A corrupção e você

Ao pensar em corrupção, é provável que a primeira coisa que venha à mente seja a política. Incontáveis obras públicas feitas com licitações duvidosas, através das quais empreiteiras enriquecem absurdamente. Políticos que não possuíam riquezas, e, inexplicavelmente, tornam-se milionários ao final do próprio mandato. Presidentes, governadores, prefeitos, ministros, senadores, deputados, vereadores, juízes… quanta gente! Quantos indivíduos! Quantos in-di-ví-du-os.

A corrupção não se restringe apenas à política, na medida em que a prática política é, numa definição contemporânea em sentido restrito de gestão de Estado democrático, a congruência de indivíduos, com opiniões divergentes, para deliberar em grupo a gestão da sociedade. Se esta última é composta de indivíduos que praticam atos de corrupção na dimensão coletiva da vida, isso não significa que, no limite, são indivíduos praticando atos de corrupção? Por que pensá-la apenas no campo político, quando, na verdade, o próprio campo político é um conjunto de indivíduos? Pode algo ser corrompido na totalidade sem que suas partes estejam corrompidas? Antes de refletir sobre essas perguntas, vamos recorrer à fantasia.

Nas profundezas das Montanhas Sombrias, no lugar mais escuro e profundo, vivia a criatura Gollum. Ele vivia ali, no escuro de seu lar, contemplando o Um Anel, cujo uso o garantia a invisibilidade. Apesar de poder se tornar invisível ao usar o anel, Gollum não fazia muitas coisas: por 500 anos viveu na caverna, fazendo tudo o que tinha de fazer dentro daquele local: alimentava-se e dormia ali mesmo, nas sombras. Certo dia, após centenas de anos vivendo sem maiores acontecimentos ou perturbações em sua escuridão, Bilbo Bolseiro, um hobbit do Condado — uma espécie de versão pequenina de ser humano —, chega ao fundo da caverna em que Gollum habitava. Bilbo estava acompanhado de seus amigos, porém ao tentar fugir do local com seu grupo, carregado por um de seus amigos, ele acaba por desmaiar ao cair das costas de seu companheiro no meio da confusão.

Bilbo acorda depois de algum tempo desmaiado e depara com o anel de Gollum caído no chão. Ao perceber que o anel tornava quem o usasse invisível, Bilbo consegue escapar da escuridão da caverna e reencontra seus amigos do lado de fora. Apesar de ter em mãos um objeto de tamanho poder, já que poderia ficar invisível e fazer qualquer coisa que quisesse, Bilbo não o utiliza para fazer coisas ruins. Na verdade, ele usa o anel para salvar seus amigos que foram injustamente aprisionados pelo Rei Elfo, além de também o utilizar para ajudar seus amigos anões a salvar sua caverna das garras do maléfico e astuto dragão Smaug. Por fim, mesmo sabendo que poderia ficar invisível e tendo o maior tesouro do mundo às suas mãos, Bilbo não o roubou para si. Pelo contrário, ele utilizou uma parte desse tesouro para tentar impedir uma guerra, a qual poderia destruir a esperança de um futuro melhor para o mundo.

Diferente de Bilbo, Giges não usa o anel que encontrou de modo tão justo e bom. De modo similar a Bilbo, Giges também encontra um anel mágico. No fundo de um abismo, Giges, um pastor simples e honesto, encontra um anel que também tornava invisível quem o usasse. Giges ficou maravilhado com o anel. Ao perceber como ele funcionava, tendo certeza de que ninguém jamais poderia descobri-lo, Giges seduziu a mulher do rei e, com a ajuda dela, assassinou o governante e apossou-se do reino.

E você, como agiria se tivesse um anel como esse? Faria o bem e ajudaria os outros, como fez Bilbo? Não ajudaria ninguém e não faria nada, agiria passivamente, pensando só em si mesmo, como Gollum? Faria como Giges e tomaria o poder e as mulheres? Só você pode responder essas questões. E, na verdade, de certo modo, você tem esse anel. Esse anel é a moral, aquilo que você faz quando ninguém pode ver o que você está fazendo; é aquilo através do qual você dialoga apenas com a sua própria consciência; é o bem que se faz para os outros e que vale apenas pela própria ação ela mesma, sem interessar à glória pessoal, sem compartilhar as fotos no Facebook, sem ganhar nada em troca: é o que se faz sozinho e sem ninguém ver.

Apesar de Moral e Política não serem a mesma coisa, na medida em que, respectivamente, uma diz respeito ao próprio agente, fora da dimensão do coletivo, que delibera no domínio do indivíduo e a outra a deliberar no domínio do conjunto de indivíduos, ou seja, uma diz respeito à parte e a outra ao todo de uma sociedade. As duas são indissociáveis. Como disse Aristóteles, o homem é um zōon politikon (ζώον πολιτικόν), ou seja, um animal político, um indivíduo que vive de forma comum com seus iguais, em grupo, na polis. Vamos pedir ajuda a Platão para analisar a ligação entre moral e política.

Sócrates é condenado à morte por acusações completamente infundadas, e vai parar na cadeia, já que, segundo as leis de Atenas, ninguém poderia ser executado enquanto perdurassem as homenagens ao deus Apolo. Todo ano um navio sagrado ia à ilha natal de Apolo, para celebrar a ajuda que o deus havia dado a Teseu para vencer o minotauro. Por coincidência, Sócrates foi condenado exatamente no meio dessas celebrações. Nas vésperas do retorno do navio a Atenas, de algum modo, arruma-se uma maneira de Sócrates fugir. Críton e outros amigos de Sócrates pagam um dinheiro para os que tomavam conta de Sócrates na cadeia. É armado um plano para sua fuga.

Entretanto, para Sócrates, agir dessa maneira colocaria em cheque a própria polis, uma vez que são as leis estabelecidas e o funcionamento do tribunal que mantêm a justiça na polis. Em outras palavras, são as leis e os tribunais que propiciam a existência da cidade, visto que instaurada a injustiça, a própria cidade se consumiria através de uma divisão interna, cujas consequências são conflitos e revoltas. Em suma, ao fugir da cadeia, Sócrates estaria causando o maior dos males à sociedade, pois estaria subvertendo aquilo que garante a existência da própria sociedade, ou seja, fugir implica tentar destruir as leis da polis, deste modo destruindo a própria sociedade.

Por isso, parece que, para resolvermos a corrupção na política, temos que tentar resolver a corrupção no indivíduo. Eu não posso apenas apontar os dedos para os políticos e dizer “olha só, um bando de bandido, a culpa é do PT, a culpa é do PSDB, a culpa é do PMDB, a culpa é do PSEILÁOQUÊ. Sim, de fato, eles têm culpa. No entanto, nós também temos culpa. Será que podemos resolver o problema da corrupção no domínio da política sem considerar a corrupção no domínio da moral? Descartes diria que devemos dividir os problemas em partes para solucioná-los, sempre partindo dos mais fáceis aos mais difíceis. Deste modo, parece inviável resolver o problema do todo sem começar pelas partes, ou pior, sem considerar as partes de modo algum. Na mesma medida em que não podemos resolver o problema das partes sem ter o todo em vista.

Portanto, parece que há a necessidade de se pensar o problema da corrupção considerando tanto a moral quanto a política, ao lidar com as duas, sem jamais perder nenhuma de vista. Não adianta cobrar os políticos e não fazer a sua parte, na mesma medida em que não adianta só fazer a sua parte e não cobrar os políticos. Vivemos em uma democracia, portanto não abra mão de seu direito de levar a efeito o embate de opiniões contrárias, sobretudo sendo crítico e tendo autonomia de pensamento.

Decida se você deve usar o seu anel para, como Bilbo, salvar a montanha do dragão que está roubando todo o ouro dos anões, ou se você deve fique parado por séculos, como Gollum, sem utilizá-lo para um bem maior do que você mesmo. No entanto, nem pense em usá-lo como Giges, para injustamente dar um golpe e tomar o poder. Isso está fora de questão! Contudo, para fazer qualquer uma dessas coisas, é preciso começar a usar o seu anel. Reflita sobre como agir moralmente, e aja moralmente, sem pensar em glória, em reconhecimento, em “algo em troca”, em ir para o céu. Da mesma forma, busque agir politicamente a partir da mesma perspectiva. Não podemos pensar em corrupção sem pensar em nós mesmos. A corrupção está ligada a VOCÊ.

Por isso, você está disposto a usar o seu anel de que modo?

 

Indicações de Leitura:

PLATÃO. A República. Tradução direta do grego por Ana Lia A. de Almeida. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes. 2009.

_____. Diálogos III: (socráticos): Fedro (ou do belo); Eutífron (ou da religiosidade); Apologia de Sócrates; Críton (ou do dever); Fédon (ou da alma). Tradução direto do grego de Edson Bini. Bauru, SP: EDIPRO, 2008.

TOLKIEN, J.R.R. O Hobbit. Tradução de Lenita Maria Rimoli Esteves. 6. ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.

_____. O Senhor dos Anéis. Tradução de Lenita Maria Rimoli Esteves, Almiro Pisetta. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

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