A existência da Capa da Invisibilidade

ATENÇÃO: este artigo contém informações reveladoras sobre o enredo de “Os Contos de Beedle, o Bardo”.

 

Harry Potter é um dos romances fantásticos mais vendidos de todos os tempos. A série dispensa apresentações, já que, provavelmente, vocês já ouviram falar nessa história. Quem nunca desejou possuir uma varinha mágica para resolver todos os problemas? Pelo menos, para arrumar a casa e lavar a louça com magia, sem esforço. Ah, isso seria um alívio!

Neste universo fantástico, J.K. Rowling desenvolveu uma série de elementos mágicos que poderiam aprimorar a nossa vida: levitação, carros voadores, transfiguração, meios de transporte instantâneos, clarividência, e muitas outras coisas. Em meio a toda essa magia, um dos artefatos mais distintos é a capa da invisibilidade.

Apesar da existência de todas essas coisas, os trouxas, isto é, a comunidade não-bruxa — os que não possuíam magia e não faziam parte dessa sociedade de bruxos —, não podiam utilizar nenhum desses elementos mágicos. Na verdade, apesar de encontrar alguns bruxos desavisados no caminho, os trouxas dificilmente percebiam os detentores de magia.

Entretanto, nós, os trouxas, fizemos uma descoberta fantástica: a capa da invisibilidade existe. Após uma análise filosófica recente, a existência da capa da invisibilidade foi descoberta em todas as sociedades. Antes de discutir a existência da capa da invisibilidade, vamos entender um pouco mais sobre a sua história.

Em seu primeiro Natal como bruxo na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Harry recebe um presente inusitado: uma capa. Encorajado por seu amigo Ron a vesti-la, Harry descobre que, na verdade, tratava-se de uma capa da invisibilidade. Ao inspecionar o remetente, Harry percebe que não há assinatura na carta, mas apenas um aviso: use-a bem.

Deste modo, Harry utilizou a capa da invisibilidade durante suas aventuras em Hogwarts, assim como para empreender grandes feitos, especialmente em momentos em que ele teve que enfrentar maiores perigos.

No entanto, apesar de ter recebido este incrível presente do diretor de Hogwarts, Harry não imaginara que as origens dessa capa fossem tão incríveis quanto suas habilidades de desaparecer. A origem da capa da invisibilidade remete a um conto de fadas bruxo, no qual a morte recompensa três irmãos, com relíquias poderosíssimas, por eles terem enfrentado-a e sobrevivido para contar a história.

Três irmãos, ao se depararem com um rio através do qual a travessia seria impossível, decidiram conjurar uma ponte para atravessá-lo. A morte sentiu-se trapaceada, uma vez que viajantes costumavam afogar-se no rio ao tentar atravessá-lo. Entretanto, a morte decide usar sua astúcia ao oferecer recompensas aos três irmãos por seu grande feito. Dois dos irmãos decidem superar a morte, humilhando-a ao pedirem duas relíquias que, a princípio, tornariam os dois irmãos senhores da morte: uma varinha, que sempre venceria seus adversários; e um meio de ressuscitar qualquer indivíduo já levado pela morte. Além de não perecer em combate, eles poderiam trazer de volta os que pereceram. A morte, portanto, fora desafiada.

Por sua vez, o irmão mais novo foi humilde ao perceber que não é possível vencer a morte. Ele apenas queria um meio de sair daquele lugar, sem ser seguido por ela: ele recebeu a própria capa da invisibilidade da morte. Com isso, a morte pôde seguir os outros dois irmãos e reclamar o que era dela por direito: o primeiro irmão teve sua garganta cortada, por um indivíduo que queria roubar a varinha das varinhas; o segundo ressuscitou uma jovem amada, a qual não se sentia mais viva, e, por isso, acabou por se suicidar, para ficarem unidos felizes na morte.

Diferente dos dois irmãos, o mais humilde pôde evitar a morte o máximo possível. Ao chegar a uma idade mais avançada, ele precisou passar a capa da invisibilidade para seu filho, e, inevitavelmente, foi encontrado pela morte, para ser levado por ela e finalmente descansar. Do mesmo modo, seu filho passou a capa a seu filho, e assim sucessivamente.

Apesar de se tratar de um conto de fadas bruxo, muitos acreditavam que os três irmãos pertenciam à família Peverell. Ignotus, o mais novo, parece ter deixado a capa para seu filho. James Potter, pai de Harry, herdou a capa de seu pai, por ser descendente da família Peverell. Durante a primeira guerra contra Voldemort, James emprestou a capa a Dumbledore, diretor de Hogwarts. Este devolveu a capa da invisibilidade para Harry, órfão, como presente de Natal, no primeiro ano de Harry em Hogwarts.

Eis a história da capa da invisibilidade no universo de Harry Potter. Na nossa realidade, também temos o domínio desse artefato mágico. Apesar de altamente tecnológicas e eficazes, na medida em que os indivíduos que as usam se tornam completamente invisíveis, as nossas capas da invisibilidade não são nem um pouco caras. Para adquiri-las, basta tornar-se morador de rua.

Os moradores de rua portam capas da invisibilidade para todos os lados. Mesmo nos centros mais movimentados das nossas cidades, eles continuam invisíveis sem serem percebidos por nós, os trouxas, que nos consideramos superiores, assim como os dois irmãos Peverell. A diferença entre a capa da invisibilidade de Harry Potter e a nossa é que os que a usam não têm escolha. Eles não a usam bem, como Dumbledore desejou a Harry. Na verdade, eles não querem ser invisíveis.

Assim como os moradores de rua, outros indivíduos na nossa sociedade, alguns que possuem condições de vida menos favoráveis, por não terem suficiente capacidade de consumo, também possuem capas da invisibilidade. Faxineiros, porteiros, seguranças, e muitos outros vestem capas da invisibilidade, assim como o mais novo dos irmãos Peverell, que era humilde e respeitoso.

No entanto, será que os trouxas, a outra parcela da sociedade que não consegue enxergá-los com as capas da invisibilidade, são melhores do que eles? Lembram dos irmãos Peverell? Os dois que se achavam superiores foram arrogantes, ao passo que o mais novo, por ser mais humilde, demonstrou ser melhor do que os que se achavam superiores.

No nosso caso, não podemos dizer que há superiores ou inferiores, visto que não estamos falando de bruxos assassinos ou necromantes. Estamos falando de uma sociedade que menospreza e exclui os que possuem uma menor condição financeira, literalmente os tornando invisíveis, com capas que os deletam do nosso campo de visão. Não há bom dia, não há boa tarde, não há com licença, muito menos obrigado para eles. Os que usam capas da invisibilidade na nossa sociedade não estão “fazendo mais do que a obrigação”. Na verdade, “eles só atrapalham!”.

No entanto, será que é o poder de consumo que define quem são as melhores pessoas e as piores? No nosso mundo, parece que sim. Todavia, se estamos falando de seres humanos, a humanidade, ou seja, as ações, o caráter e a bondade, deveria definir quem são as melhores pessoas e as piores. Na verdade, em um mundo ideal, não deveríamos ter melhores ou piores, não deveríamos ter diferença. Contudo, no mundo real, deveríamos ao menos valorizar o que temos de humano, as pessoas por sua humanidade, e, no mínimo, deixarmos de ser trouxas para voltar a perceber as pessoas por detrás das capas da invisibilidade.

Nosso papel social, e sobretudo humano, portanto, é percebê-los por detrás de suas capas da invisibilidade e tratar todas as pessoas por sua humanidade, e não por seu poder de compra, para termos uma sociedade mais humana. Assim como no universo de Harry Potter, todos querem ser bruxos, já que a vida como trouxa não tem tanto brilho. Nós também deveríamos buscar mais magia na nossa vida, isto é, a humanidade, elemento que nos torna mágicos na medida em que passamos a enxergar por detrás das diferenças triviais, assim como os bruxos que são capazes de perceber artefatos mágicos como a capa da invisibilidade.

E você, quer continuar sendo um trouxa ou tornar nosso mundo mais mágico?

 

Indicações de leitura:

ROWLING, J.K. Harry Potter e a Pedra Filosofal. Tradução de Lia Wyler. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.

_____. Os contos de Beedle, o Bardo. Tradução de Lia Wyler. Rio de Janeiro: Rocco, 2008.

ROUSSEAU, J.J. Discurso sobre a origem e o fundamento da desigualdade entre os homens. Tradução de Paulo Neves. São Paulo: L&PM POCKET, 2008.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s