Platão e o nazismo

O pensamento ocidental é inevitavelmente platônico, embora não o seja por aceitarmos ou defendermos seu sistema filosófico como verdadeiro — veritas in intellectus, i.e., ser verdade na realidade, ser “a verdade”. De certo modo, hoje ninguém deveria ser platônico, segundo esse sistema, dado que se tratava de outra visão de mundo, filha de um contexto histórico, fundamentalmente distinto do nosso. Entretanto, o pensamento ocidental é platônico na medida que a nossa linguagem, a maneira que fundamentamos o pensamento, o próprio ideal de racionalidade, e os fundamentos para a ciência e o conhecimento surgiram do pensamento de Platão. A República, coroamento do pensamento clássico de Platão, em que suas teorias sobre a realidade e o conhecimento, política e moral, educação, arte, origem da alma e sua finalidade, e etc., são solidificadas e sistematizadas, é, sem sombra de dúvidas, um dos livros mais lidos na história do Ocidente.

Apesar disso, o entendimento do argumento central de A República e sua fundamentação, a princípio, pode ser problemático. Talvez seja por isso que, 25 séculos após a criação desse livro, equivocadamente o entendam como uma apologia do totalitarismo e da eugenia por eles mesmos. Com isso, parece que a mais famosa comparação, consequência de interpretações equivocadas, seja a com o nazismo do Terceiro Reich.

Não preciso ser didático ao ponto de explicar que o nazismo de Adolf Hitler foi um regime no qual milhões de pessoas foram assassinadas e perseguidas, tendo seus direitos mais fundamentais negados e reprimidos, a começar pelo próprio povo alemão, após um pico econômico e industrial agudo, tendo seu futuro manchado de sangue, por conta de um ideal doentio de poder.

Por isso, a principal comparação entre um dos fundamentos do “regime político” proposto em A República e os fundamentos do nazismo está na famosa passagem do Livro V, na qual Sócrates diz que, entre os guardiões, os melhores deverão ter relações com as melhores, para que seus filhos sejam os melhores, sendo estes os únicos filhos a serem criados. Em outras palavras, há uma ideia de manter a “raça dos guardiões” como pura, portanto é uma eugenia. Entretanto, entretanto — e eu falo entretanto outra vez, para marcar bem a ideia adversativa aqui — retirar essa passagem do contexto pode causar as mais delirantes interpretações, dentre as quais a aproximação entre a filosofia platônica e o nazismo. Após 70 anos do fim da Segunda Guerra, contudo, não poderíamos deixar de tentar esclarecer essa comparação. Para entender melhor essa confusão, e fazer justiça a Platão, precisamos compreender o argumento central e os fundamentos filosóficos de A República.

Para Platão, os males nas cidades e no gênero humano somente chegarão a um fim, se os governantes tornarem-se filósofos ou se os filósofos tornarem-se os governantes. Em um primeiro momento, por mais absurda e até mesmo ridícula que essa afirmação possa parecer, ela possui uma razão, isto é, uma fundamentação muito sólida.

A cidade só será justa, bela e boa se ela for, na medida do possível, uma expressão da realidade. Deste modo, apenas o conhecimento pleno da realidade possibilitará a compreensão de como essa cidade deve ser. Assim, o governo e a administração da cidade devem ser, necessariamente, levados a efeito por quem detém tal conhecimento. Para Platão, apenas o filosofo detém esse conhecimento. Portanto, o filósofo deve governar.

Todavia, apesar de se tratar de um argumento aparentemente sólido, precisamos analisar suas razões. Ele diz que a cidade precisa tentar ser uma expressão da realidade, e o filósofo é o único que conhece a realidade plena. No platonismo, a dimensão plena da realidade é composta por aquilo que é imutável, sempre o mesmo e idêntico a si mesmo, sobretudo uno. Por isso, a cidade precisa ser reproduzida, na medida do possível, com uma preocupação para ter preservada a sua unidade, identidade e imutabilidade.

No Livro II, essa cidade passa a ser imaginada por Sócrates e seus amigos, primeiramente, como uma resposta às necessidades mais básicas de uma cidade: alimentação, habitação e etc. Isto posto, surge a necessidade de artesãos para suprir essas necessidades mais básicas, assim como um comércio que possibilite essa cidade. Ao mesmo tempo, há a necessidade de indivíduos para manter a preservação da cidade e sua vigilância: os guardiões. Esses protetores precisarão possuir atributos como perspicácia, coragem e força, além de serem naturalmente amigos do saber. Desses guardiões mais bem qualificados, sairão os governantes. Por fim, esses governantes terão os interesses da cidade como os seus próprios interesses.

Isso só é possível porque Platão acredita haver uma propensão natural, uma inclinação natural, uma inclinação que temos desde o nascimento, para podermos desenvolver as nossas funções na cidade. Por isso, na infância, por meio de uma educação adequada, as inclinações naturais de cada um poderão ser percebidas, e os indivíduos, por conseguinte, poderão ocupar seu devido lugar na sociedade.

Todos têm as mesmas oportunidades, recebendo a mesma educação, sem diferença alguma, nem entre pessoas simples ou nobres, nem entre homens e mulheres. Em suma, todos são educados juntos, até o momento em que as inclinações naturais se tornam evidentes. Logo, há em Platão uma preocupação humana, levando em consideração o indivíduo por sua humanidade, não por sua nobreza ou pelo seu sangue.

Somente a fixidez da divisão natural da cidade (artesãos, guardiões e governantes) pode garantir a unidade da cidade. O governante deve fazer o possível para manter essa unidade, obtida pela harmonia das partes da cidade, a qual torna a cidade justa. Do mesmo modo, os indivíduos são como a cidade: sua alma possui três partes, as quais precisam ser mantidas em harmonia, para que o indivíduo seja justo.

A parte racional é chamada de logistikón (λογιστικόν), que diz respeito ao lógos, isto é, à razão e à sabedoria; a impulsiva, por sua vez, é a thymoeidés (θυμοειδές), referindo-se à coragem; e, por fim, a apetitiva, ou epithymetikón (ἐπιθυμητικόν), maior parte e que diz respeito ao apetite, às paixões. Para o filósofo, a parte racional precisa governar a alma, o que torna o homem sábio. A impetuosa precisa auxiliar a racional a governar, impedindo que o medo ou paixões, tanto externas quanto internas, causem conflito na alma, assim como deve impedir a parte apetitiva de tomar o controle, consequentemente mantendo a racional no comando. Deste modo, ela torna o homem corajoso. Quando as três partes da alma estão em harmonia, o homem torna-se temperante. O indivíduo é justo, portanto, quando cada parte da alma está cumprindo sua devida função.

Do mesmo modo, pelo fato de a cidade ser um conjunto de indivíduos, portanto um conjunto de almas, para Platão, a cidade funcionaria do mesmo modo que a alma: apenas quando cada parte da cidade está cumprindo a sua devida função, a saber, o governante, por conhecer a plenitude da realidade, governa para manter a unidade na cidade, guardiões, por serem corajosos, auxiliam o governante, protegendo a cidade de invasores e de um conflito interno, assim como impedindo que os desejos dos artesãos tomem o controle, e artesãos coexistem em harmonia, não tendo suas vontades individuais sobrepujando os interesses da sociedade, a cidade é justa.

Dessa forma, quanto menos posses individuais os indivíduos tiverem, mais a cidade poderá tornar-se algo comum e com unidade entre os cidadãos, sem diferenças particulares e cobiças que poderiam fomentar conflitos internos. Tudo isso em nome da unidade da cidade. Se a justiça na cidade corresponde à obediência das inclinações naturais de todos os indivíduos, o filósofo, por natureza, para que a cidade seja justa, deve necessariamente governar. Esse filósofo, o verdadeiro filosofo, inicialmente educado como todos, e posteriormente como guardião, deve, necessariamente, amar a verdade e odiar a mentira, amar a sabedoria, não em partes, mas em um todo, ter facilidade para aprender e boa memória; ser amável, temperante, justo, corajoso e belo (no sentido de nobre, magnânimo).

Todos os que, durante a educação, apresentarem todas essas características, deverão ser separados dos demais, após uma certa idade, e prosseguir no estudo de ciências preparatórias: a aritmética, a geometria e a astronomia. Por fim, aprenderão a dialética: ciência que tem como princípio a Verdade, o ser que é uno, sobretudo o Bem; a única que pode permitir ao filósofo conhecer a realidade em sua plenitude e, como um artista, olhando para o modelo, pintar a cidade bela, justa, boa e, sobretudo, com unidade. Essa educação do filósofo é uma inclinação na vida, uma mudança “existencial”, com todo o perdão ao anacronismo do termo.

A questão do Livro V que pode abrir margem a interpretações que coloquem o pensamento platônico como eugênico per se deve ser levada em consideração no todo da filosofia platônica. Para manter a unidade da cidade, precisamos ter os melhores guardiões, os mais corajosos e amigos do saber, auxiliando o governante em sua legislação. Devemos lembrar que é do grupo de guardiões que surgirá o filósofo, a única esperança para que a cidade se torne justa e boa. Por isso, apenas os filhos dos melhores guardiões serão criados como guardiões, já que há a necessidade da manutenção da unidade da cidade, com a justiça imperando nela, como a mais perfeita imagem da realidade possível. Todo o governo e manutenção da cidade têm o Bem como norte, e para que a representação desse bem seja mantida, os melhores precisam governar, daí a defesa platônica da aristocracia e eugenia.

Por isso, esse diálogo deve ser entendido como uma análise crítica da democracia e da tentativa de pensar uma cidade, como “um modelo no céu”, para tentar, na medida do possível, pô-la em prática. Nessa cidade, a abolição da propriedade privada e as inúmeras tentativas de substituir as noções de “meu e teu” por “nosso”, assim como a mesma oportunidade dada a todos, sem se ater ao gênero, poder, riquezas, nobreza e sangue, afastam a “proposta política” de Platão da proposta do Reich de Adolf Hitler.

Como sempre, uma característica de seus diálogos e de seu pensamento, Platão critica os Sofistas, no Livro VI. Platão defendia uma visão filosófica, moral e política muito diferente da defendida pelos Sofistas. Por isso, no decorrer de seus mais de 25 diálogos, Platão esforça-se para afastar a imagem de sua filosofia, sobretudo na figura de Sócrates, da imagem dos Sofistas. Por isso, os Sofistas, assim como os poetas e os políticos em Atenas, eram os alvos de suas críticas. N’A República, Platão apresenta-os como os que ensinam ao povo aquilo mesmo que eles consideram o belo e justo, tratando todos como um animal forte, cujos desejos é preciso bem conhecer, para poder agradar. Foi exatamente essa imagem que o nazismo tentou passar ao povo alemão, em seus primeiros anos, após a nomeação de Hitler como chanceler, em 1933. Seu governo, nos primeiros anos, apesar de suspender os direitos civis e governar de forma totalitária, tirou a Alemanha de uma situação de falência, por conta das dívidas referentes à Primeira Guerra, e a levou a uma posição de destaque, com um dos maiores parques industriais do mundo. Com isso, mascarando a mentira e a maldade, o nazismo na Alemanha “tratou todos como um animal forte, cujos desejos é preciso bem conhecer, para poder agradar”.

Nessa medida, o pensamento platônico não se aproxima do nazismo no que diz respeito à política, à moral, aos ideais de justiça, temperança, coragem, sabedoria, e, talvez, em nada mais de significativo. Mas, talvez, a grande diferença entre Platão e o nazismo, a qual separa gritantemente os dois pensamentos e os torna inconciliáveis e excludentes, é a finalidade dos dois. De um lado, o nazismo visava o poder e levar a efeito as mais absurdas e inaceitáveis atrocidades contra o resto do mundo, assim como contra boa parte do povo alemão. Platão, de outro lado, visava com sua filosofia a felicidade: uma combinação de inteligência e sabedoria. A inteligência é a capacidade de conhecer a realidade, como, por exemplo, o belo, o justo e o bom, não em suas mais múltiplas facetas aparentes, que são belas, justas e boas em partes, mas no que são elas mesmas, de forma plena. A sabedoria é a capacidade de, a partir da inteligência, agir de modo a pôr em prática essa realidade, vivendo de modo a sempre praticar ações belas, justas e boas, isto é, as virtudes, tendo em vista sempre o real, sempre aquele que é bom, belo e justo para todas as pessoas.

É por isso que sempre precisamos ter cuidado ao estabelecermos comparações entre pensamentos tão distantes no tempo, entre povos distantes tanto no tempo quanto no espaço. Ao lermos um texto tão rico como A República, temos que nos ater às questões e aos problemas do próprio texto, considerando-os em seu contexto. Neste caso, o contexto é o Período Clássico, na decadência da democracia ateniense, muito após a tirania dos 30 e dos sucessivos assassinatos e perseguições àqueles contrários à tirania, após a derrota ateniense na Guerra do Peloponeso, e da eventual volta da democracia, porém com uma roupagem gasta, com manchas dentre as quais, segundo Platão, a morte do homem mais justo de todos os atenienses: Sócrates. A crítica à democracia e a proposta platônica precisam ser entendidas como uma maneira de introduzir uma nova linguagem no mundo grego, o que, de certa forma, introduziu uma nova linguagem em todo o mundo. De suas críticas, podemos refletir a partir de questões vivas ainda hoje, como a tese defendida por Trasímaco, de que “o justo é o vantajoso ao mais forte”, de que “a injustiça é superior à justiça” e, talvez, a mais brutal, realista e atual: “o homem injusto é mais feliz”.

Ao olhar para a nossa democracia, para o nosso sistema político, não é muito difícil de, a princípio, concordar com Trasímaco. Assim como os Sofistas que, segundo Platão, falavam ao povo aquilo mesmo que eles queriam ouvir, nossa democracia está cheia de “sofistas”, aos quais nem mais damos ouvidos, mas que também deixamos de questionar. Talvez devêssemos refletir, como escreveu Roberto Bolzani Filho, se “é possível ser democrata e, ao mesmo tempo, detectar e denunciar toda “aparência de justiça?””.

 

Indicações de leitura:

PLATÃO. A República. Tradução direta do grego por Ana Lia A. de Almeida. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes. 2009.

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4 comentários sobre “Platão e o nazismo

  1. Estou terminando de ler A República, e a primeira coisa que me veio a cabeça foi a Alemanha Nazista. No texto acima falava que a Alemanha nazista estava mais identificada para os sofistas do que Platao. Ok é concordavel. Mas Hitler com seu projeto nazista, se autoindentificava com quem? É bem provável que ele se achasse o Rei Filósofo.

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    • No final do Livro V, ao longo de todo o Livro VI e VII, o diálogo apresenta a tese central de “A República”, que pode ser formulada esquematicamente do seguinte modo:

      i) as cidades, inseridas na dimensão visível, devem ser governadas de modo a ser preservada, na medida do possível, a unidade que decorre da Justiça, à luz da unidade que a Forma do Bem — que é a expressão máxima da realidade, da Verdade, de Ser e Saber — confere às outras Formas na dimensão inteligível; para tal, ii) o filósofo deve governar, haja vista que iii) ele é o único dotado das capacidades necessárias para conhecer o Bem e, de modo análogo porém precário, conferir unidade ao todo da cidade.

      Para chegar nessa tese, o diálogo teve que, primeiramente, formular uma investigação sobre o que é Justiça no âmbito da vida de um indivíduo (Livro I; desdobramentos, Livro II), para demonstrar que, o que quer que a Justiça então seja neste momento da investigação, ela é insuficiente para uma boa vida, na medida em que a vida boa acontece na cidade, visto que o homem não é autossuficiente e precisa do Outro, da vida coletiva. Assim, a análise de o que é justiça deve passar para o âmbito do coletivo.

      Com efeito, o Livro II e III assumem esse papel de desdobrar a investigação de Justiça do âmbito individual para o coletivo, de modo a investigar a constituição da vida coletiva na forma de uma cidade. O cerne do texto sai da reflexão sobre Justiça e passa a formular a definição do que seria sociedade, como a satisfação de necessidades. A cidade precisa, portanto, ser pensada de modo a satisfazer as necessidades básicas dos indivíduos e proporcionar uma configuração coletiva que possibilite uma vida justa.

      Essa investigação, para tal, tem enfoque na formação dos guardiões, com uma análise da boa e má formação e o que decorre de uma organização justa do âmbito coletivo. No Livro IV há uma retomada dessa problemática e a questão da propriedade é colocada em pauta. Tudo isso aponta para uma formação do homem a partir da identificação de suas potencialidades, de modo a ser possível ter uma cidade em que cada um faça aquilo que faz de melhor. Assim, chega-se à definição de justiça tanto no âmbito coletivo quanto no particular: cada parte da cidade, analogamente às partes da alma, cumprindo sua devida função.

      No Livro V, a reflexão passa para as especificidades do homem e da mulher, sua forma de vida, sua formação, suas competências, capacidades, e etc. Eis que, então, surge a tese de que os melhores necessitam reproduzirem-se com os melhores, para que desses surjam os indivíduos com as potencialidades que dizem respeito às capacidades necessárias à tese central d’ “A República” supracitada.

      Após apresentar a tese central dos 10 livros, a discussão necessita apresentar a prestação de contas, de modo a explicitar as razões pelas quais essa tese é verdadeira e deve ser levada a sério. Com isso o Livro VI e VII levam a efeito essa fundamentação por meio de uma investigação a fim de definir “o que é ser filósofo?”, para que ele não seja confundido com “o imitador do filósofo” ou “falso filósofo”; além de desenvolverem outra a respeito da formação necessária ao filósofo, para que seja capaz de governar de modo justo, belo e bom; e do objeto último da filosofia e estrutura de todas as reflexões d’A República: a Forma do Bem.

      Mas o que interessa para nós agora é a definição de filósofo, necessária para que não incorramos no risco de confundi-lo com o sofista, como os atenienses fizeram com Sócrates. E essa confusão, na mesma medida, é a que permite aproximar o pensamento nazista e a figura de Hitler com a filosofia de Platão e a figura do Filósofo.

      Enquanto o filósofo é amigo do saber, tem facilidade para aprender, é corajoso, justo, temperante, de caráter nobre, ama a verdade e o saber e busca conhecer a verdade e proporcionar uma vida boa para o todo — tendo isso acima da realização de sua própria felicidade –, o falso filósofo (ou sofista) não está preocupado com a Verdade, com o Justo ou com o Bem, mas com o ensinamento senão de opiniões que o vulgo expressa à torto e à direito e chamam isso de sabedoria. São mercenários que corrompem as almas dos verdadeiros filósofos com seu ensinamento que não tem o real como princípio e fim, mas a multiplicidade acidental e aparente. Em outras palavras, tendo em vista o vocabulário filosófico platônico e sua metafísica, eles são responsáveis por uma formação cujo cerne é a “sabedoria”, enquanto sabedoria, na verdade, é a capacidade de discernir entre o belo e o feio, o justo e injusto, o bem e o mal: o que hoje chamaríamos de ética.

      A ciência ética é formulada por Platão e o filósofo é o único dotado da possibilidade de seu Saber, já que a possui em seu Ser, conhecendo por um processo dialético cujo ápice é uma reminiscência repentina da realidade. Agir bem, viver bem, ser bom, decorre de saber agir bem, saber viver bem e saber ser bom. Filosofia, para Platão, é uma confluência entre Ser e Saber. Estes últimos confundem-se de tal modo que somente o filósofo, após uma formação adequada que o possibilite trilhar os degraus do processo dialético, além de possuir uma alma divina, acessa as Formas e, em última instância, o Bem, de modo a bem viver e, igualmente, ser o único capaz de proporcionar esse bem viver aos demais.

      Realizado o exame da natureza do conhecimento do inteligível a fundamentação das teses desenvolvidas até então, o diálogo pode, nos Livros VIII, IX e X, analisar as teses adjacentes e as consequências da aceitação das teses fundamentadas até aqui. Há um exame das formas de governo, do que decorre do distanciamento do governo do filósofo e da aproximação corrupção da cidades. Posteriormente, há uma análise dos tipos de homem, cujo ponto central da análise é o homem tirânico, que se torna tal por não ser capaz de, como o filósofo, educar os desejos para amar e desejar tão somente o que diz respeito ao espiritual. Ele é o oposto do filósofo, que aprendeu a afastar-se do desejo somático e voltou-se completamente (e trata-se de uma virada na alma) para o desejo anímico e o amor do Ser, do Saber e, assim, do Bem.

      Para ilustrar as razões pelas quais o desejo pelas coisas corporais, levado a efeito pelo tirano, é maléfico e prejudicial ao conhecimento da realidade, novamente as formulações dos livros VI e VII vem à tona, com a reflexão sobre a diferença entre a dimensão visível e inteligível. Disso decorre a perversidade daqueles que exaltam, propagam e estimulam o desejo e o amor pelas coisas visíveis, prejudicando a formação do filósofo e de todos os homens: o artistas e poetas que, em vez de terem a verdade por fim, têm a produção de simulacros como realização máxima de sua condição precária de amantes de espetáculos. Essa reflexão culmina na alegoria do destino das almas, que mais uma vez reafirma a tese de que aqueles cujas almas são justas são para sempre recompensados por sua justiça, temperança, coragem e sabedoria, enquanto os injustos são para sempre punidos.

      Nesse momento no texto, nas últimas palavras d’A República, em seu desfecho final, as almas injustas que causaram muitas mortes, muitos sofrimentos e muita injustiça, recebem punições severas e, como “Ardieu o Grande”, provavelmente mais uma personagem fictícia nos “Diálogos”, jamais entrariam nos céus. Pelo contrário: todos esses são levados para serem jogados no tártaro: e aqui se encerra qualquer possibilidade de aproximação entre nazismo, Hitler e Platão e platonismo.

      Portanto, de acordo com a lógica da estrutura d’A República e da filosofia platônica, o filósofo seria incapaz e jamais poderia aproximar-se de modo algum da figura do nazismo e de Hitler. Pelo contrário: o nazista e Hitler, por não conhecerem a Verdade, por não terem uma alma nobre e por não proporcionarem o belo, o justo e o bom em seus atos, enfim, por não serem filósofos e, pelo contrário, serem injustos e corrompidos, causariam o maior dos males às cidades e jazeriam para sempre no sofrimento do tártaro após suas mortes.

      Não obstante, é possível que Hitler identificasse-se com o filósofo e, portanto, achasse-se tal. Isso jamais saberemos, a não ser que ele o tenha escrito em algum lugar. Todavia, se o fez, obviamente não leu bem “A República”, sem ser capaz de identificar as teses de cunho ontológico, epistemológico, pedagógico, psicológico e antropológicos que constroem a estrutura dessa obra; e não conheceu, de modo algum, as linhas mestras da ontologia platônica, a partir da qual Platão formula todos os problemas e sustenta todas as teses de sua filosofia.

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