Numa toca no chão vivia um hobbit

Não exatamente. Não vivo em uma toca, nem sou um hobbit. Porém, o começo de O Hobbit tem muito a ver com o começo deste blog. Não pela grandeza da obra, muito menos pela do autor! Trata-se apenas de uma frase que marca um começo. Começo de quê? Estarei dividindo o meu pensamento com o mundo, mas, sobretudo, comigo mesmo.

Vivemos em um momento histórico herdeiro de um período em que a reflexão perdeu espaço para a técnica, como diria Heidegger. Os interesses que dizem respeito à racionalidade técnica subjugaram o desenvolvimento da racionalidade reflexiva, por N motivos, em seus princípios mais fundamentais. Com isso, nessa sociedade imediatista que preza a velocidade de informações, a quantidade e a prática, a reflexão parece ter se tornado obsoleta.

Com efeito, questões fundamentais sobre o sentido de ser, sobre as ações, assim como sobre as finalidades de todas as coisas (questões genuinamente filosóficas), parecem ter sido deixadas de serem feitas. O resultado disso é uma existência sem sentido, sem finalidade, sem razão de ser. Se eu não sei o que eu sou, posso ser qualquer coisa (e no sentido ruim). Posso atirar tudo para o alto e me juntar ao Estado Islâmico, por exemplo, já que, sem entender as razões e os fundamentos, estou revoltado com a atual situação em que estou inserido; ou posso apoiar governos fascistas, já que nem se quer refleti sobre a minha própria posição (de dominado) em um possível governo fascista. Por que esse tipo de coisa se torna cada vez mais recorrente em nosso tempo?

É evidente que se trata de uma simplificação grosseira. Há uma série de outras questões, como questões econômicas, sociais, culturais e políticas que influenciam esse tipo de situação. Entretanto, não vou me ater a isso agora.

Por conta dessa situação, a reflexão — que por definição é teórica, preza a qualidade e demanda tempo, portanto lenta —sobre as coisas mais simples com as quais convivemos todos os dias, como, por exemplo, sobre a leitura de um romance, ou sobre uma viagem de metrô, ou até mesmo sobre uma conversa corriqueira, tende a deixar de ser feita. Parece que o espaço para a reflexão restringe-se apenas para o momento do banho, ou ao momento em que nos recolhemos para dormir, ou ao se deslocar para o trabalho. Com isso, passamos a perder a capacidade reflexiva.

Pior do que isso: o pouco que refletimos perde-se no meio do vai e vem da vida contemporânea. Não temos mais tempo, e, com isso, o pouco que refletimos se perde ao desembarcarmos do trem, ao terminarmos de nos secar após o banho e ao cairmos no sono pesado da noite.

Como filósofo, algo me move contra essa maré. Apesar de fazer parte desse processo, nego-me a cruzar os braços e simplesmente aceitar que não sabemos mais refletir. Precisamos refletir, sobre todas as coisas; não necessariamente, contudo, apenas sobre as questões citadas acima. Como Descartes imortalizou em seu Discurso do Método, comecemos pelas partes mais simples, para então, partir para as mais complexas.

Inauguro esse blog como um espaço para a reflexão, subjetiva e particular, por uma perspectiva filosófica, sobre todas as coisas, das mais banais às mais espinhosas. Não tenho nenhuma pretensão de produzir conhecimento, ou de responder às necessidades de nosso tempo. Irei apenas dividir o meu pensamento com o mundo. E, ao fazê-lo, estarei dividindo-o comigo mesmo: evitando que ele se perca nessa fugacidade das nossas vidas.

 

Indicações de leitura: 

HEIDEGGER, Martin. A época das imagens de mundo. Tradução de Claudia Drucker.

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