O engessamento do espírito e o Cristo gay

Parece que o homem finalmente chegou a um período em que a tecnologia está prestes a resolver todos os problemas do dia-a-dia. A instrumentalidade da razão permite à ciência adentrar campos previamente imaginados apenas na ficção científica. Não precisamos nos preocupar com pensar em resolver pequenos problemas com os quais deparamos em nossa rotina, dado que há centenas de ferramentas e tecnologias que os resolvem. Problema? Google: lá está a resposta, com dezenas de empresas especializadas para cada pequeno problema quotidiano.

Uma consequência aparentemente irreversível desse desenvolvimento desmedido da racionalidade técnica é a gradual supressão da necessidade de levar a efeito o exercício do espírito por excelência: a reflexão. Originalmente ela seria necessária para pensar em soluções para as contradições de nossas vidas, mesmo as mais banais. Não precisamos pensar em resolver os problemas, já que a seguradora, a administração do condomínio, o telejornal, o pastor, a autoajuda, e uma infinidade de tecnologias já têm esse papel.

Com efeito, a perda da sensibilidade e da capacidade reflexiva torna-nos cada vez mais robotizados e cada vez menos humanos. A imaginação, ferramenta importantíssima à razão, a qual, de certo modo, possibilitou avançarmos até onde chegamos, lentamente perde seu propósito. A arte, no andar dessa carruagem, por estarmos perdendo a capacidade de trabalhá-la com a razão e a sensibilidade, tende a tornar-se ferramenta de manipulação, uma vez que a arte ou se transforma em enfeite ou se transforma em produto.

Como sintoma desse cenário, a representação do indivíduo homossexual crucificado na última Parada Gay em São Paulo torna-se alvo de uma cruzada contra a racionalidade. Por que será que tal representação despertou tanta fúria e agressividade, em praticamente todos os setores da população? Para evitarmos a falha de lidar tão somente com a particularidade e concretude de uma representação, precisamos entender como lidar com todas as representações.

Hegel, ao desenvolver sua Estética, coloca na arte o papel de, através de um trabalho racional que dissolve qualquer resíduo material em seu movimento, revelar a verdade representando “o que se agita na alma humana”. Isso significa que a obra de arte, representação sensível, contingente, particular e concreta, resultado do trabalho do artista, expressa o ideal e o essencial da beleza na arte. Em outras palavras, a representação concreta, resultado de um trabalho da razão levado a efeito pelo artista, não é, em hipótese alguma, desvinculada de uma linguagem, de uma lógica, de uma racionalidade. Ela desvela o que está latente no espírito.

Para tornar mais claro esse fundamento da filosofia da arte hegeliana, usarei o exemplo do cachimbo. Na primeira metade do século passado, o belga René Magritte produziu, dentre todas suas obras, uma representação que se tornou muito famosa por causar uma revolução nas almas dos que não conseguem entender a maneira pela qual a arte é concebida. A obra Ceci n’est pas une Pipe (Isto não é um Cachimbo), demonstra a contradição de encarar uma representação por ela mesma, em sua particularidade e concretude, desvinculada da linguagem artística. Trata-se de um cachimbo marrom e uma frase embaixo: “Isto não é um cachimbo”. O que isso quer dizer? Quer dizer exatamente que o papel da arte é revelar, por detrás da concretude sensível, contingente e particular de uma representação, uma linguagem artística, abstrata e inteligível. Essa linguagem comunica todo o complexo de sensações que a beleza artística é capaz de comunicar. Isso significa que a arte é uma forma de linguagem que, através das obras de arte, representam o que quer que esteja visceralmente alojado no espírito do artista, efetivado através do trabalho subjetivo da razão. Não é um cachimbo material; é o produto do espírito: uma obra de arte.

A relação do espectador e da obra de arte precisa ser tratada como um exercício da razão, para acompanhar seu movimento através do qual a linguagem e a lógica de uma representação proporcionam à imaginação a possibilidade de repousar na particularidade e concretude da representação e se lançar para além dela, a fim de continuar a contemplação artística. Em outras palavras, ao olharmos para a representação gay da crucificação de Cristo, se ficarmos presos à representação concreta e particular, estaremos engessando o movimento do espírito, impedindo que a nossa razão tenha liberdade de efetivar um processo imaginativo e racional. Em outros termos, não entenderemos a lógica e a linguagem presentes na representação e, por conseguinte, estaremos fadados à burrice de encará-la como um ataque a qualquer elemento material que, na verdade, não existe mais, na medida em que fora dissolvido no trabalho subjetivo da razão em sua criação. Ceci n’est pas Jésus.

Agora com a grande ajuda de Hegel e de René Magritte, podemos compreender que aquela representação revela um problema social muito sério: as sensações que são correlatas à violência, à perseguição e à segregação contra homossexuais. Apenas por serem humanos, indivíduos sentem na pele o que é ser estuprado, perseguido, assassinado, “corrigido”, sob a acusação de estarem desobedecendo a ordem natural das coisas, uma vez que, aos olhos de Deus, trata-se de algo inaceitável. E o pior: sem chance de demonstrar que estão sendo mortos apenas por serem humanos, isto é, estão sendo mortos por levarem a efeito uma vida livre e com amor.

Ironicamente, a teologia cristã postula uma vida que busca o amor às outras pessoas, a fraternidade e a liberdade no bem. Nesse cenário, o amor diz respeito a amar e perdoar o próximo, ou melhor, todos os homens, sobretudo os que mais necessitam de amor e perdão; na medida em que todos são filhos de Deus, a fraternidade aparece como um laço, o qual estabelece uma busca em conjunto pela vida pautada na revelação divina; por fim, a liberdade diz respeito à vida que é livre para agir de modo a ter o bem por finalidade de todas as ações. Esse conjunto eleva o homem para uma posição de tender à santificação na terra, tendo Deus como modelo no céu, estabelecendo uma ligação com o divino.

Sem a capacidade de reflexão, sem autonomia de pensamento e liberdade intelectual, não podemos nem ao menos ser verdadeiramente cristãos. Cristo, se estivesse em São Paulo nesse final de semana, com certeza estaria menos preocupado com sua própria imagem e mais preocupado com acolher e amar todos os que necessitam de seu amor, levando-os, de acordo com sua teologia, ao caminho da luz e da verdade, impedindo que homossexuais sejam brutalmente e sistematicamente assassinados em todo o mundo.

Será que faz sentido pregar o ódio em nome de um deus que é amor? Será que faz sentido matar, teologicamente falando, seus próprios irmãos? Será que a moral cristã não diz respeito ao agir individual, não a imposições ao agir dos outros? Seria, então, uma política cristã? O cristianismo é a religião do amor, então parece que devemos, ao menos, pensar a vida pautada nesse amor, não no ódio.

Finalmente, esse sintoma de nossa sociedade aponta para uma necessidade cada vez mais latente de desenvolvermos a capacidade de reflexão, de pensar a própria vida para vivê-la melhor, evitando que o ódio e a burrice nos ceguem e nos levem a praticar discursos de ódio que, inevitavelmente, apenas aumentarão o ciclo que a representação de domingo buscava diminuir.

 

Indicações de leitura:

HEGEL, G. W. F. Cursos de Estética, V.1. Tradução de Oliver Tolle. 2. ed. São Paulo: EDUSP, 2001.

JIMENEZ, Marc. O que é estética? Tradução de Fulvia. M. L. Moretto. São Leopoldo, RS: Ed. UNISINOS, 1999.

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