O que é filosofia?

Num primeiro momento, pouco importa o que é a filosofia. Como diria Kant, na Crítica da Razão Pura, não é possível ensinar filosofia; o possível, para ele, é ensinar a filosofar. Isso parece estranho, não é mesmo? Se ele está dizendo que não podemos ensinar filosofia, porém podemos ensinar a filosofar, então vamos reformular o título desse texto? O que é filosofar?

Para quebrar qualquer preconceito ou mito acerca de filosofar, vou anunciar logo de cara: filosofar não é ciência, não se define nem por um objeto próprio e nem por um método.  Agora, vamos por partes.

Filosofar não é ciência porque não se baseia no método científico, grosso modo, a confirmação ou falseamento, através da experimentação repetida e observável, de hipóteses testáveis e verificáveis acerca de objetos físicos. Em outras palavras, talvez não seja muito reducionista dizer que se torna ciência toda atividade baseada na busca por falsear ou confirmar suas hipóteses através da experimentação observável, fundada em preceitos comuns divididos por uma comunidade científica, de modo que se torna ciência aquelas teses cujos fundamentos resistiram à falseabilidade (portanto foram confirmados) através da experimentação observável.

Muito menos se define por um objeto próprio. O objeto é aquilo sobre o qual, em uma área do conhecimento, um pesquisador debruça-se para levar a efeito sua investigação. Se eu sou um psicólogo, por exemplo, um dos meus objetos será o comportamento humano e o funcionamento da mente no que diz respeito a esse gênero de comportamento. Em que irei focar a minha investigação nesse caso? Grosso modo, no comportamento. Eis, então, nesse exemplo, um dos objetos da psicologia.

Assim como não se define por um objeto, filosofar não se define por um método. No trecho acima, não definimos a ciência como um método de investigação que pressupõe a possibilidade de falsear-se ou não experimentos por meio da verificação observável? Pois bem, o mesmo não ocorre com filosofar: não podemos definir filosofar por um método, assim como definimos o método científico: cada área da filosofia (i.e. lógica, epistemologia, estética, ética, etc.) terá modos e métodos diferentes de lidar com seus objetos.

Podemos dizer que filosofar se define por ser uma atividade, por ser uma prática. Trata-se de uma atividade argumentativo-reflexiva, que dialoga de modo a investigar as razões e os fundamentos das coisas que toma por objeto — em potência, os fundamentos de todas as coisas. Nada é estranho ao filosofar: buscar entender o como e o porquê de todas a coisas. O filosofar problematiza, isto é, coloca questões e tenta resolver, por meio de análises e reflexões, problemas que dizem respeito à realidade, ao tempo, à relação entre as partes e o todo, às representações, às ações individuais e às ações em grupo, às palavras, à linguagem, à mente e sua relação com o corpo, à sensibilidade, assim como aos fundamentos e às causas de tudo que pode ser pensado.

Nossa, quanta coisa! Isso significa que, se o filosofar se aplica a todas essas coisas, então ele diz respeito à racionalidade, isto é, à faculdade de pensar? Sim. Todos os homens, na medida em que estão em seu estado de lucidez, podem filosofar.

Estamos filosofando quando enfrentamos aquele dilema: preciso muito atingir nota máxima em uma prova, ou reprovarei em tal disciplina. Será que colar, isto é, fazer algo incorreto, justifica a minha necessidade de obter essa nota? Em outros termos, será que colar é bom?

Também estamos filosofando quando nos deparamos com um morador de rua pedindo esmola, sujo e com fome, e nos perguntamos: por que será que ele precisa pedir dinheiro na rua? Será que o governo não deveria ajudá-lo a alimentar-se? Ou melhor, será que não deveríamos ter políticas por meio das quais todas as pessoas tenham acesso às mesmas oportunidades? Se atualmente a política não funciona dessa maneira, então qual é a finalidade da política?

Qual é a relação entre esses dois exemplos acima com o filosofar? Notem que esta própria pergunta, por tentar estabelecer uma relação entre as partes e o todo, a saber, entre episódios particulares do filosofar e o próprio filosofar enquanto categoria, é genuinamente filosófica. Ora, a relação é que ambas foram causadas por um estranhamento, ou seja, por uma ruptura na ordem das coisas. Lembra-se do início do texto, com a citação de Kant? Estranhamos a afirmação dele (“não se ensina filosofia, ensina-se filosofar”), por isso pudemos iniciar uma reflexão filosófica sobre a própria filosofia.

Para filosofar, para levarmos a efeito essa atividade do pensamento, precisamos estranhar as coisas, isto é, precisamos nos questionar sobre como é possível essa coisa ser do jeito que ela é, e não de outro; e o porquê de uma coisa, isto é, sua finalidade, sua causa, sua razão.

Imaginem uma televisão. Ao observá-la, notamos primeiramente seu aspecto físico. Ela pode ser uma televisão de tela plana, ou ser como as mais antigas: bem quadrada. No entanto, todas ocupam lugar no espaço, e, por conseguinte, têm extensão. Ao estranhá-la, o que enunciaríamos?

Por que ela tem extensão? Essa questão a física pode facilmente nos responder: todo corpo possui extensão. Entretanto, o filosofar não se trata de questionar as coisas? Bem, não é qualquer tipo de questão: trata-se de questionar abstratamente, isto é, as ideias adjacentes às coisas. Vamos tentar de novo com a televisão?

Por que devo obter uma assinatura de televisão para ter acesso a esses canais, se o meu vizinho assiste todos de graça por meio de pirataria? Será que isso é justo? Nossa, essa televisão é muito bonita! Por que será que não acho todas as televisões bonitas? Como será que posso distinguir quando uma televisão é bela e quando não é? O que será que fundamenta a experiência da beleza?

Essas reflexões dizem respeito a ideias abstratas adjacentes ao objeto televisão. Elas são abstratas porque não dizem respeito a um objeto particular (à sua televisão) mas a coisas relativas à ideia e ao conceito geral de televisão, o qual é universal, na medida em que diz respeito a todas as televisões.

Filosofar, portanto, além de ser uma atividade do pensamento que, a partir de um estranhamento, poder dialogar com todas as coisas, de modo a problematizar para investigar os fundamentos e as razões, é também tratar de todas as coisas por meio de ideias e conceitos universais, isto é, muito gerais e abstratos, que se aplicam a vários particulares, a partir dos quais normalmente iniciamos essa atividade reflexiva. Por isso, nada é estranho ao filosofar: os fundamentos mais gerais de todas as coisas. Tudo tem um fundamento, portanto todas as coisas particulares possuem correlatos universais.

Essa atividade do pensamento pode — e deve — ser utilizada sempre, no seu dia a dia. Pensar filosoficamente é pensar de forma crítica. Será que preciso comprar todas essas mercadorias que estou levando no meu carrinho de compras? O que será que faz uma coisa ser boa? Por que será que um professor ganha tão pouco? Será que é justo para a população o governo não se preparar para uma crise hídrica? Por isso, esse tipo de pensamento, a saber, o que busca as razões, é fundamental para que tenhamos uma sociedade menos agressiva, mais humana, preocupada com o bem-estar, que busque ser e não ter.

Eis o filosofar, tão estranho ao nosso modo de vida no século XXI, porém fundamental para vivermos bem. Muito abstrato? Pois é. Bem-vindo à filosofia.

 Revisado em março de 2018.

Indicações de leitura:

BOLZANI FILHO, R. Sobre filosofia e filosofar. Aula inaugural do Departamento de Filosofia da FFLCH-USP (2004)

SANDERS, Clare. [et al.] Como estudar filosofia: guia prático para estudantes. Porto Alegre: Artmed, 2009.

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4 comentários sobre “O que é filosofia?

    • Muito bem! Concordo com você. Se pensarmos por uma perspectiva kantiana, cuja interpretação de homem defende que ser racional, isto é, utilizar a razão e o intelecto, não somente de forma contemplativa, mas também de forma prática, é o que nos distingue e nos faz humanos, estaremos de acordo que filosofar e refletir vivifica.

      Ainda não estou certo se essa perspectiva não é demasiadamente radical, na medida em que afirma que a racionalidade, no sentido cognitivo e moral, é o que nos faz humanos, diferenciando-nos de todos os outros animais. Talvez no século XVIII isso não estava muito claro, mas hoje sabemos que as emoções também desenvolvem um papel fundamental na vida humana, inclusive sendo necessárias à cognição.

      De qualquer modo, mesmo com todos os problemas que tem, essa perspectiva parece ser a que mais me seduz: enquanto todos os animais podem sentir prazer, vivendo de modo a reduzir a dor e aumentar o prazer, o homem é o único que consegue conhecer, estabelecer juízos e agir moralmente. Portanto, a filosofia e a reflexão são o que nos fazem genuinamente humanos e que, por conseguinte, nos vivifica.

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