Felicidade subjetiva vs. Felicidade filosófica

Todos nós sabemos o que nos faz felizes. Não adianta desenvolverem fórmulas para a felicidade ou tratados para ensinar a receita mágica para atingir a felicidade, já que, no final, o que nos faz felizes diz respeito a cada um de nós. Entretanto, pensar a felicidade na sua ideia mais geral e abstrata, isto é, pensá-la como um conceito, é algo totalmente diferente dessa subjetividade, na medida em que não diz respeito ao que faz feliz de cada um. Pensá-la deste modo é pensar em felicidade filosoficamente.

Ao elevarmos a felicidade para esse domínio, o dos conceitos, não tratamos mais de seus aspectos particulares: o que me faz feliz é uma mesa farta, com amigos e uma boa conversa; ou a viagem a Paris, que faço todo ano; ter meus filhos em casa comigo; ou até mesmo contrariar os meus pais, ao me divertir perigosamente. Na filosofia, por outro lado, ao tratarmos de felicidade, estamos preocupados com os aspectos mais gerais da felicidade, com o que diz respeito à objetividade, à finalidade, aos fundamentos mais gerais da felicidade. Deixamos de lidar com a felicidade em seu aspecto subjetivo e passamos a torná-la em objeto. Em outras palavras, o objeto não é o sentimento de felicidade subjetivo, particular de cada um, mas a própria felicidade nela mesma, enquanto conceito objetivo e universal. De outro modo, não se trata de falar de receitas mágicas ou de fórmulas para a felicidade: estamos falando de conceitos que buscam definir rigorosamente felicidade abstrativamente.

A dificuldade de entender essa distinção está sobretudo na própria dificuldade de entender a filosofia. Por isso, vamos lá outra vez, pedir ajuda aos nossos amigos do Período Clássico!

Nos diálogos aporéticos, isto é, aqueles textos de Platão que terminam sem uma conclusão para o tema central da dramatização no diálogo, Sócrates sempre tenta deixar claro para seus interlocutores essa distinção — entre um universal e os particulares predicados por ele — que estamos tentando fazer com a felicidade. Todavia, seus interlocutores, assim como nós, que não conseguimos enxergar a diferença entre felicidade subjetiva e felicidade filosófica, não conseguiam estabelecer a abstração necessária para estabelecer essa distinção entre particular e universal. Sócrates insistia por tentar aproximar-se das ideias mais gerais e abstratas a partir de coisas particulares que dizem respeito a essas ideias. Como nós, que estamos tentando falar sobre a felicidade enquanto conceito — mais geral e abstrata — a partir dos sentimentos de felicidade de cada um, Sócrates insistia a seus interlocutores para buscarem as ideias mais gerais e abstratas sobre as virtudes, em detrimento das ações virtuosas praticadas por cada um. Por certo vocês podem insistir, “Ah, felicidade é ser rico! Felicidade é ganhar na loteria!”. Sócrates responderia: “agora recorda que não foi isso que te solicitei, a saber, indicar-me um ou dois entre os muitos modos de felicidade, mas que me indicasses a própria forma pela qual todos os modos de felicidade são felicidade”.

Apesar de aspirarem por uma universalidade ao criarem conceitos, os filósofos também postulam suas propostas de felicidade subjetivas, de modo a que elas possam ser válidas a todos. Isso significa que, além de tratarem da felicidade filosófica, eles estabelecem sua própria visão subjetiva sobre a felicidade. A diferença é que isso não se dá de modo arbitrário. Há uma fundamentação rigorosa sobre a qual os conceitos são desenvolvidos. Em outras palavras, os filósofos dão razões que justificam a definição de um conceito. No que diz respeito ao conceito de felicidade, ela estava no prazer, como em Epicuro; no silêncio, como nos céticos; no conhecimento do Bem, como em Platão; na justa medida, como em Aristóteles; no dever, como em Kant.

Agora parece que está um pouco mais claro o que estávamos discutindo no começo do artigo, a saber, a felicidade filosófica: aquela mais abstrata e que, apesar de estar ligada às felicidades subjetivas, apresenta-se de forma universal a elas, como um conceito. Como Sócrates diria: a forma pela qual todos os modos de felicidade são felicidade. Em outras palavras, estamos falando do conceito da felicidade: uns podem definir como paz interior, alegria e bem-estar. Apesar disso, ao apresentar razõesfundamentos para este conceito, inevitavelmente ele estará de acordo com um denominador comum às definições dos conceitos da maioria dos filósofos. Por exemplo, normalmente sua finalidade última é ela mesma: o sentimento de felicidade. Qual é seu fundamento? O bem. Qual é a sua condição? A lucidez. Seus contrários? A angústia, a loucura, a infelicidade.

Por isso a felicidade filosófica é abstrata, porque ela diz respeito a ideia mais geral de felicidade. Em suma, não diz respeito ao que sentimos agora, ao que buscamos hoje ou amanhã, ou ao que queremos neste instante para sermos felizes, mas à finalidade, ao fundamento e ao objetivo mais gerais e últimos do “sermos felizes” que está por detrás de todos os instantes, por detrás de todos os “ontem”, “hoje” e “amanhã”.

Portanto, por essa característica do pensamento filosófico, que busca criar conceitos e definir rigorosamente, de forma clara e distinta, a partir de razões, os filósofos podem fundamentar as suas próprias relações subjetivas com a felicidade na forma de um conceito. Não sou Platão, não sou Kant, muito menos Nietzsche. Contudo, é nos grandes do passado que temos que fundamentar o nosso pensamento, para, pelo menos, discordar deles: precisamos partir de algo. Deste modo, a minha definição de felicidade não poderia ser diferente: o bem-viver. Felicidade diz respeito à vida, essa em que vivemos, aqui e agora, não no passado, não no futuro, muito menos em outros mundos que estão todos fora dela. Já que buscamos viver bem, temos que levar em consideração o “viver”, e não apenas o “bem”. Viver implica vida, esta aqui ela mesma, em que temos que lidar com o real, com o atingível, com o material. Por isso, o ideal ou ilusório, a fabulação e a obscuridade não dizem respeito ao viver: tudo isso diz respeito ao “como eu queria que a vida fosse”.

Ao focarmos na vida “como queríamos que ela fosse”, deixamos de viver, perdemos esse instante tão precioso que não se repete, e o seguinte, e o seguinte, e o seguinte: os que vão acabar. Ao desejar o futuro, queremos que o presente acabe logo. Se desejarmos o ideal, queremos que o real passe rápido. Isso tudo significa apenas uma coisa: estamos renunciando a própria vida, uma vez que queremos que ela passe mais rápido, que ela acabe. Parece que Nietzsche estava muito certo quando ele dizia que não devemos querer nada além do que é, nem no passado, nem no futuro, nem nos séculos dos séculos. Se não amarmos a vida como ela é, vamos ter que mentir para nós mesmos diante da necessidade de querermos ser felizes.

Portanto, a minha definição de felicidade pressupõe a filosofia, visto que é a autonomia de pensamento que nos dá liberdade para fugirmos das amarras das ilusões, dos ideais, dos outros mundos, das outras vidas e de toda a parafernália que tira de nós o nosso bem mais precioso: a vida. De que adianta buscarmos a felicidade, se não tivermos vida para aproveitá-la? Bem-viver na luz: essa é a minha felicidade.

Por isso não se sintam incomodados com a filosofia. Usem-na para pensarem por si próprios o que os fazem felizes e fundamentem a sua própria definição de felicidade na forma de um conceito. E então, qual é a sua definição de felicidade?

 

Indicações de leitura:

COMTE-SPONVILLE. A felicidade desesperadamente. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

NIETZSCHE, F. W. Assim Falou Zaratustra. Tradução de Paulo Cesar de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

PLATÃO. Λάχης = Laques. Εὐθύφρων = Eutífron. Tradução de Carlos Alberto Nunes. 3. ed. rev. e bilíngue. Belém: ed.ufpa, 2015.

_____. Χαρμίδης = Cármides. Λύσις = Lísis. Tradução de Carlos Alberto Nunes. 3. ed. rev. e bilíngue. Belém, ed.ufpa, 2015.

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