Somos realmente autônomos?

Para ser direto, logo na primeira linha: autonomia de pensamento é a capacidade de, com a própria cabeça, estabelecer juízos sobre as ações e sobre as coisas que nos cercam. Isso significa que se trata da capacidade de tomar decisões baseadas em razões racionais, livres de influências mágicas, obscuras, tolas ou genuinamente passionais. De outro modo, seria pensar por conta própria, mesmo que partindo do pensamento de grandes cabeças, porém tendo a capacidade de questionar a validade racional do pensamento dessas mesmas grandes cabeças.

Apesar de ingenuamente pensarmos que, por sermos racionais, essa capacidade é algo que nasce conosco, ao buscarmos definir essa capacidade, logo vemos que se trata de o final de um processo longo e custoso de formação do nosso pensamento. No limite, pode ser discutido se a potencialidade dessa capacidade é inata. Todavia, parece um pouco precipitado considerar que a própria capacidade é algo que nasce com o indivíduo, na medida em que o desenvolvimento de um indivíduo se dá em vários estágios e níveis distintos, do desenvolvimento da linguagem ao fim da formação do pensamento. Em outros termos, ser capaz de ter autonomia de pensamento não implica ter autonomia de pensamento.

A grande maioria da nossa população no país não tem escolaridade suficiente para ter autonomia de pensamento. Por quê? Porque a autonomia de pensamento pressupõe uma formação adequada, cuja maioria da nossa população, por questões, a princípio, socioeconômicas, não tem. A formação do pensamento necessária para obtermos autonomia de pensamento inicia-se, necessariamente, no desenvolvimento da reflexão, isto é, na atividade do pensamento que volta o pensamento para si mesmo, um retorno do pensar a seus fundamentos, a fim de questionar a própria validade dos fundamentos do nosso pensamento. Em outras palavras, pensamos sobre diversas coisas a todo instante, mas apenas refletimos quando voltamos o pensar para si mesmo, a fim de ou repensar o próprio pensamento enquanto pensamento ou repensar o pensamento sobre as coisas.

Ao levarmos a efeito a reflexão de maneira ativa, como um exercício de pensamento que tem por finalidade o desenvolvimento de solidez para o próprio pensar, tornamo-nos mais críticos por metodicamente questionarmos as razões para o nosso pensamento tanto sobre as coisas quanto sobre nós mesmos. Uma vez acostumados a buscar as razões para pensar sobre nós mesmos e sobre o mundo, tenderemos a passar pelo crivo da busca por razões qualquer nova informação que chegue a nós. Por exemplo, ao recebermos uma notícia de um novo medicamento revolucionário para certa enfermidade, antes de aceitarmos a validade da notícia, levamos a efeito o questionamento da própria possibilidade para o desenvolvimento desse medicamento, na medida em que questionamos as razões que possibilitariam este remédio. Do mesmo modo, podemos questionar a fidedignidade do veículo que noticiou tal remédio, como a credibilidade dos pesquisadores que o desenvolveram, e assim por diante.

Nesse processo de formação do pensamento, com uma posição crítica perante às coisas, desenvolvemos consciência de nós mesmos enquanto nós mesmos e para o mundo. Isso significa que, visto que nesse processo já estamos habituados a questionar as razões para as nossas decisões, nossas ações, nosso pensamento, nossas opiniões, e etc., nós adquirimos um saber de nós mesmos, enquanto indivíduos inseridos em uma sociedade, em um momento na história e em um local no espaço. Do mesmo modo, desenvolvemos um saber de nós mesmos para o mundo, isto é, um saber de nossa posição nesse mundo, como o saber dos nossos deveres, nossas funções, nossas competências, e etc. Sabemos o que somos enquanto indivíduos e o que somos para o mundo.

Quando atingimos esse estágio na formação do nosso pensamento, a saber, primeiramente desenvolvendo a atividade de reflexão, desenvolvendo-a de modo a ter um pensamento crítico e, por fim, adquirindo consciência de nós mesmos e do mundo, atingimos a autonomia de pensamento. É nesse momento em que temos a capacidade de pensar por nós mesmos. Estabelecemos juízos sobre o que nos cerca de modo crítico, a partir da reflexão do próprio pensamento e das ações. Essa condição, no entanto, requer uma formação lenta e gradual que, etapa por etapa, desenvolve essa maneira de pensar.

Há a necessidade de uma formação que leve a efeito o desenvolvimento do pensamento. A preocupação para esse tipo de formação pertence apenas às porções mais elitizadas da nossa sociedade, sobretudo à elite intelectual. Essa formação, portanto, é aristocrática e inacessível à imensa maioria da população. Como afirmar que temos autonomia de pensamento quando não temos consciência de nós mesmos enquanto indivíduos inseridos em uma vida política? Como afirmar que temos autonomia de pensamento quando não somos críticos para julgar as informações que recebemos, assim como as nossas próprias ações e hábitos, que muitas vezes são danosos para os outros e, sobretudo, para nós mesmos? Como afirmar que temos autonomia de pensamento quando não temos tempo e condições de refletir sobre a própria possibilidade de termos autonomia de pensamento?

Essa situação torna-se ainda mais cruel quando compreendemos que a finalidade da autonomia de pensamento, não como pressuposto para a busca da verdade, mas como condição para ter uma vida prática melhor, é ser mais feliz. Ora, se temos a capacidade de pensarmos por conta própria os nossos próprios problemas práticos e julgá-los de modo a desenvolver mais perspectivas e possibilidades para sua solução, temos uma probabilidade maior para resolvê-los. Por conseguinte, se estivermos de acordo que resolver nossos problemas práticos torna a nossa vida mais feliz, então ter uma probabilidade maior para resolvê-los possibilita a nós sermos potencialmente mais felizes.

No fim das contas, parece que, além de não termos autonomia de pensamento enquanto sociedade, essa falta de autonomia de pensamento pode ser uma barreira para uma vida prática mais feliz. A grande questão que se coloca é a seguinte: será que há a possibilidade de reverter esse quadro e possibilitarmos uma formação de pensamento mais humana para todas as pessoas, em um momento em que a instrumentalização da razão é mais importante do que a própria razão? Parece difícil. Sobretudo porque, para revertermos esse quadro, precisaríamos primeiro desenvolver uma consciência do próprio quadro, que só é possível com o pensamento crítico, que, por sua vez, só é possível pela reflexão… Voltamos para o começo do problema!

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