O lugar da Astronomia na filosofia de Platão n’A República

Originalmente As Formas e os Céus: o ὑπερουράνιον τόπον de Platão.

Artigo apresentado no congresso do III Simpósio Internacional do Grupo de Pesquisa DELPHOS: “Filosofia e religião na Grécia Antiga: Os Céus”

  

Entre os antigos os céus eram matéria de perplexidade, admiração e reverência. Talvez haja relação entre essa perplexidade e admiração e uma busca pelo estudo dos céus e dos fenômenos celestes, de modo a levar os antigos habitantes da Mesopotâmia a dedicarem-se à sua contemplação; ou, pelo contrário, uma necessidade prática fundada na álgebra, aritmética e geometria como instrumentos, para auxiliar na agricultura e navegação, pode tê-los levado a esses estudos. No entanto, é muito difícil defender qualquer uma dessas explicações, dado que são povos, sobretudo os Sumérios, demasiadamente distanciados de nós no tempo, cujas fontes esparsas não permitem tais asserções. Deste modo, independentemente das razões pelas quais tais estudos foram levados a efeito, é claro para nós, pelo que nos chegou através dos Babilônios, que esses antigos não tiveram uma relação somente de observação e conhecimento dos céus. Desde as primeiras civilizações da Mesopotâmia os céus também eram os reinos das divindades, motivo de reverência, morada de deuses e palco de conflitos que marcaram grande parte das primeiras cosmogonias de que temos relatos, permanecendo presentes na religiosidade antiga. Mais tarde entre os gregos, o panorama permaneceu o mesmo no que diz respeito à divinização das alturas: Urano, Hélios, Selene, Nix e muitas outras divindades personificavam os céus, os astros e os fenômenos celestes.

Assim como aqueles mais antigos, os gregos, além de divinizarem os céus, também desenvolveram estudos de astronomia, igualmente utilizando a geometria e aritmética para auxiliar nessas investigações. Esse panorama cultural de simultaneidade entre conhecimento e reverência, entre saber e divindade, passou a permear a reflexão filosófica grega. Num ponto alto de desenvolvimento dessa reflexão, também temos presente essa dimensão dos céus no pensamento de Platão. Nos Diálogos, poderíamos pensar que são os céus que determinam as investigações de Sócrates, caso aceitemos o cômico relato de seus estudos feito por Aristófanes[1], de um Sócrates suspenso num cesto, que “caminha no ar e especula sobre o Sol” e “descobre as coisas celestes por ter suspendido o intelecto e o pensamento” (v. 225). Teríamos, assim, um Sócrates naturalista, cujas investigações sobre os céus o aproximariam das περὶ φύσεως ἱστόριαι.Leia mais »

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Filosofar é aprender a morrer

Originalmente Uma concepção metafísica de morte ou uma morte da concepção metafísica? Montaigne em filosofar é aprender a morrer.

Artigo apresentado no congresso da XVIII Semana de Filosofia da Universidade Mackenzie: A Filosofia no Século XVI: Renascença, Reformas e Utopias

  

O leitor mais habituado a tratados filosóficos nos quais o texto é desenvolvido estruturalmente de modo a articular o fio condutor da argumentação por meio de uma cadeia de razões, nos moldes de uma Crítica da Razão Pura ou Meditações Metafísicas, poderá buscar nos Ensaios uma explicitação textual do que seria a doutrina e método de Montaigne. Tal busca, entretanto, não proporcionaria os mesmos frutos colhidos na leitura de Descartes ou Kant. Com efeito, Michel de Montaigne torna claro em seus Ensaios o caráter pretensioso daqueles que tomam as dogmata por verdade absoluta e universal. A forma de suas “opiniões”, de caráter ontoepistemológico muito mais modesto que às daqueles, possui uma peculiaridade que precisa ser levada em consideração na leitura de seus textos, para que seja possível compreender o sentido de muitas reflexões presentes nos Ensaios.

Montaigne faz constantes citações de filósofos antigos ao longo de suas reflexões. Dentre eles, os do período helenístico (Sêneca, Cícero, Plutarco, Horácio, Lucrécio e outros) são os mais recorrentes. Essas citações ecoam a aproximação de Montaigne (confessa em muitas passagens) do pensamento estoico, neoacadêmico, pirrônico e epicurista. Acontece que, como todo grande filósofo, Montaigne não simplesmente reproduz tais pensamentos, mas os desenvolve de modo a construir uma leitura filosófica própria, de modo a, por conseguinte, escrever suas reflexões por uma perspectiva fundamentalmente cética. Como nos lembra Frédéric Brahami,

“Embora Montaigne tenha conhecido no detalhe as exposições céticas de Diógenes Laércio e de Cícero, é manifesto para todo leitor da “Apologia de Raymond Sebond” que são sobretudo as Hipotiposes pirrônicas de Sexto que o atraíram. É, portanto, em face do ceticismo das Hipotiposes que é preciso ler o ceticismo dos Ensaios” (BRAHAMI, 2012, p. 66)

Não obstante, embora tais influências sejam fundamentais para suas reflexões éticas, políticas, e, no limite, para todas as outras, é a partir de formulações epistemológicas do pirronismo[1] que Montaigne desenvolve sua leitura das filosofias antigas. Nesse momento, importa a nós sua posição perante o saber.Leia mais »

A felicidade, desesperadamente

Felicidade! Talvez o maior ideal de nosso tempo, ela tornou-se uma espécie de meta irrevogável: ser feliz é obrigação. Na medida em que passamos boa parte do tempo nas redes sociais, parece haver uma espécie de culto à felicidade que decorre dela: não podemos retratar a nós mesmos de outro modo que não seja do modo feliz, caso contrário estaremos às margens do quotidiano desse novo modo de vida do século XXI.

Ainda assim, isso configura tão somente uma aparência de felicidade, haja vista que é somente necessário parecer feliz, em vez de, efetivamente, sê-lo. Tornamo-nos espectadores de nossas próprias vidas através do que retratamos pelas redes sociais e, com isso, frustramo-nos ao não sermos capazes de identificar, em nossas próprias vidas, essa tal felicidade retratada artificialmente, da qual supostamente gozávamos. Esperamos ser felizes quando, na verdade, somos infelizes na maioria das vezes ou não conseguimos ser felizes constantemente.

De fato, esse cenário dá à luz um problema psicossocial – e, de certo modo, filosófico –, já que essa configuração social tece uma linha muito tênue entre ser feliz e parecer feliz. Esperamos ser felizes constantemente enquanto, efetivamente, não o somos. Com efeito, precisamos definir com mais cuidado o que seria felicidade, uma vez que esse tipo específico sobre o qual estamos falando até então está mais próximo da ilusão do que da verdade: uma aparência de felicidade.Leia mais »

O que é vocabulário filosófico?

Ler filosofia é uma aventura. Nos diferentes filósofos e períodos no desenvolvimento da história da filosofia, enfrentamos desafios e desbravamos o desconhecido. Quando iniciamos nosso percurso através da tradição, encontramos diversos filósofos cujas reflexões, na maioria das vezes, são fundamentalmente diferentes entre si. Embora seja possível classificá-los em “escolas filosóficas”, ao estabelecer uma aproximação entre seu conjunto central de teses, cada filósofo, por sua vez, terá a sua própria estrutura de pensamento.

Isso significa que ler cada filósofo é uma aventura única. Ao enfrentar um filósofo antigo e obter sucesso na compreensão de sua filosofia, não compreenderemos, necessária e automaticamente, o pensamento filosófico de um filósofo moderno. De fato, estaremos mais preparados no que diz respeito a saber como lidar com o estilo de escrita árido, característico da filosofia em geral, e a refazer o processo formal necessário para compreender-se um filósofo. Entretanto, teremos que novamente iniciar o mesmo trajeto, o mesmo movimento de desvendar os segredos por detrás do pensamento de um filósofo, a aventura da filosofia, exatamente como já fizemos uma vez e como inevitavelmente teremos que fazer ao ler cada novo filósofo.

A razão para tal é uma das características mais fundamentais da filosofia: o vocabulário filosófico. Segundo Deleuze, a função primordial da filosofia é a criação de conceitos. Ao longo da tradição, desde Platão, a escrita da filosofia é marcada pela criação de conceitos, cuja finalidade é tentar explicar, por meio de esquemas rigorosos e universais, a realidade em suas diferentes manifestações particulares. Assim, em cada sistema filosófico, embora estes muitas vezes utilizem os mesmos nomes para falar da realidade, cada nome poderá ter um significado diferente. Isso pode causar uma grande confusão, haja vista que quando Platão falar de “forma”, estará falando de algo completamente diferente de Aristóteles quando ele também estiver falando de “forma”. Descartes, quando falar de alma, estará falando de algo diferente do que Agostinh. E como desvendar o vocabulário filosófico de um filósofo? Para responder a essa pergunta, primeiramente temos que compreender melhor o que é vocabulário filosófico.Leia mais »

O erotismo como articulação entre Ser e Saber no platonismo clássico

Artigo apresentado no II Simpósio Internacional do grupo de pesquisa DELPHOS: “Filosofia e religião na Grécia Antiga”.

 

Na ontologia aprofundada de Sócrates em relação aos diálogos chamados “socráticos”, aquela desenvolvida nos diálogos Fedon, Fedro, República e Banquete, Platão apresenta-nos teses fundamentais para a compreensão das concepções de Ser e Saber em sua filosofia, como a Teoria das Formas, a Participação, a imortalidade da alma, a Reminiscência e a dialética. Embora sejam diálogos distintos, cujos temas são diferentes entre si, eles são conceitualmente possíveis de serem aproximados. Nessas teses cujo ponto central diz respeito tanto à realidade quanto ao conhecimento, Platão constrói um dos pilares de sua filosofia. Deste modo, faremos um breve percurso pelo esboço dessas teses, para que seja possível fazer uma leitura do erotismo como a articulação entre Ser e Saber na ontoepistemologia desses diálogos.Leia mais »

Platão: o erotismo na filosofia como caminho para o divino

Artigo apresentado no I Congresso Internacional de Ciências da Religião – “Religião: Artes e Vozes”.

 

No Banquete, Platão apresenta o exercício erótico-filosófico como a via de acesso às Formas, no caso, à do Belo. Eros é o elemento metafísico que possibilita a articulação entre a multiplicidade acidental e aparente e a unidade necessária do Ser: intermediário entre o divino e o mortal. Nesse diálogo, há a apresentação mais explícita das Formas em todo o corpus platonicum, assim como uma explicação detalhada do movimento de subida do Múltiplo ao Uno.

As Formas são realidades superiores, que “são cada uma sempre as mesmas” (ἀεὶ αὐτῶν ἕκαστον ὃ ἔστι), “uniformes em si mesmas” (μονοειδὲς ὂν αὐτὸ καθ’ αὑτό) e “igualmente não tendo, de forma alguma, a menor alteração de nenhum modo possível” (ὡσαύτως κατὰ ταὐτὰ ἔχει καὶ οὐδέποτε οὐδαμῇ οὐδαμῶς ἀλλοίωσιν οὐδεμίαν ἐνδέχεται) (Fédon, 78d). Isso significa que elas são eternas, dado que, se não admitem mudança, não poderiam ter passado do estado de não-ser para o de ser; imutáveis, haja vista a impossibilidade de mudança; e, por fim, perfeitas, na medida em que possuem um modo pleno de ser. Isso configura o estatuto divino das Formas na filosofia de Platão, face à precariedade e efemeridade do material no qual toda a dimensão da sensibilidade e do vir-a-ser encontram-se mutualmente coexistentes.

Através da filosofia, nos Diálogos definida como a dialética, é possível a um indivíduo partir da multiplicidade dos fenômenos e atingir a unidade das Formas. Essa atividade, contudo, no Banquete é apresentada como correlata ao exercício erótico do qual ela não pode prescindir, para, através de Eros, o iniciado nesse exercício espiritual tornar-se filósofo por meio dessa atividade dialética mediatizada e, finalmente, religar-se, no final desse processo, ao divino por meio da reminiscência da Forma do Belo e, por extensão, da do Bem. Portanto, esse elemento metafísico de ligação do indivíduo às Formas é o objeto de desenvolvimento deste diálogo, cujo objeto, por sua vez, é o divino.

Por meio de uma análise filosófica tanto, por um lado, da estrutura dialética do Banquete, caracterizada pela progressão ascensional das falas dos convivas em direção da essência de Eros, quanto, por outro lado, da ascensão erótico-filosófica na fala de Sócrates-Diotima, é possível esclarecer a função do exercício erótico, em conjunto com o dialético, na ontoepistemologia platônica e sua consequente articulação do filósofo na dimensão divina.Leia mais »

Tides of Darkness e a Filosofia

ATENÇÃO: este artigo contém informações reveladoras sobre o enredo de “Tides of Darkness”.

 

Em nossa quarta análise da série Warcraft, inseridos na guerra entre orcs & humans, vamos nos aventurar em um dos maiores conflitos da história de Azeroth: a Segunda Guerra. Nesta luta de dimensões mundiais, as diferentes nações e povos mobilizam-se para impedir o avanço de um inimigo em comum: a Orcish Horde. No clima de batalhas que envolvem todas as nações da humanidade, para proteger o mundo contra seus invasores, com a ajuda de elfos e de anões, Aaron Rosenberg apresenta-nos um enredo em ebulição do começo ao fim, como um caldeirão cheio de elementos mágicos e fantásticos.

Neste embate entre a humanidade e os orcs, iniciado com a invasão do mundo por esses seres alienígenas e a destruição do Reino de Azeroth na Primeira Guerra — desenvolvido no romance anterior e analisado em The Last Guardian e a Filosofia —, os orcs decidem, posteriormente, rumar para o Norte e dominar todo o mundo. Vimos que, em meio a essa luta, Medivh, Garona, Khadgar e Anduin Lothar protagonizaram uma aventura que proporcionou o desenvolvimento de reflexões sobre problemas filosóficos fundamentais, como liberdade e determinismo, essência e existência e liberdade da vontade. Agora, liderados por Orgrim Doomhammer, não mais sob o comando injusto de Blackhand e Gul’dan, a Horde busca conquistar o mundo de modo que seu povo possa, finalmente, deixar de lado as guerras e prosperar honradamente nesse novo planeta, rico em provisões e terras férteis — em contraste à desolação do planeta originário dos orcs. No entanto, Gul’dan e seus warlocks, apesar de jurarem sua lealdade a Doomhammer, continuam a levar a efeito seus esquemas e subterfúgios de modo fundamentalmente injusto.

Com efeito, deste embate entre justiça e injustiça temos neste enredo um prato cheio para a compreensão de como, por diferentes meios, é possível levar a efeito o comando de um povo ou de uma nação. Doomhammer, Gul’dan, os monarcas humanos e das outras raças governam seus povos, uns de modo justo e outros de modo injusto. Na luta por supremacia, nem sempre as ações justas são capazes de vencer uma guerra. Há momentos em que parece ser necessário agir injustamente, tendo em vista a vitória e a supressão do inimigo. Apesar disso, para que seja possível realizar qualquer feito em geral, parece ser necessário haver algum nível, por mais tímido que ele possa ser, de justiça entre os indivíduos envolvidos em tal iniciativa. Mergulhados nesse caldeirão mágico e fantástico da Segunda Guerra em Azeroth, podemos formular as seguintes reflexão: será que a injustiça, de certo modo, é superior à justiça em uma luta por supremacia? Será que é possível realizar efetivamente qualquer feito de modo completamente injusto?Leia mais »