Por que filosofar?

É muito provável que, em algum momento da sua vida, você já tenha feito essa pergunta. Ao fazer essa pergunta, estamos filosofando, na medida em que estamos interrogando sobre a finalidade, sobre a razão do filosofar. Lembram do artigo anterior? O que é filosofia? Nele pudemos entender um pouco sobre filosofar. Agora, contudo, busquemos entender a finalidade dessa atividade do pensamento.

No Protético, Aristóteles desenvolve o famoso argumento exaltando a filosofia, que se imortalizou ao longo dos séculos: “Se se deve filosofar, deve-se filosofar, e se não se deve filosofar, deve-se igualmente filosofar”. A princípio, ele parece intrigante! O que será que ele quer dizer? Ao analisarmos esse argumento com mais cuidado, parece que inevitavelmente teremos de concordar com Aristóteles. Por quê? Vamos analisá-lo primeiro.

Logo no início do argumento, na primeira oração, Aristóteles está nos dizendo, “se se deve filosofar,” ou seja, ao nos perguntarmos Por que filosofar?, “deve-se filosofar,” isto é, estamos necessariamente filosofando, na medida em que, ao enunciá-la, temos que buscar razões e fundamentos para responder a esta pergunta. Investigar sobre as razões e fundamentos das coisas é filosofar. Por isso, para lidar com a pergunta Por que filosofar?, devemos, necessariamente, filosofar. Do mesmo modo, mais adiante, ao postular, “e se não se deve filosofar, deve-se igualmente filosofar,” Aristóteles apenas apresenta a mesma pergunta anterior, porém de modo negativo. Com efeito, ao perguntar Por que “não” filosofar?, caso sejamos, de algum modo, contra o filosofar, também estamos necessariamente filosofando, uma vez que também temos que buscar razões e fundamentos para responder a esta pergunta, mesmo sendo contra!

Ao fazer esse exercício de análise de um texto (mesmo que, a princípio, seja apenas um único argumento), estamos levando a efeito uma atividade do pensamento. Também estamos filosofando, na medida em que perguntamos, mesmo que implicitamente, qual é o fundamento e a razão dessa frase. Para nós, já ficou claro: a razão de devermos filosofar ao nos depararmos com esta pergunta “Por que filosofar?” está na própria definição de filosofar, a saber, investigar as razões e os fundamentos.

Entretanto, não se trata apenas de uma simples atividade. Filosofar é uma dimensão constitutiva da existência humana, na medida em que somos dotados de razão e de inteligência. Somos nós, enquanto dotados de razão e inteligência, enquanto sujeitos, que damos significado a todas as coisas e que buscamos determinar o fim de todas as coisas. Por isso, filosofar é pôr em prática uma excelência humana. Em outras palavras, devemos filosofar para sermos mais excelentes enquanto humanos.

Precisamos pensar com a própria cabeça, isto é, desenvolver a autonomia de pensamento. Autonomia de pensamento é desenvolver a capacidade de ser crítico, isto é, questionar as razões e os fundamentos das coisas. Será que concordo com isto? Sim? Não? Por quê?

Filosofar é necessário para desenvolver a autonomia de pensamento. Quando estamos almoçando com a família e somos questionados sobre o porquê de estarmos bebendo refrigerante, por que consumimos algo que é danoso ao corpo, respondemos rapidamente: “ora, porque gosto!”. Esta resposta, contudo, não é uma resposta ruim. Na verdade, ela é o primeiro passo para o desenvolvimento da autonomia de pensamento, já que, pelo menos, demos uma razão para beber refrigerante: porque me dá prazer. Entretanto, precisamos elevar o pensamento para o campo do filosofar. É apenas quando filosofamos, quando nos questionamos sobre as ideias adjacentes a esta simples pergunta, partindo das coisas mais particulares (no caso, o refrigerante) para as mais universais e abstratas, estamos exercitando o desenvolvimento da autonomia de pensamento. Por exemplo, quando questionamos, “será que o refrigerante é pior do que o suco artificial? Consumir esse tipo de alimento pode ser danoso. Apesar disso, ele me dá prazer. Por que será que isso me dá prazer? Será que há outras coisas menos danosas que podem me dar prazer tanto quanto o refrigerante? Será que o prazer é um bem? Será que o bem em geral é o prazer?”

Talvez fomos ensinados desde cedo a tomar refrigerante, ou influenciados por uma propaganda colorida e cheia de emoção. Neste caso, não tivemos autonomia de pensamento para decidir se deveríamos ou não beber refrigerante. Nesse caso, talvez nem devêssemos ter tido essa autonomia, uma vez que, na nossa realidade brasileira, somos apresentados ao refrigerante ainda cedo, quando criança, e não se espera de uma criança a autonomia de pensamento. Entretanto, preciso seguir o meu próprio exemplo, para não fugir do espírito da coisa.

A autonomia de pensamento proporciona liberdade. Quando nos tornamos críticos, podemos nos libertar das amarras do pensamento de outros. Não iremos mais concordar com algo “porque sim” ou “porque tal jornalista disse isso”, mas sim porque há razões e fundamentos, isto é, justificativas racionais, desenvolvidas através do raciocínio, para pensar algo. No caso do refrigerante, não tivemos liberdade para decidirmos, através de uma autonomia de pensamento, se deveríamos bebê-lo ou não, já que, na maioria dos casos, consumimos desde criança. Todavia, a partir do desenvolvimento da autonomia de pensamento, e, por conseguinte, de um pensamento crítico, temos liberdade de pensamento, para estabelecer juízos reflexivos sobre todas as coisas, pensando com a própria cabeça. Assim, podemos decidir por abandonar o consumo do refrigerante, e buscar bebidas mais saudáveis, as quais possam, do mesmo modo, dar prazer. Ficou claro que a reflexão filosófica não é apenas abstração e perda de tempo, na medida em que ela fundamenta a ação, nesse caso particular, consumir refrigerante. Portanto filosofar tem uma implicação prática direta em nossas vidas, podendo proporcionar uma vida melhor, proporcionar mais felicidade.

A liberdade de pensamento permite interrogar sobre a felicidade, sobre a justiça, sobre a liberdade, sobre a morte, sobre Deus, sobre o conhecimento. Essas questões são de extrema importância para a nossa vida (muito mais importantes do que o refrigerante!). Quem não quer ser feliz? Quem não quer uma vida justa? Quem não quer ser livre? Quem não quer saber as verdades sobre a morte ou sobre Deus? Ou até mesmo sobre o conhecimento?

Essas interrogações permitem tender a uma sabedoria sobre essas questões, na medida em que a reflexão filosófica busca as razões e os fundamentos para os problemas que colocamos sobre a felicidade, a justiça, a liberdade, e assim por diante. Exercitar a razão ao filosofar sobre essas questões permite desenvolvermos uma sabedoria sobre todas as coisas. Através da história da filosofia, isto é, sobre o pensamento dos filósofos no tempo, podemos investigar como essas mesmas questões foram pensadas por eles no passado, e refletir sobre suas respostas. Em outras palavras, podemos filosofar a partir do pensamento deles, apoiando-nos no pensamento desses filósofos, e sobretudo com autonomia de pensamento: “concordo com Platão? Sim? Não? Por quê? Será que Aristóteles não foi mais coerente em tal questão do que Platão?”

Por fim, a partir de uma sabedoria sobre essas questões, assim como no desenvolvimento de uma racionalidade reflexiva, crítica e mais filosófica, podemos fundamentar uma vida mais humana, mais lúcida, mais serena, mais feliz, mais livre. O filosofar pode impedir que façamos coisas danosas aos outros, na medida em que estamos sempre buscando a sabedoria: a felicidade. Se tivermos dimensão de que somos parte da humanidade, então como pode uma parte de um todo ser saudável se ela está causando danos a outras partes? Como pode somente um dedo estar doente, enquanto o resto do corpo está saudável? Será que é só o dedo que sente a dor, ou é o corpo todo? Refletir sobre essas perguntas é fundamental no desenvolvimento dessa sabedoria.

Apesar disso, essa sabedoria é, sobretudo, sem fabulações, sem ilusões e delírios, sem magia, visto que as razões e os fundamentos que buscamos ao interrogar sobre todas as coisas são, necessariamente, universais. Não posso atribuir uma causa mágica a uma coisa, uma vez que esta mesma reflexão precisa ser estabelecida através do raciocínio, da reflexão crítica, e não de fabulações ou delírios: “não vou tomar refrigerante porque o Grande Juju da Montanha amaldiçoa todas as pessoas que bebem refrigerante, então jamais tomarei sequer uma gota de refrigerante”. Essa felicidade é, portanto, na vida tal como ela é.

Sem sombra de dúvidas, pode-se argumentar: “mas nunca poderemos alcançá-la. O seu discurso parece autoajuda!” De fato, é impossível alcançá-la. No entanto, nada nos impede de tendermos a ela. É a partir do filosofar que tendemos à sabedoria.

A finalidade do filosofar, portanto, é a sabedoria feliz, isto é, o bem-viver: pensar melhor para viver melhor. Uns podem colocar a felicidade como correlata ao dinheiro, outros ao poder. Entretanto, todos, enquanto no estado de lucidez, podem considerar que uma vida mais justa, mais livre e mais verdadeira é uma vida mais feliz e mais sábia. Sábias palavras de Epicuro ao dizer que “a filosofia é uma atividade que, por discursos e raciocínios, nos proporciona a vida feliz”.

 

Indicações de leitura:

COMTE-SPONVILLE, A. Apresentação da filosofia. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

GHIRALDELLI JUNIOR, P. A filosofia como medicina da alma. Barueri, SP: Manole, 2012.

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5 comentários sobre “Por que filosofar?

  1. Vejo de maneira bem mais explicita dentro dos contextos atuais que a filosofia, assim como várias visões de outros filósofos, é intrínseca ao Ser, ao Homem; e se analisarmos isso com um viés aristotélico, podemos simplesmente constatar que o simples “ser” já acarreta em ser feliz.
    Ótimo texto, continue assim!

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  2. Excelente texto. Creio que nos falta um pouco (ou muito) a prática desse exercício, nos tempos atuais. Essa qualidade de parar, refletir e pensar “com a própria cabeça”.

    Só fiquei meio confusa sobre a felicidade. É tão difícil defini-la em palavras… é matéria tão subjetiva, que parece praticamente impossível chegar a uma conclusão sobre como conquistá-la.

    Penso que a humanidade pode escrever infinitos tomos sobre esse assunto, e ele jamais será esgotado!

    Curtido por 1 pessoa

    • Exato! Na história do pensamento, temos 2500 anos de filósofos discordando entre si, cada um definindo a felicidade do seu jeito.

      No meu caso, por enquanto, estou definindo felicidade como bem-viver, no sentido de viver da maneira que proporcione mais bem estar. Apesar disso, esse bem-viver é através de uma vida filosófica, isto é, com autonomia e liberdade de pensamento, sem obscurantismo ou fabulação, na vida tal como ela é.

      Contudo, não há limites para os argumentos contrários à minha definição, o que atesta o valor da autonomia de pensamento para as nossas vidas.

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