apego emocional a crenças pessoais.

Em um nível neuronal, nossos neurônios reagem como se estivéssemos sendo ameaçados, dado que o hemisfério esquerdo do cérebro, por conta do alto nível de substâncias químicas reativas, não consegue abrir espaço para o hemisfério direito revisar o sistema de crenças pré-existente que temos em nosso cérebro. Pessoas que lidam com muito estresse no dia-a-dia, situação cada vez mais comum na nossa sociedade, por exemplo, podem encontrar-se quase constantemente nessa mentalidade defensiva, uma vez que o estresse pode danificar o sistema límbico e drasticamente aumentar a irritabilidade emocional. A plasticidade neuronal, através de uma tomada de consciência e de um trabalho gradual de controle emocional e validação social, pode criar conexões neuronais que fortaleçam a resistência emocional, revertendo esse quadro de constante irritabilidade emocional.

Por outro lado, quando nos expressamos e nossos pontos de vista são aceitos, essas “substâncias químicas defensivas” diminuem no cérebro e a neurotransmissão de dopamina ativa os neurônios de recompensa, fazendo com que possamos nos sentir fortes e aumentando nossa autoestima. Nesse momento, sentimos uma potência grande, como se estivéssemos em um estado de força e confiança. Nesse estado, enxergamos as ideias com mais clareza e temos muito mais facilidade para reavaliar nosso sistema de crenças pré-estabelecido.

A autoestima e essas crenças estão intimamente ligadas ao neurotransmissor serotonina. Quando a falta de serotonina chega a grandes proporções, frequentemente os indivíduos se encontram em condições mentais como a depressão e comportamentos autodestrutivos que podem levar até mesmo ao suicídio. A invalidação social tem um papel de destaque no desenvolvimento dessas condições. A validação social, por sua vez, aumenta os níveis de dopamina e serotonina no cérebro e permite-nos libertar muitas das crenças guardadas no hemisfério esquerdo do cérebro, já que o hemisfério direito tem muito mais possibilidade de reavaliar as nossas crenças sem ser atrapalhado por altos níveis de substâncias químicas defensivas.

Por conta dos neurônios espelho, nosso comportamento é neurologicamente espelhado pelas pessoas ao nosso redor. Estamos continuamente ligando nossos próprios cérebros e o dessas pessoas, através de cada ação que é socialmente observada. Essas novas descobertas apontam para a possibilidade de aspectos superorganismais de nossa natureza, isto é, a possibilidade de uma relação cérebro-corpo-ambiente aberta, que nos permite pensar que nos realizamos através dessa relação neuronal e psicoquímica por meio de outros indivíduos. Essa natureza enfatiza a efetividade de pensamentos como “seja a mudança que você quer ver nos outros”. Essa é a propriedade básica dos neurônios espelho, os quais nos permitem entender nós mesmos através de outros. Quando fundamentamos a nossa concepção de mundo em antigas estruturas neurológicas ultrapassadas, as quais consideram a nossa atividade neuronal como propriamente nossa e excluem o ambiente, estamos cometendo um grande equívoco.

De acordo com John T. Cacioppo, da neurociência social, nossas características superorganismais são reflexos da evolução da espécie, na qual nossa sobrevivência enquanto primatas dependia de nossas habilidades coletivas. Com o passar do tempo, as regiões neocorticais desenvolveram-se ao ponto de permitir a modulação de instintos primitivos e substituir os impulsos egoístas para o benefício do grupo. Deste modo, parece que foi a nossa evolução enquanto espécie, dependente do coletivo para sobreviver, que desenvolveu essas características superorganismais que fundamentam a nossa atividade neuronal. A partir do estágio evolutivo em que chegamos, não podemos pensar em um desenvolvimento individual não-social sem graves consequências para o desenvolvimento humano.

Rizzolatti foi o responsável por experimentos neurofisiológicos que demonstraram a existência dos neurônios espelho em seres humanos. Apesar disso, a descoberta dessa estrutura neuronal deu-se primeiro com macacos. Os macacos eram capazes de imitar outros macacos em suas ações e em sua relação com objetos. Sabe-se que macacos também se desenvolvem em grupo, assim como praticamente todos os mamíferos. Parece que o desenvolvimento de estruturas neuronais superorganismais tanto em macacos quanto em humanos acompanha a evolução da espécie e sustenta um modo de vida gregário.

A principal consequência dessa nova perspectiva que enxerga a relação cérebro-corpo-ambiente sem divisões unilaterais como “interno” e “externo” é permitir-nos depreender que a atividade neuronal do cérebro ressoa de modo mais coerente com outros indivíduos quando não há dissonância entre as novas regiões cerebrais avançadas e as antigas e mais primitivas, além de quando não há dissonância entre a estrutura eletroquímica cerebral de um indivíduo e o ambiente. Isso significa que tudo indica que nosso cérebro funciona de modo otimizado e efetivo quando há uma validação social e quando convivemos com outros indivíduos de modo a desenvolvermo-nos interagindo e “espelhando” as ações socialmente observadas. Fenômenos como o egoísmo e o individualismo estão fundamentados em um modelo falho de identidade construído historicamente que decorre de um inevitável e compreensivo desconhecimento da nossa estrutura eletroquímica cerebral, dos neurônios espelho, da plasticidade neuronal e da relação psicossocial. Em outras palavras, o que entendemos por identidade é uma construção histórica que foi desenvolvida pelo fato de não sabermos realmente como funcionava a nossa estrutura cerebral. Essa construção é uma ilusão, dado que o nosso cérebro não funciona de modo que sustente a ideia de identidade como sendo referente a um “eu” interno.

Esses novos postulados neurocientíficos e comportamentais apontam para uma visão científica de identidade como uma expressão momentânea de unidade constituída de uma multiplicidade constante, sem nenhum centro. Isso significa que somos tanto resultado de nossas trocas de informação neuronal, da comunicação entre as partes do nosso cérebro e da relação entre a nossa estrutura cerebral e outras pessoas. O que entendíamos por identidade não passa de uma ilusão. Somos o resultado de ressonâncias com outros indivíduos. Portanto, parece que a melhor maneira de viver deve partir de uma autoconsciência da relação cérebro-corpo-ambiente.

 

4. Autoconsciência da relação cérebro-corpo-ambiente

 

As consequências psicológicas e morais da autoconsciência de nossa estrutura eletroquímica cerebral, da existência de neurônios espelho e de seu possível caráter superorganismal, do princípio de neuroplasticidade e de suas implicações com os neurônios espelho, da necessidade de validação social e da relação neurológica e psicoquímica entre cérebro-corpo-ambiente, podem mudar profundamente a maneira pela qual vivemos. Essa autoconsciência causaria uma claridade mental, uma consciência social, uma autorregulação e possibilitaria uma proposta ética fundamentada nos processos neurológicos, físico-químicos e psicossociais do cérebro.

Experienciamos situações nas quais o fundamentalismo e concepções muito unilaterais acarretam em grandes problemas sociais. Até mesmo em pequenas relações interpessoais, o caráter irredutível da mentalidade de algumas pessoas torna a convivência árdua e problemática. Fundamentalismo religioso, xenofobia, preconceito e outras práticas de invalidação social são bons exemplos dessas situações. Na medida em que nos tornamos autoconscientes do processo físico-químico nas partes mais primitivas de nosso cérebro a fim de proteger-nos da influência externa de ideias e pontos de vista, podemos achar meios de aliviar essas relações e proporcionar às nossas relações psicossociais um maior funcionamento das partes mais recentes do cérebro de modo que tenhamos uma experiência social satisfatória. Em outras palavras, na medida em que sabemos como o nosso cérebro funciona, sobretudo sobre como substâncias químicas impedem que desapeguemos de crenças irracionais por meio de uma relação mais limitada entre os hemisférios do cérebro, poderemos desenvolvermo-nos de maneira muito mais efetiva, tanto no âmbito de relações interpessoais quanto no âmbito de relações sociais.

Deste modo, na medida em que essa autoconsciência proporcionasse às pessoas um entendimento claro de nossa natureza social e da dependência direta e necessária da relação com outros indivíduos para desenvolvermos nossa estrutura cerebral, ou seja, da relação fundamental que os neurônios espelho e sua relação com outros indivíduos e a neuroplasticidade têm com a nossa personalidade, comportamento e desenvolvimento cognitivo, as relações interpessoais e sociais seriam vistas como relações de identidade, ou seja, passaríamos a entender “identidade” pelo resultado das ressonâncias com outras pessoas, isto é, identidade seria vista como resultado de uma multiplicidade na relação cérebro-corpo-ambiente, e não de uma unidade interna ilusória. Em outras palavras, perceberíamos que o “eu” é, na verdade, o “nós”. Ao psicologicamente rotular o eu como uno e absolutamente interno e o ambiente do mesmo modo como externo, restringimos os nossos próprios processos neuroquímicos em nome de uma dissonância ilusória. Isso significa que nada é externo, ou seja, nossa relação com o outro é a nossa relação com nós mesmos.

Não se trata de nenhum tipo de autoajuda, espiritualismo metafísico ou religiosidade oriental. Trata-se de uma estrutura cerebral inegável e facilmente experimentável empiricamente com as ferramentas neurocientíficas que atualmente possuímos. Estamos falando de uma investigação cujas bases estão na própria relação neurológica, físico-química e psicossocial entre nosso cérebro, nosso corpo e o ambiente (outros corpos e cérebros). Entender essa relação cérebro-corpo-ambiente é revolucionar as nossas concepções obsoletas de identidade e sociedade.

Na medida em que percebemos a multiplicidade por detrás da momentânea e aparente unidade que caracteriza nossa identidade ilusória, poderemos nos autorregular constantemente através de nossa relação interpessoal por meio do caráter superorganismal dos neurônios espelho. Em outros termos, os neurônios espelho constroem o que entendemos por identidade através de sua relação com as outras pessoas, e essa mesma relação se transforma de acordo com novos “espelhamentos” em novas situações, possibilitados por ressonâncias na comunicação neuronal, entre os diferentes hemisférios do cérebro e entre as diferentes pessoas e, por isso mesmo, possibilitando uma manutenção dessas ressonâncias e um bom funcionamento e desenvolvimento do cérebro, do corpo e do ambiente. Essas ressonâncias são fundamentais para o desenvolvimento humano. A validação social é necessária para ressonâncias, ao passo que a invalidação social é responsável direta das dissonâncias. Há uma conexão necessária entre os indivíduos. Não se trata simplesmente do bem-estar. O desenvolvimento da nossa espécie e da sociedade está em jogo na autoconsciência do verdadeiro processo de nossa identidade.

Finalmente, quando há a autoconsciência de todos esses aspectos, podemos agir de modo a levar a efeito uma vida que sustente essa autoconsciência e a traduza em ações visando ressonâncias e o processo de identidade que não descarte o uno, mas tenha em mente o caráter múltiplo de nossa identidade. Essa proposta ética é o neuro-hedonismo. Antes de definir o neuro-hedonismo e explicitá-lo na conclusão desse artigo, precisamos estabelecer uma pequena digressão, dando um passo atrás na argumentação para primeiramente esclarece expressamente o que é o hedonismo e o neo-hedonismo, para evitarmos confusões e contradições no entendimento do texto.

 

5. Hedonismo histórico e hedonismo caricato

 

No mundo grego antigo, há mais de 25 séculos atrás, surge a filosofia. É no seio dessa cultura que se dá a origem do pensamento filosófico. Tanto nas colônias fora do que hoje entendemos por Grécia, como na península jônica, na Magna Grécia e em outras regiões que hoje são a Turquia, a Itália e as regiões mediterrâneas, como também na região da própria Grécia, sobretudo em Atenas, várias especulações sobre o surgimento da ordem no mundo e sobre o próprio homem dominam a reflexão filosófica. Dentre tantas concepções de mundo e de homem, surge o hedonismo.

Para ser claro e direto, a princípio, o hedonismo (da palavra hedonē, ou ἡδονή, que significa prazer) surge como a visão moral que coloca o prazer como bem último da vida. O prazer era visto como oposto da dor, então a vida bem vivida seria a que buscasse suprimir a dor em nome do prazer. Deste modo, o prazer é um bem em si mesmo, e a busca por prolongá-lo e mantê-lo é a busca pela felicidade.

Em um mundo que se tornava cada vez mais espiritualizado por conta do espiritualismo na filosofia, de pensamentos que exaltavam o espiritual, racional e abstrato em nome do material, do corpo e das paixões, um pensamento que se pautava no prazer corpóreo foi muito mal visto pela tradição. Na medida em que o espiritualismo vence a queda de braço filosófica na história da filosofia, sobretudo com a vitória de Parmênides-Platão e do neoplatonismo, e por conseguinte com desenvolvimento do cristianismo retomando esses mesmos princípios, boa parte da filosofia materialista ou, de forma mais precisa, toda filosofia que, de algum modo, valorizou o corporal e físico em nome do espiritual foi caricaturada, desqualificada e tratada como coadjuvante, quando não rejeitada por completo, no desenvolvimento do pensamento ocidental.

No desenvolvimento desse processo, Epicuro retoma o pensamento hedonista e busca racionalizá-lo a fim de impedir que consequências danosas surjam da busca do prazer nele mesmo. Se o hedonismo originalmente se tratava da busca pelo prazer por ele mesmo, sobretudo o corporal, não apenas para obtê-lo, mas para mantê-lo e prolongá-lo, com Epicuro o hedonismo passa a racionalmente estabelecer o que é prazer e o que é dor. Há um caráter intermediário e racional nesse pensamento, na medida em que há uma espécie de moderação na busca pelo prazer, validado pela razão, a qual arbitra frente todas as situações, para que o prazer não acabe com a tranquilidade da alma e bem-estar do indivíduo. Em outras palavras, é a “sabedoria” que estabelecerá se o prazer é bom ou não. Trata-se, então, grosso modo, da busca pelo prazer que é bom, e não pela busca do prazer por ele mesmo.

Apesar disso, a tradição filosófica espiritualista caricaturou e desqualificou o hedonismo como a busca egoísta e desmedida do prazer a qualquer preço. Apesar da grandeza de Epicuro, não foi o seu hedonismo que ficou marcado e guardado pela tradição como “o que é hedonismo” de modo geral. Tanto que seu pensamento passou a ser denominado como Epicurismo, e pouco se refere a ele quando tratamos do hedonismo em geral. Houveram diversas releituras e roupagens do hedonismo ao longo da história da filosofia, sobretudo na modernidade. Muitas filosofias retomaram o hedonismo como fundamento último para as ações humanas, outras como princípio egoísta de agir moral. Das mais significativas, está a de John Stuart Mill e Jeremy Bentham.

De modo simplificado, segundo a ética de Stuart Mill e Jeremy Bentham, a leitura hedonista de Epicuro, uma busca racional pelo prazer e recusa da dor, é traduzida para o âmbito das ações que visam um maior número de afetados, que tem em mente outros indivíduos. Trata-se de uma leitura altruísta, a qual vai de encontro direto com a caricatura egoísta e exclusivista do hedonismo.

Na contemporaneidade, Michel Onfray traz, à luz do hedonismo utilitarista, perspectivas interpretativas que possibilitam pensar o hedonismo como proposta ética. Segundo Casper Melville em seu artigo Atheism à la mode, Michel Onfray considera o neo-hedonismo como sendo muito diferente da caricatura que o hedonismo sofre ao longo da história da filosofia. Para ele, o hedonismo seria uma atitude introspectiva na vida baseada em ter prazer e causar prazer aos outros, sem causar danos a si mesmo ou aos outros. Segundo o artigo de Doug Ireland na New Politics sobre Onfray, essa proposta visa estabelecer o hedonismo enquanto teoria moral, uma espécie de utilitarismo alegre, fundado em um materialismo que nos permita explorar como usar as capacidades do cérebro e do corpo à sua máxima completude.

O termo hedonismo inevitavelmente carrega uma carga pesadíssima herdada do espiritualismo na história da filosofia. Pensá-lo na contemporaneidade é arriscar-se a ter seu pensamento tomado a priori como uma apologia ao egoísmo e prazer irracional desmedido. Corre-se o risco ainda de tê-lo ligado a qualquer pensamento que não se alinhe ao espiritualismo ocidental, sendo caricaturado como uma expressão absurda do ateísmo militante, sobretudo pela proximidade do neo-hedonismo com a imagem de Michel Onfray, dado que ele é um militante radical do ateísmo. Cabe à filosofia, entretanto, retomar os principais problemas de sua própria história e buscar dar-lhes uma nova roupagem ou desfazer os preconceitos da tradição, tendo em vista sua relevância para a contemporaneidade

 

6. Conclusão

 

A partir de toda essa fundamentação, podemos pensar em uma proposta ética que, fundamentando-se nos nossos próprios processos neuro-físico-químicos, tenha em vista o desenvolvimento do ser humano, conciliando cérebro-corpo-ambiente, do modo mais completo possível. É o que os gregos da época de Platão chamariam de bem viver, mas um bem viver para o século XXI. Por isso mesmo, ao contrário dos gregos desse período, essa proposta não se fundamenta em uma metafísica transcendente. Nela foram utilizados os pressupostos neurocientíficos em discussão na neurociência da última década, assim como pressupostos da psicologia social que, ambos somados à filosofia, permitem enxergar a relação cérebro-corpo-ambiente de uma maneira muito mais abrangente. Estamos partindo do corpo, da matéria, do físico e do químico, do neurológico, para construir essa proposta ética.

Ela utiliza o hedonismo como uma releitura do utilitarismo de Mill e das possibilidades abertas pelo pensamento de Onfray em alguns aspectos de sua filosofia, ambos herdeiros do pensamento de Epicuro, afastado das correntes mais antigas do hedonismo no mundo grego. É a ética que também se preocupa com as pessoas que cercam o indivíduo. Vivemos em sociedade, portanto precisamos tê-la em mente no nosso agir moral. Além disso, visto que os neurônios espelho não diferenciam eles mesmos dos outros, a interação interpessoal em sociedade é uma extensão da interação neuronal interna. Deste modo, não se trata de uma busca por prazer egoísta. Essa busca pelo prazer dá-se no âmbito do agir moral que tem em vista o outro, “espelhando” o prazer para si mesmo, sem que isso cause danos a ninguém. Não se trata de uma busca pelo prazer nele mesmo, mas do prazer com uma outra roupagem.

Essa roupagem do prazer é a ressonância entre as ondas cerebrais e os nossos neurônios, entre as diversas partes de nosso cérebro — sobretudo entre o hemisfério esquerdo e o hemisfério direit — e entre a nossa estrutura neuro-físico-química e o ambiente. O neuro-hedonismo consiste em possuir uma autoconsciência dessa estrutura e agir de modo a causar prazer a outros indivíduos, isto é, causar a ressonância entre cérebro-corpo-ambiente através da validação social e das emoções que dela decorrem. Deste modo, por conta dos neurônios espelho, ambos estarão experienciado o prazer através dessas ações neuro-hedonistas.

Como consequência desse raciocínio, a autoconsciência das estruturas neuro-físico-químicas e psicossociais permite um agir que tenda à liberdade frente aos preconceitos, discriminações, diferenças sociais e sobretudo ao individualismo que a concepção ilusória de identidade acarreta em nós. É a autoconsciência dessas ressonâncias que nos permite enxergar no outro uma extensão superorganismal de nós mesmos, possibilitada pelos neurônios espelho. Em outras palavras, ao entender que a relação com os outros indivíduos é parte da nossa identidade, veremos eles como extensões da nossa identidade e necessários para o nosso desenvolvimento enquanto indivíduos.

Ressonâncias proporcionam um equilíbrio emocional e cognitivo e são a causa última do prazer. Não podemos ter prazer quando há dissonância entre as trocas de informação neuronais, quando, por exemplo, entramos em uma contradição racional, ou quando nossos neurônios não são capazes de se comunicar de forma correta devido a uma disfunção no sistema nervoso central, no caso do uso de substâncias químicas ou de condições psíquicas que alterem a distribuição química neuronal. Na mesma medida em que não podemos ter prazer quando as partes mais primitivas do cérebro se sentem ameaçadas, impedindo o funcionamento otimizado das partes mais recentes, por conta de substâncias químicas liberadas pela invalidação social.

No entanto, é evidente que há a possibilidade de sentirmos lapsos de prazer mesmo durante essas condições. Uma pessoa que sofre depressão, caso ela passe por uma experiência cujo hemisfério esquerdo do cérebro reconheça como ressonante, sentirá prazer. Se um fundamentalista que teve seu sistema de crenças confrontado encontra novos adeptos à sua causa irracional, sentirá prazer. Todavia, esse prazer só é possível por causa da relação neuro-físico-química entre cérebro-corpo-ambiente. Isto é, esse prazer só é possível por uma ressonância entre as estruturas neuroquímicas e psicossociais e o ambiente. No caso do exemplo da pessoa com depressão, ela só sentiu prazer pela ressonância entre sua estrutura neuroquímica e a experiência que teve; já no caso do fundamentalista, foi a ressonância da validação social ocasionada pelos indivíduos que aceitaram sua causa. Sem essa comunicação neuronal não há prazer (aliás, no limite, sem comunicação neuronal não há possibilidade de vida).

Isso significa que ressonâncias causam prazer. Não são experiências que causam prazer, são as ressonâncias, isto é, a comunicação positiva e a aceitação que decorrem dessas experiências, aceitação e comunicação entre o ambiente e a estrutura neuroquímica do cérebro. Não é uma comida, um objeto, uma música, ou seja lá o que for que causa prazer, é a ressonância ocasionada pela comunicação entre a experiência com a comida, com o objeto, com a música, e etc., e a estrutura neuroquímica do cérebro que causa prazer.

Precisamos buscar prazer no entretenimento e em outras formas de prazer imediato, da forma como o fazemos, para contrabalancearmos as constantes dissonâncias neuroquímicas e psicossociais. Esse prazer que sentimos no entretenimento não é nada menos do que a ressonância causada por experienciar momentos, objetos, pessoas, coisas ou seja lá o que quer que esteja nos entretendo. Identificamos, através dos neurônios espelho, elementos que dizem respeito a nós mesmos nas coisas que nos entretêm. Trata-se de uma volta desesperada para encontrar no entretenimento a autovalidação que deveria estar acontecendo através da validação social. Nossos neurônios espelho enxergam eles mesmos nas experiências de entretenimento. Quando você assiste a um filme, por exemplo, e sente prazer, você está, de alguma maneira, enxergando a si mesmo naquele filme, acarretando a autovalidação necessária para estabelecer as ressonâncias necessárias. Fenômenos como o uso excessivo das redes sociais, por meio de uma filtragem de conteúdo que apresente apenas elementos cujo reconhecimento neuroquímico pelo cérebro proporcione uma autovalidação são comuns em nosso tempo. A própria estrutura do Facebook, por exemplo, proporciona aos usuários mecanismos sofisticados de validação social, como as “curtidas” e os “comentários” positivos.

Condições psíquicas como a depressão, por exemplo, podem dialogar com o neuro-hedonismo de modo a que os indivíduos percebam que por meio do agir moral neuro-hedonista as ressonâncias que poderiam ajudá-los a lidar de um modo mais eficiente contra a depressão estão mais perto do que eles imaginam. Estão na nossa própria estrutura neuroquímica cerebral, intimamente ligada às relações psicossociais. A produção de dopamina e serotonina decorrente da diminuição do estresse causado por ações neuro-hedonistas pode servir de catalizador para uma possível superação da condição. Em outras palavras, pessoas que enfrentam depressão frequentemente não estão autoconscientes da estrutura neuro-físico-química cerebral e da possibilidade de bem viver que o neuro-hedonismo apresenta.

Uma das características fundamentais dos neurônios espelho é a incapacidade de diferenciar ele dos outros. A neuroplasticidade, deste modo, pode funcionar como um mecanismo para crescimento racional e emocional. Toda vez que agirmos neuro-hedonisticamente estaremos fisicamente alterando o nosso cérebro e desenvolvendo, através dos neurônios espelho, conexões neuronais através da neuroplasticidade que fortalecem as conexões referentes à racionalidade e à resistência emocional. O neuro-hedonismo, portanto, postula que buscar causar prazer no outro é buscar causar ressonâncias entre o outro e a si mesmo, com a validação social e as emoções e sensações que decorrem dela, inevitavelmente causando prazer a si mesmo.

A nossa existência consciente é possibilitada pelo funcionamento neuronal. De outro modo, apenas podemos falar, comer e viver de forma consciente por causa dos nossos neurônios. Estamos “espelhando” a todo instante, ora pela imaginação, ora pelo pensamento, ora pela experiência sensível. Estamos constantemente “espelhando” as pessoas e dependemos dessa interação para construirmos a nossa identidade e nos desenvolvermos psicológico e cognitivamente. Devido a essa característica superorganismal, uma ética que vise maximizar essa experiência é fundamental para o desenvolvimento dos indivíduos e para vivermos melhor.

Apesar disso, ter as ressonâncias e o prazer que decorre delas como finalidade última de nossas ações não significa cegamente eliminar as diferenças e contradições em termos teóricos e em termos práticos que existem entre todas as pessoas. Podemos discordar uns dos outros, mas se apesar disso nossas interações visarem agir neuro-hedonisticamente ao causar prazer ao “aceitar as pessoas como elas são”, buscando uma aproximação que entende os indivíduos e causar as ressonâncias necessárias para que elas estejam abertas à discussão e eventual desconstrução ou refutação dessas contradições, sem julgamentos a priori, elas serão ações que funcionam como catalizadores neuropsicológicos que proporcionam ao ser humano se desenvolver reconhecendo e aceitando, sem dissonâncias, os sistemas de crenças dos outros indivíduos, que são verificáveis racionalmente.

Por fim, o neuro-hedonismo não se restringe apenas a ações que se referem a um primeiro contato interpessoal ou apenas à validação social nesse primeiro contato. O neuro-hedonismo estende-se a ações que causem ressonância a outros indivíduos ao causar o bem em geral. Essa é a proximidade filosófica do neuro-hedonismo com o utilitarismo de Stuart Mill. Ações que afetam diretamente outros indivíduos ao causar um bem-estar proporcionam ressonâncias que são experienciadas pelos neurônios espelho do agente, deste modo também podendo causar prazer ao agente. Por exemplo, [situação 1] um indivíduo que goste de praticar determinada ação e sinta prazer ao praticá-la poderá ter um prazer trivializado na medida em que estiver habituado a tal atividade. [situação 2] Por outro lado, se esse indivíduo praticar a mesma ação e proporcionar a outro indivíduo que também goste da mesma atividade a possibilidade de também ter essa experiência, mas para o qual a atividade não esteja trivializada, o outro indivíduo terá uma ressonância que causará um prazer muito maior do que o do agente original na primeira situação. Através dos neurônios espelho, o agente original poderá experienciar o prazer do outro, que é maior do que seu próprio prazer, fazendo com que sua ressonância seja maior do que originalmente seria na primeira situação. Deste modo, o neuro-hedonismo mostra-se como a fundamentação para uma vida que tenha sempre em vista outros indivíduos e o bem-estar nas interações sociais.

O fundamentalismo religioso, o preconceito, a atitude agressiva frente às diferenças e às relações problemáticas entre os povos é resultado de ações morais que vão na contramão do neuro-hedonismo. A autoconsciência, essa volta consciente para dentro da própria cabeça, é fundamental para que ações neuro-hedonistas possibilitem que cheguemos a uma possível supressão e erradicação do preconceito, da intolerância, do fundamentalismo, do obscurantismo, da fabulação e sobretudo do individualismo.

Desse modo, para um melhor desenvolvimento cognitivo e emocional, tendo em vista um crescimento satisfatório físico-químico e psicossocial, o neuro-hedonismo surge como proposta ética que visa exaltar a validação social por detrás do prazer decorrente das ressonâncias na interação social por meio desse agir moral. Trata-se de uma proposta válida para repensarmos as nossas ações morais, as nossas relações e o nosso modo de vida no século XXI. Para o neuro-hedonismo, age moralmente aquele que busca causar ressonâncias decorrentes de sua ação a outros indivíduos e, por conta da estrutura neuro-físico-química e psicossocial do cérebro, sobretudo por conta dos neurônios espelho, também causar ressonâncias e prazer para ele mesmo, sem causar dissonâncias, danos a si mesmo e aos outros.

 

Nota de esclarecimento

 

Antes de o leitor mais acostumado a papers científicos e filosóficos fazer qualquer objeção quanto à profundidade do meu texto, deixarei bem clara a minha proposta: apresentar, de forma clara, sucinta e expressa, para leitores “não-científicos” e “não-filosóficos”, uma proposta ética e sua fundamentação pós-metafísica. Contudo, não é por isso que a exposição de quaisquer estruturas neuronais, relações psicossociais, assim como postulados filosóficos foram tratados com leviandade. Chamo de proposta ética para ficar claro que o nível de sofisticação de minha argumentação para pretensamente apresentar uma ética pronta e acabada deveria ser muito maior do que no presente texto. Deste modo, limito-me a apresentar uma proposta ética.

A apresentação da fundamentação na neurociência e na psicologia foi pensada, do mesmo modo que todo o artigo em sua totalidade, para leitores “não-científicos”. Apesar de não ser neurocientista ou psicólogo, fundamentei minha proposta ética nessas áreas por meio de textos de neurocientistas e psicólogos, cujo trabalho permite à filosofia desenvolver especulações por meio de seus avanços científicos compartilhados através desses mesmos textos (por exemplo, Giacomo Rizzolatti, John T. Cacioppo, e etc.).

Apesar de ser uma proposta pós-metafísica, a fim de evitar deixar clara a minha posição frente à consciência para simplificar a apresentação do texto — dado que levantar o problema da consciência, de certo modo, inviabilizaria o propósito desse artigo —, aviso de antemão que essa proposta se funda entre a ideia de consciência como um emergentismo ou, no máximo, um dualismo de propriedades. Confesso que preciso fundamentar melhor a minha visão de consciência para firmá-la de maneira sólida. Todavia, como não a apresento no texto a fim de simplificá-lo, nada me impede, para o meu propósito nesse artigo, esboçar a minha posição na relação cérebro-corpo-ambiente tendo em vista apenas fenômenos materiais como causa dos mentais, a partir de uma ética pós-metafísica. Nesse texto, a identidade aparece como uma relação entre as diversas conexões neurais, os hemisférios cerebrais e a relação neuronal superorganismal com o ambiente. Deste modo, não há um núcleo para a “consciência”, nada é externo e não há um “eu” uno e unilateralmente interno e um “ambiente” do mesmo modo externo.

Deixarei no campo “Referências” algumas leituras fundamentais que fiz para compreender os postulados neurocientíficos e comportamentais da minha proposta. Tentarei fazer referências ao longo do texto. No entanto, para manter o caráter ensaístico, não apresentarei dezenas de notas de fim ou chamadas autor-data. Para qualquer leitor mais assíduo de filosofia da mente e neurociência, a minha fundamentação estará evidente o suficiente para saberem de onde a tirei (inclusive com as referências abaixo). Não há nenhum grande segredo em meu texto, já que ele condensa os postulados neurocientíficos das últimas décadas, sobretudo deste início de século. Como já afirmei anteriormente, trata-se mais de um esboço na forma de uma espécie de ensaio de divulgação do que uma ética. Devido à atualidade dos postulados da neurociência utilizados no presente texto, todos os papers e livros utilizados para fundamentar esse artigo são facilmente acessados pela internet.

Como característica do meu blog, qualquer objeção é democraticamente aceita na seção de comentários logo abaixo. Deste modo, estou sempre disposto a levar a efeito qualquer discussão acerca do tema através dos comentários.

 

Referências:

 

RAMACHANDRAN, V.S. The Evolutionary Biology of Self-Deception, Laughter, Dreaming and Depression: Some Clues from Anosognosia. Medical Hypotheses. University of Wisconsin-Stevens Point, 1996, pp. 347-362.

RAMACHANDRAN, V.S.; ROGERS-RAMACHANDRAN, Diane. Phantom Limbs and Neural Plasticity.  Neurological Review, Vol. 57. Center for Brain and Cognition, University of California, San Diego, La Jolla, Mar 2000, pp. 317-320.

RAMACHANDRAN, V.S.; BLAKESLEE. Os Fantasmas no Cérebro: uma investigação dos mistérios. Tradução de Antônio Machado. 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 2004.

RIZZOLATTI, Giacomo; CRAIGHERO, Laila. The Mirror-Neuron System. Annual Reviews. Neuroscience. 2004. 27: 169-92.

NAGEL, Thomas. What is it like to be a bat? The Philosofical Review. LXXXIII, 4. October 1974, pp. 435-50.

CACIOPPO, John T. et al. Negative Information Weighs More Heavily on the Brain: The Negativity Bias in Evaluative Categorizations. Journal of Personality and Social Psychology Copyright 1998 by the American Psychological Association, Inc. 1998, Vol. 75, No. 4, 887-900.

CACIOPPO, John T. et al. The Neuroendocrinology of Social Isolation. The Annual Review of Psychology, 2015. 66, pp. 9.1–9.35

CACIOPPO, John T. et al. Loneliness Across Phylogeny and a Call for Comparative Studies and Animal Models. Perspectives on Psychological Science 2015, Vol. 10(2), pp 202–212.

CULVER, Dick. A Review of Emotional Intelligence by Daniel Goleman: Implications for Technical Education. Watson School of Engineering and Applied Science SUNY-Binghamton.

SINGER, Tania. et al. Empathic neural responses are modulated by the perceived fairness of others. Nature, International weekly jornal of science.

MCMANAMY, John. Dopamine, Serotonin’s Secret Weapon. McMan’s Depression and Bipolar Web.

RAMACHANDRAN, V.S. Interview transcript. The Science Studio.

GAL, David; RUCKER, Derek D. When in Doubt, Shout! Paradoxical Influences of Doubt on Proselytizing. A Journal of the Association for Psychological Science.

BEGLEY, Sharon. The Brain: How The Brain Rewires Itself. Time Magazine.

GOLEMAN, Daniel. Why Self-Improvement Begins with Self-Reflection.

BOUMAAZA, Chiren. Athene’s theory of everything. Biocentrism & Distorting Time.

MELVILLE, Caspar. Atheism à la mode. New Humanist. Friday, 29th June 2007.

IRELAND, Doug. Introductory Note to Onfray. New Politics. Winter 2006. Vol. 4. Whole #40.

 

Indicações de Leitura: 

RAMACHANDRAN, V.S.; BLAKESLEE. Os Fantasmas no Cérebro: uma investigação dos mistérios. Tradução de Antônio Machado. 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 2004.

TEIXEIRA, J. F. Filosofia do Cérebro. São Paulo: Paulus, 2012.

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