Como filosofar?

Platão talvez foi o nosso melhor professor de filosofia, na medida em que ele ensinou a filosofar da forma mais didática possível: na prática. Isso pode parecer contraditório, já que conhecemos Platão através de seus textos teóricos. No entanto, é no seio desses textos que esse filósofo genialmente demonstra “como filosofar”, uma vez que apresenta o filosofar em ação através da dramatização em seus diálogos.

Nesses textos, Platão desenvolve diálogos dramatizados, que parecem com contos, nos quais Sócrates, seu personagem principal, busca levar a efeito, através de conversas, o filosofar, a atividade de pensamento que estivemos discutindo nos últimos dois artigos. Até agora, discutimos o que é filosofar no primeiro artigo, assim como interrogamos por que filosofar no segundo, apresentando a finalidade dessa atividade do pensamento. Agora, nesse artigo, tentaremos entender “como filosofar”, terminando uma série de três artigos nos quais enunciamos as três perguntas filosóficas originais: tí estin; (tóde tí;) dià tí; e pōs; (τί ἐστιν; (τόδε τί;) διὰ τί; πῶς;): ‘o que é? (o que é isso?)’, ‘por quê?’ e ‘como?’; perguntas que buscam definir uma coisa a partir de sua identidade, universalidade, necessidade e finalidade.

Esses diálogos, sobretudo os chamados “socráticos”, nos quais as interrogações de Sócrates dizem respeito às virtudes (a coragem, a moderação, e etc.), demonstram o filosofar de uma maneira muito clara. No começo dos diálogos, Sócrates normalmente encontrava interlocutores preocupados com seus afazeres do dia-a-dia. Então, uma conversa banal iniciava-se entre os dois. As conversas, a princípio, são sobre coisas particulares: sobre uma acusação no tribunal, sobre como vão os negócios, e etc. Eis que, no meio das conversas, surgem contradições que os levam a questões adjacentes às coisas sobre as quais estão conversando; questões sobre noções universais, ou seja, ideias mais gerais, com as quais os interlocutores têm dificuldade de acompanhar Sócrates.

No diálogo Hípias Maior, Sócrates e Hípias estão falando sobre belas ações, até o momento em que contradições surgem a partir dessa conversa, e Sócrates pergunta: “o que é o belo?”. Hípias estranha a pergunta, e Sócrates insiste que ele não quer saber o que é belo, como uma bela lira ou uma bela moça, mas o que é o belo, no sentido de “o que é a beleza”. Do mesmo modo, no diálogo Eutífron, Sócrates e Eutífron discutem sobre o processo que Eutífron estaria movendo contra o próprio pai. Ao questionar se Eutífron estaria sendo piedoso para com os deuses ao levar a efeito esse processo contra o próprio pai, mais contradições surgem e Sócrates interroga: “o que é a piedade? O que é a religiosidade?”

Essas contradições que Sócrates aponta despertam a reflexão, visto que causam problemas do seguinte modo: como uma coisa pode ser o seu próprio contrário? A necessidade de rigor exigida por Sócrates nessas conversas demonstra o pano de fundo no qual o filosofar é assentado: princípios lógicos fundamentais como o princípio de identidade, i.e., uma coisa é idêntica a si mesma; princípio de não-contradição, i.e., uma coisa não pode ser e não-ser na mesma situação; princípio do terceiro excluído, i.e., uma coisa pode ser verdadeira ou falsa, e se for uma das duas, não pode ser uma terceira coisa (meio-verdadeiro, meio-falso, verdadeiro e falso). Apesar de desenvolvidos formalmente somente por Aristóteles, esses princípios já estavam evidentes no discurso de Sócrates nos diálogos. Quebrar esses princípios é impossível para qualquer tentativa de estabelecer discursos coerentes. Por exemplo, o quente não pode ser quente e frio, assim como o frio não pode ser frio e quente. Todavia, essas questões podem ser facilmente resolvidas pelas ciências, assim como na interrogação feita no exemplo usado sobre a televisão, presente no texto “O que é filosofia?”. As contradições presentes nos diálogos de Platão, contudo, dizem respeito a questões que exigem o filosofar.

É muito difícil questionar aquilo que está funcionando como deveria estar, sem aparente contradição. Quando vamos preparar algo para comer e decidimos por utilizar o fogão, normalmente separamos os ingredientes a serem utilizados e, então, colocamos as panelas no fogo. Fazemos comida todos os dias, portanto a tendência é tudo sair como deveria: o fogo esquenta a panela, preparamos a refeição, e depois comemos. Entretanto, se ao tentarmos acender o fogo, nada acontecesse, a primeira coisa que pensaríamos seria “por que não está funcionando?”

Nesse caso, esse questionamento, normalmente seguido de uma investigação para descobrir a falha, só foi possível quando o fogão deixou de funcionar como deveria. Houve uma quebra na ordem das coisas. Essa quebra nos forçou a questionar “por que?”, “como?”, “o que é que está havendo?”. Por isso, estranhamos esse fato: algo não está funcionando como deveria estar.

Após o questionamento sobre o fogão, causado pela quebra na ordem das coisas, pelo estranhamento ao notarmos que ele não está funcionando como deveria, vamos buscar identificar o que causou este problema. De imediato, mesmo que de forma implícita, isto é, sem percebermos, estabelecemos uma ligação entre o nosso fogão, único e particular, e a ideia geral de fogão, uma vez que nos perguntamos, mesmo que sem perceber “por que este fogão não está funcionando quando, na verdade, todos os fogões devem funcionar?” Normalmente buscamos investigar, procurando no nosso fogão particular o que está diferenciando ele de todos os fogões em geral, já que todos os fogões devem aquecer alimentos e o meu fogão não está aquecendo. Então nós começamos a checar as outras bocas do fogão. Ao notar que o problema se repete em todas, vamos observar as tubulações de gás, assim como olhar se o fogão está devidamente ligado à rede elétrica, e assim por diante, até encontrarmos a causa, a razão para o problema.

Eis então que, após investigar as causas e as razões pelas quais o fogão parou de funcionar, descobrimos que, na verdade, ao limpá-lo pela última vez, espirramos muita água nas bocas do fogão. Por isso, ao tentar acender o fogo, nada acontece, já que está muito úmido. Isso se chama fundamentação, isto é, apresentamos razões para o fogão particular ter parado de funcionar através da reflexão sobre os aspectos mais gerais de fogão. Em outras palavras, usamos o raciocínio para estabelecer essa reflexão e fundamentar racionalmente a resolução do problema.

É claro que, neste caso, não foi exatamente desse jeito. Ao notarmos a umidade no fogão, estamos descobrindo a causa através da experiência, e não do pensamento. No entanto, não deixe o exemplo particular desviar a atenção da ideia geral sobre a qual estamos investigando: o filosofar.

Na ideia geral de fogão, isto é, nos elementos presentes em todos os fogões do mundo, há certos pontos em comum: eles aquecem alimentos, acendem fogo, são higienizados com produtos de limpeza, ou, no mínimo, com água; e se molharmos muito na hora de limpar, poderemos ter problema na hora de utilizá-lo. Apesar de o nosso fogão ser único, isto é, não tem nenhum fogão no mundo que seja exatamente idêntico ao meu (no sentido mais preciso do termo), há uma relação entre o nosso fogão único e particular e o conceito universal, ou seja, a ideia mais geral de fogão, a qual pode ser pensada para todos os fogões particulares.

Apesar disso, em nossas vidas, no dia-a-dia, essa quebra na ordem das coisas, esses estranhamentos, essas contradições, nem sempre são evidentes como os do exemplo do fogão. Algumas questões tornam-se tão corriqueiras, tão comuns e tão banais que deixamos de percebê-las. Ao nos tornarmos críticos, ao desenvolvermos uma autonomia de pensamento, podemos exercer um estranhamento forçado, isto é, um estranhamento mais constante com todas as coisas, mesmo quando elas estão teoricamente funcionando como deveriam. Na medida em que buscarmos questionar “por que isto é desse jeito, e não de outro?”, causamos um estranhamento frente às coisas que se tornaram mais banais. Por isso, podemos levar a efeito o mesmo processo demonstrado no exemplo do fogão, a saber, empreender uma reflexão para investigar razões e causas, fundamentando-as em ideias mais gerais sobre as quais as coisas que questionamos estabelecem uma relação. No entanto, diferentemente do fogão, sobre o qual investigamos através da experiência, isto é, usando as mãos e de forma concreta, para filosofar, estaremos investigando através do raciocínio, da reflexão, ou seja, do pensamento. Em outras palavras, podemos questionar uma coisa particular “devo colar na prova de amanhã?”, entretanto sempre fundamentando a nossa investigação em ideias universais, ou seja, as ideias mais gerais sobre esta coisa particular: “essa ação é boa? Colar é moralmente bom?” Ao fazer isso — ao desenvolvermos autonomia de pensamento e nos tornarmos críticos, podendo, então, levar a efeito um estranhamento forçado do mundo e questionar racionalmente sobre as razões das coisas, estabelecendo, através da reflexão, uma relação entre as coisas particulares e as ideias mais gerais que dizem respeito a elas —, estaremos filosofando.

Além de sermos críticos, além de termos autonomia de pensamento, para facilitar o filosofar, precisamos nos transformar em crianças novamente. Tudo é estranho à criança e ela tem uma curiosidade surpreendente. O mundo é novo e cheio de coisas estranhas a ela. Quando crescemos, deixamos de estranhar o mundo porque nos acostumamos com ele. Ele se torna tão corriqueiro, tão comum e tão banal que muitas vezes escutamos “é assim porque sempre foi assim”, ou “é assim porque é assim” (?).

Agora parece que está um pouco mais claro o que Sócrates estava fazendo nos diálogos. Parece mais complexo e abstrato porque Sócrates não está lidando com fogão, mas com filosofar: a investigação é pelo pensamento, portanto abstrata; não pela experiência, já que seria concreta. Seus interlocutores não conseguem acompanhá-lo no filosofar porque não conseguem fazer a abstração necessária para partir das coisas particulares e chegar às ideias mais gerais; eles não são críticos o bastante para perceber as ideias abstratas adjacentes ao particular sobre o qual estão discutindo. Sócrates, contudo, está estranhando o mundo através das contradições implícitas no cotidiano, partindo de situações particulares, como o processo movido por Eutífron e as belas ações sobre as quais estava dialogando com Hípias, para as ideias gerais ligadas a essas situações: “como você pode ser piedoso com os deuses se está movendo uma ação contra o próprio pai? Como pode a lira ser bela e a moça ser bela, se a moça não é lira e a lira não é moça? Se você se diz piedoso, então o que é piedade? O que é o belo?”

De certo modo, Sócrates está se transformando em criança novamente, estranhando as coisas mais banais e corriqueiras, como a piedade, a religiosidade, a beleza. Sócrates está sendo sobretudo crítico, com autonomia de pensamento, na medida em que está tentando fundamentar o seu pensamento com razões, sempre buscando os conceitos abstratos adjacentes às coisas, buscando as coisas mais gerais e universais. Isso é filosofar: estranhar o mundo ao ponto de poder refletir sobre as contradições presentes no nosso cotidiano, as quais pareciam perfeitas, inquestionáveis. Com essa autonomia de pensamento, podemos ser mais críticos e levar a efeito o filosofar no cotidiano, refletir e decidir as coisas por nós mesmos, como crianças adultas que não precisam de andador para caminhar, e para, ao menos, trazer à luz novas perspectivas e possibilidades de pensamento para viver melhor.

Essa atividade de pensamento é libertadora por definição, visto que a autonomia de pensamento nos torna livres dos grilhões das fabulações, da magia, do obscurantismo e da coação intelectual. Entretanto, não é exclusivamente através da leitura de centenas de livros que podemos filosofar. Esses três artigos provaram que antes de ser um campo do conhecimento, antes de ser uma ciência ou uma técnica, o filosofar é uma virtude humana, uma dimensão da nossa existência, que se dá pela atividade do pensamento, pela prática do nosso ser. Negá-la é o mesmo que negar a sua própria humanidade. Como diria Gonçalo Armijos Palácios “não é por termos lido que podemos ser filósofos, mas por estarmos acostumados a pensar criticamente”.

 

Indicações de leitura:

PALÁCIOS, G. A. De como fazer filosofia sem ser grego, estar morto ou ser gênio. Goiânia: Ed. da UFG, 1998.

GOLDSCHMIDT, Victor. Os diálogos de Platão: estrutura e método dialético. Tradução de Dion Davi Macedo. 3. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2014.

PLATÃO. Diálogos II: Górgias (ou da retórica), Eutidemo (ou da disputa), Hípias maior (ou do belo), Hípias menor (ou do falso). Tradução direto do grego de Edson Bini. Bauru, SP: EDIPRO, 2007.

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